sábado, 30 de maio de 2026

ENCIUMADO, MATOU O ARTISTA E NÃO FOI PRESO

Toninho não tinha paz na vida, na sua alma atormentada pelo ciúmes. Não dava um minuto de folga para a esposa. Toda hora queria saber onde ela estava. Ligava para o trabalho para saber o que estava fazendo, porque havia demorado tanto para atender o telefone e desconfiava até do tempo que ela ficava no banheiro. Um psicopata total. E sempre quando ela demonstrava desgosto vinha com as desculpas do eu te amo tanto.


Paulinha estava de saco cheio daquela situação, mas com temor de mandar o Toninho andar. O ciúmes dele era doentio. Os parentes alertavam, os amigos temiam o pior. Ele dava a volta na casa para ficar escutando pela janelinha do banheiro se tinha alguém com ela e se falava algo. Completamente endoidecido. 


Em uma noite de quinta-feira a central de atendimento da Polícia Militar recebeu uma chamada no 190.


  • Polícia Militar boa noite, qual a ocorrência? Solicita a policial de plantão.

  • O vizinho matou alguém ouvi tiros.

  • Qual seu endereço?


A pessoa informou e em poucos minutos uma patrulha da PM chega na casa. Na sala a imagem da tragédia. Vidros estilhaçados, móveis quebrados. Apenas o Toninho desolado, chorando sem parar, derramando rios de lágrimas. O revólver Taurus, de calibre 32 estava jogado no chão ao lado do corpo inerte em pedaços. O cano estava quente e o cheiro de pólvora infestava o ar do pequeno cômodo. A policial verificou a arma e todos os cinco projéteis haviam sido disparados. 


  • Ela nunca mais vai me trair. Acabei com o almofadinha que tirava o sossego da minha Paulinha. Ela nunca mais vai me trair, repetia Toninho atônito e fora de si.


Os policiais vasculharam a casa e o pátio para encontrar detalhes, testemunhas e corpos. Afinal foram cinco tiros. 


Mas nada encontraram até que surgiu uma mulher assustada com o acontecido e falou aos policiais que Toninho não tinha feito aquilo por mal. Ele só estava com ciúmes. Era Paulinha, justificando o ato do marido.


Ele matou Francisco Cuoco por ciúmes. Ela não perdia um capítulo da novela Pecado Capital, onde Cuoco era o taxista que “enricou” e que encantava as moças novelistas dos anos 70. Paulinha não perdia um capítulo e Toninho ficou enciumado por testemunhar o olhar da mulher para o galã da telenovela. Não havia outro jeito. Mataria Francisco Cuoco de ciúmes.


Chegou em casa e viu Paulinha suspirar vendo as cenas de Francisco Cuoco e Betty Faria. Não aguentava mais de ciúmes doentio. Entrou na sala com o Taurus 32 carregado e não teve dúvidas. Descarregou o revólver no rival. Matou Francisco Cuoco com cinco tiros. Estilhaços de vidro do tubo da televisão espalharam pela sala e o corpo da velha tv ficou estirado no tapete. 


Paulinha correu para a vizinhança e só voltou quando a polícia chegou. De nada adiantou o ciúmes de Toninho. Perdeu Paulinha, perdeu a TV que teve de continuar pagando em 36 vezes no carnê e ela continuava amando Francisco Cuoco e não perdendo um capítulo. Passou a assistir na casa do vizinho. Toninho foi liberado, pois o corpo na sala era a TV Telefunken, mortinha. 


sábado, 23 de maio de 2026

Quero uma coroa

A atendente era uma mulher com seus mais de 40 anos, bem vestida, charmosa e com certa atratividade. Cabelos presos, camisa azul com os dois primeiros botões abertos. Saia justa que delineava sua silhueta. Perguntou o que eu desejava. Sem a menor dúvida fui direto ao ponto.


- Quero uma coroa para botar...Ela nem deixou eu terminar a frase e respondeu prontamente de forma ríspida.


