quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O empanturramento do motorista

Este causo verídico, verdadeiro e com testemunhas me foi contado pelo livreiro Zeka Chaves de quem compro livros, sempre de excelente qualidade.


Um aparentado dele, lá do interior do Paraná, que trabalha como caminhoneiro e percorre as estradas do Brasil teve uma vistoria e tratamento exemplar em um posto policial.


Sabedor e malandro, como todo caminheiro, deveria passar no Cinquentinha, conhecido posto policial em uma BR do Ceará. Mas como todo caminhoneiro que não é patrão andava com os pilas contados no bolso da camisa de tergal. 


A uns 10 quilômetros do famoso posto policial Cinquentinha ele viu na margem direita uma churrascaria com carnes nobres de boa procedência. A placa fincada nas margens da rodovia propagandeava que alí serviam espeto corrido com a melhor carne do Mato Grosso. O churrasqueiro era gaúcho com larga experiência e os acompanhamentos eram do dia com direito a sobremesa de ambrosia. Tudo isto por apenas R$ 49,90. Não teve dúvidas, parou o caminhão, esticou a única nota de R$ 50,00 que tinha e se fartou. Nem pensou o que faria logo adiante.


Meio mole, devagar com a pança cheia, ligou o 1113 e seguiu viagem devagarito. Ao chegar no posto cinquentinha, o policial mandou encostar, revistou faróis, sinaleiras, mandou pisar no freio, conferiu nota fiscal e tonelagem. E ficou enrolando com os documentos e CNH do aparentado do Zeka Chaves na mão e ficou proseando como quem não quer nada, esperando que o motorista desse a gorjeta.


O motorista explicou que estava sem um puto tostão, porque o patrão não pagou a diária antes e que ele estava com fome, não tinha comido nada e que nem sabia o que faria. Ouvindo isso e desconfiado de que perdeu o cinquentinha da gorjeta, convidou o caminhoneiro para descer e ir até a copa do posto policial. Mandou que sentasse e o próprio policial serviu a mesa.

Colocou um copo de "cristal" daqueles que vinham com  massa de tomate e a gente usava a vida toda. Uma jarra de K-Suco daqueles que deixa o beiço pintado. Tirou o pano de cima do pão caseiro, cortou duas generosas fatias, entupiu de manteiga e fartas porções de mortadela, de procedência duvidosa porque nem marca tinha.


- Agora o amigo pode comer bem, porque daqui não deixamos ninguém com fome. Imagina o que vão falar no Paraná se a gente deixasse um filho de Deus, protegido de Padre Cícero, sair pela estrada sem comer nada. E o motorista sem fome, pois estava de pança cheia, empurrou o sanduíche de mortadela e o suco ralo. Cada vez que ele terminava o policial fazia mais um e ficava ali até que o vivente terminasse. Assim o fez por quatro vezes até que o motorista caiu da cadeira com a barriga explodindo. Ali adormeceu. Meia hora depois acordou e o policial ofereceu mais um sanduíche para o amigo não sair falando mal do posto policial cinquentinha. 


Rapidamente o caminhoneiro pegou os documentos de cima da mesa da copa do posto e se arrancou para dentro do Mercedes. 


Jurou que nunca mais vai comer sanduíche de mortadela e agora busca outras rotas que fujam da BR do posto cinquentinha, Mas como ficou precavido agora sempre guarda uma nota de 50 como reserva. Esconde em uma abertura no interior do parasol do caminhão. Vai que tenha de passar lá de novo. Sanduíche de mortadela com k-Suco...revira os olhos do vivente só de pensar.


sábado, 19 de setembro de 2026

O NAMORADOR E A BOMBACHA



Neste domingo, 20 de setembro, como em todos os anos, a gauchada comemora o Dia do Gaúcho, foi quando se iniciou a Revolução Farroupilha. E ficaram dez anos peleando há quase 200 anos em protesto contra o tratamento desigual que o Rio Grande do Sul recebia e os altos impostos. A Semana Farroupilha é para recordar e reforçar os valores do povo rio-grandense que não se verga e não se entrega.


Mas tem um conhecido que anda de namorico com uma gaúcha e se entusiasmou com a cultura tradicionalista, valores do povo do sul e se apaixonou por uma bela chinoca. Conheceu a família, conforme os bons costumes, pediu permissão para namorar e uma das primeiras perguntas do sogro, que tem a idade do pretendente, era se ele torcia pelo Grêmio ou Internacional. A resposta poderia já negaciar o encontro e não ter permissão. Mas a moça antecipadamente avisou que ele deveria torcer pelo Grêmio. Caso contrário o namoro não iria adiante.


O tal sogro questionou sobre o que pensava do Brizola, Pedro Simon e Paulo Brossard de Souza Pinto. Até aí a prosa foi boa e o pretendente estava sendo aprovado. O pai da moça perguntou se ele apreciava os filmes e as músicas do Teixeirinha e já colocou na vitrola um elepê com a tradicionalíssima música Coração de Luto. O velho serviu uma cachacinha de Santo Antônio da Patrulha. Bebericou e em seguida repartiu uma rapadura e alternava um pedaço de rapadura e um golinho da pura. Se emocionou ao ouvir Teixeirinha. E falou dos filmes do astro gaúcho.


Meu conhecido, foi se achegando e achando que tinha sido aceito pela família até que a sogra perguntou se ele é de algum CTG - Centro de Tradições Gaúchas e se ele estava com pilcha completa e bota campeira para o baile, que iria ocorrer de noite no CTG que eles frequentam. Seria um baile de limpar banco com Os Monarcas de Erechim. Recomendou que em bailes de CTG, o comportamento tem que ser de respeito. Nada de agarramento e ao dançar que se respeite as regras de distanciamento. Não pode apertar a moça. Desconversou e disse que não trouxe porque não poderia dançar. Torceu o tornozelo e não teria como bailar a noite toda. Desconfiaram, pois nem mancando estava.


Mas o vivente, ladino por vivência, começou a manquejar igual tobiano que não gosta da lida. De volta para Joinville tratou de encomendar uma pilcha completa e bonita. Com favo bem trabalhado dos lados. Só que encomendou em um dessas plataformas de vendas. Esta semana a compra chegou e ele mostrou para a noiva a novidade que agradaria a família toda.


Ela nem quis olhar e já se emburrou. Se vestir isso daí te arranca da minha frente. A tal bombacha, comprada pela internet era uma calça larga com pregas, daquelas que se usavam nas disco clubs de frequência duvidosa nos anos 80.


Agora de manhã questionei se ele iria no encerramento da Semana Farroupilha no Parque Harmonia em Porto Alegre, afinal o show de encerramento é com Adair de Freitas e seus sucessos como De Já Hoje, Previsão de Vaqueano, Meu Canto e tantas outras. Não me respondeu Desconfio que andou tomando umas relhadas da gaúcha.


E viva a gauchada neste 20 de setembro.



domingo, 30 de agosto de 2026

DOCE LATIDOS

São mais de 400 anos de história. Este ano se completaram quatro séculos das missões jesuíticas-guaraníticas presentes no Rio Grande do Sul, Paraguai e Argentina. Os povos das missões foram dizimados, assim como mártires desta bela história de nossa gente.


Um dos mártires que virou santo foi o padre paraguaio Roque González de Santa Cruz. Assassinado e queimado, em Caaró, perto de São Miguel das Missões (RS),  seu coração permaneceu intacto após a tragédia.  Esta relíquia está em Assunção, na Capela dos Mártires da Paróquia Cristo Rei, dos jesuítas. É o primeiro santo paraguaio.


Tive a oportunidade de visitar uma exposição criada por três artistas paraguaios que retratam os 12 batimentos cardíacos de São Roque González. Dentro das comemorações dos 400 anos das missões jesuíticas-guaraníticas a exposição retrata 12 corações que reinterpretam os valores da história e o legado de Roque González. 


Rubén Sykora usa pedrarias, cristais, pérolas e evoca a delicadeza dos altares jesuíticos. Liliana Sykora,  expressa a conexão entre terra, céu e espiritualidade, mostrando a figura humana do padre que se tornou santo. José Quevedo incorpora elementos da rica flora e fauna, folclore, história e a textura artesanal de nossa natureza tropical.


Doce Latidos, uma moderna exposição de arte contemporânea, com resgate histórico e multi sensorial com luzes, sons e áudios com textos para cada um dos 12 corações de Roque González, esteve aberta ao público no Centro Cultural da República El Cabildo, no centro de Assunção.


