As excursões para santuários, principalmente, podem ser muito divertidas. Na maioria dos casos a turma de romeiros é composta por 90% de senhoras de certa idade, alguns casais e quase nenhum jovem solteiro. Tem que ter paciência até chegar ao destino, já que a maioria está com seus celulares com os olhos na tela. A conversaiada começa já antes do embarque, com os tradicionais envios de bom dia e mensagens daquelas que irritam e enchem as contas dos grupos dos viajantes.
Tem àquelas que fazem ligação de vídeo a todo volume para se despedir dos netos. Não adianta o guia informar que devem usar fone de ouvido. Mas o divertido é ficar ouvindo as conversas dos outros, que não falam baixo. E geralmente se conhecem por serem parentes, vizinhos, amigos ou já terem viajado juntos.
E os diálogos são ricos revelando suas vidas para todos os 30 ou 40 passageiros. Perguntam como estão, se estão com saudades da vovó, mesmo a viagem nem ter começado. Outras recomendam sobre o café da manhã e o almoço que deixaram preparado com mesa posta. Tem aquelas que deixam a roupa na máquina de lavar e recomenda que estendam caso o sol abra. Caso venha a chover que use o varal lá dos fundos no coberto onde deixam as tralhas.
E próximo a minha poltrona uma senhora com a filha e o netinho de 7 meses. A vovó tomou conta do netinho, trocava fraldas e o aroma do resultado inebriava o ônibus de excursão. Levaram seus lanches, também, para evitar gastar nas paradas e na hora do almoço. A moça era jovem e bonita e quando o guia começou a conversar com os passageiros ela já disse que era solteira, pois o pai do menino não prestava. O pai da garota não permitiu o namoro porque ele era “caixeiro” , uma espécie de ladrão que assalta caixas eletrônicos. Está em uma temporada na pensão da penitenciária. Tudo isso se descobre apenas observando e ouvindo a conversa alheia dentro de um ônibus, num posto de saúde, em um ponto de ônibus e em outros locais públicos. As pessoas não reservam suas intimidades. Confidenciam, relatam, contam e aumentam.
Depois da missa das 10h no Santuário, tempo livre para caminhar pelo parque e almoço antes do retorno. No início da tarde todos de volta aos seus lugares e a garota preocupada com o pai que ficou em casa, mas pelo menos tinha comida pronta que a mãe deixara cedinho antes de saírem.
Mãe, e o pai, tem que ligar para ele. Ver se está bem.
Te aquieta “fia”. Aproveitou para pedir para Santo Antônio te encaminhar na vida? Hoje é o dia do santo casamenteiro.
Mas tem que saber como ele está.
Não precisa. Deixei comida pronta. Ele que se vire. E você tome tenência, já se desencabeçou demais.
Mas mãe, o pai não telefonou, nem passou mensagem. Será que está bem?
“Fia”, você não vai ligar. O véio deve estar “encharcado”, ainda. Antes de chegar no desembarque a gente avisa. A filha se aquietou e como a vovó cuidava do menino ela fuçava no celular, vendo o instagram e comentava cada foto e novidades que estava lendo.
Mãe, o Toninho trocou de mulher?
Parece que sim. Largou aquela piriguete, sentenciou a senhora.
Mãe, olha só. Eu não sabia, mas largou a Paulinha por uma velha..
Bem isso. A comadre me falou que ele já andava enrabichado com outra.
Mãe, mas ele trocou a Paulinha por uma velha. Esta “véia” deve ter uns 40 anos..Que coisa..
É, veja só. Parece que isto é moda agora. Guri novo com mulher “véia”.
Pelo jeito as duas mudaram os limites de idade da humanidade. E quando o ônibus chegou no desembarque, a filha pegou o celular e fez uma ligação. Ouviu resmungos, fala atrapalhada e enrolada. Desligou e disse para a mãe que era melhor chamar um Uber, porque o véio continuava encharcado, com os pés molhados e dando curto.
Embarcaram, também chamei meu Uber e fui para casa matutando. Huumm, velha de 40? Então assim já me consideram um matusalém. Na próxima excursão eu vou ouvir tudo de novo atentamente para anotar e depois conto para vocês. Será para Aparecida, lá onde está a Padroeira do Brasil. O repertório deve ser maior. Bom domingo e não percam a missa, mas sem celular e nem reparar na vida dos outros.
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