- O que o senhor está pensando. Olhe bem para o senhor. Não tem espelho? Não vou admitir falta de respeito. Coroa deve ser sua mãe. Sou ainda jovem e não me considero como tal.


- Desculpe senhora, eu não queria ofendê-la. Apenas estou precisando....


- Se está precisando, procure em outro lugar e não venha com cantadas baratas como se fosse um pedreiro ou coisa pior - devolveu a tal atendente.


- Me deixe explicar madame. Eu apenas quero saber quanto custa…


- O que ? Acha que estou à venda? que tenho preço. Afinal qual o seu interesse? Me ofende e agora quer me comprar? Vociferou já perdendo a compostura.


- Não é nada disso. Eu só estou querendo muito resolver esta situação, respondi calmamente.


- Pois vá resolver em outro lugar. Aqui não é o local, isto é uma clínica odontológica, tratou de reafirmar a atendente.


- Eu sei e é o que estou tentando saber da senhora, como se faz e quanto custa uma coroa de porcelana, uma jaqueta, um dente de ouro, enfim. É para meu molar inferior direito que está quebrado.


- Ahhhh, finalmente o senhor se fez entender, disse a atendente envergonhada por não ter entendido que eu queria uma coroa de porcelana sob medida para meu dente. 


Respirei aliviado, pois os demais pacientes já me olhavam com olhares de culpado, de assediador, querendo a coroa, ou seja a dama de 40 e poucos anos que atendia na recepção.


Consegui agendar a consulta. Da próxima vez já chego de boca aberta mostrando o dente danificado, antes que ela quebre os demais por não entender o intuito. 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O AUTO DA APARECIDA

O renomado escritor pernambucano Ariano Suassuna escreveu o Auto da Compadecida, imenso sucesso editorial que virou filme e peça de teatro. Mas vou lhes contar um episódio que envolve o Auto da Aparecida. 


Aparecida era uma santa mulher, muito dedicada à família e aos amigos. Em uma manhã de sábado estava sendo aguardada na Paróquia a que ela pertence. Não falhava em seus compromissos e nunca deixou uma alma desassistida ou esperando por ela. Era pontual. Repetia que não estaria em um compromisso se estivesse morta. Aparecida era uma santa, repetiam os vizinhos e até gente de longe já conhecia a fama dela de ser leal, pontual e altruísta.


Naquele sábado haveria festa na igreja com missa, churrasco e bingo de tarde. Todos os festeiros voluntários já haviam chegado cedo para começar os preparativos de copa e cozinha, bem como auxiliar na missa e arrumar tudo para o bingo com ótimos prêmios que aconteceria de tarde. Já passava das 8 horas e nada de Aparecida que estava com as chaves do salão. O pároco confiava as chaves nas mãos dela porque era responsável e nunca falharia com os demais.


Pouco mais de meia hora de espera surge na esquina um garoto correndo, esbaforido que chegou perto do grupo cansado sem poder falar e com sofreguidão deu notícias sobre Aparecida.


  • Dona Aparecida não vem! Anunciou o garoto com dificuldades de falar e respirar devido ao cansaço por ter vindo correndo para avisar.

  • Per l`amor di Dio. Quello che è successo? Questionou o padre.

  • Uma tragédia - respondeu o menino que era vizinho de Aparecida. Entregou as chaves para que pudessem abrir o salão.

  • Me conta, o que aconteceu? Insistiu o padre.

  • Uma tragédia…e ela não vai poder vir ajudar, repetiu o mensageiro.

  • Desembucha, filho. Parece com esta agonia e conte tudo - ordenou o sacerdote

  • É que o auto de Aparecida estragou, não pegou, não deu a partida, deve ser bateria, explicou.


Todos se calaram por alguns segundos. Se olharam, balançaram a cabeça com tristeza no semblante.