Assim como os 12 batimentos, os 12 corações evocam os 12 povoados missioneiros, os 12 meses do ano, os 12 apóstolos e os principais eventos do período retratado.   Nossa história é muito rica e precisamos de mais produções artísticas como essa para não esquecermos os 400 anos de história dos povos missioneiros. E para que as futuras gerações compreendam e levem adiante este pedaço de nosso passado e o mantenham vivo, como o coração de Roque González que continua batendo em fé e esperança. 


domingo, 23 de agosto de 2026

FUI NUMA FESTA EM ASUNCION CAPITAL DO PARAGUAY

     O título acima lembra a polca paraguaia Galopera, mas não fui em um baile mas em uma festa de aniversário de um querido e estimado amigo. Em su cumpleãnos oportunizou o reencontro de alguns amigos de faculdade. E lá se vão 42 anos desde o início do curso em 1984 na Universidade Católica de Pelotas. 


A fiesta em Asuncion, como toda festa paraguaia teve horário para iniciar e não para terminar e assim se seguiu na madrugada adentro com direito a boa comida tradicional paraguaia, artistas locais, incluindo harpa paraguaia e finalizando com um baile no bosque com os sucessos do pop rock dos anos 80, quando éramos, jovens,magros e bonitos. 


Karaokê sempre agrada e até os menos afinados como eu se arriscam a cantar Frank Sinatra e por amizade todos aplaudem e elogiam. Inclusive os nativos paraguaios sabiam as letras de cor e salteado dos sucessos de Paralamas, Ira, Kleiton e Kledir, Capital Inicial, Legião Urbana, Barão Vermelho, Cazuza, titãs, Kid Abelha, Lobão, Lulu Santos, Blitz, Engenheiros do Hawaii e tantos outros. Depois de certa hora e embalado pelo clima nostálgico me arrisquei a cantar em guarani. Sucesso total. 


E nesta Fiesta em Asuncion, capital do Paraguai, vi as paraguaias sorridentes a bailar. Pessoas queridas, aprazíveis que tornaram aquele momento marcante em nossas vidas de seis décadas. Sempre repito que a vida é muito curta para deixarmos de viver cada momento. Vale muito reencontrar amigos, recordar de situações vividas e conhecer novos lugares e novas pessoas. E o maior presente que poderíamos ter dado ao aniversariante foi nossa presença em su cumpleaños.


Um forte e sincero abraço no aniversariante e amigo de tantos anos, o paraguaio mais gaúcho e brasileiro que conheci; José Quevedo Allende, protegido pela Virgen de la Asuncion, pois nasceu no dia da padroeira. 


Pra matar minha saudade

Pra minha felicidade, Paraguai, eu voltarei

Pra minha felicidade, Paraguai, eu voltarei 


E como testemunhas del festín en el bosque, apenas o bugio que ficou arriba nas árvores cantando. E vale a máxima: o que acontece em Lambaré, fica em Lambaré.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

VOCÊ ME DEVE UMA LIBRA DE SUA CARNE


Um agiota não perdoa o pagamento de uma dívida e muito menos os juros pelo atraso no pagamento. Nem mesmo se a dívida foi contraída para assuntos amorosos.


Há 430 anos o dramaturgo William Shakespeare, escreveu a peça O Mercador de Veneza, que trata de um empréstimo avalizado pelo mercador Antônio para ajudar um amigo que pretendia uma conquista amorosa com rica e jovem viúva. O  agiota judeu Shylock garantiu o alto valor e no contrato exigia o pagamento macabro de uma libra de carne, equivalente a quase meio quilo, do corpo de Antônio, em caso de atraso do pagamento.


E esta encenação, que assisti semana passada no Teatro Guaíra em Curitiba, com elenco competente e o consagrado ator Dan Stulbach na personagem de Shylock, me fez recordar algo semelhante.


Há alguns anos, um conhecido me procurou para lhe ajudar a ir para a Rússia buscar uma noiva. Me disse que ele tinha certeza, pois os espíritos garantiram que ele havia sido um Czar. E lá na Rússia estaria seu grande amor. Queria saber os trâmites, já que ele sabia que já tinha ido para a Rússia e leste europeu.


