domingo, 27 de julho de 2025

O ENXOVAL DA LURDINHA

Andando pelo Festival de Dança de Joinville, que é o maior e mais bonito do mundo, reencontrei uma conhecida que ainda mora em Erechim, na vizinhança do bairro em que me criei. Achei que era, olhei, mas foi ela quem tomou a iniciativa de falar comigo. Me reconheceu na hora e conversamos um pouco sobre fatos com mais de meio século.


Perguntei se ela já havia se casado, pois durante anos guardava o enxoval para um futuro pretendente. Os olhos dela se encheram de lágrimas e me contou, que ainda ninguém a amou e continua solteira. Se busca distração nos grupos de dança do 60+. O grupo em que ela dança veio se apresentar e este acontecimento é algo enorme que vai render conversas por mais um ano.


Lembro da mãe dela, uma senhora simples que teve cinco filhos, mas era Lurdinha quem cuidava da mãe. E a dona Leontina fazia promessas, não perdia romarias e  buscava uma graça, que era o casamento da Lurdinha. Sempre repetia:


    - Como vou morrer um dia e deixar essa guria desamparada, sem um marido para cuidar dela. Dona Leontina sempre se enganou com isso, pois o marido nada valia e a deixou com uma penca de filhos, O que faria ela pensar que algum marido poderia amparar a Lurdinha? 


Seguimos a prosa por mais uns minutos antes de ela reencontrar o grupo e ir para o palco. E perguntei se ainda ela mantinha as malas cheias de peças do enxoval. Confirmou que sim. Eram malas antigas, daquelas de papelão. Dentro, panos de louça bordados ricamente com capricho, toalhinhas de crochê para enfeitar as mesas, lençois também bordados, fronhas com as iniciais dela, esperando as do futuro marido. Era muito capricho. 


As vizinhas fofoqueiras garantiam que ela vai morrer virgem, pois espera o dito marido que vai cuidar dela. Antes de se despedir, Lurdinha me pergunta onde tem loja de toalhinhas, porque contaram que aqui temos fábricas de boa procedência de cama, mesa e banho. Ela quer levar algumas peças para engordar o enxoval.


Em casa, preparei um mate e comecei a pensar, quais dos meus amigos eu poderia sugerir para tal namoro e quem sabe casamento. anotei o nome de meia dúzia, avaliei um por um e no final cheguei a conclusão que ninguém contava pontos suficientes. Iriam não fazê-la feliz nem na mesa e muito menos na cama.


Lurdinha, pelo jeito continuará solteira e enchendo mais uma mala de enxoval. Acho que vou mandar um jogo de chá  de porcelanas para ela. Vai que surja um senhor apessoado que queira tomar um chá da tarde com pão caseiro e doce de abóbora, que tem propriedades afrodisíacas. Mas a moça é donzela, ainda, aos 70 anos. 



Como é domingo, melhor parar de falar da vida dos outros e ir na missa das 9h. bom domingo. 


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