domingo, 28 de junho de 2026

TROCOU A NOVINHA POR UMA VELHA DE 40


As excursões para santuários, principalmente, podem ser muito divertidas. Na maioria dos casos a turma de romeiros é composta por 90% de senhoras de certa idade, alguns casais e quase nenhum jovem  solteiro. Tem que ter paciência até chegar ao destino, já que a maioria está com seus celulares com os olhos na tela. A conversaiada começa já antes do embarque, com os tradicionais envios de bom dia e mensagens daquelas que irritam e enchem as contas dos grupos dos viajantes.


Tem àquelas que fazem ligação de vídeo a todo volume para se despedir dos netos. Não adianta o guia informar que devem usar fone de ouvido. Mas o divertido é ficar ouvindo as conversas dos outros, que não falam baixo. E geralmente se conhecem por serem parentes, vizinhos, amigos ou já terem viajado juntos. 


E os diálogos são ricos revelando suas vidas para todos os 30 ou 40 passageiros. Perguntam como estão, se estão com saudades da vovó, mesmo a viagem nem ter começado. Outras recomendam sobre o café da manhã e o almoço que deixaram preparado com mesa posta. Tem aquelas que deixam a roupa na máquina de lavar e recomenda que estendam caso o sol abra. Caso venha a chover que use o varal lá dos fundos no coberto onde deixam as tralhas.


E próximo a minha poltrona uma senhora com a filha e o netinho de 7 meses. A vovó tomou conta do netinho, trocava fraldas e o aroma do resultado inebriava o ônibus de excursão. Levaram seus lanches, também, para evitar gastar nas paradas e na hora do almoço. A moça era jovem e bonita e quando o guia começou a conversar com os passageiros ela já disse que era solteira, pois o pai do menino não prestava. O pai da garota não permitiu o namoro porque ele era “caixeiro” ,  uma espécie de ladrão que assalta caixas eletrônicos. Está em uma temporada na pensão da penitenciária. Tudo isso se descobre apenas observando e ouvindo a conversa alheia dentro de um ônibus, num posto de saúde, em um ponto de ônibus e em outros locais públicos. As pessoas não reservam suas intimidades. Confidenciam, relatam, contam e aumentam. 


Depois da missa das 10h no Santuário, tempo livre para caminhar pelo parque e almoço antes do retorno. No início da tarde todos de volta aos seus lugares e a garota preocupada com o pai que ficou em casa, mas pelo menos tinha comida pronta que a mãe deixara cedinho antes de saírem. 


  • Mãe, e o pai, tem que ligar para ele. Ver se está bem.

  • Te aquieta “fia”. Aproveitou para pedir para Santo Antônio te encaminhar na vida? Hoje é o dia do santo casamenteiro.

  • Mas tem que saber como ele está.

  • Não precisa. Deixei comida pronta. Ele que se vire. E você tome tenência, já se desencabeçou demais. 

  • Mas mãe,  o pai não telefonou, nem passou mensagem. Será que está bem?

  • “Fia”, você não vai ligar. O véio deve estar “encharcado”, ainda. Antes de chegar no desembarque a gente avisa. A filha se aquietou e como a vovó cuidava do menino ela fuçava no celular, vendo o instagram e comentava cada foto e novidades que estava lendo.

  • Mãe, o Toninho trocou de mulher?

  • Parece que sim. Largou aquela piriguete, sentenciou a senhora.

  • Mãe, olha só. Eu não sabia, mas largou a Paulinha por uma velha..

  • Bem isso. A comadre me falou que ele já andava enrabichado com outra.

  • Mãe, mas ele trocou a Paulinha por uma velha. Esta “véia” deve ter uns 40 anos..Que coisa..

  • É, veja só. Parece que isto é moda agora. Guri novo com mulher “véia”.


Pelo jeito as duas mudaram os limites de idade da humanidade. E quando o ônibus chegou no desembarque, a filha pegou o celular e fez uma ligação. Ouviu resmungos, fala atrapalhada e enrolada. Desligou e disse para a mãe que era melhor chamar um Uber, porque o véio continuava encharcado, com os pés molhados e dando curto.