  • Ma Santo Cielo, perché non hai parlato prima- esbravejou o padre que apontou para dois paroquianos e já penitenciou:

  • Corram e empurrem o Auto da Aparecida até pegar. Ela precisa estar aqui. Festa da paróquia sem Aparecida, não é Festa da Paróquia, finalizou o padre


E por falar em festa de Igreja, neste sábado, 9 de maio tem Festa da Padroeira, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro Glória, em Joinville. Missa, churrasco de igreja e bingo. E também vai ter posto de vacinação para quem ainda não se vacinou ou quer atualizar sua carteira de vacinação. 


Aparecida com seu auto estarão lá? Acho que sim, porque festa da paróquia sem Aparecida, não é festa da Paróquia. 


sábado, 2 de maio de 2026

O FRIO LAGEANO E O CONGELAMENTO DO PREFEITO

Agora de manhã, proseando com uma colega lageana, lembrei de um acontecido nas terras altas e geladas de Lages. Fato ocorrido durante a Festa do Pinhão de 2002 que coincidiu com a Copa do Mundo, o ano do Penta.


Naquele ano, o prefeito de Joinville Luiz Henrique havia renunciado em 4 de abril para se candidatar a governador e o vice-prefeito Marco Tebaldi assumiu o governo. Recebemos o convite para ir na Festa do Pinhão e fomos recebidos e hospedados no Rancho Rochedo do sempre agradável Roberto Amaral, dono do grupo de comunicação SCC.


Seguimos de Joinville, o Tebaldi, eu, o Ivan na pilotagem e o ex-vereador João Gaspar. Noite agradável, encontro com amigos de longa data, música boa e comida melhor ainda. Naquele ano o ex-prefeito de Florianópolis preparou um entrevero de frutos do mar, algo diferenciado que fez todos lamberem os beiços. Lá pelas 2 horas da madrugada seguimos para o Rancho Rochedo, naquele frio de renguear cusco. Até comprei uma manta de lã e enrolei no pescoço para me proteger do vento gelado e um chapéu para não pegar friagem.


Chegando no Rancho Rochedo começou a fiasqueira. Após horas de estrada e programação noturna intensa, cheiro de fumaça das fogueiras que assavam pinhões, esquentava água para o mate e o preparo do entrevero e churrasco. Estávamos cobertos de fumaça, gordura e acho que um zorrilho era mais perfumado e chegava perto. 


Encontramos quartos bem aconchegantes, mas a hora da verdade quando um gaudério mostra sua força é no momento de deitar o pelo no lençol gelado. Chora lágrimas de gelo. Mas o aquecedor a óleo ajudava no aquecimento do ambiente. Gaspar estava com medo que aquilo pudesse pegar fogo e não queria acionar. Ivan, não muito certeiro queria dormir no salão. Disse que ele congelaria lá embaixo pois na frente tem um lago e estava congelado. Eu me deitei com roupa e tudo. Vestir pijaminha de pelúcia? Nem pensar naquela altura. Sairíamos cedo para retornar a Joinville.


E Tebaldi resolveu que não iria dormir enfumaçado. O vivente se foi para o chuveiro e minutos depois ouvimos um grunhido, uma resmungação, um pedido de ajuda. Imaginei que era alguma alma penada de antigos tropeiros. Desconfiados fomos até o quarto dele e lá estava o prefeito da maior cidade catarinense tremendo, batendo de queixo como se fosse guizo de cascavel. Bateu a hipotermia. O Ivan lembrou que viu num filme que se deitando por cima do congelado aqueceria o tal e sobreviveria. Nenhum dos três se animou. Tratei de pegar um monte de cobertores de lã e jogar por cima do xiru véio e ligar o aquecedor. Alguns minutos depois recuperou o calor corporal e passou a tremedeira.


Na manhã seguinte, na hora do café, num sábado gelado, olhamos pela janela e o cenário era de uma pintura. O cerro branco de geada, a água do lago congelado e um cusco maleva rengueando de frio pelo gramado coberto de gelo, deu para entender o fiasco da noite anterior. Mesa farta, café passado e pancinha cheia retornamos para Joinville. Não tirei minha manta e nem meu chapéu que uso até hoje. Em breve chega o frio, pinhão, comida boa, música gaúcha e a alegria de viver com boas lembranças.