sábado, 25 de julho de 2026

QUEM COMEU A COALHADA?


Era comum as famílias visitar os parentes, amigos, compadres e passar o dia na casa deles. Íamos de manhã e alí ficávamos o dia todo. Era almoço, café da tarde, conversas, passeios e só se voltava para casa no final da tarde e início da noite. Numa destas aprazíveis visitas dominicais me levaram para um sítio de uma parentagem no interior de Barão do Cotegipe, cidade próxima a Erechim quando nem existia asfalto.


Eu tinha uns 12 anos e na propriedade havia muita diversão. Um riacho de água limpa que passava na divisa da propriedade, espetacularmente limpo e ótimo para banhos em tardes de calor. A moenda puxada por uma junta de bois rangia ao moer a cana que sorvia uma garapa doce, deliciosa onde bebíamos na fonte da vitamina poderosa.


Em um galpão onde ficavam ferramentas e colheita de grãos havia uma máquina que julgo ser revolucionária na tecnologia mundial. Sempre repito para mim mesmo. Depois que inventaram o debulhador de milho, o mundo mudou. A tal máquina debulhava o milho e moia em quireras de várias grossuras. Como já existia luz elétrica, um pequeno motor era ligado, e os donos orgulhosos da maquinaria que trouxe maior facilidade e produtividade. O milho colhido no morro em frente a casa dava comida para galinhas, porcos, vacas leiteiras e era possível moer o milho para uma boa quirera e preparar com galinha ao molho.


Mas o melhor estava por vir. Um dos filhos do casal aparentado me mostrou uma novidade e foi a melhor parte do passeio. 


  • Gosta de quaiada? Me perguntou e eu sem saber do que se tratava disse que sim. E ele abriu o porão da casa, onde ficaram voltas de  salames, linguiças secando, barrica de vinho e de cachaça, latas de banha, compotas de frutas e legumes e os queijos maturando. 


A tal “quaiada” estava em bacias cobertas por um pano branco. Ele retirou o pano de algodão bem alvo e a coalhada estava ali sendo preparada para a feitura dos queijos que seriam vendidos na semana. Com uma colher de pau experimentamos a coalhada que estava fermentando. Achei meio estranho, mas em seguida veio a perdição. Ele trouxe um pote de barro cheio de açúcar amarelinho, produzido na moenda ali da propriedade e um vidro cheio de melado.


  • Mistura um pouco que fica bom. Recomendou. Não tive dúvida. Misturei com açúcar amarelinho grosso e um pouco de melado e a coalhada ficou um manjar dos deuses. Quase melhor que ambrosia ou arroz doce. A bacia acabou rapidinho com os dois terneiros se servindo com colher grande pau, devorando a matéria prima que daria vida aos queijos, que eram a subsistência da família. 


Já era hora do almoço, subimos e a galinhada estava pronta. Banquete farto e de sobremesa goiabada, queijo fresco, gelatina com merengue. Até pedi um chá de carqueja para desmanchar aquilo tudo, afinal estava empanturrado feio leitão novo.


Pelo meio da tarde a prima, dona da casa desceu para ver como estava a coalhada, pois ainda fazia queijos para o marido sair vender na semana seguinte.


Voltou com cara nada boa. Perguntou ao filho dela o que houve com a “quaiada”. Ele se fez de desentendido e prontamente respondeu para a mãe dele que ele desconfiava de um gambá que andava pela volta e que ele viu saindo do porão e seguiu para o galpão do debulhador de milho. Ela fez que acreditou e olhou fixamente na minha camiseta que havia ganhado de brinde nas lojas J.H. Santos. Uma mancha de coalhada de cor amarelada e farelos do açúcar produzido por eles. E o canto da boca melado já seco.


Terminado o passeio no final da tarde voltamos para Erechim, de pancinha cheia. Conto este causo 50 anos depois. Ela não vai se lembrar de quem consumiu toda a coalhada do queijo.


Fico a pensar. Como será que aquela máquina debulha o milho,solta o sabugo e ainda faz ração e quirera? Uma invenção fenomenal. Tecnologia avançada.



domingo, 19 de julho de 2026

DOCE DE LARANJA EM TACHO DE COBRE




Era um pé de laranja de casca grossa e amarga. Experimentei uma vez, depois de passar pelo Kelly, um cachorro de pelo tigrado que ficava em sua casinha embaixo daquela árvore, no pátio. Com o Kelly ficava uma gata que eram amigos, lagarteavam no sol, dormiam juntos para se aquecer do rigoroso inverno. O cachorro viveu muito, até que lhe caíram os dentes. Nos últimos tempos só comia sopa.


Mas voltando ao pé de laranja, descobri que só servia para doce. Eram laranjas grandes, de casca grossa. E em dia de fazer doce de laranja a lida começava bem cedo. Cada um ajudava com alguma tarefa.


Embaixo da sombra de uma árvore de cancorosa era feito o fogo com lenha, protegido por pedras que davam suporte ao tacho de cobre, que ficava guardado no porão da casa. Lá estava também a colher de pau de cabo longo, usada para mexer os doces, sejam de laranja, abóbora, melancia, figo, pêssego. 


Mas neste dia era de laranja, que eu julgava amarga demais. A tal de laranja cidra. Não serve para comer. Dias antes as laranjas haviam sido descascadas, retirando a fina camada da casca externa, onde está o maior amargor. Depois de deixar no molho em água para ajudar a tirar a acidez, eram cortados em pedaços. Com o fogo no ponto era o momento de iniciar o cozimento da laranja com açúcar Cristal que via em sacos de 5 quilos. Açúcar grosso. Também usávamos para adoçar o café e outras receitas.