Embarcaram, também chamei meu Uber e fui para casa matutando. Huumm, velha de 40? Então assim já me consideram um matusalém. Na próxima excursão eu vou ouvir tudo de novo atentamente para anotar e depois conto para vocês. Será para Aparecida, lá onde está a Padroeira do Brasil. O repertório deve ser maior. Bom domingo e não percam a missa, mas sem celular e nem reparar na vida dos outros. 


sábado, 20 de junho de 2026

O ENTERRO DO POETA QUE PAROU O BAIRRO

Por volta das cinco horas da tarde, de uma quinta-feira de outono, o dono do boteco com os olhos cheios de lágrimas, inchados e vermelhos amarra uma fita preta na porta do estabelecimento. Naquela tarde receberia os habituais fregueses com um sentimento de pesar. Nada de música alegre que sempre tocava na rádio preferida e nem a TV ligada para quem gosta de assistir jogos de futebol. O dia era diferente.


No meio da tarde começaram a chegar os clientes habituais.


  • Me dá uma gelada.

  • Dá para fazer uma caipira dupla?

  • Serve um “mercedinho” triplo

  • Sobrou costela de ontem? Me faz um sanduba

  • E aquele torresminho lá do oeste, chegou?


Começaram os pedidos dos clientes que notaram a cara de poucos amigos do bolicheiro. Ele só ia servindo, mas sem mostrar os dentes. Também nada falou sobre a fita preta amarrada na porta do bar. Volta e meia olhava para o mar, suspirava, respirava fundo e voltava a servir às mesas. O mesmo pano que limpa as mesas é o mesmo que seca a louça, limpa as mãos e tira o suor do rosto. Tardes de outono à beira-mar são lindas com um sol forte que não esquenta, mas revela a beleza da natureza.


Pouco antes das cinco da tarde começaram a chegar mais pessoas, mais chegados, amigos e conhecidos do poeta, rostos tristes, olhares distantes e lacrimosos. Ele deixaria saudades.


Cinco horas, com pontualidade britânica, o melhor amigo do poeta e que viveu com ele por muitos anos pediu respeito do silêncio e a palavra para explicar o ocorrido e marcar o momento solene de dor, tristeza e despedida. 


Viveu até muito idoso. Alegrou a todos, era parceiro, amigo e brincalhão. E era assíduo e pontual no bolicho, praticamente todo dia. Nem mesmo com chuva e vento sul, ele não  faltava ao compromisso. Mas a natureza é implacável. A idade chega a cavalo e nos leva a trote pelo campo celeste.


O bar se calou, até os menos tolerantes com a presença do poeta, sentiram a perda. Afinal com quem vamos ralhar. O seu melhor amigo com quem viveu até seus últimos dias não teve forças e nem disposição para falar. Apenas abriu a urna e depositou as cinzas com o próprio punho, carinhosamente espalhou no pequeno canteiro com grama ao lado da porta de entrada. Ali ficará o poeta, olhando para o horizonte do mar de Coqueiros, onde viveu e frequentou, fez amigos e admiradores. 


Lupicínio viveu com muitas histórias e foi testemunha de muitos amores, de muita beleza e também dos desabafos dos amores terminados, perdidos, novas paixões, alegrias e desencantos dos cativos frequentadores do bolicho à beira-mar. Mas Lupi, que ganhou esse nome em homenagem ao poeta, compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, o que mais entendeu a dor de cotovelo dos amores impossíveis, proibidos, inacabados, ciumentos e paixões arrebatadoras. 


O poeta canino de quatro patas não deixou em testamento a música preferida para o dia de sua partida, mas certamente seria essa, composta pelo compositor gaúcho:


Felicidade foi-se embora

E a saudade no meu peito ainda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora 





domingo, 14 de junho de 2026

O DIA DOS NAMORADOS MAIS FELIZ DA COPEIRA

 

Este fato verídico e verdadeiro já faz tempo. Como já foi caducado por decurso de prazo vou contar. Trinta anos se passaram daquele Dia dos Namorados com um final cheio de alegria, emoções, agradecimentos, choros e risos.


