Fui criado no meio de tecidos, costuras, clientes, provas de roupas, entra e sai de gente em casa. Minha mãe era costureira e na sala de costuras se ouvia de tudo. Era confessionário, clínica de psicologia e até psiquiatria. O mundo de cada uma das clientes desfilava por ali e com elas suas dores, amores, segredos, sonhos, desilusões, esperanças, desesperanças, perdas, danos, conquistas. Enfim suas vidas circulavam em rodas de chimarrão e muita conversa. Nesta série vou contar um pouco do que ouvi, vivi e guardei.
Esta primeira crônica, após acompanhar na semana passada o caso da fiel, moça linda, jovem e noiva que pediu para "usar o banheiro e o quarto" do pároco em Nova Maringá (MT) , vem na lembrança duas clientes de minha mãe.
Na rua onde me criei, uma das vizinhas tinha uma amizade muito próxima com um padre da região. Ele era um senhor de origem alemã, gorducho, baixinho e divertido. Cantava e tocava acordeão e os Kerb comunitários eram sucesso pela sua animação. Festa de Igreja com o tal padre era casa cheia.Toda semana ele vinha fazer uma visita para nossa vizinha. Dava a benção e ia embora. Com esta amizade mantinha uma boa casa, boa comida, bons calçados e boas roupas. Era bonitona, bem do tipo italiana avantajada de ancas largas e seios fartos.
Outro pároco famoso, com uma voz bem grave e muito bem querido no bairro onde era o pároco, trazia a secretária da paróquia toda semana para novas roupas. Vestidos, camisas, taileur para ficar bem vestida durante os expedientes na secretaria paroquial. Ele ficava aguardando, sentado em uma das cadeiras espreguiçadeiras, feitas com armações de ferro pesadas e trançados de fios plásticos fortes, que tínhamos na área da frente de casa, uma ante-sala. Ali fumava seu cigarro, tomava umas cuias de chimarrão com meu pai e aguardava a funcionária tirar medidas, provar as roupas. Ela fazia questão de vir com a nova peça mostrar e sempre perguntava:
- Estou bem, o que o senhor acha? com um sorriso maroto. E o padre sério, com olhar um tanto encabulado e tragando mais uma baforada de Du Maurier longo, e com voz forte de baixo aprovava.
- Estás belíssima, minha filha, dizia o padre enquanto olhava para meu pai e estendia a mão devolvendo a cuia. E todos sabiam que ela era bela, elegante e atraente. Tão elegante e desejada quanto Monica Belucci no filme Malena. Principalmente na cena que ela caminha de vestido branco, bolsa preta e sapatos de salto alto. Cabelos pretos esvoaçantes, beijados pelos ventos do litoral.
Ótimas clientes e o pagamento era à vista, em dinheiro e sem regatear. Almas abençoadas.
Imagem: Monica Bellucci - Filme Malena (2000)
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