Andei lendo notícias de que muitos lugares do mundo já contam com um software de reconhecimento facial, e que o Grande Irmão sabe tudo. O escritor George Orwell já havia escrito o livro 1984, que trata do controle absoluto dos cidadãos pelo Estado totalitário. Certamente este escrivinhador inglês se baseou na gauchada, onde se conhece o vivente pela cor do pelego.
Certa feita eu estava caminhando pelo calçadão da Rua da Praia, no centro histórico de Porto Alegre, mais precisamente em 1984, bem no ano do título do tal livro, quando presenciei uma cena capaz de fazer inveja aos mais desenvolvidos programas de reconhecimento facial, que apenas hoje em dia estão sendo utilizados, 40 anos depois do acontecido.
Um vivente estava saindo do Banrisul com a guaiaca bem gordinha, abarrotada de Cruzeiros. Pilchado, botas de cano alto lustradas, lenço maragato no pescoço e um pala de lã no braço direito para esconder a prateada que levava na mão e a garrucha na cintura, enfiada no cinto da guaiaca por trás. Tem que se precaver contra os malfeitores da cidade grande.
De longe ele ouviu um grito:
- Mas bah! Como está seu Pedro de Soledade?
O gaúcho velho ficou espantado, já estava ali perto da Rádio Guaíba, caminhando em direção ao Mercado Público onde faria uma refeição, algumas compritas e seguiria para a rodoviária para pegar o ônibus. Também compraria alguns temperos e especiarias culinária que foram encomendas por Nair Terezinha, sua senhora.
Avisado que na capital tem muitos golpistas se ouriçou com a abordagem de quem não conhecia. Afinal havia ido ao Banrisul retirar uma boa quantia da venda de um rebanho de Angus, feita em um leilão de gado. Olhou desconfiado para o sujeito que o reconheceu e com a prateada na mão, escondida por baixo do pala de lã quis saber como o conhecia.
- Que mal lhe pergunte, moço. Como o senhor sabe que sou Pedro e de Soledade? E já com a mão esquerda levou para as costas e puxou a garrucha. Seus cobres ninguém levaria sem uma peleia.
- Não se assuste seu Pedro. É fácil reconhecer qualquer vivente de qualquer querência.
- Este causo está mal contado. Ou me fala ou abro seu bucho e enrolo as tripas bem aqui neste poste de luz.
- Não precisa nada disso. Eu lhe explico. É fácil saber que seu nome é Pedro, já que usa uma fivela da guaiaca com a inicial de seu nome. A Letra P em maiusculo, bem desenhada, só poderia ser Pedro em homenagem ao seu nome que foi dado para homenagear a Província de São Pedro que originou o nosso querido Estado do Rio Grande do Sul.
- Mas como o senhor sabe que sou de Soledade?
- Também é fácil. É só ver os talhos de facão na cara. Lugar de gente braba e encrenqueira.
Não deu tempo do advinho concluir a prosa. Pedro deu dois tiros de garrucha, daquelas com dois canos e único tiro em cada um. Puxou o rebenque rabo de tatu, que levava junto e correu atrás do maleva pelo calçadão.
Só fiquei bombeando a cena, meio de longe para não ser reconhecido, também, ou o seu Pedro poderia achar que eu tinha alguma coisa a ver com o reconhecimento facial, usado pela gauchada, muito tempo antes do surgimento do computador e câmeras de vídeo. É só falar com as véias da vizinhança. Sabiam de tudo, antes mesmo de acontecer. Davam tantos detalhes que a ciência vai demorar para aprimorar algum programa que chegue perto da vigilância em questão. Agora vou matear na frente de casa e dar uma olhada na vizinhança. Nem precisa câmeras de vídeo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário