Faltava defuntos
Há uns 45 anos meu irmão estava construindo a casa dele, ao lado da nossa. O pai dividiu o terreno e ele ficou com uma área onde havia um amplo jardim de roseiras, cultivadas com carinho, fazia enxertos, desenvolvia experiências de novos cultivos e novas cores. No mesmo terreno havia árvores frutíferas. Minhas preferidas eram as de caqui. Frutos saborosos.
Para a construção da casa, ele contratou o Fianco, um bom pedreiro alí do São Cristovão. Mas na equipe tinha um polaco que era o ferreiro. Não lembro o nome dele. Mas lembro que bebia uma cachaça danada. Como diziam o polaco não bebia! Comia com farinha.
Ferreiro, na construção é o profissional que faz as armações de ferro para depois colocar na caixaria e concretar, dando sustentação às vigas, pilares enfim a fundação da obra.
Logo cedo o polaco já estava com a garrafinha da branquinha na bolsa. Volta e meia dava uma bicada. Seu expediente não ia longe. Como ganhava por hora, quando estava meio tontinho o Fianco dispensava.
Eu era pequeno, mas era responsável pelos pagamentos nas sextas-feiras. Sim, tente não pagar pedreiro na sexta. Não vai ser agradável, E nem venha com cheque (se usava no século passado- papéis que eram ordens de pagamento à vista, usados em compras e de desconto direto). As novas gerações não sabem o que é isso. Tinha de ser dinheiro contadinho uma nota em cima da outra, após as contas das horas feitas pelo Fianco.
Lá ia eu nas sextas pagar o pessoal e pegar os recibos. E toda vez o polaco queria mais dinheiro.
- Fala com teu irmão que preciso de dinheiro adiantado. Morreu minha mãe e tenho que comprar velas.
Comovido com a situação levava o recado. Na outra semana o polaco, vinha com a mesma conversa. Pelas minhas contas ela já tinha matado em um mês, duas vezes a mãe, quatro filhos, a avó e uma tia que morava em Cotegipe e um primo que vivia em Jacutinga.
Pensei, é muita desgraça para este polaco. Coitado, quanto velório.E anotei em um papel todos os mortos e as datas.
Chegando numa sexta-feira, de novo segui os pagamentos e o polaco com cheiro de cachaça vagabunda que dava para sentir lá da rua.
Já de longe vi esfregando os olhos, vermelhos e inchados. Era de tristeza. Assoava o nariz na camisa mesmo e de despedaçava em lágrimas. Me preparei. Quem será que morreu esta semana? Pobre alma.
- Fala lá com teu irmão que meu filho menor morreu ontem e tenho que comprar um caixãozinho, a Prefeitura não me deu nada..- implorou o ferreiro.
- Polaco aqui está a lista dos mortos da família. Já morreram todos os teus filhos. Sentenciei tentando me livrar.
- Mas guri, você não sabe. Este é o filho de uma amante minha que tenho lá na zona perto do aeroporto. Coitadinho não resistiu. E caiu em prantos esperando que fosse abraçá-lo e ser compreensivo com a nova tragédia.
Só restou-me dar um abraço de condolências ao polaco pela nova perda, enquanto os outros pedreiros se desmanchavam de rir.
Se concorresse ao Oscar de melhor ator dramático, acho que nem Roberto de Niro, nem Al Pacino ganhariam do polaco, que era ator, roteirista e diretor e deus dramas.
Fecha a cortina e serve mais uma daquela garrafinha escondida na bolsa de lona.
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