Expliquei os procedimentos e fiz uma rápida estimativa de valores para ele. Quando soube da burocracia, da distância e dos valores que iria necessitar, pensei que desistiria da empreitada amorosa. 


Nada disso, Olhou para mim e com toda a certeza me intimou:

- Fui um Czar russo em vidas passadas e tenho que ir. Você vai me ajudar. Me empresta, pelo menos  uma parte do dinheiro que eu vou buscar minha noiva. Parei, respirei e pensei por segundos o que responderia. 


Me ocorreu de contar esta história para ele e o que poderia acontecer. E enfatizei. Para conseguir dinheiro tão alto precisaria cortar na carne, até no osso, pois era uma viagem cara. Ele me olhou e perguntou se cortariam a carne dele também. Reafirmei que sim. Não só cortariam a carne dele cobrando juros de quem ele pegar empréstimo, bem como os russos poderiam cortá-lo. Afinal, golpes do  amor fazem muitas vítimas todos os dias.


Esta semana, coincidentemente o encontrei com uma bela jovem, loira. Pensei que até que era filha dele, mas não era. Em tom de brincadeira perguntei se era russa. Me respondeu que era quase isso. Era descendente de ucranianos e que vivia na região de Porto União, mais especificamente no distrito de Nova Galícia.


Preservou sua libra de carne. E agora deve estar se sentindo um Czar russo. Ele que fique esperto, se o Putin descobre.. Afinal ela é de origem ucraniana. 




sábado, 25 de julho de 2026

QUEM COMEU A COALHADA?


Era comum as famílias visitar os parentes, amigos, compadres e passar o dia na casa deles. Íamos de manhã e alí ficávamos o dia todo. Era almoço, café da tarde, conversas, passeios e só se voltava para casa no final da tarde e início da noite. Numa destas aprazíveis visitas dominicais me levaram para um sítio de uma parentagem no interior de Barão do Cotegipe, cidade próxima a Erechim quando nem existia asfalto.


Eu tinha uns 12 anos e na propriedade havia muita diversão. Um riacho de água limpa que passava na divisa da propriedade, espetacularmente limpo e ótimo para banhos em tardes de calor. A moenda puxada por uma junta de bois rangia ao moer a cana que sorvia uma garapa doce, deliciosa onde bebíamos na fonte da vitamina poderosa.


Em um galpão onde ficavam ferramentas e colheita de grãos havia uma máquina que julgo ser revolucionária na tecnologia mundial. Sempre repito para mim mesmo. Depois que inventaram o debulhador de milho, o mundo mudou. A tal máquina debulhava o milho e moia em quireras de várias grossuras. Como já existia luz elétrica, um pequeno motor era ligado, e os donos orgulhosos da maquinaria que trouxe maior facilidade e produtividade. O milho colhido no morro em frente a casa dava comida para galinhas, porcos, vacas leiteiras e era possível moer o milho para uma boa quirera e preparar com galinha ao molho.


Mas o melhor estava por vir. Um dos filhos do casal aparentado me mostrou uma novidade e foi a melhor parte do passeio. 


  • Gosta de quaiada? Me perguntou e eu sem saber do que se tratava disse que sim. E ele abriu o porão da casa, onde ficaram voltas de  salames, linguiças secando, barrica de vinho e de cachaça, latas de banha, compotas de frutas e legumes e os queijos maturando. 


A tal “quaiada” estava em bacias cobertas por um pano branco. Ele retirou o pano de algodão bem alvo e a coalhada estava ali sendo preparada para a feitura dos queijos que seriam vendidos na semana. Com uma colher de pau experimentamos a coalhada que estava fermentando. Achei meio estranho, mas em seguida veio a perdição. Ele trouxe um pote de barro cheio de açúcar amarelinho, produzido na moenda ali da propriedade e um vidro cheio de melado.


  • Mistura um pouco que fica bom. Recomendou. Não tive dúvida. Misturei com açúcar amarelinho grosso e um pouco de melado e a coalhada ficou um manjar dos deuses. Quase melhor que ambrosia ou arroz doce. A bacia acabou rapidinho com os dois terneiros se servindo com colher grande pau, devorando a matéria prima que daria vida aos queijos, que eram a subsistência da família. 


