sábado, 25 de julho de 2026

QUEM COMEU A COALHADA?


Era comum as famílias visitar os parentes, amigos, compadres e passar o dia na casa deles. Íamos de manhã e alí ficávamos o dia todo. Era almoço, café da tarde, conversas, passeios e só se voltava para casa no final da tarde e início da noite. Numa destas aprazíveis visitas dominicais me levaram para um sítio de uma parentagem no interior de Barão do Cotegipe, cidade próxima a Erechim quando nem existia asfalto.


Eu tinha uns 12 anos e na propriedade havia muita diversão. Um riacho de água limpa que passava na divisa da propriedade, espetacularmente limpo e ótimo para banhos em tardes de calor. A moenda puxada por uma junta de bois rangia ao moer a cana que sorvia uma garapa doce, deliciosa onde bebíamos na fonte da vitamina poderosa.


Em um galpão onde ficavam ferramentas e colheita de grãos havia uma máquina que julgo ser revolucionária na tecnologia mundial. Sempre repito para mim mesmo. Depois que inventaram o debulhador de milho, o mundo mudou. A tal máquina debulhava o milho e moia em quireras de várias grossuras. Como já existia luz elétrica, um pequeno motor era ligado, e os donos orgulhosos da maquinaria que trouxe maior facilidade e produtividade. O milho colhido no morro em frente a casa dava comida para galinhas, porcos, vacas leiteiras e era possível moer o milho para uma boa quirera e preparar com galinha ao molho.


Mas o melhor estava por vir. Um dos filhos do casal aparentado me mostrou uma novidade e foi a melhor parte do passeio. 


  • Gosta de quaiada? Me perguntou e eu sem saber do que se tratava disse que sim. E ele abriu o porão da casa, onde ficaram voltas de  salames, linguiças secando, barrica de vinho e de cachaça, latas de banha, compotas de frutas e legumes e os queijos maturando. 


A tal “quaiada” estava em bacias cobertas por um pano branco. Ele retirou o pano de algodão bem alvo e a coalhada estava ali sendo preparada para a feitura dos queijos que seriam vendidos na semana. Com uma colher de pau experimentamos a coalhada que estava fermentando. Achei meio estranho, mas em seguida veio a perdição. Ele trouxe um pote de barro cheio de açúcar amarelinho, produzido na moenda ali da propriedade e um vidro cheio de melado.


  • Mistura um pouco que fica bom. Recomendou. Não tive dúvida. Misturei com açúcar amarelinho grosso e um pouco de melado e a coalhada ficou um manjar dos deuses. Quase melhor que ambrosia ou arroz doce. A bacia acabou rapidinho com os dois terneiros se servindo com colher grande pau, devorando a matéria prima que daria vida aos queijos, que eram a subsistência da família. 


Já era hora do almoço, subimos e a galinhada estava pronta. Banquete farto e de sobremesa goiabada, queijo fresco, gelatina com merengue. Até pedi um chá de carqueja para desmanchar aquilo tudo, afinal estava empanturrado feio leitão novo.


Pelo meio da tarde a prima, dona da casa desceu para ver como estava a coalhada, pois ainda fazia queijos para o marido sair vender na semana seguinte.


Voltou com cara nada boa. Perguntou ao filho dela o que houve com a “quaiada”. Ele se fez de desentendido e prontamente respondeu para a mãe dele que ele desconfiava de um gambá que andava pela volta e que ele viu saindo do porão e seguiu para o galpão do debulhador de milho. Ela fez que acreditou e olhou fixamente na minha camiseta que havia ganhado de brinde nas lojas J.H. Santos. Uma mancha de coalhada de cor amarelada e farelos do açúcar produzido por eles. E o canto da boca melado já seco.


Terminado o passeio no final da tarde voltamos para Erechim, de pancinha cheia. Conto este causo 50 anos depois. Ela não vai se lembrar de quem consumiu toda a coalhada do queijo.


Fico a pensar. Como será que aquela máquina debulha o milho,solta o sabugo e ainda faz ração e quirera? Uma invenção fenomenal. Tecnologia avançada.



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