Agora de manhã, proseando com uma colega lageana, lembrei de um acontecido nas terras altas e geladas de Lages. Fato ocorrido durante a Festa do Pinhão de 2002 que coincidiu com a Copa do Mundo, o ano do Penta.
Naquele ano, o prefeito de Joinville Luiz Henrique havia renunciado em 4 de abril para se candidatar a governador e o vice-prefeito Marco Tebaldi assumiu o governo. Recebemos o convite para ir na Festa do Pinhão e fomos recebidos e hospedados no Rancho Rochedo do sempre agradável Roberto Amaral, dono do grupo de comunicação SCC.
Seguimos de Joinville, o Tebaldi, eu, o Ivan na pilotagem e o ex-vereador João Gaspar. Noite agradável, encontro com amigos de longa data, música boa e comida melhor ainda. Naquele ano o ex-prefeito de Florianópolis preparou um entrevero de frutos do mar, algo diferenciado que fez todos lamberem os beiços. Lá pelas 2 horas da madrugada seguimos para o Rancho Rochedo, naquele frio de renguear cusco. Até comprei uma manta de lã e enrolei no pescoço para me proteger do vento gelado e um chapéu para não pegar friagem.
Chegando no Rancho Rochedo começou a fiasqueira. Após horas de estrada e programação noturna intensa, cheiro de fumaça das fogueiras que assavam pinhões, esquentava água para o mate e o preparo do entrevero e churrasco. Estávamos cobertos de fumaça, gordura e acho que um zorrilho era mais perfumado e chegava perto.
Encontramos quartos bem aconchegantes, mas a hora da verdade quando um gaudério mostra sua força é no momento de deitar o pelo no lençol gelado. Chora lágrimas de gelo. Mas o aquecedor a óleo ajudava no aquecimento do ambiente. Gaspar estava com medo que aquilo pudesse pegar fogo e não queria acionar. Ivan, não muito certeiro queria dormir no salão. Disse que ele congelaria lá embaixo pois na frente tem um lago e estava congelado. Eu me deitei com roupa e tudo. Vestir pijaminha de pelúcia? Nem pensar naquela altura. Sairíamos cedo para retornar a Joinville.
E Tebaldi resolveu que não iria dormir enfumaçado. O vivente se foi para o chuveiro e minutos depois ouvimos um grunhido, uma resmungação, um pedido de ajuda. Imaginei que era alguma alma penada de antigos tropeiros. Desconfiados fomos até o quarto dele e lá estava o prefeito da maior cidade catarinense tremendo, batendo de queixo como se fosse guizo de cascavel. Bateu a hipotermia. O Ivan lembrou que viu num filme que se deitando por cima do congelado aqueceria o tal e sobreviveria. Nenhum dos três se animou. Tratei de pegar um monte de cobertores de lã e jogar por cima do xiru véio e ligar o aquecedor. Alguns minutos depois recuperou o calor corporal e passou a tremedeira.
Na manhã seguinte, na hora do café, num sábado gelado, olhamos pela janela e o cenário era de uma pintura. O cerro branco de geada, a água do lago congelado e um cusco maleva rengueando de frio pelo gramado coberto de gelo, deu para entender o fiasco da noite anterior. Mesa farta, café passado e pancinha cheia retornamos para Joinville. Não tirei minha manta e nem meu chapéu que uso até hoje. Em breve chega o frio, pinhão, comida boa, música gaúcha e a alegria de viver com boas lembranças.