Cortar grama no sol
Com o calorão que deu nesta terça-feira, mais de 40 graus, confesso, que nem se a Luiza Brunet me ligasse não atenderia.
Meu fofo, meu lindo, me atende. Passo aí te pegar! Ela deixaria recados e eu nem aí. Sem a mínima chance.
Mas neste calor que mais parece uma fornalha de fundição, ou o deserto do Sahara não dá vontade nem de tirar o focinho para fora de casa com ar condicionado ou ventilador. Aproveitei no final do dia para recolher algumas folhas, grimpas e cortar grama. Daí lembre de um causo que preciso contar para vocês verem até onde vai a dedicação de sujeito apaixonado. Sim! Só pode ser algo avassalador.
Há alguns anos um colega, parrudo, bem acima do peso, arrumou uma namorada lá pelo Costa e Silva, distante de sua casa, de sua família que morava no Itaum. Imaginou: “quem vai me achar aqui, afinal é longe, pessoas diferentes, mundos diferentes e nem são da mesma religião”. O namorador passava algumas tardes na casa da namorada e na sua residência ninguém desconfiava, pois era bom pai e bom marido. Mas sempre cansado. O mato tomando conta do quintal, cachorrada com berne e a patroa pedindo que ele ajudasse, que pelo menos desse uma roçada na capoeira, atirasse creolina no cuscos para diminuir pulgas, percevejos e bernes.
-Daqui uns dias tem cobra aqui dentro e você sempre cansado. Não me serve pra nada mesmo. Para nada! - sentenciou a esposa de um casamento que superava duas décadas. E o pachola continuava visitando a namorada e se cansado.
Numa tarde parecida com a de ontem, quando nem quem tem cabelo ruim faz chapinha, a mulher do personagem pega o filho e vai visitar uma comadre costureira. O ônibus ia do Itaum até o terminal central. Ali esperou alguns minutos para pegar o Costa e Silva que ia até o final da linha. Há 40 anos o transporte era mais difícil e os bairros pareciam mais distantes. Atravessar a cidade era uma epopéia, ainda mais num calorão que até porco emagrecia.
Lá foi ela, entra em ônibus apertado com dois filhos, um casalzinho, o menino com 12 anos e a garotinha com uns 8. Chegaram no terminal do centro, descem, pagam nova passagem e entram no carro que fazia a linha para o Costa e Silva. Cansados e ônibus cheio foram em pé suando, agarrados nas hastes pega mão.
Após 30 minutos de anda e pára, sobe e desce de passageiros, empurra daqui, empurra de lá. Dá licença, dá licença - era isso a todo momento, o ônibus entra em uma rua menor com casas espaçadas e amplos terrenos, no final da jaceguay, quase na BR-101. Costa e Silva ainda tinha umas casas isoladas que parecia rural. E o sol estalando o teto do ônibus.
Manheeeeee! Grita o garoto puxando a saia da mão. Manheeeee! Manheeeee”.
O que foi guri, vai me deixar sem roupa no ônibus? O que foi ?
Manheeee! Manheeee! E apontava para fora do ônibus para ela ver a janela.
Que coisa chata, “Tamos chegando”, fica quieto - tentou acalmar
Manheeeee, olha lá é o pai cortando grama neste calorão - apontou o dedo duro.
Pára esta merda de ônibus. Pára esta porcaria agora - ordenou a mulher
Minha senhora puxa a cordinha que eu só posso parar na próxima parada - orientou mo motorista.
Cala tua boa, pára o ônibus ou te dou na cara. De tu e deste paspalho de cobrador- ameaçou.
Desceu com olhos vermelhos, alterada arrastando as duas crianças. Apertou o passo de volta até chegar onde estava o sem-vergonha.
Clap! Clap! Clap! Batia a chinela na estrada que ainda não tinha calçamento.
Bonito hein! Lá em casa você não faz nada disso. Sempre cansado. Agora vou te mostrar como se faz um trabalho bem feito. Vou te lanhar a cara com minhas unhas. Tua cara e desta sirigaita. - Largou os filhos, pulou a cerca, num salto que daria inveja ao atleta olímpico João do Pulo e abriu cinco fendas na cara do nosso amigo. Até parece que foi um ataque com as garras do Wolverine.
Quando viu o tempo mais quente, o protagonista sangrando partiu a pé. Correu para a rodoviária e ficou escondido uns três meses em Barra do Sul até que tudo se acalmasse, cicatrizar o focinho e voltar de mansinho para ajeitar as coisas.
Nunca soube se foi perdoado. A única certeza é que continua morando na Barra do Sul. Dias atrás me convidou para visitá-lo e tomar uma caipirinha no gramado ali perto da lagoa.
Huumm. Pensando bem. Acho que vou ficar por aqui. Vai que a dona Wolverine aparece e grite:
Quem é este jaguara contigo. Este que te levou para a perdição? - Aqui é mais seguro.
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