Por volta das 10 horas da manhã, Júnior aparece na repartição com um lindo buquê com doze rosas vermelhas, cor da paixão. Não economizou. O presente contemplava também uma caixa de finos bombons da Kopenhagen. Algo fino mesmo. E foi além nos gastos, pois passou na joalheria no dia anterior e comprou um lindo anel que presentearia a colega com que ele havia saído algumas vezes e poderia ser um romance promissor. Júnior aproveitaria a data para pedi-la oficialmente em namoro, na frente da equipe toda. 


Entrou na sala todo enfeitado, senhor de si, pisando firme, sorriso largo no rosto e com os presentes nas mãos. Mas antes mesmo que pudesse teatralizar, aquela besteira de se ajoelhar, presentear e jurar amor, ele viu o que não queria. A dita moça, que ele estava caído de amores, estava perto de um outro colega, baixinho, barrigudo, careca, ou seja, o estereótipo do não galã. Ela o acariciou e devolveu uma jaqueta esportiva do São Paulo Futebol Clube. Ela sussurrou algo no ouvido do “clone de Danny DeVito”  a confidenciando que o agasalho a protegeu do frio, mas o calor da noite anterior foi muito melhor do que se tivesse sido com o ex-jogador Raí que havia autografado a jaqueta do tricolor paulista. A noite deveria ter sido quente em campo, no apartamento dele onde havia só um colchão de solteiro no chão, uma geladeira e um fogareiro com liquinho.


Aí o Junior se desmontou. Parou, ficou pálido e sem reação alguma. Deu meia-volta rapidinho e seguiu para a copa, onde uma senhora muito querida nos fazia o café diariamente. 


  • Dona Neide, por favor, pegue este presente para a senhora. Por favor, pegue logo!

  • Mas meu filho, o que é isso? Porque?

  • Não me pergunte nada. Apenas pegue de presente. Insistiu e saiu pela  porta do corredor, desceu as escadas e só voltou na segunda-feira.


Contente pelo presente inusitado, Dona Neide colocou as flores em um bule alto, um melhoral na água das flores para durarem mais. A copa ficou linda, o vermelho das flores resplandecia o ambiente. Todos corriam para tomar um café e ver as lindas rosas vermelhas que a dona Neide recebera. Imaginaram que era do marido, o que é pouco provável, pois vivia encharcado de cana em casa, enquanto ela trabalhava. Os bombons caríssimos ela ofereceu junto com o cafezinho para todos do setor e o anel, não se sentiu bem em receber algo tão valioso. Esperou o apaixonado esfriar o chifre, voltar ao trabalho e devolveu, aconselhando que recuperasse o dinheiro. Afinal ele gastou o salário de um ano pelo ato impensado de amor. 


A moça? Nem deu bola, continuou se divertindo com o aficionado tricolor paulista. Ele tinha até meião autografado pelo ex-jogador Richarlyson. E ela deixava de andar no carro de luxo que ela tinha para passear no Fiat Premium fumaçando e com um porta-malas, conhecido como kit sobrevivência. Ali tinha fardamento de time de futebol, toalha de banho, necessaire, e o infalível isopor sempre lotado de vários tipos de cervejas de vários lugares do mundo. Sim, é claro, sempre um cobertor pega-pulga e travesseiro no banco traseiro. E no toca-fitas Tojo uma seleção de heavy-metal em especial Screaming for Vengeance do Judas Priest. Vá entender o gosto da formosa dama…


sábado, 30 de maio de 2026

ENCIUMADO, MATOU O ARTISTA E NÃO FOI PRESO

Toninho não tinha paz na vida, na sua alma atormentada pelo ciúmes. Não dava um minuto de folga para a esposa. Toda hora queria saber onde ela estava. Ligava para o trabalho para saber o que estava fazendo, porque havia demorado tanto para atender o telefone e desconfiava até do tempo que ela ficava no banheiro. Um psicopata total. E sempre quando ela demonstrava desgosto vinha com as desculpas do eu te amo tanto.


