Por volta das dez horas da manhã, o prefeito da pequena cidade situada no sul do Rio Grande do Sul, quase fronteira com o Uruguay recebeu um ofício do governador. O documento dava ciência de que seria instalada a primeira delegacia de polícia do local. Também requisitava um imóvel a ser cedido pelo município para instalação da nova repartição. O novo Delegado iria se apresentar em duas semanas.
Don Antonio, como era conhecido por ser estancieiro com propriedades grandes que não respeitavam limites de dois países. Começava no Rio Grande do Sul e se estendia pelos campos orientais. Ali criava Nelore para carne, e Jersey para leite. Seu tambo no Uruguay produzia o melhor dulce de leche da região. Era afamado. E as ovelhas da raça bergamácia, ótimas produtoras de lã passeavam pelos campos, também sem saber dos limites fronteiriços.
Para atender o governador, Dom Antônio tratou logo de desalojar uma casa antiga, histórica, porém de bela arquitetura bem na praça central, onde ficava a Prefeitura, a Câmara, a Paróquia de Santo Antônio e uma agência do Banrisul. Também tinha a Pensão Familiar de Dona Izildinha, que alugava quartos e tinha comida boa. As fartas refeições eram finalizadas por uma bandeja de doces, impossível de rejeitar.. Todos feitos pela doceira uruguaia, uma senhora negra de sorriso lindo e muito simpática.
Chegado o dia de o Delegado se apresentar, apeou do ônibus, empoeirado, seguiu para a pensão de Dona Izildinha, onde lhe reservaram o melhor quarto, de frente e perto do banheiro. Comunicou que iria na Prefeitura. Dona Izildinha aconselhou o Doutor delegado a se banhar, trocar de roupa, almoçar e depois seguir seus compromissos. Assim o fez. A bandeja de madeira trouxe tanta fartura que o tal delegado ficou prostrado e quando a doceira chegou com os docinhos, ele primeiramente não aceitou. Estava acima do peso e aquilo seria um abuso. Mas os olhos da gula o traíram. Começou com um pequeno negrinho, e como a bandeja ali ficou, foi experimentando os quitutes pegando um quindim, um bem casado, um folhado e chegou na ambrosia. De pança cheia ficou sonolento, mas vestiu o paletó e iria se apresentar para autoridades locais.
Dona Izildinha lhe aconselhou novamente:
Doutor Delegado, melhor o senhor sestear e lá pelas três horas o senhor vai fazer suas tarefas. Aqui fecha tudo até este horário. O pessoal gosta de um cochilo após o almoço. Ele olhou porta afora e não viu uma viva alma na praça. Foi para o quarto deitou e cochilou. Lá pelas três alinhou a fatiota e cruzou a praça chegando na Prefeitura.
Já na porta do Paço Don Antonio lhe esperava com uma cuia de mate.
Buenas vivente. Me dê um abraço cinchado e seja bem-vindo. Afinal, um homem do governador e um homem da Lei sempre terá um rancho amigo.
Boa tarde Don Antonio. Muito obrigado pela hospitalidade.
Mas vamos deixar de salamaleque. A sua repartição está pronta. Mandei pintar, comprei móveis novos e ainda mandei reformar uma Toyota Bandeirante 4x4 para o senhor fazer as diligências. E precisamos de sua ajuda. Tem uns argentinos roubando gado e ovelha por aqui. Já denunciou o prefeito.
Vamos investigar a fundo " , respondeu o delegado.
Nem precisa é só gritar - Correntinos hijos de puta!
Mas quero convidar o doutor para um churrasco especial hoje à noite, na minha casa. Esteja lá às seis da tarde.
Lá pelo cair da noite o doutor delegado chegou no Casarão de Dom Antônio onde estavam todas as autoridades da cidade. Foi apresentado e alguns já estavam meio borrachos. Dom Antônio na cabeceira da mesa e do outro lado Dom Pipo, seu amigo. Ambos revezavam mandatos na Prefeitura. Na época não havia reeleição e assim por anos se combinaram. Uma vez cada um. Era comentário malicioso que a cidade tinha apenas dois homens. Um mandato para Dom Antônio e em seguida Dom Pipo, que tinha uma estância com ovelhas Suffolk, para produção de carne que ele trouxe da Nova Zelândia e também poleango (Polled Angus) de carne texturizada e saborosa. Mas Dom Pipo também tinha fama de chibeiro, doleiro, jogatinas em cassino do lado oriental.
Doutor Delegado, amigo do governador. A cidade lhe recebe de braços abertos e hoje vamos lhe presentear com um delicioso churrasco de Paca. É aqui dos meus campos. Meu capataz andou caçando, mas para o senhor saber aqui não matamos tatu, nem capincho. Mas o javali temos gosto de atirar bem no meio da cabeça. Enquanto isso, o delegado ouviu estampidos de tiro.
O que houve lá fora Dom Antonio? Questionou se levantando bruscamente da cadeira.
Calma moço é o meu capataz o seo Pacífico, que veio lá de Treinta Y Três, onde tenho uma propriedade.
Uma hora depois foi servida a Paca, colocada em frente ao doutor delegado, que cortou um belo pedaço e levou à boca. Saboreou e comentou com Dom Antonio.
Dom Antônio, não me leve a mal, mas esta Paca está com gosto de capincho. E como o amigo sabe não é boa carne porque dá doença.
Dom Antonio respirou fundo, se serviu de uma caña de Santo Antônio da Patrulha e tomou num talagaço. Todos ficaram em silêncio, afinal que petulância desse piazote que se acha autoridade. Dom Antônio tirou o Taurus da cintura e colocou em cima da mesa. De trás das costas puxou a prateada que ficava presa na guaiaca e da cadeira puxou o rabo de tatu feito com couro de cruzeira. Com todo arsenal em cima da mesa na frente do delegado, sentenciou:
Seo moço , doutor Delegado. Esta carne é de Paca, está boa e o senhor está gostando muito. Espero que tenha apreciado este agrado que estamos lhe fazendo e pelo adiantado da hora seria bom o senhor embarcar na Toyota e seguir para a pensão de Dona Izildinha. Amanhã se apresente na repartição.
Sem ao menos se despedir, o doutor delegado seguiu o aconselhamento de Dom Antônio e seguiu para a porta, onde Dom Pipo o esperava com alguns peões para fazer a guarnição até o carro.
Na manhã seguinte foi encontrado um bilhete no quarto de pensão
Dona Izildinha, obrigado pela hospitalidade, mas fui designado para outro município bem longe daqui.
Dom Antonio e Dom Pipo, agora em época de reeleição continuam se revezando, mas já pensam em colocar os piás na política. O guri mais novo de Dom Antônio está com 50 anos e o do meio de Dom Pipo, está trabalhando com contrabando de eletrodomésticos para o Uruguay, mas os dois se afeiçoam com coisas da política.
Ahh, sim a cidade continua sem delegado. Mas nada acontece também. Só correntinos ladrões de gado e ovelha.
crédito imagem:pt.vecteezy.com
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