O fogo embaixo do tacho de cobre atraia meu olhar. Gostava de ver e conforme ia ocorrendo o cozimento a calda ficava mais grossa e as laranjas assumiam uma coloração como se fosse uma obra de Van Gogh ou de Henri  Matisse. Como uma pintura, o tempo, o controle do fogo e nunca parar de mexer a colher de pau para não grudar e nem perder o ponto do doce, era como se fosse um pintor acertando as cores, a perspectiva até o envernizamento do quadro e sua assinatura


Eu observava, trazia lenha, mas nunca me deixavam mexer o doce com uma grande colher de pau. Era perigoso. Poderia me queimar com o fogo, doce quente. Era melhor esperar as compotas prontas ou a chimia. E você deve estar pensando nas cascas? Não ia para o porco e nem para as galinhas, muito menos para adubo na hora. Virava um doce cristalizado. Deliciosos. E quando prontas as compotas de laranja, embelezavam a cozinha. Vidros de compota bem fechados na prateleira, o tom alaranjado decorava e iluminava o ambiente. Cada vidro aberto encantava pelo aroma, e o sabor da laranja desmanchando, a calda grossa era um licor dos deuses, digno de beber em copo de cristal ou encher a colher como se fosse uma farta porção de mel. A doçura e a riqueza da natureza em forma de alimento e arte. 


sábado, 11 de julho de 2026

O ASTRO DO VELÓRIO

Eu deveria ter uns 8 anos no máximo. Cheguei no dito velório da mãe de uma vizinha. Parei na calçada, pois deveria descer a escadaria de tijolos e notei algo estranho, já que todos me olharam com jeito de surpresa. Uns balançavam a cabeça em desaprovação, outros cochichavam algo nos ouvidos de quem estava mais próximo. A tarde fria de sol fazia com que a maioria estivesse no pátio em frente a casa lagarteando, enquanto a morta estava sendo velada na sala da casinha de madeira. Naquela hora, por volta das quatro horas da tarde, esperavam o padre para fazer o encomendamento. O ônibus já estava estacionado em frente a casa para levar o pessoal para o cortejo funerário que seguiria até o Cemitério Municipal.


Mesmo estranhando, desci a escadaria com meu sapato plataforma marrom. Daqueles de salto grosso e alto que se usava nos anos 70. Fui me achegando pelo meio das pessoas até entrar na pequena sala da casa de quatro cômodos sendo sala, cozinha dois quartos A patente ficava do lado de fora, como era de costume. No meio da sala a dita senhora, amparada por quatro velas em castiçais de pé alto. Havia passado dessa para a melhor, como dizem os antigos. Três filhas em uma choradeira, uma delas fazendo fiasco com um espelhinho no nariz da falecida e jurava que a velha ainda respirava. Por um momento o choro parou, me olharam, se olhavam como querendo dizer, que ridículo este piá da comadre. Parei ao lado do caixão, olhei, vi que ela segurava um rosário entre as mãos. Rezei um Pai Nosso, uma Ave Maria e sai pelos fundos onde estava mais animado. Um grupo de parentes e vizinhos contando piadas, jogando cartas, cantando e tocando.


Um dos vizinhos me chamou e disse, corre ali na tua casa e traga limão. Sei que o Seu Lima tem pés de limão. É para renovar a caipira. Enquanto isso, o samba comendo forte nos fundos da casa do velório. O pandeirista que era conhecido lá de casa ainda reforçou o pedido e me aconselhou:


- Já traga meia dúzia de limão, açúcar e uma forminha de gelo que tem no congelador. E tire essa roupa ridículo porque já estão rindo de você. 


Fique trocando orelhas. Onde se viu ridículo, me arrumei todo para ir ao velório. Roupa nova, bonita, sapato plataforma, camisa de “Volta ao Mundo”. Mas sai ligeiro que nem tatu mulita. Subi a escadaria num pulo e fui a trote para casa. Antes de ir no pátio pegar os limões corri para a frente do espelho para ver como eu estava. Afinal, ele disse para trocar a roupa porque eu estava ridículo. 


Olhando e avaliando minha pessoa ao espelho, concordei com o pandeirista. A dita roupa era um conjunto estilo Safari, que vi na TV e pedi que a mãe costurasse um igual e como não tínhamos o tecido adequado, a sarja, que era cara, pedi que ela usasse retalhos de tecidos que havia sobrado de uma cortina, que uma cliente mandou fazer. Era uma estampa de motivos norte-americanos. Um algodão branco estampado com bandeira norte-americana, inscrições US Army, do exército americano, enfim nem um cigano se fantasiariamelhor. Tratei de tirar o modelito e o sapato plataforma. Eu achava que estava bonitão. 


Voltei irreconhecível para o velório com a sacola cheia de limão, açúcar e duas forminhas de gelo. A festa de comemoração estava garantida. Muitos nem me reconheceram nesta volta triunfal. Conjunto safari com tecido e estampa de cortina? Nunca mais. Porém anos mais tarde inportunei para que a mãe fizesse um casaco usando um cobertor de lã. Mas este é outro causo.



domingo, 28 de junho de 2026

TROCOU A NOVINHA POR UMA VELHA DE 40


As excursões para santuários, principalmente, podem ser muito divertidas. Na maioria dos casos a turma de romeiros é composta por 90% de senhoras de certa idade, alguns casais e quase nenhum jovem  solteiro. Tem que ter paciência até chegar ao destino, já que a maioria está com seus celulares com os olhos na tela. A conversaiada começa já antes do embarque, com os tradicionais envios de bom dia e mensagens daquelas que irritam e enchem as contas dos grupos dos viajantes.


