sábado, 28 de fevereiro de 2026

O ENCANTO E A MAGIA DO CIRCO


Resolvi ir ao circo, algo que não fazia há anos. Fui na primeira sessão da tarde, para evitar sair de noite e também não cochilar durante o espetáculo. Enfrentei a fila para comprar ingresso, sob o sol sahariano de Joinville. Como não havia para idosos, já escolhi um lugar no camarote vip, bem na frente do palco. Um rapaz com máquina fotográfica passava e tirava fotos. Reunia as famílias bem perto e fotografava.


Ao meu lado sentaram um menino de pouco mais de 3 ou 4 anos com a bela e atraente mãe, vestindo um short verde bem justo e curto, e a blusinha que exaltava seus atributos físicos. E lá passava o fotógrafo fazendo retratos de grupos. A esta altura eu implorava pelo vendedor de água. Imagina o calor de Joinville e a lona do circo fervendo, mais a dama ao meu lado. Ferve qualquer radiador.


Fiquei observando o andamento das coisas antes do espetáculo. Uma moça vendia "fantasminhas", outro oferecia minions que solta bolhas de sabão, um rapaz oferecia brinquedinhos iluminados, daqueles que não servem para nada. Só giram com uma luzinha, mas para os pequeninos é um atrativo que tira dinheiro dos pais. Mais tarde reconheci os vendedores. Todos eram os artistas que iriam se apresentar em seguida. Ahh, o retratista? Continuava passando e fazendo clics.


Iniciado o espetáculo dá gosto de ouvir  o apresentador anunciando as atrações imperdíveis e exclusivas:


- Diretamente do México, o fenomenal equilibrista. E o rapaz se apresentava. Reconheci. Era o que vendia os brinquedos de luzinha.


- Vinda dos maiores circos da Europa a acrobata aérea. Fazia um número enrolada em uma corda , inclusive se pendurando e rodando presa pelo pescoço. Ela era a mocinha que vendia os "fantasminhas".


- Chegado hoje de Las Vegas, o Grande Mágico dos Cassinos - anunciou o apresentador. O mágico de Vegas é um veterano que vendia outros brinquedinhos em uma bancada na entrada/saída do circo.


- Dos maiores circos da Turquia a impressionante rainha do bambolê e dos cubos mágicos. Esta custei a lembrar de onde eu havia visto. Também passava com outros brinquedinhos e todos com máquina de cartão. É a modernidade tecnológica. E eu querendo ver o tal do retratista. Onde será que se meteu?


E como não poderia faltar, os palhaços sempre alegram não só as crianças, mas os adultos, também.


E o retratista havia sumido. Veio o intervalo e agora dois motociclistas entraram no Globo da Morte. Um era o equilibrista vendedor de brinquedos com luzinhas. Sim, o mesmo. Era ele. O outro era o dito retratista que havia sumido. Descobri onde se escondeu. Ninguém me engana com o raciocínio e talento de um Hercule Poirot, ou verdadeiro Sherlock Holmes.


Quase encerrando o espetáculo vem uma moça com as fotografias já montadas em um chaveiro. 


- Senhor, a foto de sua família, Aceitamos crédito, débito e pix. E o piazinho nesta altura já estava colado em mim, querendo ver a foto dele, da mãe e do tio que sentava ao lado.


-Esse não é o papai! Não é o papai! repetia o menininho.


Tratei de esclarecer o ocorrido e sair rápido. Vai que gostam da minha pessoa no retrato. Vi que a moça, mãe do piá, comprou. A dúvida é se vai me cortar do retrato? Nem imagino o que vai explicar em casa, mas o circo continua sendo mágico. Espetáculo familiar, gostoso e mesmo sabendo que o mágico não é de Las Vegas e os truques são sempre os mesmos. Acreditei que ele tirava os quatro pombos do bolso, do lenço, da cartola e um pombo fujão que saiu do cone que ele fez de papel, na frente dos olhos vivazes da platéia.


Querem saber se fiquei fotogênico no retrato com o meninho e a com a mãe dele? Huumm. Não vão saber.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

RECONHECIMENTO FACIAL FOI INVENTADO NO RIO GRANDE DO SUL

 

Andei lendo notícias de que muitos lugares do mundo já contam com um software de reconhecimento facial, e que o Grande Irmão sabe tudo. O escritor George Orwell já havia escrito o livro 1984, que trata do controle absoluto dos cidadãos pelo Estado totalitário. Certamente este escrivinhador inglês se baseou na gauchada, onde se conhece o vivente pela cor do pelego. 


Certa feita eu estava caminhando pelo calçadão da Rua da Praia, no centro histórico de Porto Alegre, mais precisamente em 1984, bem no ano do título do tal livro, quando presenciei uma cena capaz de fazer inveja aos mais desenvolvidos programas de reconhecimento facial, que apenas hoje em dia estão sendo utilizados, 40 anos depois do acontecido.


