sábado, 20 de junho de 2026

O ENTERRO DO POETA QUE PAROU O BAIRRO

Por volta das cinco horas da tarde, de uma quinta-feira de outono, o dono do boteco com os olhos cheios de lágrimas, inchados e vermelhos amarra uma fita preta na porta do estabelecimento. Naquela tarde receberia os habituais fregueses com um sentimento de pesar. Nada de música alegre que sempre tocava na rádio preferida e nem a TV ligada para quem gosta de assistir jogos de futebol. O dia era diferente.


No meio da tarde começaram a chegar os clientes habituais.


  • Me dá uma gelada.

  • Dá para fazer uma caipira dupla?

  • Serve um “mercedinho” triplo

  • Sobrou costela de ontem? Me faz um sanduba

  • E aquele torresminho lá do oeste, chegou?


Começaram os pedidos dos clientes que notaram a cara de poucos amigos do bolicheiro. Ele só ia servindo, mas sem mostrar os dentes. Também nada falou sobre a fita preta amarrada na porta do bar. Volta e meia olhava para o mar, suspirava, respirava fundo e voltava a servir às mesas. O mesmo pano que limpa as mesas é o mesmo que seca a louça, limpa as mãos e tira o suor do rosto. Tardes de outono à beira-mar são lindas com um sol forte que não esquenta, mas revela a beleza da natureza.


Pouco antes das cinco da tarde começaram a chegar mais pessoas, mais chegados, amigos e conhecidos do poeta, rostos tristes, olhares distantes e lacrimosos. Ele deixaria saudades.


Cinco horas, com pontualidade britânica, o melhor amigo do poeta e que viveu com ele por muitos anos pediu respeito do silêncio e a palavra para explicar o ocorrido e marcar o momento solene de dor, tristeza e despedida. 


Viveu até muito idoso. Alegrou a todos, era parceiro, amigo e brincalhão. E era assíduo e pontual no bolicho, praticamente todo dia. Nem mesmo com chuva e vento sul, ele não  faltava ao compromisso. Mas a natureza é implacável. A idade chega a cavalo e nos leva a trote pelo campo celeste.


O bar se calou, até os menos tolerantes com a presença do poeta, sentiram a perda. Afinal com quem vamos ralhar. O seu melhor amigo com quem viveu até seus últimos dias não teve forças e nem disposição para falar. Apenas abriu a urna e depositou as cinzas com o próprio punho, carinhosamente espalhou no pequeno canteiro com grama ao lado da porta de entrada. Ali ficará o poeta, olhando para o horizonte do mar de Coqueiros, onde viveu e frequentou, fez amigos e admiradores. 


Lupicínio viveu com muitas histórias e foi testemunha de muitos amores, de muita beleza e também dos desabafos dos amores terminados, perdidos, novas paixões, alegrias e desencantos dos cativos frequentadores do bolicho à beira-mar. Mas Lupi, que ganhou esse nome em homenagem ao poeta, compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, o que mais entendeu a dor de cotovelo dos amores impossíveis, proibidos, inacabados, ciumentos e paixões arrebatadoras. 


O poeta canino de quatro patas não deixou em testamento a música preferida para o dia de sua partida, mas certamente seria essa, composta pelo compositor gaúcho:


Felicidade foi-se embora

E a saudade no meu peito ainda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora 





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