Tem àquelas que fazem ligação de vídeo a todo volume para se despedir dos netos. Não adianta o guia informar que devem usar fone de ouvido. Mas o divertido é ficar ouvindo as conversas dos outros, que não falam baixo. E geralmente se conhecem por serem parentes, vizinhos, amigos ou já terem viajado juntos. 


E os diálogos são ricos revelando suas vidas para todos os 30 ou 40 passageiros. Perguntam como estão, se estão com saudades da vovó, mesmo a viagem nem ter começado. Outras recomendam sobre o café da manhã e o almoço que deixaram preparado com mesa posta. Tem aquelas que deixam a roupa na máquina de lavar e recomenda que estendam caso o sol abra. Caso venha a chover que use o varal lá dos fundos no coberto onde deixam as tralhas.


E próximo a minha poltrona uma senhora com a filha e o netinho de 7 meses. A vovó tomou conta do netinho, trocava fraldas e o aroma do resultado inebriava o ônibus de excursão. Levaram seus lanches, também, para evitar gastar nas paradas e na hora do almoço. A moça era jovem e bonita e quando o guia começou a conversar com os passageiros ela já disse que era solteira, pois o pai do menino não prestava. O pai da garota não permitiu o namoro porque ele era “caixeiro” ,  uma espécie de ladrão que assalta caixas eletrônicos. Está em uma temporada na pensão da penitenciária. Tudo isso se descobre apenas observando e ouvindo a conversa alheia dentro de um ônibus, num posto de saúde, em um ponto de ônibus e em outros locais públicos. As pessoas não reservam suas intimidades. Confidenciam, relatam, contam e aumentam. 


Depois da missa das 10h no Santuário, tempo livre para caminhar pelo parque e almoço antes do retorno. No início da tarde todos de volta aos seus lugares e a garota preocupada com o pai que ficou em casa, mas pelo menos tinha comida pronta que a mãe deixara cedinho antes de saírem. 


  • Mãe, e o pai, tem que ligar para ele. Ver se está bem.

  • Te aquieta “fia”. Aproveitou para pedir para Santo Antônio te encaminhar na vida? Hoje é o dia do santo casamenteiro.

  • Mas tem que saber como ele está.

  • Não precisa. Deixei comida pronta. Ele que se vire. E você tome tenência, já se desencabeçou demais. 

  • Mas mãe,  o pai não telefonou, nem passou mensagem. Será que está bem?

  • “Fia”, você não vai ligar. O véio deve estar “encharcado”, ainda. Antes de chegar no desembarque a gente avisa. A filha se aquietou e como a vovó cuidava do menino ela fuçava no celular, vendo o instagram e comentava cada foto e novidades que estava lendo.

  • Mãe, o Toninho trocou de mulher?

  • Parece que sim. Largou aquela piriguete, sentenciou a senhora.

  • Mãe, olha só. Eu não sabia, mas largou a Paulinha por uma velha..

  • Bem isso. A comadre me falou que ele já andava enrabichado com outra.

  • Mãe, mas ele trocou a Paulinha por uma velha. Esta “véia” deve ter uns 40 anos..Que coisa..

  • É, veja só. Parece que isto é moda agora. Guri novo com mulher “véia”.


Pelo jeito as duas mudaram os limites de idade da humanidade. E quando o ônibus chegou no desembarque, a filha pegou o celular e fez uma ligação. Ouviu resmungos, fala atrapalhada e enrolada. Desligou e disse para a mãe que era melhor chamar um Uber, porque o véio continuava encharcado, com os pés molhados e dando curto.


Embarcaram, também chamei meu Uber e fui para casa matutando. Huumm, velha de 40? Então assim já me consideram um matusalém. Na próxima excursão eu vou ouvir tudo de novo atentamente para anotar e depois conto para vocês. Será para Aparecida, lá onde está a Padroeira do Brasil. O repertório deve ser maior. Bom domingo e não percam a missa, mas sem celular e nem reparar na vida dos outros. 


sábado, 20 de junho de 2026

O ENTERRO DO POETA QUE PAROU O BAIRRO

Por volta das cinco horas da tarde, de uma quinta-feira de outono, o dono do boteco com os olhos cheios de lágrimas, inchados e vermelhos amarra uma fita preta na porta do estabelecimento. Naquela tarde receberia os habituais fregueses com um sentimento de pesar. Nada de música alegre que sempre tocava na rádio preferida e nem a TV ligada para quem gosta de assistir jogos de futebol. O dia era diferente.


No meio da tarde começaram a chegar os clientes habituais.


  • Me dá uma gelada.

  • Dá para fazer uma caipira dupla?

  • Serve um “mercedinho” triplo

  • Sobrou costela de ontem? Me faz um sanduba

  • E aquele torresminho lá do oeste, chegou?


Começaram os pedidos dos clientes que notaram a cara de poucos amigos do bolicheiro. Ele só ia servindo, mas sem mostrar os dentes. Também nada falou sobre a fita preta amarrada na porta do bar. Volta e meia olhava para o mar, suspirava, respirava fundo e voltava a servir às mesas. O mesmo pano que limpa as mesas é o mesmo que seca a louça, limpa as mãos e tira o suor do rosto. Tardes de outono à beira-mar são lindas com um sol forte que não esquenta, mas revela a beleza da natureza.


Pouco antes das cinco da tarde começaram a chegar mais pessoas, mais chegados, amigos e conhecidos do poeta, rostos tristes, olhares distantes e lacrimosos. Ele deixaria saudades.


Cinco horas, com pontualidade britânica, o melhor amigo do poeta e que viveu com ele por muitos anos pediu respeito do silêncio e a palavra para explicar o ocorrido e marcar o momento solene de dor, tristeza e despedida. 


