Lucinha era uma moça com sonhos, como qualquer garota que almeja sair debaixo das asas da mãe e seguir seu rumo. Trabalhava muito no mercadinho perto de sua casa, onde tinha muitas obrigações. Atendia, orientava, proseava com a freguesia e ainda tinha de varrer a loja antes de ir para casa tarde da noite.
Era uma lida diária dura. Ao chegar em casa enfrentava uma pilha de louças na pia e o dever de adiantar o almoço para o dia seguinte para seus pais, irmãs e uma prima que veio morar com a família. Aquilo não era vida, mas não reclamava. Apenas agradecia a Deus, por ter saúde, uma casa e uma família. Dormia pouco porque lá pelas cinco horas da madrugada,antes de o galo cantar Lucinha estava em pé, arrumada, com café pronto e mesa posta para quando os demais acordassem. Era um anjo de menina.
Já estava com 16 anos e a vontade de casar ia aumentando. Só com casamento poderia se livrar desta situação. Ter sua casa, uma companhia e arrumar como ela gostaria que fosse. Em um final de tarde entrou, no mercadinho onde ela trabalhava, um moço bem apessoado, roupas limpas, passadas, sapato lustrado e bem educado. Perguntou onde estavam as gasosinhas. Ela respondeu, indicou e o levou até a prateleira.
Muito obrigado por sua gentileza. Sou Adroaldo Ernesto,seu criado. E estendeu a mão para se apresentar. Lucinha segurou forte a mão de Adroaldo Ernesto e sentiu um arrepio, como se fosse um leve choque elétrico que percorreu seu corpo. Teve certeza naquele momento que este seria o homem de sua vida.
Começaram a se aproximar nos dias seguintes e muito rápido evoluíram para o casamento. Adroaldo Ernesto comprou um terreno, em um bairro um pouco distante do centro e lá construíram uma pequena casa com sala e cozinha em um ambiente só, dois quartos, já que tinham planos de aumentar a família, banheiro e uma varandinha onde colocaram dois cepos de madeira. Ali cobriam com um pelego e sentavam para matear e ouvir boa música em um radinho que ele trazia, e herança e deu finado pai.
No varal, o vento balançava os poucos trapos coloridos, algumas peças já bem esfarrapadas, gastas pelo tempo e pelo uso. Lucinha fazia biscoitinhos de milho e temperados com mel de lixiguana, que era o modo de demonstrar todo o seu afeto, seu carinho e amor por Adroaldo Ernesto.
Como sempre faziam, no final da tarde o casal se sentava nos cepos de angico cobertos pelos pelegos, preparavam um bom chimarrão e ligavam o rádio para ouvir aproveitarem a companhia um do outro. Em uma dessas tardes, início de noite, Adroaldo Ernesto pegou a cuia, encheu com a água quente da chaleira, com a mão direita levou a cuia para sorver un amargo e com a mão esquerda segurou firme a mão de Lucinha, olhou em seus olhos e por alguns segundos disse a ela, através do olhar tudo o que sempre sentiu. Virou o rosto em direção ao pôr do sol, que sumia por trás da coxilha naquela tarde de sexta-feira, 13, noite de louvação, respirou fundo e disse para Lucinha, de forma terna, afetuosa e carinhos:
Esta é a expressão mais verdadeira de nosso amor!
E naquela sexta-feira, véspera de Carnaval, Adroaldo Ernesto fechou os olhos e lentamente seu braço direito, que segurava a cuia de chimarrão, foi caindo bem devagarinho derrubando o mate no chão da pequena varanda. Ao principiar o escuro da noite de sexta-feira, 13, véspera de Carnaval, a lua cheia apareceu no horizonte e Lucinha ouviu apenas um uivo longo, demorado e lamentoso.
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