O segredo que ela guardava há 70 anos, poucos sabiam, e muitos nem desconfiavam de como era a juventude daquela senhora séria, rígida e de poucos sorrisos.
Beirando os 90 anos não descuidava do cabelo liso e preto. Retocava todas as semanas. Era vaidosa e as unhas sempre bem cuidadas, cremes para não criar rugas. O tempo é cruel, mas ela não aparentava a idade.
Há muitos anos foi casada com um viúvo que perdeu a esposa ainda jovem e tinha de ter alguém para lhe fazer companhia e ajudar a criar os filhos. Foi rapidamente aceita pela vizinhança e em breve se tornou comadre de alguns casais batizando filhos e dando os seus também para outros casais de amigos levarem os bebês ao altar.
Nunca descuidou da aparência e também da vivência. Mas algo em seu peito roia intensamente. Este seu segredo, seu desejo de reviver o passado sempre a atormentou.
Perto de completar 90 anos, pediu para a neta que a levasse no salão de cabeleireira. Lá fez questão de orientar a cabeleireira que não deixasse um fio sequer de branco, e as unhas deveriam ficar perfeitas e pintadas de vermelho sangue, a cor da paixão. Borrifou seu perfume preferido e fez questão de espalhar pelo corpo todo. Vestiu seu mais belo vestido, longo com pedrarias, que só se usa na noite e calçou sapatos de salto alto, também muito bonitos com meias de seda. Olhou-se no espelho, admirou-se e deu um sorriso com o canto da boca e uma piscadela para ela mesmo. Sussurrou - você já foi a rainha.
Ao passar pelo jardim colheu uma camélia e prendeu no no vestido, na altura do busto. Embarcou no carro da neta e pediu para dar um passeio. A neta perguntou para onde iriam. Ela respondeu para seguir em direção ao aeroporto de Erechim, e assim fez a jovem.
Orientou que seguisse um pouco mais pela transbrasiliana, a BR-153 que margeia a cidade, e que dobrasse à direita na primeira entrada. A neta nada entendeu e perguntou o que havia ali. A dama se calou e fez sinal com a mão para que a neta estacionasse na parte alta, de onde podia ver todas as casas.
Uma lágrima correu em seu rosto, ao lembrar daquela vila que era movimentada com dezenas de casas onde ressoava a música, o cheiro da bebida e homens dispostos a gastar grandes quantias em busca de companhia. O dinheiro corria solto com obras de construção de barragens, perfuração de prospecção de poços de petróleo, construção de rodovias e boas safras na agricultura, períodos em que o dinheiro era de sobra. Ainda ouvia o sol dos conjuntos que tocavam ao vivo nas melhores casas e o som dos toca-discos com o melhor do bolero, do tango, da valsa e de artistas refinados como Frank Sinatra, de quem ela era admiradora.
Ali, naquela vila há sete décadas, ela havia sido rainha, cobiçada e desejada por muitos. Este sentimento não saiu de seu peito e em todos estes anos sempre reviveu diariamente em seus secretos pensamentos seus momentos de glória, de se sentir amada, pelo menos durante os minutos que os clientes pagaram por sua companhia.
A neta queria entender o que aquele lugar representava que fez a avó chorar, mas sem borrar a maquiagem. Afinal, hoje é um bairro familiar, mas o que tinha de lembranças ali?
A menina ainda é inocente, não desconfia do que havia naquele lugar. Não sabe sobre as dezenas de casas e moças bonitas que faziam daquela vila alegre, iluminada e divertida a vida de muitas garotas com a idade dela ou menores, ainda.
A última vez que a vi, estava com o cabelo impecável, unhas longas e pintadas e com vestido novo. Sentada na varanda de sua cara, cuida de chimarrão na mão, biscoitos de polvinho e olhar distante para a rua, como se ainda pensasse na juventude e os prazeres que teve a proporcionou.
Cumprimentei-a e segui meu caminho. Eu sei sobre os pensamentos daquela senhora.