Paulinha estava de saco cheio daquela situação, mas com temor de mandar o Toninho andar. O ciúmes dele era doentio. Os parentes alertavam, os amigos temiam o pior. Ele dava a volta na casa para ficar escutando pela janelinha do banheiro se tinha alguém com ela e se falava algo. Completamente endoidecido. 


Em uma noite de quinta-feira a central de atendimento da Polícia Militar recebeu uma chamada no 190.


  • Polícia Militar boa noite, qual a ocorrência? Solicita a policial de plantão.

  • O vizinho matou alguém ouvi tiros.

  • Qual seu endereço?


A pessoa informou e em poucos minutos uma patrulha da PM chega na casa. Na sala a imagem da tragédia. Vidros estilhaçados, móveis quebrados. Apenas o Toninho desolado, chorando sem parar, derramando rios de lágrimas. O revólver Taurus, de calibre 32 estava jogado no chão ao lado do corpo inerte em pedaços. O cano estava quente e o cheiro de pólvora infestava o ar do pequeno cômodo. A policial verificou a arma e todos os cinco projéteis haviam sido disparados. 


  • Ela nunca mais vai me trair. Acabei com o almofadinha que tirava o sossego da minha Paulinha. Ela nunca mais vai me trair, repetia Toninho atônito e fora de si.


Os policiais vasculharam a casa e o pátio para encontrar detalhes, testemunhas e corpos. Afinal foram cinco tiros. 


Mas nada encontraram até que surgiu uma mulher assustada com o acontecido e falou aos policiais que Toninho não tinha feito aquilo por mal. Ele só estava com ciúmes. Era Paulinha, justificando o ato do marido.


Ele matou Francisco Cuoco por ciúmes. Ela não perdia um capítulo da novela Pecado Capital, onde Cuoco era o taxista que “enricou” e que encantava as moças novelistas dos anos 70. Paulinha não perdia um capítulo e Toninho ficou enciumado por testemunhar o olhar da mulher para o galã da telenovela. Não havia outro jeito. Mataria Francisco Cuoco de ciúmes.


Chegou em casa e viu Paulinha suspirar vendo as cenas de Francisco Cuoco e Betty Faria. Não aguentava mais de ciúmes doentio. Entrou na sala com o Taurus 32 carregado e não teve dúvidas. Descarregou o revólver no rival. Matou Francisco Cuoco com cinco tiros. Estilhaços de vidro do tubo da televisão espalharam pela sala e o corpo da velha tv ficou estirado no tapete. 


Paulinha correu para a vizinhança e só voltou quando a polícia chegou. De nada adiantou o ciúmes de Toninho. Perdeu Paulinha, perdeu a TV que teve de continuar pagando em 36 vezes no carnê e ela continuava amando Francisco Cuoco e não perdendo um capítulo. Passou a assistir na casa do vizinho. Toninho foi liberado, pois o corpo na sala era a TV Telefunken, mortinha. 


sábado, 23 de maio de 2026

Quero uma coroa

A atendente era uma mulher com seus mais de 40 anos, bem vestida, charmosa e com certa atratividade. Cabelos presos, camisa azul com os dois primeiros botões abertos. Saia justa que delineava sua silhueta. Perguntou o que eu desejava. Sem a menor dúvida fui direto ao ponto.


- Quero uma coroa para botar...Ela nem deixou eu terminar a frase e respondeu prontamente de forma ríspida.


- O que o senhor está pensando. Olhe bem para o senhor. Não tem espelho? Não vou admitir falta de respeito. Coroa deve ser sua mãe. Sou ainda jovem e não me considero como tal.


