quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Lúcifer de corpo fechado

 Lúcifer de corpo fechado



Cada cidade tem seus personagens. Neste final de semana dei uma volta lá em Erechim, onde nasci e me criei. Fugi de lá no início de 84 para estudar e progredir na vida. Se lá ficasse, é provável que estivesse até hoje trabalhando na rádio local. Naquela coisa: nome da música, hora certa, previsão do tempo, horóscopo,  lendo notícias dos jornais e  mandando alô e para os ouvintes.


Mas conversando com a parentagem recordamos de figuras que andavam por lá. Onde eu morava tinha o Zé Maria um negro forte atarracado, analfabeto e com uma voz grossa cavernosa. Tinha alguma deficiência mental, mas era educado e trabalhador. Limpava terrenos e fazia todo tipo de serviço pesado. Pelo centro circulava o folclórico Ratão. Pouca informação, parece que teria sido um bom técnico de eletro-eletrônica até que a loucura misturada com alcoolismo o fez surtar. Alguns fofoqueiros atestam que foi um caso de cornismo.


No São Cristóvão uma mulher manca foi apelidada de Ponta Esquerda e a Neguinha do Zero. Isto porque ela fazia o zero com a mão quando mexiam com ela. Nunca souberam o seus nomes.


Mas icônico era o Bastião Muié. Mistura de mulato com bugre, magrinho, sempre vestido com roupas femininas. Usava lenço na cabeça, eslaque pela canela, o que hoje a moda internacional apresenta, blusinha que hoje chamam de baby look exibindo a barriguinha com pelanca de uma pessoa de meia idade para cima. Sempre maquiado ou maquiada. Batom vermelho, unhas da mesma cor. Deveria ter sido artilheiro no Exército. Quando a piazada inticava com o Bastião Muié, a reação era esperada de imediato. Pedrada. Juntava pedras na rua e o tiro era certeiro na cabeça de alguém da turma. Algum cocoruto ele, ou ela acertava. Perguntei por lá se estava vivo? Uns atestam que sim, que vive no LInho, um bairro na saída de Erechim. Eu não acredito. Imagina. Nos anos 70 Bastião Muié já era velho. Hoje teria a idade do município, Mas vai saber.


Mais recentemente surgiu um sujeito valente, no Florestinha, na saída para Gaurama. Ninguém sabe como apareceu, nem de onde veio.

O sujeito era forte e mais grosso que dedo destroncado. De pouca fala, cara fechada e quando olhava para um vivente, este gelava o espinhaço e parecia que uma adaga vinha cortando. Alguns dizem que veio ali do interior de Campinas ou Quatro Irmãos.


Da noite para o dia surgiu dando as cartas em uma uisqueria. Botava ordem, ninguém abusava das gurias e para poucos se apresentava:

  • Sou o Lúcifer e tenho com corpo fechado! Ninguém questionava pelo tamanho, grossura e pouca conversa do sujeito. A fama se espalhou pela redondeza.

Cuidava da ordem do estabelecimento, quanto sentia algo errado em uma das suítes, barulho de bibelôs ou frascos de perfume caindo da penteadeira, metia a mão na porta. Geralmente as portas eram fechadas com um trinco,  amarrado com elástico ou então arrastando o bidê para fechar a porta e dar mais tranquilidade para o instante de amor. Lúcifer só dava um empurrãozinho e tirava o abusado porta a fora.


Se o sujeito estava só perdendo tempo na mesa,  com uma cachaça, cerveja barata, Porta Aberta ou Rabo de Galo e uma as formosas damas se aproximada e lascava: - Paga uma dose, bem... E o sujeito encolhido de tostões, Lúcifer com sua mão de colher uva em parreiral, encostava no ombro do “criente” e intimava: - Aqui está a dose que a mocinha pediu. Não tinha conversa nem negativa sobre quem iria pagar a bebida. Nunca ninguém retrucou argumentando que não havia pedido ou autorizado.

Não queria intimidade. Uma das moças um dia tentou. Se aproximou e falou: Lú você é tão bom para nós. Vou na colônia do pai e vou te trazer um presente.  A conversa entornou, e ficou mais grossa que feijão engrossado com farinha de mandioca. - Escuta bem alma perdida. Não te dei intimidade. Nada de Lú. Para você sou o “Seu Lúcifer e tenho o corpo fechado”.


Os fofoqueiro inventam mais. Dizem que ouviam coisas, que os olhos dele faiscavam quando brabo e resolvia tudo no tapa. Não andava armado. Afinal era protegido e tinha o corpo fechado.

Assim foi fazendo sua fama de imortal. Não tinha tiro nem facada que o acertasse. E quando ia comprar alguma coisa. Nada de cartão, nem de cheque. Era coisa mais linda do mundo. Tirava do bolso esquerdo da calça de tergal um maço de notas de 50 e 100 reais. Pagava à vista. Afinal a casa era de respeito e um empreendimento superavitário.


Certa noite, ao finalizar a função na casa. Fechou tudo, ordenou  que cada uma fosse para suas casas. Não queria ninguém no estabelecimento. Noite escura que dava mais  medo  do que ir no dentista.

Na madrugada gelada alguns viram ou imaginam que viram uma bola de fogo vinda do céu. Nada de barulho.

Na tarde seguinte, começaram a chegar as meninas para preparar a abertura da casa lá pelas quatro da tarde, ja que a rua é rota de caminhoneiros. Tudo fechado. Uma delas pulou a cerca e foi entrando. Porta destrancada. Ficou muda de susto. Ali no meio do salão estava o patrão Lúcifer deitado. Imaginou que tivesse dormindo. Deve ter enchido a cara e caiu bêbado no salão - pensou. Chamou, gritou, mas não chegou perto. Afinal ele não queria intimidade. Chamaram a ambulância e os paramédicos atestaram: Tá morto o vivente!

Examinaram, viraram. Nada de sangue, nada de tiro, nada de facada. Morte natural? Não se sabe. Nem mesmo o nome sabiam para colocar no óbito. Só tinha na testa uma queimadura em forma de pentagrama. O corpo era fechado, mas esqueceu da testa.

Apenas uma das gurias chorou.

  • Coitado, justo hoje que vim da colônia e trouxe um quilo de torresmo!



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