domingo, 25 de outubro de 2026

ERA COMO UM COICE DENTRO DO PEITO

 

Caminhando por uma rua na periferia, me deparei com um prédio de apartamentos, simpático, simples, bom ajardinamento e uma placa de venda que me chamou a atenção. Um apartamento no primeiro andar com uma placa escrito com letras grandes e bem visíveis. Parei e li com atenção e o que estava escrito me fez parar e querer saber mais sobre esta oferta inusitada.


Curioso apertei no botão da campainha, pedi para ver o imóvel e puxei prosa com o vivente. Me mostrou todos os cômodos e já adiantou que estava desiludido com a cidade com a povoeira que destrói a natureza, a fumaça de fábricas, ônibus, caminhões, carros e que sente falta do verde, da água limpa do silêncio e do cantar dos pássaros, do "acoamento" dos cachorros e que ele tinha "precisão" de sair da ilusão da cidade grande.


Perguntei mais sobre a decisão dele de vender aquele apartamento bem localizado e com um valor muito atrativo.  Ele sentou em um cepo coberto por um pelego, já surrado pelos anos, olhou para longe pela janela do pequeno apartamento. Suspirou e sem nem mesmo me olhar, uma lágrima caiu de seus olhos e disse - a saudade moço, a saudade mata!


Perguntei se tinha deixado alguma amada em sua terra natal, ou um amor desfeito, ou alguém que o esperava.  Fez um longo silêncio, nada me disse, de imediato, mas aos poucos foi falando  da dor de seu sentimento, que era como um coice dentro do peito. 


Todos os dias pensava, remoía, e seu peito roía por dentro. Nunca tirou da cabeça aquela malvada que um dia lhe sorriu, beijou seu rosto, piscou para ele e lhe ofertou uma flor do campo. Mas ela só fez isso quando ele estava de saída para ir embora para a cidade grande. Se passaram 40 anos e ela não havia esquecido aquele momento.


Para ele não tinha mais sentido viver na cidade, com ilusão e solidão, enquanto a saudades de anos estaria o matando pouco a pouco todos os dias.


A tabuleta, escrita de próprio punho dizia: 


Vende-se este apartamento.

 Preço de ocasião. 

Por motivo de saudades. 

Tratar com o proprietário neste local.


Nesta semana passei novamente no local. Não vi mais a placa e perguntei se haviam vendido. Se alguém sabia daquele senhor que ali morava. E uma senhora, já idosa me respondeu que o seu Floriano havia partido. Eu quis saber para onde, afinal conseguiria matar a saudades e rever seu grande amor do passado e quem sabe tirar a agonia de dentro do peito.


A gentil senhora se calou, e me respondeu. Ele partiu para junto de quem já se foi. Está no campo santo há três semanas. Não aguentou a saudades e se foi. Morreu de saudades.


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