Já era final da tarde e o tempo enfeiou para o lado dos uruguaios. O gaúcho sabe que se São Pedro manda recados vem uma tormenta pela frente. O céu começou a "relampiar", escureceu e aquilo só podia ser um mandado para dar tenência aos pecadores.
Tratei logo de me prevenir. Peguei um três listras Coqueiro, passei a lima no fio que ficou igual navalha de barbeiro. Cortava uma folha de bananeira como se fosse manteiga.
Enquanto o tempito se enfeiava mais, peguei a prateada e fiz uma cruz de sal. Ali de joelhos puxei um Pai Nosso, uma Ave-Maria e uma oração para Santa Bárbara. Como reza a lenda, faça seu benzimento e enterre tudo até que a tormenta vá embora. Levei o três listras com toda a força da tormenta desfeita e adormecida, aprisionada em seu fio e enterrei lá fora, bem adiante para que puxasse os raios e a fúria de São Pedro e enterrasse tudo por lá.
O horizonte escureceu, o céu preteou. Preparei um mate e fiquei bombeando da janela se Santa Bárbara iria me proteger. Minha morada não aguenta um ataque pedras de gelo, muito menos um vento menor que o minuano e meus piás não podem ficar acamados.
Pedi com devoção, rezei o benzimento com fé e enterrei todo o mal no sal da terra.
Veio a tormenta com cara de quem iria se vingar daqueles malevas que sabem o que fizeram. Por Dios, muchas gracias. Passou a lo largo e só senti um rebencaço de ponta de relho que levou para longe meus trapos estendidos na cerca.
Vai embora tormenta. Leve todo este mal para além de minha querência! Gritei com força empunhando uma lança missioneira e um rebenque tala curta.
Em minutos o céu ficou claro, o sol voltou forte e sem uma nuvem traiçoeira para anunciar nova tormenta. E o cusco amigo saiu de debaixo de um pelego, se retoçando e com olhar firme agradeceu o benzimento que mandou a tormenta embora.
imagem:freepik
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