Viveu até muito idoso. Alegrou a todos, era parceiro, amigo e brincalhão. E era assíduo e pontual no bolicho, praticamente todo dia. Nem mesmo com chuva e vento sul, ele não  faltava ao compromisso. Mas a natureza é implacável. A idade chega a cavalo e nos leva a trote pelo campo celeste.


O bar se calou, até os menos tolerantes com a presença do poeta, sentiram a perda. Afinal com quem vamos ralhar. O seu melhor amigo com quem viveu até seus últimos dias não teve forças e nem disposição para falar. Apenas abriu a urna e depositou as cinzas com o próprio punho, carinhosamente espalhou no pequeno canteiro com grama ao lado da porta de entrada. Ali ficará o poeta, olhando para o horizonte do mar de Coqueiros, onde viveu e frequentou, fez amigos e admiradores. 


Lupicínio viveu com muitas histórias e foi testemunha de muitos amores, de muita beleza e também dos desabafos dos amores terminados, perdidos, novas paixões, alegrias e desencantos dos cativos frequentadores do bolicho à beira-mar. Mas Lupi, que ganhou esse nome em homenagem ao poeta, compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, o que mais entendeu a dor de cotovelo dos amores impossíveis, proibidos, inacabados, ciumentos e paixões arrebatadoras. 


O poeta canino de quatro patas não deixou em testamento a música preferida para o dia de sua partida, mas certamente seria essa, composta pelo compositor gaúcho:


Felicidade foi-se embora

E a saudade no meu peito ainda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora 





domingo, 14 de junho de 2026

O DIA DOS NAMORADOS MAIS FELIZ DA COPEIRA

 

Este fato verídico e verdadeiro já faz tempo. Como já foi caducado por decurso de prazo vou contar. Trinta anos se passaram daquele Dia dos Namorados com um final cheio de alegria, emoções, agradecimentos, choros e risos.


Por volta das 10 horas da manhã, Júnior aparece na repartição com um lindo buquê com doze rosas vermelhas, cor da paixão. Não economizou. O presente contemplava também uma caixa de finos bombons da Kopenhagen. Algo fino mesmo. E foi além nos gastos, pois passou na joalheria no dia anterior e comprou um lindo anel que presentearia a colega com que ele havia saído algumas vezes e poderia ser um romance promissor. Júnior aproveitaria a data para pedi-la oficialmente em namoro, na frente da equipe toda. 


Entrou na sala todo enfeitado, senhor de si, pisando firme, sorriso largo no rosto e com os presentes nas mãos. Mas antes mesmo que pudesse teatralizar, aquela besteira de se ajoelhar, presentear e jurar amor, ele viu o que não queria. A dita moça, que ele estava caído de amores, estava perto de um outro colega, baixinho, barrigudo, careca, ou seja, o estereótipo do não galã. Ela o acariciou e devolveu uma jaqueta esportiva do São Paulo Futebol Clube. Ela sussurrou algo no ouvido do “clone de Danny DeVito”  a confidenciando que o agasalho a protegeu do frio, mas o calor da noite anterior foi muito melhor do que se tivesse sido com o ex-jogador Raí que havia autografado a jaqueta do tricolor paulista. A noite deveria ter sido quente em campo, no apartamento dele onde havia só um colchão de solteiro no chão, uma geladeira e um fogareiro com liquinho.


Aí o Junior se desmontou. Parou, ficou pálido e sem reação alguma. Deu meia-volta rapidinho e seguiu para a copa, onde uma senhora muito querida nos fazia o café diariamente. 


  • Dona Neide, por favor, pegue este presente para a senhora. Por favor, pegue logo!

  • Mas meu filho, o que é isso? Porque?

  • Não me pergunte nada. Apenas pegue de presente. Insistiu e saiu pela  porta do corredor, desceu as escadas e só voltou na segunda-feira.


Contente pelo presente inusitado, Dona Neide colocou as flores em um bule alto, um melhoral na água das flores para durarem mais. A copa ficou linda, o vermelho das flores resplandecia o ambiente. Todos corriam para tomar um café e ver as lindas rosas vermelhas que a dona Neide recebera. Imaginaram que era do marido, o que é pouco provável, pois vivia encharcado de cana em casa, enquanto ela trabalhava. Os bombons caríssimos ela ofereceu junto com o cafezinho para todos do setor e o anel, não se sentiu bem em receber algo tão valioso. Esperou o apaixonado esfriar o chifre, voltar ao trabalho e devolveu, aconselhando que recuperasse o dinheiro. Afinal ele gastou o salário de um ano pelo ato impensado de amor. 


A moça? Nem deu bola, continuou se divertindo com o aficionado tricolor paulista. Ele tinha até meião autografado pelo ex-jogador Richarlyson. E ela deixava de andar no carro de luxo que ela tinha para passear no Fiat Premium fumaçando e com um porta-malas, conhecido como kit sobrevivência. Ali tinha fardamento de time de futebol, toalha de banho, necessaire, e o infalível isopor sempre lotado de vários tipos de cervejas de vários lugares do mundo. Sim, é claro, sempre um cobertor pega-pulga e travesseiro no banco traseiro. E no toca-fitas Tojo uma seleção de heavy-metal em especial Screaming for Vengeance do Judas Priest. Vá entender o gosto da formosa dama…


sábado, 30 de maio de 2026

ENCIUMADO, MATOU O ARTISTA E NÃO FOI PRESO

Toninho não tinha paz na vida, na sua alma atormentada pelo ciúmes. Não dava um minuto de folga para a esposa. Toda hora queria saber onde ela estava. Ligava para o trabalho para saber o que estava fazendo, porque havia demorado tanto para atender o telefone e desconfiava até do tempo que ela ficava no banheiro. Um psicopata total. E sempre quando ela demonstrava desgosto vinha com as desculpas do eu te amo tanto.


