segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Saudades

 Todas as manhãs Manoel acordava às 4h30min. Era seu costume, já que estava aposentado e dormia cedo. De noite refeições leves, lia algumas páginas da Bíblia que ficava sempre no criado mudo ao lado de sua cama. Antes de desligar o abajur, rezar  e pegar no sono, retirava uma foto que guardava carinhosamente na última página do livro sagrado. Olhava, beijava a foto e guardava no mesmo local. Colocava o livro sobre o criado mudo e esperava o sono chegar.


Ao amanhecer, sua rotina era de aquecer a água e fazer o chimarrão, que tomava algumas cuias sentado no pátio em companhia da cachorrada, que o acompanhavam há muitos anos. Não importava se havia sol, chuva, calor, frio, tempestade, ventania. Se arrumava e saia de casa pontualmente às 8h, pois deveria pegar o ônibus na outra rua. Caminhava 10 minutos até o ponto de parada. Ia com esta linha até o centro e trocaria de ônibus que o levaria ao destino final.


Chegou ao centro, fez a baldeação e por alguns instantes, enquanto esperava a partida, olhou ao horizonte vendo pessoas transitando, caminhando, comprando, correndo, enfim o burburinho de um terminal de ônibus central. Entorpecido não ouvia, apenas fitava ao longo a movimentação como se não fizesse parte daquele cenário. Só voltou a si quando o veículo começou a andar e o percurso de pouco mais de 6 quilômetros foi completado em 20 minutos com algumas paradas para o sobe e desce de passageiros.


Chegando ao destino, entrou na floricultura que ficava em frente ao ponto do ônibus e comprou um buquê de rosas. Neste dia pediu rosas vermelhas, cor da paixão, do amor do desejo. Não economizou e já solicitou 12 rosas vermelhas. Pediu que a atendente montasse uma cesta com as rosas e decorasse com “mosquitinho” branco, uma planta que é usada em arranjos florais.  A senhora que preparou a cesta de flores até comentou: Ela vai gostar muito desta lembrança!. Manoel nada falou, apenas consentiu com a cabeça e estendeu a mão com as notas amassadas de dinheiro que estava guardando algum tempo para este momento. Valor perto de R$200,00, o que para ele estava bem salgado visto ser aposentado e ter que esticar os ganhos até o outro mês.


Saiu da floricultura, olhou para os lados, e atravessou a movimentada rua. Chegou ao portão, parou, suspirou e seguiu em diante, caminhou por uns bons metros em uma subidinha de calçada com paralelepípedos irregulares. O calor já começava a sentir e só faltavam alguns metros. Pensou afrouxar a gravata e tirar o paletó por causa do calor. Mas isto era impensável. Queria estar bem apresentável. Continuou a caminhada sob o forte sol de fevereiro.


Chegou, sentou um pouco. Olhou demoradamente e depositou a cesta de flores em cima do túmulo de sua amada. Limpou a fotografia com um lenço que trazia no bolso. Admirou a beleza de seu amor por toda vida. Beijou a foto impressa em porcelana que identificava onde estava a única mulher que ele amou e só esperava o dia de encontrá-la. 

  • Hoje é seu aniversário e estas rosas são para  você lembrar que fostes meu primeiro e único amor e será por toda minha vida. Me espere. Seremos novamente um só- falou baixinho. Rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria, levantou e voltou para casa. Amanhã eu volto!- despediu-se Manoel e seguiu no sol escaldante, com sua fatiota nova. Em breve estaremos juntos, murmurou ao sair..


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