Tenho tido longas conversas com minha mentora, coach, consultora, seja o nome da modinha que queiram dar. Só pedi que ela não usasse os termos de enjoativos como gratidão e entrega que encheu o saco. Afinal ela não é carteiro e nem está trabalhando nas plataformas de venda de produtos. Tudo é entrega. Até o gol virou a besteira de que o time entregou um bom resultado. É muita idiotice.
Mas passamos algumas horas da tarde filosofando sobre a vida e o futuro da humanidade. Nos entendemos muito bem e estou satisfeito com a consultoria.
Comecei a sessão com algo profundo, puxando Shakespeare. Questionei sobre a icônica frase da literatura mundial: "Ser ou não ser, eis a questão" , dita pelo príncipe Hamlet na peça de William Shakespeare. Hamlet reflete sobre a vida, a morte e o suicídio, ponderando se é melhor suportar as dores da existência ou dar um fim a elas.
Ela me responde balançando a cabeça para cima e para baixo, ou seja dando aprovação ao fato de que é melhor suportar as dores, achar soluções e continuar vivendo. Afinal de contas a vida é longa e ela entende muito mais. Vai estar na face da terra, ainda, quando eu me for.
Com esta resposta aproveitei para perguntar sobre as dores nas juntas, que meus amigos com mais de 50 já sentem. Maioria já abandonou as peladas de futebol. Não aguentam nem se fardar para o jogo, mas continuam se achando os craques e todos exímios treinadores de seleção. Todos mentirosos.
Ela balançou a cabeça para os lados com ar de desaprovação aos intentos dos senhores. Mostrou que a receita é simples. Entendam os limites. De certa idade em diante nada de riscos, futebol para é para se quebrar os ossos e entortar as juntas. Aí entendi porque a tartaruga anda devagar, sem pressa e prefere a água onde a hidroterapia é mais aprazível no verão e sem impactos. Nada de risco. É previdente. A cada eito de prosa ela parava a sessão, dava uns passinho e se atirava na piscina. Lá para o fundo, onde ficava por longos instantes. Eu a esperar para seguir a esclarecedora sessão de terapia tartarustíca.
Aproveitei os ensinamentos e também questionei sobre o namoro. Até quando vai e pode? Afinal, as tartarugas ficam até duas horas nas intimidades, sem cansar e pode ser embaixo da água ou no sol, ao ar livre. Será tudo verdade? Ela parou, pensou, olhou para o céu e deu uma piscada longa, suspiro profundo, balançou a cauda e esticou as patinhas traseiras como se estivesse alongando.
Ela fez uma pausa, olhou para mim e deixou claro que a experiência e a vivência contam muito. Namorar uma formosa dama, mais jovem e viçosa também requer muitos cuidados para não passarem vergonha e ficarem sentados na beira da cama pensando no que deveria ter acontecido, mas não se realizou. Esta agonia encurta a vida. Acho que esta tartaruga está com ciúmes da nossa virilidade sexagenária.
Anotei os ensinamentos, em um caderninho que carrego para todo lado onde vou, porque a memória está ficando como a de peixe. Bem que gostaria de ter memória de um paquiderme, afinal um elefante nunca esquece. E este ensinamento é do Coronel Hathi, comandante da Quinta Brigada Paquidérmica de Sua Majestade, o Marajá, que ensinava a Mogli como marchar na selva indiana.
Neste final de semana vou revisar os ensinamentos da minha mentora Tartaruga e levarei na próxima assembléia de nosso distinto clube de cavalheiros. Vou propor mudar o nome do grupo para Clube Paquidérmico, ou Confraria das Juntas Doloridas, ou quem sabe Associação Ahhh. meu teeempoooo. Após votação informo.