Um vivente estava saindo do Banrisul com a guaiaca bem gordinha, abarrotada de Cruzeiros. Pilchado, botas de cano alto lustradas, lenço maragato no pescoço e um pala de lã no braço direito para esconder a prateada que levava na mão e a garrucha na cintura, enfiada no cinto da guaiaca por trás. Tem que se precaver contra os malfeitores da cidade grande.


De longe ele ouviu um grito:


- Mas bah! Como está seu Pedro de Soledade?


O gaúcho velho ficou espantado, já estava ali perto da Rádio Guaíba, caminhando em direção ao Mercado Público onde faria uma refeição, algumas compritas e seguiria para a rodoviária para pegar o ônibus. Também compraria alguns temperos e especiarias culinária que foram encomendas por Nair Terezinha, sua senhora. 


Avisado que na capital tem muitos golpistas se ouriçou com a abordagem de quem não conhecia. Afinal havia ido ao Banrisul retirar uma boa quantia da venda de um rebanho de Angus, feita em um  leilão de gado. Olhou desconfiado para o sujeito que o reconheceu e com a prateada na mão, escondida por baixo do pala de lã  quis saber como o conhecia.


- Que mal lhe pergunte, moço. Como o senhor sabe que sou Pedro e de Soledade? E já com a mão esquerda levou para as costas e puxou a garrucha. Seus cobres ninguém levaria sem uma peleia. 


- Não se assuste seu Pedro. É fácil reconhecer qualquer vivente de qualquer querência.


- Este causo está mal contado. Ou me fala ou abro seu bucho e enrolo as tripas bem aqui neste poste de luz. 


- Não precisa nada disso. Eu lhe explico. É fácil saber que seu nome é Pedro, já que usa uma fivela da guaiaca com a inicial de seu nome. A Letra P em maiusculo, bem desenhada, só poderia ser Pedro em homenagem ao seu nome que foi dado para homenagear a Província de São Pedro que originou o nosso querido Estado do Rio Grande do Sul.


- Mas como o senhor sabe que sou de Soledade?


- Também é fácil. É só ver os talhos de facão na cara. Lugar de gente braba e encrenqueira.


Não deu tempo do advinho concluir a prosa. Pedro deu dois tiros de garrucha, daquelas com dois canos e único tiro em cada um. Puxou o rebenque rabo de tatu, que levava junto e correu atrás do maleva pelo calçadão. 


Só fiquei bombeando a cena, meio de longe para não ser reconhecido, também, ou o seu Pedro poderia achar que eu tinha alguma coisa a ver com o reconhecimento facial, usado pela gauchada, muito tempo antes do surgimento do computador e câmeras de vídeo. É só falar com as véias da vizinhança. Sabiam de tudo, antes mesmo de acontecer. Davam tantos detalhes que a ciência vai demorar para aprimorar algum programa que chegue perto da vigilância em questão. Agora vou matear na frente de casa e dar uma olhada na vizinhança. Nem precisa câmeras de vídeo.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

O AMOR DE LUCINHA E ADROALDO ERNESTO

    Lucinha era uma moça com sonhos, como qualquer garota que almeja sair debaixo das asas da mãe e seguir seu rumo. Trabalhava muito no mercadinho perto de sua casa, onde tinha muitas obrigações. Atendia, orientava, proseava com a freguesia e ainda tinha de varrer a loja antes de ir para casa tarde da noite. 


Era uma lida diária dura. Ao chegar em casa enfrentava uma pilha de louças na pia e o dever de adiantar o almoço para o dia seguinte para seus pais, irmãs e uma prima que veio morar com a família. Aquilo não era vida, mas não reclamava. Apenas agradecia a Deus, por ter saúde, uma casa e uma família. Dormia pouco porque lá pelas cinco horas da madrugada,antes de o galo cantar Lucinha estava em pé, arrumada, com café pronto e mesa posta para quando os demais acordassem. Era um anjo de menina.


Já estava com 16 anos e a vontade de casar ia aumentando. Só com casamento poderia se livrar desta situação. Ter sua casa, uma companhia e arrumar  como ela gostaria que fosse. Em um final de tarde entrou, no mercadinho onde ela trabalhava, um moço bem apessoado, roupas limpas, passadas, sapato lustrado e bem educado. Perguntou onde estavam as gasosinhas. Ela respondeu, indicou e o levou até a prateleira.



  • Muito obrigado por sua gentileza. Sou Adroaldo Ernesto,seu criado. E estendeu a mão para se apresentar. Lucinha segurou forte a mão de Adroaldo Ernesto e sentiu um arrepio, como se fosse um leve choque elétrico que percorreu seu corpo. Teve certeza naquele momento que este seria o homem de sua vida. 


Começaram a se aproximar nos dias seguintes e muito rápido evoluíram para o casamento. Adroaldo Ernesto comprou um terreno, em um bairro um pouco distante do centro e lá construíram uma pequena casa com sala e cozinha em um ambiente só, dois quartos, já que tinham planos de aumentar a família, banheiro e uma varandinha onde colocaram dois cepos de madeira. Ali cobriam com um pelego e sentavam para matear e ouvir boa música em um radinho que ele trazia, e herança e deu finado pai.