- Desculpe senhora, eu não queria ofendê-la. Apenas estou precisando....


- Se está precisando, procure em outro lugar e não venha com cantadas baratas como se fosse um pedreiro ou coisa pior - devolveu a tal atendente.


- Me deixe explicar madame. Eu apenas quero saber quanto custa…


- O que ? Acha que estou à venda? que tenho preço. Afinal qual o seu interesse? Me ofende e agora quer me comprar? Vociferou já perdendo a compostura.


- Não é nada disso. Eu só estou querendo muito resolver esta situação, respondi calmamente.


- Pois vá resolver em outro lugar. Aqui não é o local, isto é uma clínica odontológica, tratou de reafirmar a atendente.


- Eu sei e é o que estou tentando saber da senhora, como se faz e quanto custa uma coroa de porcelana, uma jaqueta, um dente de ouro, enfim. É para meu molar inferior direito que está quebrado.


- Ahhhh, finalmente o senhor se fez entender, disse a atendente envergonhada por não ter entendido que eu queria uma coroa de porcelana sob medida para meu dente. 


Respirei aliviado, pois os demais pacientes já me olhavam com olhares de culpado, de assediador, querendo a coroa, ou seja a dama de 40 e poucos anos que atendia na recepção.


Consegui agendar a consulta. Da próxima vez já chego de boca aberta mostrando o dente danificado, antes que ela quebre os demais por não entender o intuito. 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O AUTO DA APARECIDA

O renomado escritor pernambucano Ariano Suassuna escreveu o Auto da Compadecida, imenso sucesso editorial que virou filme e peça de teatro. Mas vou lhes contar um episódio que envolve o Auto da Aparecida. 


Aparecida era uma santa mulher, muito dedicada à família e aos amigos. Em uma manhã de sábado estava sendo aguardada na Paróquia a que ela pertence. Não falhava em seus compromissos e nunca deixou uma alma desassistida ou esperando por ela. Era pontual. Repetia que não estaria em um compromisso se estivesse morta. Aparecida era uma santa, repetiam os vizinhos e até gente de longe já conhecia a fama dela de ser leal, pontual e altruísta.


Naquele sábado haveria festa na igreja com missa, churrasco e bingo de tarde. Todos os festeiros voluntários já haviam chegado cedo para começar os preparativos de copa e cozinha, bem como auxiliar na missa e arrumar tudo para o bingo com ótimos prêmios que aconteceria de tarde. Já passava das 8 horas e nada de Aparecida que estava com as chaves do salão. O pároco confiava as chaves nas mãos dela porque era responsável e nunca falharia com os demais.


Pouco mais de meia hora de espera surge na esquina um garoto correndo, esbaforido que chegou perto do grupo cansado sem poder falar e com sofreguidão deu notícias sobre Aparecida.


  • Dona Aparecida não vem! Anunciou o garoto com dificuldades de falar e respirar devido ao cansaço por ter vindo correndo para avisar.

  • Per l`amor di Dio. Quello che è successo? Questionou o padre.

  • Uma tragédia - respondeu o menino que era vizinho de Aparecida. Entregou as chaves para que pudessem abrir o salão.

  • Me conta, o que aconteceu? Insistiu o padre.

  • Uma tragédia…e ela não vai poder vir ajudar, repetiu o mensageiro.

  • Desembucha, filho. Parece com esta agonia e conte tudo - ordenou o sacerdote

  • É que o auto de Aparecida estragou, não pegou, não deu a partida, deve ser bateria, explicou.


Todos se calaram por alguns segundos. Se olharam, balançaram a cabeça com tristeza no semblante.


  • Ma Santo Cielo, perché non hai parlato prima- esbravejou o padre que apontou para dois paroquianos e já penitenciou:

  • Corram e empurrem o Auto da Aparecida até pegar. Ela precisa estar aqui. Festa da paróquia sem Aparecida, não é Festa da Paróquia, finalizou o padre


E por falar em festa de Igreja, neste sábado, 9 de maio tem Festa da Padroeira, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro Glória, em Joinville. Missa, churrasco de igreja e bingo. E também vai ter posto de vacinação para quem ainda não se vacinou ou quer atualizar sua carteira de vacinação. 


