sábado, 1 de novembro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-III O SUMIÇO DO BEBÊ

  Todas semanas a “alemoa do queijo” vinha na costureira para vender queijo fresco, nata, requeijão, iogurte natural e mel. Vinha com duas sacolas e dalí saia com poucos produtos. Já que a casa sempre tinha muitas clientes e compravam produtos saudáveis, feitos pela agricultora. Era uma jovem, ainda, porém mal cuidada. Obesa, lhe faltava um dente, era tímida e tinha um ar de pessoa desconfiada, possivelmente por não ir para a cidade tantas vezes, estar mais dedicada a lida da colônia. 


Certa tarde, ela chegou com cara de choro e sentou. Colocou suas duas sacolas próximo dos pés, abriu-as e deixou à vista para que as mulheres pudessem escolher. Naquela tarde, poucas clientes estavam no atelier tirando medidas, provando roupas ou escolhendo modelos. A costureira Dona Lili perguntou o que estava acontecendo com ela, se havia acontecido alguma coisa grave. Levou ela para a cozinha para lhe servir uma xícara de café com pão feito no forno de tijolos, naquela manhã, e chimia de abóbora que tinham feito em tacho de cobre, em casa naquela semana.


  • Roubaram meu alemãozinho. Disse ela chorando.

  • Do que você está falando? perguntou Lili.

  • Meu filho nasceu e disseram que morreu. Enterraram e eu sei que me roubaram.


Lili ficou sem palavras, pois nem sabia que a  “alemoa do queijo” esperava bebê, já que pelo tamanho dela, ninguém imaginava isso. Ela contou que no hospital o menino nasceu saudável, chorou forte e ela deu de mamar. Foi levado e ela nunca mais o viu. Só a notícia de que não havia sobrevivido.


  • Sou mãe, sinto isso. Me tiraram ele. Eu vi ele vivo. Desabafou a “alemoa do queijo”.

  • Tome seu café, chore à vontade e me dê um abraço. Deus vai amparar seu filhinho. Quem sabe uma boa família o recebeu. A costureira tentou amparar a alma sofrida daquela agricultora. Fez um chá de camomila colhida no terreno e comprou todos os produtos para que ela pudesse pegar o ônibus e voltar para a colônia e no aconchego de seu lar tentar seguir a vida com essa dor no peito que pela sua existência permanecerá.

Nos anos 60 e 70, quando não havia legislação sobre o assunto, situações como essa aconteciam. E pessoas menos afortunadas e sem conhecimento eram vítimas e remoiam suas perdas sem ter a quem  reclamar. 


Ao escrever esta série de crônicas, me inspirei no escritor Nelson Rodrigues continua sempre atual, mesmo com o passar dos anos. A vida é assim e cada vez mais vivemos a Vida como ela é. 



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