No varal, o vento balançava os poucos trapos coloridos, algumas peças já bem esfarrapadas, gastas pelo tempo e  pelo uso. Lucinha fazia biscoitinhos de milho e temperados com mel de lixiguana, que era o modo de demonstrar todo o seu afeto, seu carinho e amor por Adroaldo Ernesto.


Como sempre faziam, no final da tarde o casal se sentava nos cepos de angico cobertos pelos pelegos, preparavam um bom chimarrão e ligavam o rádio para ouvir aproveitarem a companhia um do outro. Em uma dessas tardes, início de noite, Adroaldo Ernesto pegou a cuia, encheu com a água quente da chaleira, com a mão direita levou a cuia para sorver un amargo e com a mão esquerda segurou firme a mão de Lucinha, olhou em seus olhos e por alguns segundos disse a ela, através do olhar tudo o que sempre sentiu. Virou o rosto em direção ao pôr do sol, que sumia por trás da coxilha naquela tarde de sexta-feira, 13, noite de louvação, respirou fundo e disse para  Lucinha,  de forma terna, afetuosa e carinhos:


  • Esta é a expressão mais verdadeira de nosso amor!


 E naquela sexta-feira, véspera de Carnaval, Adroaldo Ernesto fechou os olhos e lentamente seu braço direito, que segurava a cuia de chimarrão, foi caindo bem devagarinho derrubando o mate no chão da pequena varanda. Ao principiar o escuro da noite de sexta-feira, 13, véspera de Carnaval, a lua cheia apareceu no horizonte e Lucinha ouviu apenas um uivo longo, demorado e lamentoso.




domingo, 8 de fevereiro de 2026

A VAMP DE UM BAILE DE CARNAVAL

Nos tempos quando  os clubes e sociedades faziam bailes de Carnaval, com verdadeiras orquestras, tocavam a noite toda e ainda alguns músicos acompanhavam os fecha-bar levando-os em cortejo para fora do clube já de manhã com sol forte e claro, é que se passa o que vou lhes contar.


Um colega de trabalho, não muito beneficiado pela natureza, sem muito jeito para conquistas e brincadeiras, foi se refestelar no popular Aceja, que existia em Erechim, do outro lado do viaduto, em frente a antiga concessionária Ford. Ali o bicho pegava. Os bailes iniciavam na sexta-feira e ainda tinha o matiné aos domingos de tarde para a criançada com o chamado Carnaval Infantil. 


Antes de entrar no clube, passou pela frente várias vezes, indeciso se deveria comprar o ingresso e ir se divertir. Sempre levava um espelhinho redondo pequeno no bolso da calça e um pente de chifre no bolso da camisa. volta e meia dava uma olhada na aparência, ajeitava o cabelo bem grudado com brilhantina e as sobrancelhas.


A noite estava quente e o conjunto atacava com as tradicionais marchinhas carnavalescas, divertidas e animadas. Aderbal Eduardo andava pelas laterais do salão, apreciando o movimento e arriscava uns passinhos tímidos. Perto do palco uma formosa dama, em trajes minúsculos e uma fantasia de mulher fatal, mistura de vampira com mulher gato passou a mão no Aderbal Eduardo que estranhou a atitude. Deu um pulo e perguntou - O que é isso? Ela apenas olhou profundamente para ele, deu um sorriso e uma piscadela. O sorriso com os dentes claros, bonitos e as duas presas sobressaiam. Adebal Eduardo virou de costas para a moça, ficou de frente para o salão, tirou o espelhinho do bolso da calça e o pente do bolsinho da camisa. Ia dar um trato no visual e se virar para conversar com a atraente mulher, que aparentava uns 30 anos. Nada viu. Transparência pura. Aderbal ficou branco, gerou o espinhaço e lembrou que vampiros não refletem em espelhos. 


Aquele sonho dele de arrumar alguém e dar uma passeada noturna ali perto, embaixo do viaduto da via férrea começou a dissipar, sumir de seus desejos íntimos. Afinal um baile de carnaval no Aceja, só saia solteiro se fosse muito burro. Até os feios arrumavam alguém. Aderbal Eduardo ficou atônito. Medo, insegurança, desejo, curiosidade. Correu pelo salão para ver se a via novamente. Perguntou ao porteiro se havia visto tal foliona e detalhou como ela era. O porteiro disse que não a viu, mas que presenciou Aderbal Eduardo falando sozinho perto do palco. 


 Enquanto isso o conjunto estava à todo vapor tocando Ó abre alas, Mamãe eu Quero, Me dá um dinheiro aí, Cidade Maravilhosa, Jardineira, Cachaça, Sassaricando, e Aderbal Eduardo saiu do clube caminhou alguns metros e ao olhar o viaduto que deveria atravessar a pé, com pouca iluminação e na alta madrugada preferiu pegar um auto de praça e seguir para casa. 


Nunca mais esqueceu aquela mão gelada que o apalpou no salão, o sorriso largo da dama com lindo rosto, mas com uma “força maligna no olhar”. Passou a frequentar só matinesão aos domingos de tarde. 


O ENCANTO E A MAGIA DO CIRCO