Aparecida com seu auto estarão lá? Acho que sim, porque festa da paróquia sem Aparecida, não é festa da Paróquia. 


sábado, 2 de maio de 2026

O FRIO LAGEANO E O CONGELAMENTO DO PREFEITO

Agora de manhã, proseando com uma colega lageana, lembrei de um acontecido nas terras altas e geladas de Lages. Fato ocorrido durante a Festa do Pinhão de 2002 que coincidiu com a Copa do Mundo, o ano do Penta.


Naquele ano, o prefeito de Joinville Luiz Henrique havia renunciado em 4 de abril para se candidatar a governador e o vice-prefeito Marco Tebaldi assumiu o governo. Recebemos o convite para ir na Festa do Pinhão e fomos recebidos e hospedados no Rancho Rochedo do sempre agradável Roberto Amaral, dono do grupo de comunicação SCC.


Seguimos de Joinville, o Tebaldi, eu, o Ivan na pilotagem e o ex-vereador João Gaspar. Noite agradável, encontro com amigos de longa data, música boa e comida melhor ainda. Naquele ano o ex-prefeito de Florianópolis preparou um entrevero de frutos do mar, algo diferenciado que fez todos lamberem os beiços. Lá pelas 2 horas da madrugada seguimos para o Rancho Rochedo, naquele frio de renguear cusco. Até comprei uma manta de lã e enrolei no pescoço para me proteger do vento gelado e um chapéu para não pegar friagem.


Chegando no Rancho Rochedo começou a fiasqueira. Após horas de estrada e programação noturna intensa, cheiro de fumaça das fogueiras que assavam pinhões, esquentava água para o mate e o preparo do entrevero e churrasco. Estávamos cobertos de fumaça, gordura e acho que um zorrilho era mais perfumado e chegava perto. 


Encontramos quartos bem aconchegantes, mas a hora da verdade quando um gaudério mostra sua força é no momento de deitar o pelo no lençol gelado. Chora lágrimas de gelo. Mas o aquecedor a óleo ajudava no aquecimento do ambiente. Gaspar estava com medo que aquilo pudesse pegar fogo e não queria acionar. Ivan, não muito certeiro queria dormir no salão. Disse que ele congelaria lá embaixo pois na frente tem um lago e estava congelado. Eu me deitei com roupa e tudo. Vestir pijaminha de pelúcia? Nem pensar naquela altura. Sairíamos cedo para retornar a Joinville.


E Tebaldi resolveu que não iria dormir enfumaçado. O vivente se foi para o chuveiro e minutos depois ouvimos um grunhido, uma resmungação, um pedido de ajuda. Imaginei que era alguma alma penada de antigos tropeiros. Desconfiados fomos até o quarto dele e lá estava o prefeito da maior cidade catarinense tremendo, batendo de queixo como se fosse guizo de cascavel. Bateu a hipotermia. O Ivan lembrou que viu num filme que se deitando por cima do congelado aqueceria o tal e sobreviveria. Nenhum dos três se animou. Tratei de pegar um monte de cobertores de lã e jogar por cima do xiru véio e ligar o aquecedor. Alguns minutos depois recuperou o calor corporal e passou a tremedeira.


Na manhã seguinte, na hora do café, num sábado gelado, olhamos pela janela e o cenário era de uma pintura. O cerro branco de geada, a água do lago congelado e um cusco maleva rengueando de frio pelo gramado coberto de gelo, deu para entender o fiasco da noite anterior. Mesa farta, café passado e pancinha cheia retornamos para Joinville. Não tirei minha manta e nem meu chapéu que uso até hoje. Em breve chega o frio, pinhão, comida boa, música gaúcha e a alegria de viver com boas lembranças.



TROCOU A NOVINHA POR UMA VELHA DE 40