Como é habitual, nas manhãs de domingo, sigo para a missa das 9 horas na Paróquia Nossa Senhora de Fátima,no bairro Glória. Chego mais cedo para pegar lugar no estacionamento e um bom lugar no banco, preferêncialmente na ponta onde não ficaria apertado entre outros fiéis.
Neste domingo, já no estacionamento encontro um conhecido antigo, daqueles que eram fortes “cabos eleitorais”, que hoje nem existem mais devido às mudanças nos meios de se fazer campanha eleitoral. Nos cumprimentamos e fomos caminhando para dentro da Igreja e ele me falando do que tem feito nestas três décadas. Nunca soube o nome verdadeiro, mas todos o tratavam como “Corvino”, talvez a alcunha tenha surgido pela esperteza, astúcia ou por ser um sujeito meio corvo que pega qualquer coisa. Nunca perguntei.
Sentamos lado a lado, mas preferi a ponta do banco. Eu querendo seguir a liturgia e ele querendo papear. Não dava folga. Estava lá só para olhar a mulher alheia, um pecador nato. Cada moça ou senhora bonita, bem arrumada e atraente, fazia um comentário sexista. Eu me calava, dava um risinho e apontava para o altar e para o telão onde são projetadas as letras das músicas que o coral entoa.
Assim foi durante uma hora e meia, até que o padre deu os avisos finais e abençoou a turma. Cada um seguiria seu domingo para almoço ou outros compromissos. Corvino não desgrudou de mim e até o estacionamento comentava sobre os dotes femininos. Falei que este não era um comportamento correto, digno na Casa do Senhor e que se ele tivesse estes pensamentos que não frequentasse a missa. Há casas e profissionais para isso. Questionei o que ele estava fazendo no meu bairro, afinal era morador de um bairro da periferia distante dali. Me revelou o segredo sórdido da corvinice. Vai nas missas em cada domingo em um paróquia diferente só para se deliciar com “a beleza das mulheres de fé”. Disse a ele que aquilo era uma atitude condenável e que se continuasse agindo assim já estaria com passagem de primeira classe para uma recepção com o Capiroto. Gargalhou, afirmando não acreditar na punição divina.
Ao me despedir pediu carona. Falei que iria ver uma apresentação de blues no cemitério.
- Me deixa no centro, passando o cemitério. Não gosto muito de lugares assim, vai que as almas me descubram.. pediu o Corvino. Levei-o e ao passar pelo campo santo dei uma parada e apontei para o longe comentando:
- Seu Corvino, aqui está cheio de pecadores, principalmente os que atentaram contra o nono mandamento. Ele ficou com cara de tolo, bem do tipo que é. Seguimos, deixei ele no terminal e fui para o Blues. Domingo que vem, certamente ele não estará no Glória. Nem eu, pois será Dia dos Pais.
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