A cartomante, que era conhecida por muitos anos da costureira e sua família, fazia uma visita toda semana, principalmente nas quintas-feiras quando o movimento de clientes era maior. Nesta convivência haviam segredos íntimos que nunca foram revelados, pois muitos senhores casados e respeitáveis da alta sociedade frequentavam a zona da cidade e alguns até tinham uma companhia fixa para os encontros semanais.
Em uma tarde dessas de quinta-feira a tia Anita, cartomante conhecida chegou cedo, por volta das 14 horas para uma prosa e quem sabe “botar as cartas” para algumas clientes. Uma senhora elegante, esposa de um afamado médico havia mandado fazer alguns vestidos para os bailes que viriam nas próximas semanas nos clubes do Comércio e Atlântico, de Erechim e também o jantar de final de ano dos colegas médicos do hospital onde o marido trabalhava. Ela nunca acreditou no oculto, em previsões, ciganas e cartomantes, mas sempre teve na mente a crendice popular de que as “cartas não mentem jamais”. Mas naquela tarde resolveu tirar a febre com uma consulta.
Consultas com a cartomante eram feitas na cozinha, longe dos olhares e dos ouvidos das outras. A elegante dama solicitou os serviços, foram para a cozinha e ela deixou claro que não acreditava nas besteiras que ouviria. Pagou adiantado, independente do que as cartas revelariam. A cartomante apenas disse que a cliente iria se surpreender com a verdade revelada e que deveria estar pronta para decepções, alegrias, tristezas, frustrações ou felicidade extrema do que o futuro revelaria. Se acomodaram na cozinha, frente a frente na mesa onde a família fazia as refeições. A vidente fechou a porta e ficaram as duas. Embaralhou as cartas e pediu que a cliente cortasse no meio. Assim foi feito. Pediu então que escolhesse uma das cartas do segundo monte separado. Foi assim que agiu e entregou a carta para a tia Anita.
Huumm. A senhora é feliz em seu casamento? Questionou, após várias cartas colocadas sobre a mesa. A mulher disse que sim, afinal casou bem com um médico famoso e rico. Ela vivia bem e o dinheiro não lhe faltava. A cartomante perguntou de novo se ela era feliz, pois não se tratava de dinheiro. A cliente emudeceu.
O que a senhora está vendo nesta bobagem? Temos um casamento feliz. Isto é o que me interessa. Mas me diga o que está vendo aí? Inquiriu rispidamente e com curiosidade. Seu tom de voz revelava, também apreensão, insegurança e certa vergonha de que viesse à tona a realidade de sua vida. O que os outros iriam pensar se soubessem que há anos vivem em quartos separados? E que o marido não a procura por muito tempo?
Revelações começaram a aparecer e tudo foi dito. A mulher saiu do atelier e foi embora. Deixou as roupas para outra ocasião. Passou a observar os passos do doutor. Toda quinta-feira de noite ele tinha “reunião com a equipe” ou “plantão” e chegava tarde com leve cheiro de bebida, fumaça de cigarro, mas com um ar de felicidade. Ela seguiu e viu o que não queria. Sua decepção maior é que o marido se encontrava com a dona de uma das casas da zona. Era da mesma idade dela, porém obesa, mas tinha um sorriso que encantava qualquer pessoa. Pensou na cartomante e lembrou do que ela havia dito, de que não acreditava em bobagens de videntes e cartas. Estava tudo certo. Em uma tarde ela foi na casa onde o marido frequentava e pediu para falar com a amante do marido.
Boa tarde, eu sou…Nem deu tempo de dizer seu nome e nem se apresentar. A amante e dona da casa na zona. Convidou ela para entrar, levou-a para a cozinha e fez um café.
Seja bem vinda. Sei quem é a senhora e o motivo de estar aqui.
Não entendo como pode querer estragar minha vida.
Nunca estraguei sua vida, nem fui atrás de seu marido. Nunca o amarrei e puxei com uma corda para cá. Ele veio sozinho e bem disposto.
Me desculpe, estou sem chão. Nem sei o que lhe dizer.
Não diga nada, tome seu café.
Vamos evitar sermos inimigas mas me conte o que ele vem fazer aqui? Insistiu a esposa do médico.
Ele vem buscar apoio, amizade, uma boa conversa, atenção e amizade, coisas que não encontrou no casamento de vocês, possivelmente.
Mas como? Vocês não se deitam?
Não. Apenas conversamos, ele bebe um bom uísque, escuta boleros, conta sobre a vida, casos de pacientes e evita falar da senhora. E paga o “instante”, como se tivesse feito algo. Vai embora com um sorriso de menino.
Só isso?
Sim, só isso. Também custei a entender, contemporiza a dona da casa.
A prosa entre as duas foi longa, terminaram amigas e combinaram ir na sala de costura fazer novos vestidos, consultar as cartas que “não mentem jamais” e enviar a conta para o doutor carente de amor.
Querem saber a verdade? As cartas na mesa…
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