terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cortar grama no sol

 Cortar grama no sol



Com o calorão que deu nesta terça-feira, mais de 40 graus, confesso, que nem se a Luiza Brunet me ligasse não atenderia.

  • Meu fofo, meu lindo, me atende. Passo aí te pegar! Ela deixaria recados e eu nem aí. Sem a mínima chance.

Mas neste calor que mais parece uma fornalha de fundição, ou o deserto do Sahara não dá vontade nem de tirar o focinho para fora de casa com ar condicionado ou ventilador. Aproveitei no final do dia para recolher algumas folhas, grimpas e cortar  grama. Daí lembre de um causo que preciso contar para vocês verem até onde vai a dedicação de sujeito apaixonado. Sim! Só pode ser algo avassalador.


Há alguns anos um colega, parrudo, bem acima do peso, arrumou uma namorada lá pelo Costa e Silva, distante de sua casa, de sua família que morava no Itaum. Imaginou: “quem vai me achar aqui, afinal é longe, pessoas diferentes, mundos diferentes e nem são da mesma religião”. O namorador passava algumas tardes na casa da namorada e na sua residência ninguém desconfiava, pois era bom pai e bom marido. Mas sempre cansado. O mato tomando conta do quintal, cachorrada com berne e a patroa pedindo que ele ajudasse, que pelo menos desse uma roçada na capoeira, atirasse creolina no cuscos para diminuir pulgas, percevejos e bernes.


-Daqui uns dias tem cobra aqui dentro e você sempre cansado. Não me serve pra nada mesmo. Para nada! - sentenciou a esposa de um casamento que superava duas décadas. E o pachola continuava visitando a namorada e se cansado.


Numa tarde parecida com a de ontem, quando nem quem tem cabelo ruim faz chapinha, a mulher do personagem pega o filho e vai visitar uma comadre costureira. O ônibus ia do Itaum até o terminal central. Ali esperou alguns minutos para pegar o Costa e Silva que ia até o final da linha. Há 40 anos o transporte era mais difícil e os bairros pareciam mais distantes. Atravessar a cidade era uma epopéia, ainda mais num calorão que até porco emagrecia.


Lá foi ela, entra em ônibus apertado com dois filhos, um casalzinho, o menino com 12 anos e a garotinha com uns 8. Chegaram no terminal do centro, descem, pagam nova passagem e entram no carro que fazia a linha para o Costa e Silva. Cansados e ônibus cheio foram em pé suando, agarrados nas hastes pega mão.


Após 30 minutos de anda e pára, sobe e desce de passageiros, empurra daqui, empurra de lá. Dá licença, dá licença - era isso a todo momento, o ônibus entra em uma rua menor com casas espaçadas e amplos terrenos, no final da jaceguay, quase na BR-101. Costa e Silva ainda tinha umas casas isoladas que parecia rural. E o sol estalando o teto do ônibus. 

  • Manheeeeee! Grita o garoto puxando a saia da mão. Manheeeee! Manheeeee”.

  • O que foi guri, vai me deixar sem roupa no ônibus? O que foi ?

  • Manheeee! Manheeee! E apontava para fora do ônibus para ela ver a janela.

  • Que coisa chata, “Tamos chegando”, fica quieto - tentou acalmar

  • Manheeeee, olha lá é o pai cortando grama neste calorão - apontou o dedo duro.

  • Pára esta merda de ônibus. Pára esta porcaria agora - ordenou a mulher

  • Minha senhora puxa a cordinha que eu só posso parar na próxima parada - orientou mo motorista.

  • Cala tua boa, pára o  ônibus ou te dou na cara. De tu e deste paspalho de cobrador- ameaçou.

Desceu com olhos vermelhos, alterada arrastando as duas crianças. Apertou o passo de volta até chegar onde estava o sem-vergonha.

  • Clap! Clap! Clap! Batia a chinela na estrada que ainda não tinha calçamento.

  • Bonito hein! Lá em casa você não faz nada disso. Sempre cansado. Agora vou te mostrar como se faz um trabalho bem feito. Vou te lanhar a cara com minhas unhas. Tua cara e desta sirigaita. - Largou os filhos, pulou a cerca, num salto que daria inveja ao atleta olímpico João do Pulo e abriu cinco fendas na cara do nosso amigo. Até parece que foi um ataque com as garras do Wolverine.

Quando viu o tempo  mais quente, o protagonista sangrando partiu a pé. Correu para a rodoviária e ficou escondido uns três meses em Barra do Sul até que tudo se acalmasse, cicatrizar o focinho e voltar de mansinho para ajeitar as coisas.


Nunca soube se foi perdoado. A única certeza é que continua morando na Barra do Sul. Dias atrás me convidou para visitá-lo e tomar uma caipirinha no gramado ali perto da lagoa.

Huumm.  Pensando bem. Acho que vou ficar por aqui.  Vai que a dona Wolverine aparece e grite:

  • Quem é este jaguara contigo. Este que te levou para a perdição? - Aqui é mais seguro.


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