domingo, 23 de novembro de 2025

O JORNALISTA BÊBADO QUE DESENCABEÇOU A FREIRA



Os jornalistas da chamada velha guarda praticavam a fase de romantismo da profissão. Pouco ganhavam, o que escreviam eram textos muitos deles mais literatos e desenvolviam grandes "nariz de cera". A introdução era muita enrolação até se chegar ao fato. A objetividade do jornalismo veio depois quando se responde as principais questões já de início para o leitor se interessar em se informar. A técnica é responder: o quê, quando, onde, como e porque. 


Mas isso não tem importância para o que eu vou contar. Quando eu trabalhava no Diário Popular em Pelotas, almoçava no bar da esquina denominado Boteco Cruz de Malta. A comida era boa e barata. Ahh, sim, havia baratas e ratos, também. E dali seguia para o Café Aquários na mesma rua para um cafezinho e saber das novidades, principalmente da política. Havia uma fauna multidiversificada naquela esquina democrática.


Um deles era um jornalista da velha escola, da velha guarda, já com uma idade avançada. Era bem magrinho, com seu terno surrado e não largava o cigarro e a xícara de cafezinho. Vez por outra um conhaque para "limpar a garganta". Era conversador e gabola. 


Nos anos 60, ele trabalhava em jornais da capital e cobria pautas pelo Estado. Como era comum a toda um geração de escribas, saiam dos jornais e seguiam para os bares e casas de procedência duvidosa. Me contou que em inverno rigoroso, frio, gelado, com vento sul e a temida tormenta de Santa Bárbara acabou adoecendo. A receita era simples, como para a maioria desta turma da noite. Frequentava as casas noturnas com maestria, onde havia cigarro, bebidas, mulheres, quase nada de comida e ali deixava seus poucos caraminguás.


Certa noite caiu desacordado com elevado teor alcoólico, cheiro de cigarro e nenhum tostão nos bolsos. Os colegas de copo chamaram o Samdu, que era o  Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, precursora do SUS que hoje conhecemos. Foi levado quase morto para um hospital público,daqueles centenários, úmidos, paredes descascadas e reboco do teto caindo sobre os pacientes.


Desacordado ficou por alguns dias recebendo tratamento, alimentação e cuidados. Ao acordar, se esforçou para abrir os olhos colados de ramela. Pouco via, pois além de muita secreção pelas infecções, estava sem óculos e a catarata, também dificultava. 


Olhou o ambiente com pé direito alto, tudo branco, ouviu gemidos, ranger de molas das camas, descarca de banheiros e de repente, muito próximo, uma voz doce e angelical que insistia para ele  sentar na cama para tomar os remédios. Aquela voz entrou em seus ouvidos e tomou conta de seus sentidos. Sentiu o tom carinhoso, cuidadoso e imaginou que já estava no céu. Morreu e subiu. Mas no seu  íntimo duvidou disso, pois com a vida que levara e os atos praticados, seria mais plausível que estivesse na companhia do capa preta. Não havia cheiro de enxofre e sim uma fagrância  de jasmin que entrava pela janela que estava entreaberta para arejar o local. 


Inebriado pelo perfume e pela voz doce, suave e carinhosa, abriu os olhos e viu um anjo na sua frente. Um anjo jovem, de branco, com um lenço no cabelo que escondia os fios loiros. Ela tinha uma pele clarinha, fina e aparentava ser uma bonequinha de porcelana chinesa viva.


- Bom dia senhor! Que bom que acordou. O senhor precisa se alimentar, aconselhou a bela mocinha.


- Onde estou? O que houve comigo? Questionou o velho jornalista.


- O senhor foi trazido aqui. Estava caido e estamos tratando de sua pneumonia. Quase que o senhor foi encontrar Jesus.


- E você quem é? Um anjo?


- Sou uma freira aqui do hospital. Sou a irmã Ágatha.


Aquele nome soou como se fosse um canto gregoriano, cheio de suavidade. Pediu que ela chegasse mais perto para poder vê-la melhor. 


Alguns dias depois teve alta, mas não tirou a freira de seus pensamentos. Ele sempre foi um rapaz namorador e já havia perdido muitas moças para o seu maior rival. Elas se cansavam das bebedeiras, da falta de compromissos e iam se dedicar às causas sociais e buscavam na religião o amparo pelos estragos que ele havia feito na vida delas. Perdeu muitas para Jesus, como ele mesmo dizia. Mas desta vez não! Pensou.


Algum tempo depois, com idéia fixa de reencontrá-la, já com saúde restabelecida, emprego fixo e local de moradia, propôs casamento para aquele anjo que cuidou dele.


E em uma loucura maior. a freirinha linda e angelical aceitou largar o hábito e se casar com talzinho.


Quando foram oficializar o casamento,  ele chegou bem pertinho do altar, olhou fixo para a imagem de Jesus na cruz  e sussurrou:


- Desta vez eu ganhei, parceiro. 



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