Eu deveria ter uns 8 anos no máximo. Cheguei no dito velório da mãe de uma vizinha. Parei na calçada, pois deveria descer a escadaria de tijolos e notei algo estranho, já que todos me olharam com jeito de surpresa. Uns balançavam a cabeça em desaprovação, outros cochichavam algo nos ouvidos de quem estava mais próximo. A tarde fria de sol fazia com que a maioria estivesse no pátio em frente a casa lagarteando, enquanto a morta estava sendo velada na sala da casinha de madeira. Naquela hora, por volta das quatro horas da tarde, esperavam o padre para fazer o encomendamento. O ônibus já estava estacionado em frente a casa para levar o pessoal para o cortejo funerário que seguiria até o Cemitério Municipal.
Mesmo estranhando, desci a escadaria com meu sapato plataforma marrom. Daqueles de salto grosso e alto que se usava nos anos 70. Fui me achegando pelo meio das pessoas até entrar na pequena sala da casa de quatro cômodos sendo sala, cozinha dois quartos A patente ficava do lado de fora, como era de costume. No meio da sala a dita senhora, amparada por quatro velas em castiçais de pé alto. Havia passado dessa para a melhor, como dizem os antigos. Três filhas em uma choradeira, uma delas fazendo fiasco com um espelhinho no nariz da falecida e jurava que a velha ainda respirava. Por um momento o choro parou, me olharam, se olhavam como querendo dizer, que ridículo este piá da comadre. Parei ao lado do caixão, olhei, vi que ela segurava um rosário entre as mãos. Rezei um Pai Nosso, uma Ave Maria e sai pelos fundos onde estava mais animado. Um grupo de parentes e vizinhos contando piadas, jogando cartas, cantando e tocando.
Um dos vizinhos me chamou e disse, corre ali na tua casa e traga limão. Sei que o Seu Lima tem pés de limão. É para renovar a caipira. Enquanto isso, o samba comendo forte nos fundos da casa do velório. O pandeirista que era conhecido lá de casa ainda reforçou o pedido e me aconselhou:
- Já traga meia dúzia de limão, açúcar e uma forminha de gelo que tem no congelador. E tire essa roupa ridículo porque já estão rindo de você.
Fique trocando orelhas. Onde se viu ridículo, me arrumei todo para ir ao velório. Roupa nova, bonita, sapato plataforma, camisa de “Volta ao Mundo”. Mas sai ligeiro que nem tatu mulita. Subi a escadaria num pulo e fui a trote para casa. Antes de ir no pátio pegar os limões corri para a frente do espelho para ver como eu estava. Afinal, ele disse para trocar a roupa porque eu estava ridículo.
Olhando e avaliando minha pessoa ao espelho, concordei com o pandeirista. A dita roupa era um conjunto estilo Safari, que vi na TV e pedi que a mãe costurasse um igual e como não tínhamos o tecido adequado, a sarja, que era cara, pedi que ela usasse retalhos de tecidos que havia sobrado de uma cortina, que uma cliente mandou fazer. Era uma estampa de motivos norte-americanos. Um algodão branco estampado com bandeira norte-americana, inscrições US Army, do exército americano, enfim nem um cigano se fantasiariamelhor. Tratei de tirar o modelito e o sapato plataforma. Eu achava que estava bonitão.
Voltei irreconhecível para o velório com a sacola cheia de limão, açúcar e duas forminhas de gelo. A festa de comemoração estava garantida. Muitos nem me reconheceram nesta volta triunfal. Conjunto safari com tecido e estampa de cortina? Nunca mais. Porém anos mais tarde inportunei para que a mãe fizesse um casaco usando um cobertor de lã. Mas este é outro causo.