quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Emenda

 Emenda



Provocado pelos colegas  Osman Lincoln e pelo José Gayoso vou ter que contar a história de um ex-colega de trabalho que realizou seu sonho de décadas. 

Era um senhor negro alto e forte, talentoso no banjo, músico virtuoso nas horas vagas com os familiares. Após a aposentadoria, pelo trabalho prestado em uma grande indústria do Boa Vista, quando era um Distrito de Joinville, continuou trabalhando para complementar a renda e se redimir da realização de sua maior satisfação.


Por três décadas nosso personagem atravessa cidade para uma jornada dura. Jogar carvão a pá na boca de um forno. Se existisse inferno, pensava, era ali. Não tinha inverno. Sempre calor. E o pensamento corrente por 30 anos. - Deixa eu pegar minha indenização e o fundo...Vou fazer o que sempre esperei. Acalentava.


Passado o tempo, chega a dita aposentadoria após 30 anos de boca de forno. Na época não havia transferência on line. Recebiam a dinheiro na tesouraria. Cheque do BESC? Veio mais tarde. Trabalhador gostava de dinheiro. Enchiam os bolsos e partiam para casa com os bolsos cheios. Alguns paravam no mercado, faziam o pedido e pagavam a caderneta. Outros uma paradinha no boteco: num só gole derrubavam um mercedinho, um trago para o santo ou uma Faixa Azul de Joinville. Os mais exibidos e afortunados iam para um grande complexo de entretenimento adulto, chamado Emenda, lá no Itinga, quem vai para São Francisco do Sul. Havia um conjunto de casas de tolerância, com moças daqui e outras vindas de outras paragens. Frequentavam o local desde o rico até o pobre. Estacionados Opalas, Galaxies, Chevettes, Corcéis, Barra Dupla Circular da Monark, Caloi, Monaretta , Garelli e Lambretta.  Quando via uma Lambretta nosso amigo vidrava os olhos. Coisa linda. Imagina ter uma máquina dessas. 


E lá neste parque de diversão adulto tinha uma moça vistosa, loira, vinda de Indaial. Nosso personagem há anos observava e sonhava um dia poder… vocês sabem. Mas não podia gastar. Ela era muito disputada e cara. Parece que ela veio do Alto Vale do Itajaí para trabalhar em casa de família, assim comentavam. Quando ia trabalhar nem sentava no banco do ônibus. Ia em pé agarrado naquele ferro no teto para poder ficar observando sua musa por mais tempo quando passavam ali na Waldemiro José Borges.


Marcaram o dia para o acerto, nosso personagem atravessou a cidade, chegou na portaria e foi encaminhado para o setor pessoal. Assinou os documentos, deu baixa na carteira e foi orientado. - Com este documento o senhor vai na Caixa e pega o Fundo de Garantia, ali na tesouraria pode pegar a indenização, salário do mês, férias e demais direitos. E não esqueça de ir no INPS encaminhar a documentação toda - orientou o funcionário. Como era sabido guardou tudo na cabeça. Mas estava ansioso para pegar o bolo de cruzeiros. Fazia comichão na palma da mão.


Impaciente, queria receber logo. O tesoureiro pediu que assinasse o recibo e lhe entregou uma dinheirama sem fim. Alegria. É hoje.. Que realizaria seus dois sonhos, após 30 anos de economia e espera.


Saiu chispando da firma, pegou o ônibus, parou ali no terminal do centro. Foi a pé até uma loja de motociclos onde havia uma Lambretta meio cinza de segunda mão mas em boas condições. Pagou a vista. Uma nota em cima da outra. O comerciante não acreditou. E disse ao nosso comprador. - Temos de fazer a documentação, recibo no cartório com firma reconhecida e encaminhar ao departamento de trânsito. Isto já era um insulto para quem tinha tanta pressa.


Amanhã eu passo aqui - disse nosso protagonista. E o vendedor questionou; - O senhor sabe guiar uma Lambreta? Tem carteira? 

  • É que nem bicicleta, só com motor - respondeu dando a pedalada da partida. Acelerou, soltou a embreagem e saiu pinoteando. Sorte ter pouco movimento na Getúlio Vargas em direção a Santa Catarina e Waldemiro José Borges. Capacete? Nem pensar.


Tocou reto para a Emenda. Afinal gastou só a metade da indenização dos 30 anos de boca de forno. Foi matutando; É hoje que a galega não me escapa.

Chegando na Emenda, foi direto na casa onde a galega trabalhava. Era 5 da tarde, ainda nem havia movimentação. Chegou ostentando. Estacionou a Lambretta bem na frente, duas buzinadas. Subiu a escadinha chamou a dona da casa e pediu um Rabo de Galo para limpar a garganta da poeira e do vento, pois veio numa longa viagem lá do centro. Mandou chamar a galega que estava no pátio, aproveitando o sol para tomar banho na bacia. - Diz para apurar - ordenou.


Seu sorriso com dentões brancos e três de ouro reluziam. É a Glória.  - Vem minha linda! Convidou. No quarto em cima da penteadeira cheia de bibelôs, perfumes, talco Cashmere Bouquet, creme Leite de Rosas, pomada minâncora, um eletrofone portátil Philips tocando o compacto de Roberto Carlos , sucesso da época Amada Amante. Um abajour com luz de festa vermelha. É o pouco que ele lembra. Só tinha olhos para a galega, uma espera de anos.


Passados três dias de internação no referido estabelecimento chegou a hora de ir para casa para evitar ser considerado um desaparecido.  Mas sabiam onde ele estava pois morava ali perto. Veio a conta. Só não chorou em alemão porque só falava a língua materna. Era nativo da Corveta, ali em Araquari.. 


Deixou a outra metade de tudo o que ganhou em 30 anos e ainda lhe confiscaram a Lambretta como garantia de que voltaria para pagar o saldo.

Desceu a escadinha da casa, olhou para sua ex-Lambretta com olhos marejados e uma última olhadinha para trás. Lá na janela debruçada com os cotovelos num travesseiro, estava a galega. Abriu um sorrisão enorme, os dentes de ouro brilhavam contra o sol da manhã, atirou um beijinho e se despediu: - Fui feliz nestes três dias!


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