quinta-feira, 14 de julho de 2022

O pneu que destruiu a diversão vespertina

 O pneu que destruiu a diversão vespertina


Um afilhado de meus pais, rapaz trabalhador desde cedo, gostava de carros e como todo garoto, fez uma poupança e chegando a maioridade comprou um automóvel. Estava cansado de andar a pé, de bicicleta e de ônibus que custava caro. Perto da casa dele havia um taxista afamado com carro do ano, mas pegar um auto de praça, só em casos de muita precisão, para levar alguém para o hospital, velório ou casamento, o que dá no mesmo.

Agora vai chover garotas! Pensou o vivente. Nem dava bola para a capota do conversível. Mesmo em dias de garoa e frio perto de zero grau nas manhas de geada, em Erechim, levantava cedo, tirava o cobertor de cima do carro que ficava na garagem, ligava o Puma amarelo 1971 e partia para ganhar o dia. Andava com a capota recolhida, afinal queria ver e ser visto. 

Com o tempo mandou instalar bancos de couro Recaro e escapamento Kadron com ponteira niquelada. Um luxo. Só aí nestes dois incrementos foi quase o valor da máquina. Mas tinha que ter um som bacana. Na época era só rádio AM. Só pegava as rádios Difusão e Erechim. Mas tratou de gastar os tubos num toca-fitas Motoradio com equalizador Tojo. Tudo instalado em uma espécie de “gaveta” retirável para evitar roubos.

Faltava ainda as rodas tala larga para dar estabilidade e o carrão ficar mais bonito. O Puma ficou uma joia rara, não tinha quem não olhasse. Quando estacionava nos finais de semana em frente aos cinemas Luz ou Ideal a piazada babava. Ou nos rolês pela 7 de Setembro aos domingos de tarde, nas paradas no bosque de seminário Nossa Senhora de Fátima ou na boate do Ypiranga que realizava matinezão ou soirée.

Numa tarde de sábado, voltando para casa, já no bairro São Cristovão, perto da Igreja, seguia o trajeto pisando firme no acelerador e o kadron anunciava de longe, Lombo colado no Recaro de couro e os cabelos esvoaçantes no Puma sem capotas, meteu o pé e a nave assobiava chegando a 60 km por hora. Era um sucesso. Passou pela Oficina de Lataria e Chapeção do Donadel como um risco e perto da igreja só sentiu o estouro: Buummmm!

Foi um gritedo de gente correndo, alguns completamente nus, assustados. 

- É o fim dos tempos! Gritou uma carola que estava em frente a paróquia.

- Vão tudo queimar no fogo do inverno! Concordou outra mas sem tirar os olhos da situação.

- Aquele ali é o marido da tua sobrinha! Que sem vergonha, condenou apontando uma delas.

O afilhado, dono do Puma ficou alguns minutos sem nada entender e só sentiu  um baque como se o estivesse caído sentado no chão e arrastado o traseiro na brita.

Ocorre que uma das rodas tala larga, mal apertada se soltou e com a velocidade rodou até bater numa casa próxima que era de uma das mulheres mais importantes da cidade. Era uma renomada empresária do entretenimento masculino noturno. Tinha casas na zona de Erechim e Passo fundo. Para atender a clientela que não podia sair de noite mantinha uma casa respeitável e familiar perto da igreja que atendia até as 18horas os senhores com famílias ou que não podiam sair à noite

O pneu tala larga rodou e deu em cheio em uma das paredes da casa de madeira. Despregou algumas tábuas e o susto foi grande. Foi uma correria e griteiro. Alarmou metade do São Cristovão. Alguns clientes foram pegos desprevenidos completamente desnudos e as moças que lá trabalhavam também saíram correndo porta afora pensando que a casa estava caindo.

Foi um ajuntamento de gente que até hoje o fato é lembrado

O Pneu tala larga? Foi devolvido discretamente por senhora elegante, eu trajava um vestido de noite, salto alto, perfume que dava para sentir de longe e muitas jóias nos braços, pescoços e um par de brincos enormes. Tudo de ouro. 

- Você está bem menino. O seu pneu está aí, mande consertar aqui no Donadel, eu pago tudo. Vamos só esquecer o assunto e não precisa chamar nem polícia nem fazer ocorrência. A culpa não foi sua, Acidentes acontecem. 

E além de não ter prejuízo, ganhar o conserto do carro e se livrar de problemas ainda recebeu um convite tentador:

- Peque este cartão, passe lá na minha casa, vou separar uma surpresinha para você e uma grade de Serramalte, leve algum amigo se quiser.

Duas semanas depois o Puma 71 estava reluzindo e ele foi visto com um sorriso no rosto de canto a canto.

Se foi na casa receber a surpresinha? Não sei, mas que estava sorridente, estava e ainda presentou o padrinho com meia dúzia de Serramalte fabricada em Getúlio Vargas. 

Rendeu!



Puma

Casa da ester no são cristovão

Perdeu roda e bateu na casa


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