Quando o “auto de praça” parou em frente a casa da costureira, muitas mulheres que ali estavam foram até a porta pra ver o carrão. Era um Opala 4 portas marrom. A porta direita traseira se abriu e dela desceu uma mulher deslumbrante. Primeira imagem foi seu pé direito com um sapato de salto alto e logo em seguida suas pernas bem torneadas e o vestido de tafetá cor vinho. Ao se levantar do banco de passageiros pediu ao chofer que a esperasse. Não importava pagar a hora parada do taxista.
Na calçada antes de entrar na casa, sua beleza, encantamento e sedução, era capaz de seduzir não só homens, mas mulheres também que olhavam admiradas para a famosa “Cola de Ouro”. Dona de uma casa afamada na zona do município e que não economizava tostões no bem viver. Se dava ao luxo de boas roupas, viagens, jóias vistosas e manter seu taxista com carro de luxo sempre à disposição.
Mantinha uma casa de respeito, frequentada por clientes que podiam pagar. Ela sempre repetia que na casa dela, as meninas não bebiam cerveja. Apenas uísque de boa qualidade para “não criar barriga”. Cerveja engorda e damas da noite gordas, inchadas, com pneuzinhos não era bom para os negócios nem para a fama da casa. A alcunha “Cola de Ouro”, vocês devem imaginar do que se trata. Sim, era caro.
Mas todas perceberam que por trás dos finos óculos escuros e do rosto encoberto pelo chapéu chic, havia uma lágrima que descia pelo belo rosto da bela mulher que deveria ter uns 40 anos. Entrou na sala de costuras cumprimentou todas as senhores incluindo damas da sociedade e damas da noite que juntas folheavam revistas de moda Burda, Figurino, Vogue, Desfile, Manequim e outras para escolher os modelos das roupas que iriam confeccionar. Ela já trouxe o desenho do novo vestido, o tecido e os acessórios que queria. Indicou a bordadeira para o detalhe final. Ela queria um bordado de uma camélia vermelha.
Sentindo que a cliente não estava muito bem, a costureira a convidou para ir até a cozinha tomar um cafezinho. Sentou-se e serviu meia xícara de café preto sem açúcar, para manter a elegância. Agradeceu o pedaço de pudim, não faria isso com ela mesma. A costureira perguntou:
O que houve minha filha, porque tanta tristeza?
Acabou. Não aguento mais. Minha vida se tornou um vazio imenso. Repontou a famosa cortesã.
O que de grave aconteceu? Você está chorando. Sempre foi uma moça tão alegre, contemporizar a costureira.
Depois de 20 anos tive de devolver o Celsinho. E sinto falta dele. Celsinho foi o amante dela por anos. Pequeno, magrinho, educado, calmo, e que a ajudou no início, pois ele era um bem colocado funcionário do Banco do Brasil. Deu a ela um talão de Cheque Ouro. Foram anos de convivência e ela aturando o alcoolismo dele. Para nada servia em termos de homem e mulher, mas ele era boa companhia e dava respeitabilidade a ela e a casa. Ninguém arrumava bagunça, pois ela era do Celsinho e nenhuma beberagem ou confusão na casa também em respeito ao Celsinho.
Mas há motivos para isso? Questionou a costureira.
Ele está morrendo de câncer, de tanto fumar e beber a vida toda e ontem não tive escolha. Peguei as coisas dele e mandei entregar na casa dele. A esposa atendeu e na carta expliquei que ela poderia ficar com ele de agora em diante. Ele precisa de cuidados. As lágrimas contidas se transformaram em choro desesperado. Abraçada na costureira buscou amparo e acolhimento.
Recomposta e com a maquiagem refeita voltou à sala de costuras para tirar as medidas, discutir o modelo que veio desenhado por modelista. Ao sair cumprimentou todas as frequentadas e seguiu para o carro. Aquela seria outra noite de trabalho normal, destruída por dentro, pelo amor desfeito, mas sorriso no rosto para bem receber os clientes dispostos a diversão, boa bebida e música ao vivo, onde imperava tangos e boleros.