Paulinha estava de saco cheio daquela situação, mas com temor de mandar o Toninho andar. O ciúmes dele era doentio. Os parentes alertavam, os amigos temiam o pior. Ele dava a volta na casa para ficar escutando pela janelinha do banheiro se tinha alguém com ela e se falava algo. Completamente endoidecido. 


Em uma noite de quinta-feira a central de atendimento da Polícia Militar recebeu uma chamada no 190.


  • Polícia Militar boa noite, qual a ocorrência? Solicita a policial de plantão.

  • O vizinho matou alguém ouvi tiros.

  • Qual seu endereço?


A pessoa informou e em poucos minutos uma patrulha da PM chega na casa. Na sala a imagem da tragédia. Vidros estilhaçados, móveis quebrados. Apenas o Toninho desolado, chorando sem parar, derramando rios de lágrimas. O revólver Taurus, de calibre 32 estava jogado no chão ao lado do corpo inerte em pedaços. O cano estava quente e o cheiro de pólvora infestava o ar do pequeno cômodo. A policial verificou a arma e todos os cinco projéteis haviam sido disparados. 


  • Ela nunca mais vai me trair. Acabei com o almofadinha que tirava o sossego da minha Paulinha. Ela nunca mais vai me trair, repetia Toninho atônito e fora de si.


Os policiais vasculharam a casa e o pátio para encontrar detalhes, testemunhas e corpos. Afinal foram cinco tiros. 


Mas nada encontraram até que surgiu uma mulher assustada com o acontecido e falou aos policiais que Toninho não tinha feito aquilo por mal. Ele só estava com ciúmes. Era Paulinha, justificando o ato do marido.


Ele matou Francisco Cuoco por ciúmes. Ela não perdia um capítulo da novela Pecado Capital, onde Cuoco era o taxista que “enricou” e que encantava as moças novelistas dos anos 70. Paulinha não perdia um capítulo e Toninho ficou enciumado por testemunhar o olhar da mulher para o galã da telenovela. Não havia outro jeito. Mataria Francisco Cuoco de ciúmes.


Chegou em casa e viu Paulinha suspirar vendo as cenas de Francisco Cuoco e Betty Faria. Não aguentava mais de ciúmes doentio. Entrou na sala com o Taurus 32 carregado e não teve dúvidas. Descarregou o revólver no rival. Matou Francisco Cuoco com cinco tiros. Estilhaços de vidro do tubo da televisão espalharam pela sala e o corpo da velha tv ficou estirado no tapete. 


Paulinha correu para a vizinhança e só voltou quando a polícia chegou. De nada adiantou o ciúmes de Toninho. Perdeu Paulinha, perdeu a TV que teve de continuar pagando em 36 vezes no carnê e ela continuava amando Francisco Cuoco e não perdendo um capítulo. Passou a assistir na casa do vizinho. Toninho foi liberado, pois o corpo na sala era a TV Telefunken, mortinha. 


sábado, 23 de maio de 2026

Quero uma coroa

A atendente era uma mulher com seus mais de 40 anos, bem vestida, charmosa e com certa atratividade. Cabelos presos, camisa azul com os dois primeiros botões abertos. Saia justa que delineava sua silhueta. Perguntou o que eu desejava. Sem a menor dúvida fui direto ao ponto.


- Quero uma coroa para botar...Ela nem deixou eu terminar a frase e respondeu prontamente de forma ríspida.


- O que o senhor está pensando. Olhe bem para o senhor. Não tem espelho? Não vou admitir falta de respeito. Coroa deve ser sua mãe. Sou ainda jovem e não me considero como tal.


- Desculpe senhora, eu não queria ofendê-la. Apenas estou precisando....


- Se está precisando, procure em outro lugar e não venha com cantadas baratas como se fosse um pedreiro ou coisa pior - devolveu a tal atendente.


- Me deixe explicar madame. Eu apenas quero saber quanto custa…


- O que ? Acha que estou à venda? que tenho preço. Afinal qual o seu interesse? Me ofende e agora quer me comprar? Vociferou já perdendo a compostura.


- Não é nada disso. Eu só estou querendo muito resolver esta situação, respondi calmamente.


- Pois vá resolver em outro lugar. Aqui não é o local, isto é uma clínica odontológica, tratou de reafirmar a atendente.


- Eu sei e é o que estou tentando saber da senhora, como se faz e quanto custa uma coroa de porcelana, uma jaqueta, um dente de ouro, enfim. É para meu molar inferior direito que está quebrado.


- Ahhhh, finalmente o senhor se fez entender, disse a atendente envergonhada por não ter entendido que eu queria uma coroa de porcelana sob medida para meu dente. 


Respirei aliviado, pois os demais pacientes já me olhavam com olhares de culpado, de assediador, querendo a coroa, ou seja a dama de 40 e poucos anos que atendia na recepção.


Consegui agendar a consulta. Da próxima vez já chego de boca aberta mostrando o dente danificado, antes que ela quebre os demais por não entender o intuito. 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O AUTO DA APARECIDA

O renomado escritor pernambucano Ariano Suassuna escreveu o Auto da Compadecida, imenso sucesso editorial que virou filme e peça de teatro. Mas vou lhes contar um episódio que envolve o Auto da Aparecida. 


