domingo, 26 de outubro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-II A DEVOLUÇÃO DO AMANTE

Quando o “auto de praça” parou em frente a casa da costureira, muitas mulheres que ali estavam foram até a porta pra ver o carrão. Era um Opala 4 portas marrom. A porta direita traseira se abriu e dela desceu uma mulher deslumbrante. Primeira imagem foi seu pé direito com um sapato de salto alto e logo em seguida suas pernas bem torneadas e o vestido de tafetá  cor vinho. Ao se levantar do banco de passageiros pediu ao chofer que a esperasse. Não importava pagar a hora parada do taxista. 


Na calçada antes de entrar na casa, sua beleza, encantamento e sedução, era capaz de seduzir não só homens, mas mulheres também que olhavam admiradas para a famosa “Cola de Ouro”. Dona de uma casa afamada na zona do município e que não economizava tostões no bem viver. Se dava ao luxo de boas roupas, viagens, jóias vistosas e manter seu taxista com carro de luxo sempre à disposição. 


Mantinha uma casa de respeito, frequentada por clientes que podiam pagar. Ela sempre repetia que na casa dela, as meninas não bebiam cerveja. Apenas uísque de boa qualidade para “não criar barriga”. Cerveja engorda e damas da noite gordas, inchadas, com pneuzinhos não era bom para os negócios nem para  a fama da casa. A alcunha “Cola de Ouro”, vocês devem imaginar do que se trata. Sim, era caro. 


Mas todas perceberam que por trás dos finos óculos escuros e do rosto encoberto pelo chapéu chic, havia uma lágrima que descia pelo belo rosto da bela mulher que deveria ter uns 40 anos. Entrou na sala de costuras cumprimentou todas as senhores incluindo damas da sociedade e damas da noite que juntas folheavam revistas de moda Burda, Figurino, Vogue, Desfile, Manequim e outras para escolher os modelos das roupas que iriam confeccionar. Ela já trouxe o desenho do novo vestido, o tecido e os acessórios que queria. Indicou a bordadeira para o detalhe final. Ela queria um bordado de uma camélia vermelha. 


Sentindo que a cliente não estava muito bem, a costureira a convidou para ir até a cozinha tomar um cafezinho. Sentou-se e serviu meia xícara de café preto sem açúcar, para manter a elegância. Agradeceu o pedaço de pudim, não faria isso com ela mesma. A costureira perguntou:


  • O que houve minha filha, porque tanta tristeza?

  • Acabou. Não aguento mais. Minha vida se tornou um vazio imenso. Repontou a famosa cortesã.

  • O que de grave aconteceu? Você está chorando. Sempre foi uma moça tão alegre, contemporizar a costureira.

  • Depois de 20 anos tive de devolver o Celsinho. E sinto falta dele. Celsinho foi o amante dela por anos. Pequeno, magrinho, educado, calmo, e que a ajudou no início, pois ele era um bem colocado funcionário do Banco do Brasil. Deu a ela um talão de Cheque Ouro. Foram anos de convivência e ela aturando o alcoolismo dele. Para nada servia em termos de homem e mulher, mas ele era boa companhia e dava respeitabilidade a ela e a casa. Ninguém arrumava bagunça, pois ela era do Celsinho e nenhuma beberagem ou confusão na casa também em respeito ao Celsinho.

  • Mas há motivos para isso? Questionou a costureira.

  • Ele está morrendo de câncer, de tanto fumar e beber a vida toda e ontem não tive escolha. Peguei as coisas dele e mandei entregar na casa dele. A esposa atendeu e na carta expliquei que ela poderia ficar com ele de agora em diante. Ele precisa de cuidados. As lágrimas contidas se transformaram em choro desesperado. Abraçada na costureira buscou amparo e acolhimento. 


Recomposta e com a maquiagem refeita voltou à sala de costuras para tirar as medidas, discutir o modelo que veio desenhado por modelista. Ao sair cumprimentou todas as frequentadas e seguiu para o carro. Aquela seria outra noite de trabalho normal, destruída por dentro, pelo amor desfeito, mas sorriso no rosto para bem receber os clientes dispostos a diversão, boa bebida e música ao vivo, onde imperava tangos e boleros. 



sábado, 18 de outubro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-I - AS NAMORADAS DOS PADRES

     Fui criado no meio de tecidos, costuras, clientes, provas de roupas, entra e sai de gente em casa. Minha mãe era costureira e na sala de costuras se ouvia de tudo. Era confessionário, clínica de psicologia e até psiquiatria. O mundo de cada uma das clientes desfilava por ali e com elas suas dores, amores, segredos, sonhos, desilusões, esperanças, desesperanças, perdas, danos, conquistas. Enfim suas vidas circulavam em rodas de chimarrão e muita conversa. Nesta série vou contar um pouco do que ouvi, vivi e guardei.


Esta primeira crônica, após acompanhar na semana passada o caso da  fiel, moça linda, jovem e noiva que pediu para "usar o banheiro e o quarto" do pároco em Nova Maringá (MT) , vem na lembrança duas clientes de minha mãe.


