Este fato verídico e verdadeiro já faz tempo. Como já foi caducado por decurso de prazo vou contar. Trinta anos se passaram daquele Dia dos Namorados com um final cheio de alegria, emoções, agradecimentos, choros e risos.
Por volta das 10 horas da manhã, Júnior aparece na repartição com um lindo buquê com doze rosas vermelhas, cor da paixão. Não economizou. O presente contemplava também uma caixa de finos bombons da Kopenhagen. Algo fino mesmo. E foi além nos gastos, pois passou na joalheria no dia anterior e comprou um lindo anel que presentearia a colega com que ele havia saído algumas vezes e poderia ser um romance promissor. Júnior aproveitaria a data para pedi-la oficialmente em namoro, na frente da equipe toda.
Entrou na sala todo enfeitado, senhor de si, pisando firme, sorriso largo no rosto e com os presentes nas mãos. Mas antes mesmo que pudesse teatralizar, aquela besteira de se ajoelhar, presentear e jurar amor, ele viu o que não queria. A dita moça, que ele estava caído de amores, estava perto de um outro colega, baixinho, barrigudo, careca, ou seja, o estereótipo do não galã. Ela o acariciou e devolveu uma jaqueta esportiva do São Paulo Futebol Clube. Ela sussurrou algo no ouvido do “clone de Danny DeVito” a confidenciando que o agasalho a protegeu do frio, mas o calor da noite anterior foi muito melhor do que se tivesse sido com o ex-jogador Raí que havia autografado a jaqueta do tricolor paulista. A noite deveria ter sido quente em campo, no apartamento dele onde havia só um colchão de solteiro no chão, uma geladeira e um fogareiro com liquinho.
Aí o Junior se desmontou. Parou, ficou pálido e sem reação alguma. Deu meia-volta rapidinho e seguiu para a copa, onde uma senhora muito querida nos fazia o café diariamente.
Dona Neide, por favor, pegue este presente para a senhora. Por favor, pegue logo!
Mas meu filho, o que é isso? Porque?
Não me pergunte nada. Apenas pegue de presente. Insistiu e saiu pela porta do corredor, desceu as escadas e só voltou na segunda-feira.
Contente pelo presente inusitado, Dona Neide colocou as flores em um bule alto, um melhoral na água das flores para durarem mais. A copa ficou linda, o vermelho das flores resplandecia o ambiente. Todos corriam para tomar um café e ver as lindas rosas vermelhas que a dona Neide recebera. Imaginaram que era do marido, o que é pouco provável, pois vivia encharcado de cana em casa, enquanto ela trabalhava. Os bombons caríssimos ela ofereceu junto com o cafezinho para todos do setor e o anel, não se sentiu bem em receber algo tão valioso. Esperou o apaixonado esfriar o chifre, voltar ao trabalho e devolveu, aconselhando que recuperasse o dinheiro. Afinal ele gastou o salário de um ano pelo ato impensado de amor.
A moça? Nem deu bola, continuou se divertindo com o aficionado tricolor paulista. Ele tinha até meião autografado pelo ex-jogador Richarlyson. E ela deixava de andar no carro de luxo que ela tinha para passear no Fiat Premium fumaçando e com um porta-malas, conhecido como kit sobrevivência. Ali tinha fardamento de time de futebol, toalha de banho, necessaire, e o infalível isopor sempre lotado de vários tipos de cervejas de vários lugares do mundo. Sim, é claro, sempre um cobertor pega-pulga e travesseiro no banco traseiro. E no toca-fitas Tojo uma seleção de heavy-metal em especial Screaming for Vengeance do Judas Priest. Vá entender o gosto da formosa dama…