Este causo verídico, verdadeiro e com testemunhas me foi contado pelo livreiro Zeka Chaves de quem compro livros, sempre de excelente qualidade.
Um aparentado dele, lá do interior do Paraná, que trabalha como caminhoneiro e percorre as estradas do Brasil teve uma vistoria e tratamento exemplar em um posto policial.
Sabedor e malandro, como todo caminheiro, deveria passar no Cinquentinha, conhecido posto policial em uma BR do Ceará. Mas como todo caminhoneiro que não é patrão andava com os pilas contados no bolso da camisa de tergal.
A uns 10 quilômetros do famoso posto policial Cinquentinha ele viu na margem direita uma churrascaria com carnes nobres de boa procedência. A placa fincada nas margens da rodovia propagandeava que alí serviam espeto corrido com a melhor carne do Mato Grosso. O churrasqueiro era gaúcho com larga experiência e os acompanhamentos eram do dia com direito a sobremesa de ambrosia. Tudo isto por apenas R$ 49,90. Não teve dúvidas, parou o caminhão, esticou a única nota de R$ 50,00 que tinha e se fartou. Nem pensou o que faria logo adiante.
Meio mole, devagar com a pança cheia, ligou o 1113 e seguiu viagem devagarito. Ao chegar no posto cinquentinha, o policial mandou encostar, revistou faróis, sinaleiras, mandou pisar no freio, conferiu nota fiscal e tonelagem. E ficou enrolando com os documentos e CNH do aparentado do Zeka Chaves na mão e ficou proseando como quem não quer nada, esperando que o motorista desse a gorjeta.
O motorista explicou que estava sem um puto tostão, porque o patrão não pagou a diária antes e que ele estava com fome, não tinha comido nada e que nem sabia o que faria. Ouvindo isso e desconfiado de que perdeu o cinquentinha da gorjeta, convidou o caminhoneiro para descer e ir até a copa do posto policial. Mandou que sentasse e o próprio policial serviu a mesa.
Colocou um copo de "cristal" daqueles que vinham com massa de tomate e a gente usava a vida toda. Uma jarra de K-Suco daqueles que deixa o beiço pintado. Tirou o pano de cima do pão caseiro, cortou duas generosas fatias, entupiu de manteiga e fartas porções de mortadela, de procedência duvidosa porque nem marca tinha.
- Agora o amigo pode comer bem, porque daqui não deixamos ninguém com fome. Imagina o que vão falar no Paraná se a gente deixasse um filho de Deus, protegido de Padre Cícero, sair pela estrada sem comer nada. E o motorista sem fome, pois estava de pança cheia, empurrou o sanduíche de mortadela e o suco ralo. Cada vez que ele terminava o policial fazia mais um e ficava ali até que o vivente terminasse. Assim o fez por quatro vezes até que o motorista caiu da cadeira com a barriga explodindo. Ali adormeceu. Meia hora depois acordou e o policial ofereceu mais um sanduíche para o amigo não sair falando mal do posto policial cinquentinha.
Rapidamente o caminhoneiro pegou os documentos de cima da mesa da copa do posto e se arrancou para dentro do Mercedes.
Jurou que nunca mais vai comer sanduíche de mortadela e agora busca outras rotas que fujam da BR do posto cinquentinha, Mas como ficou precavido agora sempre guarda uma nota de 50 como reserva. Esconde em uma abertura no interior do parasol do caminhão. Vai que tenha de passar lá de novo. Sanduíche de mortadela com k-Suco...revira os olhos do vivente só de pensar.
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