Aparecida era uma santa mulher, muito dedicada à família e aos amigos. Em uma manhã de sábado estava sendo aguardada na Paróquia a que ela pertence. Não falhava em seus compromissos e nunca deixou uma alma desassistida ou esperando por ela. Era pontual. Repetia que não estaria em um compromisso se estivesse morta. Aparecida era uma santa, repetiam os vizinhos e até gente de longe já conhecia a fama dela de ser leal, pontual e altruísta.


Naquele sábado haveria festa na igreja com missa, churrasco e bingo de tarde. Todos os festeiros voluntários já haviam chegado cedo para começar os preparativos de copa e cozinha, bem como auxiliar na missa e arrumar tudo para o bingo com ótimos prêmios que aconteceria de tarde. Já passava das 8 horas e nada de Aparecida que estava com as chaves do salão. O pároco confiava as chaves nas mãos dela porque era responsável e nunca falharia com os demais.


Pouco mais de meia hora de espera surge na esquina um garoto correndo, esbaforido que chegou perto do grupo cansado sem poder falar e com sofreguidão deu notícias sobre Aparecida.


  • Dona Aparecida não vem! Anunciou o garoto com dificuldades de falar e respirar devido ao cansaço por ter vindo correndo para avisar.

  • Per l`amor di Dio. Quello che è successo? Questionou o padre.

  • Uma tragédia - respondeu o menino que era vizinho de Aparecida. Entregou as chaves para que pudessem abrir o salão.

  • Me conta, o que aconteceu? Insistiu o padre.

  • Uma tragédia…e ela não vai poder vir ajudar, repetiu o mensageiro.

  • Desembucha, filho. Parece com esta agonia e conte tudo - ordenou o sacerdote

  • É que o auto de Aparecida estragou, não pegou, não deu a partida, deve ser bateria, explicou.


Todos se calaram por alguns segundos. Se olharam, balançaram a cabeça com tristeza no semblante.


  • Ma Santo Cielo, perché non hai parlato prima- esbravejou o padre que apontou para dois paroquianos e já penitenciou:

  • Corram e empurrem o Auto da Aparecida até pegar. Ela precisa estar aqui. Festa da paróquia sem Aparecida, não é Festa da Paróquia, finalizou o padre


E por falar em festa de Igreja, neste sábado, 9 de maio tem Festa da Padroeira, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro Glória, em Joinville. Missa, churrasco de igreja e bingo. E também vai ter posto de vacinação para quem ainda não se vacinou ou quer atualizar sua carteira de vacinação. 


Aparecida com seu auto estarão lá? Acho que sim, porque festa da paróquia sem Aparecida, não é festa da Paróquia. 


sábado, 2 de maio de 2026

O FRIO LAGEANO E O CONGELAMENTO DO PREFEITO

Agora de manhã, proseando com uma colega lageana, lembrei de um acontecido nas terras altas e geladas de Lages. Fato ocorrido durante a Festa do Pinhão de 2002 que coincidiu com a Copa do Mundo, o ano do Penta.


Naquele ano, o prefeito de Joinville Luiz Henrique havia renunciado em 4 de abril para se candidatar a governador e o vice-prefeito Marco Tebaldi assumiu o governo. Recebemos o convite para ir na Festa do Pinhão e fomos recebidos e hospedados no Rancho Rochedo do sempre agradável Roberto Amaral, dono do grupo de comunicação SCC.


Seguimos de Joinville, o Tebaldi, eu, o Ivan na pilotagem e o ex-vereador João Gaspar. Noite agradável, encontro com amigos de longa data, música boa e comida melhor ainda. Naquele ano o ex-prefeito de Florianópolis preparou um entrevero de frutos do mar, algo diferenciado que fez todos lamberem os beiços. Lá pelas 2 horas da madrugada seguimos para o Rancho Rochedo, naquele frio de renguear cusco. Até comprei uma manta de lã e enrolei no pescoço para me proteger do vento gelado e um chapéu para não pegar friagem.


Chegando no Rancho Rochedo começou a fiasqueira. Após horas de estrada e programação noturna intensa, cheiro de fumaça das fogueiras que assavam pinhões, esquentava água para o mate e o preparo do entrevero e churrasco. Estávamos cobertos de fumaça, gordura e acho que um zorrilho era mais perfumado e chegava perto. 


Encontramos quartos bem aconchegantes, mas a hora da verdade quando um gaudério mostra sua força é no momento de deitar o pelo no lençol gelado. Chora lágrimas de gelo. Mas o aquecedor a óleo ajudava no aquecimento do ambiente. Gaspar estava com medo que aquilo pudesse pegar fogo e não queria acionar. Ivan, não muito certeiro queria dormir no salão. Disse que ele congelaria lá embaixo pois na frente tem um lago e estava congelado. Eu me deitei com roupa e tudo. Vestir pijaminha de pelúcia? Nem pensar naquela altura. Sairíamos cedo para retornar a Joinville.


E Tebaldi resolveu que não iria dormir enfumaçado. O vivente se foi para o chuveiro e minutos depois ouvimos um grunhido, uma resmungação, um pedido de ajuda. Imaginei que era alguma alma penada de antigos tropeiros. Desconfiados fomos até o quarto dele e lá estava o prefeito da maior cidade catarinense tremendo, batendo de queixo como se fosse guizo de cascavel. Bateu a hipotermia. O Ivan lembrou que viu num filme que se deitando por cima do congelado aqueceria o tal e sobreviveria. Nenhum dos três se animou. Tratei de pegar um monte de cobertores de lã e jogar por cima do xiru véio e ligar o aquecedor. Alguns minutos depois recuperou o calor corporal e passou a tremedeira.