Já era hora do almoço, subimos e a galinhada estava pronta. Banquete farto e de sobremesa goiabada, queijo fresco, gelatina com merengue. Até pedi um chá de carqueja para desmanchar aquilo tudo, afinal estava empanturrado feio leitão novo.


Pelo meio da tarde a prima, dona da casa desceu para ver como estava a coalhada, pois ainda fazia queijos para o marido sair vender na semana seguinte.


Voltou com cara nada boa. Perguntou ao filho dela o que houve com a “quaiada”. Ele se fez de desentendido e prontamente respondeu para a mãe dele que ele desconfiava de um gambá que andava pela volta e que ele viu saindo do porão e seguiu para o galpão do debulhador de milho. Ela fez que acreditou e olhou fixamente na minha camiseta que havia ganhado de brinde nas lojas J.H. Santos. Uma mancha de coalhada de cor amarelada e farelos do açúcar produzido por eles. E o canto da boca melado já seco.


Terminado o passeio no final da tarde voltamos para Erechim, de pancinha cheia. Conto este causo 50 anos depois. Ela não vai se lembrar de quem consumiu toda a coalhada do queijo.


Fico a pensar. Como será que aquela máquina debulha o milho,solta o sabugo e ainda faz ração e quirera? Uma invenção fenomenal. Tecnologia avançada.



domingo, 19 de julho de 2026

DOCE DE LARANJA EM TACHO DE COBRE




Era um pé de laranja de casca grossa e amarga. Experimentei uma vez, depois de passar pelo Kelly, um cachorro de pelo tigrado que ficava em sua casinha embaixo daquela árvore, no pátio. Com o Kelly ficava uma gata que eram amigos, lagarteavam no sol, dormiam juntos para se aquecer do rigoroso inverno. O cachorro viveu muito, até que lhe caíram os dentes. Nos últimos tempos só comia sopa.


Mas voltando ao pé de laranja, descobri que só servia para doce. Eram laranjas grandes, de casca grossa. E em dia de fazer doce de laranja a lida começava bem cedo. Cada um ajudava com alguma tarefa.


Embaixo da sombra de uma árvore de cancorosa era feito o fogo com lenha, protegido por pedras que davam suporte ao tacho de cobre, que ficava guardado no porão da casa. Lá estava também a colher de pau de cabo longo, usada para mexer os doces, sejam de laranja, abóbora, melancia, figo, pêssego. 


Mas neste dia era de laranja, que eu julgava amarga demais. A tal de laranja cidra. Não serve para comer. Dias antes as laranjas haviam sido descascadas, retirando a fina camada da casca externa, onde está o maior amargor. Depois de deixar no molho em água para ajudar a tirar a acidez, eram cortados em pedaços. Com o fogo no ponto era o momento de iniciar o cozimento da laranja com açúcar Cristal que via em sacos de 5 quilos. Açúcar grosso. Também usávamos para adoçar o café e outras receitas.


O fogo embaixo do tacho de cobre atraia meu olhar. Gostava de ver e conforme ia ocorrendo o cozimento a calda ficava mais grossa e as laranjas assumiam uma coloração como se fosse uma obra de Van Gogh ou de Henri  Matisse. Como uma pintura, o tempo, o controle do fogo e nunca parar de mexer a colher de pau para não grudar e nem perder o ponto do doce, era como se fosse um pintor acertando as cores, a perspectiva até o envernizamento do quadro e sua assinatura


Eu observava, trazia lenha, mas nunca me deixavam mexer o doce com uma grande colher de pau. Era perigoso. Poderia me queimar com o fogo, doce quente. Era melhor esperar as compotas prontas ou a chimia. E você deve estar pensando nas cascas? Não ia para o porco e nem para as galinhas, muito menos para adubo na hora. Virava um doce cristalizado. Deliciosos. E quando prontas as compotas de laranja, embelezavam a cozinha. Vidros de compota bem fechados na prateleira, o tom alaranjado decorava e iluminava o ambiente. Cada vidro aberto encantava pelo aroma, e o sabor da laranja desmanchando, a calda grossa era um licor dos deuses, digno de beber em copo de cristal ou encher a colher como se fosse uma farta porção de mel. A doçura e a riqueza da natureza em forma de alimento e arte. 


O empanturramento do motorista