Na rua onde me criei, uma das vizinhas tinha uma amizade muito próxima com um padre da região. Ele era um senhor de origem alemã, gorducho, baixinho e divertido. Cantava e tocava acordeão e os Kerb comunitários eram sucesso pela sua animação. Festa de Igreja com o tal padre era casa cheia.Toda semana ele vinha fazer uma visita para nossa vizinha. Dava a benção e ia embora. Com esta amizade mantinha uma boa casa, boa comida, bons calçados e boas roupas. Era bonitona, bem do tipo italiana avantajada de ancas largas e seios fartos. 


Outro pároco famoso, com uma voz bem grave e muito bem querido no bairro onde era o pároco, trazia a secretária da paróquia toda semana para novas roupas. Vestidos, camisas, taileur para ficar bem vestida durante  os expedientes na secretaria paroquial. Ele ficava aguardando, sentado em uma das cadeiras espreguiçadeiras, feitas com armações de ferro pesadas e trançados de fios plásticos fortes,  que tínhamos na área da frente de casa, uma ante-sala. Ali fumava seu cigarro, tomava umas cuias de chimarrão com meu pai e aguardava a funcionária tirar medidas, provar as roupas. Ela fazia questão de vir com a nova peça mostrar e sempre perguntava:


- Estou bem, o que o senhor acha? com um sorriso maroto. E o padre sério, com olhar um tanto encabulado e tragando mais uma baforada de Du Maurier longo, e com voz forte de baixo aprovava.

- Estás belíssima, minha filha, dizia o padre enquanto olhava para meu pai e estendia a mão devolvendo a cuia. E todos sabiam que ela era bela, elegante e atraente. Tão elegante e desejada quanto Monica Belucci no filme Malena. Principalmente na cena que ela caminha de vestido branco, bolsa preta e sapatos de salto alto. Cabelos pretos esvoaçantes, beijados pelos ventos do litoral. 


Ótimas clientes e o pagamento era à vista, em dinheiro e sem regatear. Almas abençoadas.


Imagem: Monica Bellucci - Filme Malena (2000)


sábado, 4 de outubro de 2025

PIAZOTE VALENTE E O ESCONDERIJO

Outubro é o mês em que comemoramos o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e também o dia das crianças, no próximo dia 12. E com estas datas nos lembramos de quando éramos crianças. Nem todos tiveram boas infâncias e boas recordações. Eu as tive.  Fui afortunado de ter pais amorosos, uma casa, comida, escola, vizinhos, amigos e brincadeiras na rua até altas horas. E também tinha peleias, das boas.


Certa feita arrumei uma encrenca com a piazada da rua e como eu era valente tratei de mostrar quem  mandava no campinho. Provoquei a gurizada do outro lado da rua e corri para dentro de casa. Voltei com um facão três listas com cabo de chifre, já fora da bainha de couro. Ficava guardado perto do fogão à lenha. Tratei de pegá-lo, sem que ninguém visse. Saí da cozinha, passei pela sala de costura da mãe que estava com muitas clientes e nem a vó Elvira percebeu minha proeza. 


Saí pela porta da frente e cheguei na calçada. Levantei o facão e comei a façanha. E dê-lhe gritos com os inimigos. Ali iria começar uma nova Revolução Farroupilha. A rua tinha sido calçada recentemente com paralelepídeos e a cada brado provocativo eu riscava o facão nas pedras que saia chispa. Estava valente igual ao General Bento Gonçalves. Era faísca pra todo lado. Nenhum deles atravessou a rua para me enfrentar. Mas nas minhas costas fui atraiçoado por um grito feroz: 


  • Já pra dentro. Guarda o facão do teu pai e espera ele chegar! Como não podia me dar por vencido olhei para o outro lado da rua e berrei:

  • Eu volto, me aguardem. E entrei correndo para meu esconderijo e assim arquitetar a volta triunfante. Não me dei por vencido de jeito  nenhum. Sai de meu esconderijo e voltei ao local da batalha. 


Iniciei uma guerra de pedrada. Era pedra que ia e pedra que vinha. Numa de minhas artilharias pesadas acertei a tolda do jipe de um vizinho que morava próximo. Só que ele  era amigo de meu pai. Era o jipe do Abrahão Haoach, um comerciante libanes que tinha lojas no centro. Quando vi a besteira e percebi que ele parou o jipe e voltou, me retirei estrategicamente em marcha rápida para meu esconderijo. Quieto, quase sem respirar estava aguardando tudo se acalmar, para quem sabe continuar a batalha. 


Senti duas mãos que me pegaram pelos tornozelos e me arrastaram rapidamente, me tirando debaixo da cama da avó Elvira. Ali era meu esconderijo preferido a cada necessidade de fuga rápida. 


Ouvi as acusações, Abrahão foi embora e veio o julgamento, sentença e aplicação da pena com a vara de marmelo. Ali encerrei minha carreira de peleador. Nada mais de facão, pedras e abandonei meu esconderijo. No ano seguinte comecei a frequentar a Escola Estadual dos Subúrbios, com boas notas ganhei uma Monareta 1970. Deixei de ser peleador para ser um aventureiro e descobrir a quadra toda, a rua de trás e depois os bairros. Era a liberdade de uma infância saudável e feliz.