Na manhã seguinte, na hora do café, num sábado gelado, olhamos pela janela e o cenário era de uma pintura. O cerro branco de geada, a água do lago congelado e um cusco maleva rengueando de frio pelo gramado coberto de gelo, deu para entender o fiasco da noite anterior. Mesa farta, café passado e pancinha cheia retornamos para Joinville. Não tirei minha manta e nem meu chapéu que uso até hoje. Em breve chega o frio, pinhão, comida boa, música gaúcha e a alegria de viver com boas lembranças.



sábado, 25 de abril de 2026

MICHAEL JACKSON. O MAIOR ASTRO POP DA HISTÓRIA NOS CINEMAS



Já chegou aos cinemas o filme sobre a carreira do maior astro pop mundial surgido em todos os tempos. Michael Jackson nasceu com talento e encantou o mundo.  Foi criativo, inovador e mudou o modo de se ver a música com seus clipes que eram chamados de mini-filmes. Até então os artistas só apareciam tocando e cantando. Ele contou a história de suas  músicas com coreografia, figurinos, cenários e qualidade esmerada na produção, além de todo o talento criativo. 


Quebrou as barreiras com Beat It, obrigando o canal MTV a exibir um artista negro, o que o canal não mostrava. Seu talento não poderia ser ignorado por um canal de TV que só exibia artistas brancos. Nos anos 80 a MTV ditava quem seria sucesso. Não demorou para explodir na Hot 100 da  Billboard.

Michael foi um vencedor, não porque seu pai repetia que na vida ou se é vencedor ou perdedor. Venceu pelo seu talento único.  Hoje, o pai dele estaria preso por abusos físicos e psicológicos. Surras de cinta, manipulação psicológica, exploração financeira eram as estratégias do pai Joe Jackson.


Sempre fui fã de Michael e relembro quando eu e minha mãe Lili assistíamos os clipes revolucionários que eram exibidos no programa dominical Fantástico. Ela também gostava e quando ia passar ela me chamava. Não perdíamos. 


Em 2010 visitei a exposição Michael Jackson: The Exhibition Oficial,  no centro de eventos O2, em Londres, onde ele faria  uma série de 50 shows. A arena O2 se transformou em um lugar de culto utilizado pelos fãs para honrar a memória do cantor, morto no dia 25 junho de 2009.


Quem gosta de Michael Jackson precisa assistir este filme que está em exibição nos cinemas . Vou assistir de novo.


legenda: Esta luva icônica é uma das 250 peças que estiveram na exposição no O2 em Londres, entre 28 de outubro de 2009 até 28 de fevereiro de 2010.

crédito: foto tirada por Arthur Ramiro Cruz de Lima, fã incondicional. 



sexta-feira, 17 de abril de 2026

TE AMO TANTO E VOCÊ SE AFASTA DE MIM



Não sei até quando vou suportar este seu desamor. Te amo tanto! Fico te observando, te admirando e esses seus olhos azuis são os mais lindos que eu já vi.


Tento chegar perto e você sai. É dissimulada, foge, escorre e não a vejo mais. Tento de novo, chegar perto, te tocar e sentir o seu cheiro, mas você me rejeita como tem feito todas as vezes que me aproximo.


Não me canso de rastejar, de te procurar, de tentar receber um afago qualquer. Apenas um toque seu me faria feliz, mas infelizmente chego a conclusão de que você nunca me amou. 


Sinto ciúmes de você, quando está acompanhada e com tantas carícias, tantos cuidados, tantos abraços e beijos. Me pergunto, porque não eu? O que eu te fiz de tão mal? Você nunca me deu uma única chance de demonstrar o que sinto, o quanto eu te amo.


O carinho, atenção, acolhimento e amor que recebi de estranhos,  são muito importantes, valorizo muito, mas eu só queria, pelo menos uma vez que você me abraçasse e nada falasse. Apenas me olhasse com teus lindos olhos azuis, nos meus olhos negros que em me sentiria agradecido por toda a eternidade.


Me rejeitastes ao nascer. Mãe, seja feliz com quem você escolheu. Tenho novos pais e irmãos que cuidam de mim. 


Sempre te amarei e estarei olhando de longe, seus lindos olhos azuis são inesquecíveis.


Este é o pensamento da gatinha que foi abandonada ao nascer e que tenta todos os dias se aproximar. Bem...vou lá preparar a mamadeira e depois brincar um pouco com ela. Não tenho olhos azuis, mas o carinho que ela precisa, e nesta sexta-feira de sol vamos “lagartear” um pouco. 


terça-feira, 14 de abril de 2026

DE FÉRIAS COM A GATA NA CAMA

Hoje conversei com um amigo de longa data e falamos sobre vários assuntos. Lá pelas tantas ele me perguntou o que ando fazendo. Respondi que dedico meus dias e noites a ficar na cama com minha gata. Afinal estou de férias.

A reação foi de indignação. Questionou sobre isso. Falei que está sendo ótimo uma gata bem mais jovem e na flor da vitalidade. Meu amigo desfiou um rosário contra minha atitude. Questionou a idade, e  se eu não tinha vergonha da minha atitude. Disse que estou feliz, que nada me incomoda, nem os três filhos dela que considero meus.

Escreveu algumas ofensas que relevei, pois é um amigo de mais de 40 anos. Afinal para ele é um pecado sem perdão, afinal estar na cama com alguém que  poderia ser minha neta.

Mas como um bom idoso, já não me incomodo com o que pensam ou deixam de pensar sobre minha conduta. Os únicos seres imprestáveis que não suporto, ainda, são os fumantes, pois fedem. Mas eles se defendem que fumam com o dinheiro deles. Portanto, o que gasto com a minha gata ninguém tem nada com isso.

