quarta-feira, 24 de julho de 2024

O BEIJO QUE ESPEROU 40 ANOS

Naquela noite de sexta-feira Isaura não pregou os olhos. Também não conseguiu ficar deitada na cama e tirou para o lado o cobertor de lã, pois lhe subia um calorão, estava ansiosa, esperando o  amanhecer. Logo pouco mais das oito horas da manhã de sábado ela deveria estar na rodoviária. Afinal, ela veria de novo aquele moço por quem teve um sentimento especial, apesar de vê-lo por instantes e ter ficado perto pouco tempo.


Lá pelas 5 horas da madrugada foi até a janela da frente, abriu as cortinas e uma fresta da janela. Lá fora o minuano cortava o tempo, e a cerração era como uma muralha que separava quatro décadas de espera e de desejo por um beijo que seria ardente. Sonhava com isso desde quando conheceu Eduardoi em uma discoteca famosa dos anos 80. Ensaiaram uma dança bem pertinhos. Ela vestia uma blusinha de malha e nada usava por baixo, afinal a beleza da juventude a deixava mais atraente. Ele sentiu seu belo corpo junto ao dele. Vestidinho curto a deixava juvenil. Dançaram um pouco, mas os olhos fiscalizadores do irmão não permitiram ir além. Como diriam popularmente  “deu um faiscamento que resultou num fogaréu que nem toda água do rio Uruguai poderia apagar”. Houve química, ou match como falam os jovens de hoje.


Ele voltou algumas vezes na danceteria para ver se a encontrava. Mas ela só podia ir com o irmão na soirèe das tardes de domingo. Nunca mais se viram. Suas vidas seguiram distantes, diferentes e com destinos parecidos. 


Anos se passaram até se encontrarem em redes sociais. Combinaram de se ver. Foram meses de espera até que houvesse uma data que os dois pudessem marcar um encontro para colocar o papo em dia, tomar um café, enfim,saber o que cada um fez em quatro décadas. A contagem regressiva, dia a dia aumentava a ansiedade de Isaura e pensava em o que poderia fazer para que desta vez o beijasse. Mas e se ele estivesse diferente, muito mais velho e sem o encanto daquele sorriso que a fez se apaixonar?


Naquele sábado às 7 horas ela já estava arrumada. Roupas quentes e pesadas, já que a manhã iniciou com cerração, fria mas abriria sol mais tarde. Foi até a rodoviária, pois o ônibus chegaria às 8h40min. Esperou na plataforma, caminhava de um lado para outro, perguntava se havia atraso nos horários. Foi informada que as estradas do Rio Grande do Sul estavam muito destruídas devido a grande enchente, mas que o ônibus chegaria com meia hora de atraso. A espera interminável foi de mais de uma hora e quando viu o imenso double deck entrando na plataforma de desembarque, Isaura tratou de chegar mais perto. Queria ser a primeira na fila de espera. Os passageiros começaram a descer  e seu sentimento era de apreensão, alegria, coração acelerado, preocupação, tudo misturado. 


Será que o reconheceria? É igual as fotos? Quando o viu, ela sabia quem era e os 40 anos de distanciamento desapareceram. Nada falou, Chegou perto abraçou-o bem forte com todo o carinho do mundo e beijaram-se demoradamente sob os olhares curiosos dos outros passageiros que esperam suas bagagens.


Ela olhou nos olhos de Eduardo e com um sorriso falou:


  • Queria tanto que tivesse me beijado naquela vez. Ela confessou seu maior desejo.


Ele nada falou, correspondeu aos carinhos de Isaura e seguiram para recuperar 40 anos de espera por carícias e beijos. 


E foi um beijo intenso e doce, como os melhores doces do Rio Grande como ambrosia, figo em calda e Dulce de Leche do Uruguai. E o minuano continuou soprando forte, cortando os campos e obrigando o casal a continuar abraçados.



Nenhum comentário:

Postar um comentário