Em 1984, quando fui fazer vestibular na UCPel- Universidade Católica de Pelotas, me hospedei no Pensionato Gaúcho, localizado na rua Dom Pedro II, pertinho da reitoria. E quando iniciaram as aulas, fui morar uns tempos no mesmo local. Casarão secular, pé direito alto, portas enormes e arquitetura bonita, porém mal cuidada. As casas dos ricos, como um dia foi essa, tinham apenas um banheiro para atender todos os moradores.
Recentemente descobri que esta casa estava para ser demolida, já que uma construtora se interessou em comprar para construir um prédio. A pesquisa sobre as origens do imóvel revelaram um grande segredo. A casa foi construída e foi residência do escritor pelotense e um dos maiores nomes da literatura gaúcha, João Simões Lopes Neto que foi empreendedor, e sua paixão era a literatura. Com as dificuldades financeiras teve de vender sua casa e outros bens para quitar dívidas. Morreu pelas circunstância aliado a umidade e frio da gélida Pelotas. A casa passou de mão em mão até que seu fim estava destinado. Mas foi salva pelo gongo, após pesquisas que revelaram seu verdadeiro valor. Hoje abriga o Instituto João Simões Lopes Neto, onde estão sua obra, sua vida, sua história para que as futuras gerações possam conhecer um pouco mais deste grande escritor gaúcho.
Morei nesta casa e minha “vaga” na pensão era num dos quartos da frente que hoje abriga uma biblioteca. Eram dezenas que ali moravam, dividindo espaços, um único banheiro e um único tanque para lavar as roupas e estender atrás da casa, onde nem aparecia o sol. Fiquei contente em descobrir a origem da edificação e seu principal ilustre criador e morador. Aproveito meus últimos dias de férias para reler Simões Lopes Neto. Estou com Casos do Romualdo. Depois vou ler o belo trabalho de outro expoente pelotense e gaúcho Aldyr Garcia Schlee que preparou uma edição comemorativa do Centenário de Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto (1912-2012). Estes três livros de Schlee são “Contos & Lendas", uma edição comentada. Outro volume é o sobre o “Vocabulário” do escritor pelotense e um terceiro volume do conjunto intitulado “Lembrança”, Schlee busca e recupera a imagem de Simões Lopes Neto, com base em textos que falavam a respeito do autor.
Isto dá orgulho de ser gaúcho, de ter estudado em uma cidade culta com ótimas universidades, bons professores e pessoas comprometidas com a história, com o resgate da cultura e comprometimento com o futuro. Também vale enaltecer os guerreiros valentes que não permitiram a demolição da casa de Simões Lopes e trabalharam pela criação do Instituto para preservar e ser a cidadela guardiã da obra e biografia deste grande expoente literato.
Não é à toa que o rio Grande do Sul é considerado o Estado mais culto do Brasil. É o que mais lê, num momento em que todos estão com os focinhos enfiados em um celular. Novas gerações pouco estudam, mal escrevem e alguns são incapazes de elaborar uma frase. Cada vez mais é necessário incentivar os jovens a visitar locais como este, participar de feiras de livros e ler obras históricas e atuais. Assim formaremos um novo país. O Rio Grande do Sul, já é uma Nação que dá exemplos ao Brasil.
Parabéns ao Instituto João Simões Lopes Neto e todos que se dedicaram a esta causa.
E meu quarto é uma biblioteca….
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