A companhia dela é agradável, seu dengo, malemolência, e suas carícias são impagáveis. Principalmente quando ela vem se retorçando, me acariciando, querendo algo mais. Me faço de desentendido para ela insistir um pouco mais. Só nestas situações que me aprumo, saio da cama e ela me segue. Seu olhar gateado, encantador me fazem atender seus desejos. 

Encho o potinho com ração da melhor marca e misturo doses generosas de molhos especiais da mesma marca. E assim vai nosso amor. Vai durar mais alguns dias para ciúmes dos invejosos. 


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Giogi Alphonsus I

O nome poderia ser da nobreza européia, nórdico, daqueles nascidos nas montanhas de neve nos alpes. Afinal é todo branco e poderia facilmente se misturar ao cenário.


Mas Giorgi Alphonsus I tem uma história de vida triste. Dos cinco irmãos, dois morreram após o nascimento. Sua mãe o rejeitou nos primeiros dias e preferiu outros dois que ela levou embora consigo para outro lar.


Alphonsus ficou à própria sorte, mas foi adotado por gente que o amparou. Mamadeiras com leite especial para recém- nascido. Sobreviveu e já está mais fortinho. Após sua alimentação gosta de um bom cochilo e se aventura por terras nunca exploradas.


Em uma de suas incursões deparou-se com sua genitora que se afastou. Ele tentou uma aproximação e ela não permitiu que ele chegasse mais perto. Foi embora. Mas Giorgi Alphonsus I pouco entende ainda, mas segue o seu caminho. Uma cochilada, uma espreguiçada e mantém seus domínios em uma nova, seca e ampla caixa de papelão, chegada recentemente do supermercado em sua residência uma inscrição Tapioca. 


Viva longa a Giorgi Alphonsus I.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O ENCANTO E A MAGIA DO CIRCO


Resolvi ir ao circo, algo que não fazia há anos. Fui na primeira sessão da tarde, para evitar sair de noite e também não cochilar durante o espetáculo. Enfrentei a fila para comprar ingresso, sob o sol sahariano de Joinville. Como não havia para idosos, já escolhi um lugar no camarote vip, bem na frente do palco. Um rapaz com máquina fotográfica passava e tirava fotos. Reunia as famílias bem perto e fotografava.


Ao meu lado sentaram um menino de pouco mais de 3 ou 4 anos com a bela e atraente mãe, vestindo um short verde bem justo e curto, e a blusinha que exaltava seus atributos físicos. E lá passava o fotógrafo fazendo retratos de grupos. A esta altura eu implorava pelo vendedor de água. Imagina o calor de Joinville e a lona do circo fervendo, mais a dama ao meu lado. Ferve qualquer radiador.


Fiquei observando o andamento das coisas antes do espetáculo. Uma moça vendia "fantasminhas", outro oferecia minions que solta bolhas de sabão, um rapaz oferecia brinquedinhos iluminados, daqueles que não servem para nada. Só giram com uma luzinha, mas para os pequeninos é um atrativo que tira dinheiro dos pais. Mais tarde reconheci os vendedores. Todos eram os artistas que iriam se apresentar em seguida. Ahh, o retratista? Continuava passando e fazendo clics.


Iniciado o espetáculo dá gosto de ouvir  o apresentador anunciando as atrações imperdíveis e exclusivas:


- Diretamente do México, o fenomenal equilibrista. E o rapaz se apresentava. Reconheci. Era o que vendia os brinquedos de luzinha.


- Vinda dos maiores circos da Europa a acrobata aérea. Fazia um número enrolada em uma corda , inclusive se pendurando e rodando presa pelo pescoço. Ela era a mocinha que vendia os "fantasminhas".


- Chegado hoje de Las Vegas, o Grande Mágico dos Cassinos - anunciou o apresentador. O mágico de Vegas é um veterano que vendia outros brinquedinhos em uma bancada na entrada/saída do circo.


- Dos maiores circos da Turquia a impressionante rainha do bambolê e dos cubos mágicos. Esta custei a lembrar de onde eu havia visto. Também passava com outros brinquedinhos e todos com máquina de cartão. É a modernidade tecnológica. E eu querendo ver o tal do retratista. Onde será que se meteu?


E como não poderia faltar, os palhaços sempre alegram não só as crianças, mas os adultos, também.


E o retratista havia sumido. Veio o intervalo e agora dois motociclistas entraram no Globo da Morte. Um era o equilibrista vendedor de brinquedos com luzinhas. Sim, o mesmo. Era ele. O outro era o dito retratista que havia sumido. Descobri onde se escondeu. Ninguém me engana com o raciocínio e talento de um Hercule Poirot, ou verdadeiro Sherlock Holmes.


Quase encerrando o espetáculo vem uma moça com as fotografias já montadas em um chaveiro. 


- Senhor, a foto de sua família, Aceitamos crédito, débito e pix. E o piazinho nesta altura já estava colado em mim, querendo ver a foto dele, da mãe e do tio que sentava ao lado.


-Esse não é o papai! Não é o papai! repetia o menininho.


Tratei de esclarecer o ocorrido e sair rápido. Vai que gostam da minha pessoa no retrato. Vi que a moça, mãe do piá, comprou. A dúvida é se vai me cortar do retrato? Nem imagino o que vai explicar em casa, mas o circo continua sendo mágico. Espetáculo familiar, gostoso e mesmo sabendo que o mágico não é de Las Vegas e os truques são sempre os mesmos. Acreditei que ele tirava os quatro pombos do bolso, do lenço, da cartola e um pombo fujão que saiu do cone que ele fez de papel, na frente dos olhos vivazes da platéia.


Querem saber se fiquei fotogênico no retrato com o meninho e a com a mãe dele? Huumm. Não vão saber.



QUEM COMEU A COALHADA?