Nos tempos quando os clubes e sociedades faziam bailes de Carnaval, com verdadeiras orquestras, tocavam a noite toda e ainda alguns músicos acompanhavam os fecha-bar levando-os em cortejo para fora do clube já de manhã com sol forte e claro, é que se passa o que vou lhes contar.
Um colega de trabalho, não muito beneficiado pela natureza, sem muito jeito para conquistas e brincadeiras, foi se refestelar no popular Aceja, que existia em Erechim, do outro lado do viaduto, em frente a antiga concessionária Ford. Ali o bicho pegava. Os bailes iniciavam na sexta-feira e ainda tinha o matiné aos domingos de tarde para a criançada com o chamado Carnaval Infantil.
Antes de entrar no clube, passou pela frente várias vezes, indeciso se deveria comprar o ingresso e ir se divertir. Sempre levava um espelhinho redondo pequeno no bolso da calça e um pente de chifre no bolso da camisa. volta e meia dava uma olhada na aparência, ajeitava o cabelo bem grudado com brilhantina e as sobrancelhas.
A noite estava quente e o conjunto atacava com as tradicionais marchinhas carnavalescas, divertidas e animadas. Aderbal Eduardo andava pelas laterais do salão, apreciando o movimento e arriscava uns passinhos tímidos. Perto do palco uma formosa dama, em trajes minúsculos e uma fantasia de mulher fatal, mistura de vampira com mulher gato passou a mão no Aderbal Eduardo que estranhou a atitude. Deu um pulo e perguntou - O que é isso? Ela apenas olhou profundamente para ele, deu um sorriso e uma piscadela. O sorriso com os dentes claros, bonitos e as duas presas sobressaiam. Adebal Eduardo virou de costas para a moça, ficou de frente para o salão, tirou o espelhinho do bolso da calça e o pente do bolsinho da camisa. Ia dar um trato no visual e se virar para conversar com a atraente mulher, que aparentava uns 30 anos. Nada viu. Transparência pura. Aderbal ficou branco, gerou o espinhaço e lembrou que vampiros não refletem em espelhos.
Aquele sonho dele de arrumar alguém e dar uma passeada noturna ali perto, embaixo do viaduto da via férrea começou a dissipar, sumir de seus desejos íntimos. Afinal um baile de carnaval no Aceja, só saia solteiro se fosse muito burro. Até os feios arrumavam alguém. Aderbal Eduardo ficou atônito. Medo, insegurança, desejo, curiosidade. Correu pelo salão para ver se a via novamente. Perguntou ao porteiro se havia visto tal foliona e detalhou como ela era. O porteiro disse que não a viu, mas que presenciou Aderbal Eduardo falando sozinho perto do palco.
Enquanto isso o conjunto estava à todo vapor tocando Ó abre alas, Mamãe eu Quero, Me dá um dinheiro aí, Cidade Maravilhosa, Jardineira, Cachaça, Sassaricando, e Aderbal Eduardo saiu do clube caminhou alguns metros e ao olhar o viaduto que deveria atravessar a pé, com pouca iluminação e na alta madrugada preferiu pegar um auto de praça e seguir para casa.
Nunca mais esqueceu aquela mão gelada que o apalpou no salão, o sorriso largo da dama com lindo rosto, mas com uma “força maligna no olhar”. Passou a frequentar só matinesão aos domingos de tarde.
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