sábado, 4 de outubro de 2025

PIAZOTE VALENTE E O ESCONDERIJO

Outubro é o mês em que comemoramos o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e também o dia das crianças, no próximo dia 12. E com estas datas nos lembramos de quando éramos crianças. Nem todos tiveram boas infâncias e boas recordações. Eu as tive.  Fui afortunado de ter pais amorosos, uma casa, comida, escola, vizinhos, amigos e brincadeiras na rua até altas horas. E também tinha peleias, das boas.


Certa feita arrumei uma encrenca com a piazada da rua e como eu era valente tratei de mostrar quem  mandava no campinho. Provoquei a gurizada do outro lado da rua e corri para dentro de casa. Voltei com um facão três listas com cabo de chifre, já fora da bainha de couro. Ficava guardado perto do fogão à lenha. Tratei de pegá-lo, sem que ninguém visse. Saí da cozinha, passei pela sala de costura da mãe que estava com muitas clientes e nem a vó Elvira percebeu minha proeza. 


Saí pela porta da frente e cheguei na calçada. Levantei o facão e comei a façanha. E dê-lhe gritos com os inimigos. Ali iria começar uma nova Revolução Farroupilha. A rua tinha sido calçada recentemente com paralelepídeos e a cada brado provocativo eu riscava o facão nas pedras que saia chispa. Estava valente igual ao General Bento Gonçalves. Era faísca pra todo lado. Nenhum deles atravessou a rua para me enfrentar. Mas nas minhas costas fui atraiçoado por um grito feroz: 


  • Já pra dentro. Guarda o facão do teu pai e espera ele chegar! Como não podia me dar por vencido olhei para o outro lado da rua e berrei:

  • Eu volto, me aguardem. E entrei correndo para meu esconderijo e assim arquitetar a volta triunfante. Não me dei por vencido de jeito  nenhum. Sai de meu esconderijo e voltei ao local da batalha. 


Iniciei uma guerra de pedrada. Era pedra que ia e pedra que vinha. Numa de minhas artilharias pesadas acertei a tolda do jipe de um vizinho que morava próximo. Só que ele  era amigo de meu pai. Era o jipe do Abrahão Haoach, um comerciante libanes que tinha lojas no centro. Quando vi a besteira e percebi que ele parou o jipe e voltou, me retirei estrategicamente em marcha rápida para meu esconderijo. Quieto, quase sem respirar estava aguardando tudo se acalmar, para quem sabe continuar a batalha. 


Senti duas mãos que me pegaram pelos tornozelos e me arrastaram rapidamente, me tirando debaixo da cama da avó Elvira. Ali era meu esconderijo preferido a cada necessidade de fuga rápida. 


Ouvi as acusações, Abrahão foi embora e veio o julgamento, sentença e aplicação da pena com a vara de marmelo. Ali encerrei minha carreira de peleador. Nada mais de facão, pedras e abandonei meu esconderijo. No ano seguinte comecei a frequentar a Escola Estadual dos Subúrbios, com boas notas ganhei uma Monareta 1970. Deixei de ser peleador para ser um aventureiro e descobrir a quadra toda, a rua de trás e depois os bairros. Era a liberdade de uma infância saudável e feliz.


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