Na década de 70, ali no Floresta,bairro da zona sul de Joinville, houve um caso do bode que estava com o diabo no couro. Era coisa de dar medo. Volta e meia o bicho se rolava no chão, dava cabeçada num pé de bananeira, na madrugada deitava de barriga pra cima parecia apreciar a lua e dava gargalhadas na língua de bode, é claro.
A dona do bode era uma irmão de um colega. Ficou preocupada, afinal o que houve com este bode. O bicho já tem fama de ser servo daquele que vocês sabem. Pelo menos é o que contam. Nos terreiros fazem oferendas com o sangue de bode. Nos livros do coisa ruim, sempre imagens do bode como encarnação do filho de uma rapariga.
Religiosa apostólica romana, fã do Dom Gregório, rezava desde cedo e o comportamento do bode começou a ficar aterrorizante. Pensou em procurar Dom Gregório que atendia à todos. Mas imaginou: - Levar um assunto desses ao Bispo, vai achar que sou louca. Conversou com algumas comadres que sugeriram vá lá no Padre Bertino, ele é muito querido e vai e orientar. Deixou alguns dias e criou coragem.
Comadre, vou lá no Padre Bertino pedir para fazer um exorcismo no meu bode. Ganhei ele de meu pai e não quero me desfazer do bichinho.
Deixa disso vamos passar a faca no bode e fazer um churrasco.- aconselhou a vizinha.
Estás doida? Vou falar com o padre para tirar o coisa ruim daí. O Cristiano é da família sua louca- Insistiu.
Decidida no pedido de exorcismo comentou em casa. Só que o irmão da dona do bode, nosso colega tratou de tirar esta idéia absurda. Imagina o padre paramentado, com estola, água benta nos fundos do pátio pedindo para o bode repetir as palavras santas. Imagina se a história chega no Vaticano. Pior! Ter que noticiar no nosso jornal.
Enquanto isso o bode véio lá atrás de um pé de bananeira de-lhe chifrada e rolava no chão. Balia olhando a lua. Ficava amarrado na cerca de mourões de eucalipto e arame farpado. O irmão, que tinha apelido de Cachorro, sabia qual era o encapetamento do bode.
O bicho ficava faminto, sorridente e endemoniado sempre após a visita de outro colega, geralmente nas sextas após o fechamento do jornal. Alguns iam na casa do Cachorro que morava com a irmã e assavam umas asinhas de frango, sardinhas o que desse com os poucos recursos. Alguns iam na cerveja e outros na cachacinha de um alambique artesanal ali de Araquari.
E um dos colegas, gostava mesmo é do encapetador. Pois é. Já sabem né. Não se interessava pela comida e bebida escassa e pelas conversas repetidas de sempre. Seu local preferido era um cantinho nos fundos do lote atrás de um rancho onde guardavam quinquilharias, ferramentas, bicicleta velha, latinhas e vidros vazios. Vai que se precise um dia.
E ao lado deste rancho tinha um pé de banana viçoso, sem nenhuma fruta, pois o danado do bode sempre faminto pelava o pé.
Sentado num cepo, tranquilamente este colega enrolava um cigarrinho do capeta em folhas secas de bananeira. Tudo natural ou diriam hoje ôrgânico. Fumaça forte do charuto que daria inveja aos cubanos.
A irmã do Cachorro sentia aquele cheiro de fumaça e questionava. - O que é isso. De onde vem este cheiro?
Deve ser alguém queimando mato por aí - despistavam.
Em breve começava a sessão que requeria o exorcismo. O bode doidão balia, se rolava no chão e chifrava o pé de banana. Pronto! Baixou o coisa ruim.
Felizmente não foi necessário levar o assunto para as autoridades eclesiásticas e nem dar conhecimento ao Vaticano. Solução caseira. Chamaram uma mão de santo ali do Fátima que deu uns passes e trouxe uma garrafada milagrosa. Fez o bode beber até o último gole e aconselhou:
Este bode precisa de tratamento. Vou levá-lo! Sentenciou a macumbeira toda de branco.
Nunca mais souberam do paradeiro do bode.
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