Era um velório muito afamado. Afinal, morreu o vizinho mais rico da quadra. Era conhecido como boca rica, por causa dos dentes de ouro que fazia questão de mostrar com seu largo sorriso. Nunca largava a sua "capanga" uma bolsa/carteira masculina de formato retangular que alguns homens usavam nos anos 70, como forma de status.Ali guardavam os documentos, cédulas polpudas de Cruzeiro e o talão de cheques especial. Também tinha uma caneta para fazer pose e assinar o cheque gordinho, seja em um mercado, em uma loja ou com prazer maior em uma casa da zona do meretrício.
Ele não perguntava quanto custava. Mandava servir e depois com pompa tirava o talão de cheques da capanga, esperava todos estarem olhando, mandava alguém preencher e assinava. Era só o que sabia fazer, assinar o nome, pois treinou muito tempo para isso. Nunca foi letrado, mas ganhou muito dinheiro porque tinha tino, faro para negócios. Ninguém o passava para trás. Conhecia os números, porém não sabia ler contrato. E sempre repetia que a garantia de que alguém honraria as calças que veste era o Taurus 38 que levava na cintura à mostra de quem quisesse ver.
Dirigia um Ford Galaxie, cor de vinho, um carro enorme de luxo para poucos. Guiava bem, pois já havia sido caminhoneiro, andou pelo garimpo e se estabeleceu com alguns negócios totalmente legalizados. O doutor dentista que implantava seus dentes de ouro, era bem remunerado. Certa feita ele chegou no consultório e pediu que desenhasse estrelinhas nos dentes da frente para brilhar com o sol? Assim foi feito.
Estava com quase 60 anos e a capanga sempre recheada. Em uma noite de terça-feira, morreu em combate na cama de Adriana, a mais linda e disputada da casa de Madame Neiva, conhecida como Cola de Ouro. Lá só se bebia uísque, vinho e outras bebidas importadas. Cerveja ela não vendia para não criar barriga nas mulheres e para não atrair clientes pobres ou remediados que ficam importunando umas garrafa a noite toda.
Por volta das 21 horas Adriana saiu correndo do quarto aos prantos. O seu Capincho morreu, acudam, o Capincho não respira e está babando com a língua de fora, socorro. Clientes, as meninas e a madame entraram no quarto e viram Capincho-apelido que ele odiava, pois seu nome era Arlindo Waldomiro- mortinho da silva mas irradiava um brilho dourado de sua boca. A luz vermelha cor de carne do abajur sumiu no meio do dourado que resplandecia da boca do seu Capincho.
A madame, segura de si e experiente, ordenou que ninguém falasse nada. Todos voltariam para a função e ali se divertiriam. Mandou um taxista buscar o doutor dentista que também era cliente, e de vez em quando aparecia com o seu saxofone para tocar algumas peças. Chegando o doutor dentista, ela ordenou que ele retirasse todo o ouro da boca do Capincho e no lugar colocasse algo que ninguém fosse questionar. Assim o fez e deixou a boca de ouro do capincho reluzindo novamente. Onde havia ouro colocou coroas de papel alumínio dourado, assim o fez também nos dentes da frente desenhando e colocando as estrelinhas.
O tesouro da boca rica do seu Capricho foi para o meio do sutiã de madame. Chamaram as autoridades e explicaram o ocorrido. Levaram Capincho para a família sepultar. O velório foi concorrido. Noite animada na capela mortuária com muitos amigos da noite, gente que conheceu no garimpo e velhos irmãos caminhoneiros das estradas. As meninas também apareceram, Madame dona da casa de tolerância deu os pêsames para a esposa e filhas que choravam mais que carpideiras contratadas.
Neste dia de finados, a viúva e as filhas vão depositar flores no túmulo de Campinho, que para ela sempre foi o Arlindo Waldomiro, amado pai e marido devoto, que em momentos foi desencabeçado por mulheres de vida fácil e amigos de vida torta.
Querem saber do ouro da boca rica do Arlindo Waldomiro? A Madame Neiva comprou um apartamento na Avenida Atlântica em Balneário Camboriú, capital nacional da atividade que hoje se chama Job. Gerencia algumas carreiras de meninas e todas as tardes atravessa a rua e senta em um banco à beira mar, toma seu chimarrão, com uma bomba de prata, ouro no bocal e cravejada de rubis. A erva ela manda vir de Erechim, onde tudo começou e aconteceu.
Neste dia de finados, Madame Neiva, também vai acender uma vela para o Arlindo Waldomiro. Ela não brinca com espíritos. Teme que um dia ao atravessar a avenida, seja atropelada por um capincho de boca dourada. Melhor se precaver.