Toninho não tinha paz na vida, na sua alma atormentada pelo ciúmes. Não dava um minuto de folga para a esposa. Toda hora queria saber onde ela estava. Ligava para o trabalho para saber o que estava fazendo, porque havia demorado tanto para atender o telefone e desconfiava até do tempo que ela ficava no banheiro. Um psicopata total. E sempre quando ela demonstrava desgosto vinha com as desculpas do eu te amo tanto.
Paulinha estava de saco cheio daquela situação, mas com temor de mandar o Toninho andar. O ciúmes dele era doentio. Os parentes alertavam, os amigos temiam o pior. Ele dava a volta na casa para ficar escutando pela janelinha do banheiro se tinha alguém com ela e se falava algo. Completamente endoidecido.
Em uma noite de quinta-feira a central de atendimento da Polícia Militar recebeu uma chamada no 190.
Polícia Militar boa noite, qual a ocorrência? Solicita a policial de plantão.
O vizinho matou alguém ouvi tiros.
Qual seu endereço?
A pessoa informou e em poucos minutos uma patrulha da PM chega na casa. Na sala a imagem da tragédia. Vidros estilhaçados, móveis quebrados. Apenas o Toninho desolado, chorando sem parar, derramando rios de lágrimas. O revólver Taurus, de calibre 32 estava jogado no chão ao lado do corpo inerte em pedaços. O cano estava quente e o cheiro de pólvora infestava o ar do pequeno cômodo. A policial verificou a arma e todos os cinco projéteis haviam sido disparados.
Ela nunca mais vai me trair. Acabei com o almofadinha que tirava o sossego da minha Paulinha. Ela nunca mais vai me trair, repetia Toninho atônito e fora de si.
Os policiais vasculharam a casa e o pátio para encontrar detalhes, testemunhas e corpos. Afinal foram cinco tiros.
Mas nada encontraram até que surgiu uma mulher assustada com o acontecido e falou aos policiais que Toninho não tinha feito aquilo por mal. Ele só estava com ciúmes. Era Paulinha, justificando o ato do marido.
Ele matou Francisco Cuoco por ciúmes. Ela não perdia um capítulo da novela Pecado Capital, onde Cuoco era o taxista que “enricou” e que encantava as moças novelistas dos anos 70. Paulinha não perdia um capítulo e Toninho ficou enciumado por testemunhar o olhar da mulher para o galã da telenovela. Não havia outro jeito. Mataria Francisco Cuoco de ciúmes.
Chegou em casa e viu Paulinha suspirar vendo as cenas de Francisco Cuoco e Betty Faria. Não aguentava mais de ciúmes doentio. Entrou na sala com o Taurus 32 carregado e não teve dúvidas. Descarregou o revólver no rival. Matou Francisco Cuoco com cinco tiros. Estilhaços de vidro do tubo da televisão espalharam pela sala e o corpo da velha tv ficou estirado no tapete.
Paulinha correu para a vizinhança e só voltou quando a polícia chegou. De nada adiantou o ciúmes de Toninho. Perdeu Paulinha, perdeu a TV que teve de continuar pagando em 36 vezes no carnê e ela continuava amando Francisco Cuoco e não perdendo um capítulo. Passou a assistir na casa do vizinho. Toninho foi liberado, pois o corpo na sala era a TV Telefunken, mortinha.