sábado, 31 de outubro de 2026

A BOCA RICA DO ARLINDO WALDOMIRO



Era um velório muito afamado. Afinal, morreu o vizinho mais rico da quadra. Era conhecido como boca rica, por causa dos dentes de ouro que fazia questão de mostrar com seu largo sorriso. Nunca largava a sua "capanga" uma bolsa/carteira masculina de formato retangular que alguns homens usavam nos anos 70, como forma de status.Ali guardavam os documentos, cédulas polpudas de Cruzeiro e o talão de cheques especial. Também tinha uma caneta para fazer pose e assinar o cheque gordinho, seja em um mercado, em uma loja ou com prazer maior em uma casa da zona do meretrício. 


Ele não perguntava quanto custava. Mandava servir e depois com pompa tirava o talão de cheques da capanga, esperava todos estarem olhando, mandava alguém preencher e assinava. Era só o que sabia fazer, assinar o nome, pois treinou muito tempo para isso. Nunca foi letrado, mas ganhou muito dinheiro porque tinha tino, faro para negócios. Ninguém o passava para trás. Conhecia os números, porém não sabia ler contrato. E sempre repetia que a garantia de que alguém honraria as calças que veste era o Taurus 38 que levava na cintura à mostra de quem quisesse ver.


Dirigia um Ford Galaxie, cor de vinho, um carro enorme de luxo para poucos. Guiava bem, pois já havia sido caminhoneiro, andou pelo garimpo e se estabeleceu com alguns negócios totalmente legalizados. O doutor dentista que implantava seus dentes de ouro, era bem remunerado. Certa feita ele chegou no consultório e pediu que desenhasse estrelinhas nos dentes da frente para brilhar com o sol? Assim foi feito. 


Estava com quase 60 anos e a capanga sempre recheada. Em uma noite de terça-feira, morreu em combate na cama de Adriana, a mais linda e disputada da casa de Madame Neiva, conhecida como Cola de Ouro. Lá só se bebia uísque, vinho e outras bebidas importadas. Cerveja ela não vendia para não criar barriga nas mulheres e para não atrair clientes pobres ou remediados que ficam importunando umas garrafa a noite toda.


Por volta das 21 horas Adriana saiu correndo do quarto aos prantos. O seu Capincho morreu, acudam, o Capincho não respira e está babando com a língua de fora, socorro. Clientes, as meninas e a madame entraram no quarto e viram Capincho-apelido que ele odiava, pois seu nome era Arlindo Waldomiro- mortinho da silva mas irradiava um brilho dourado de sua boca. A luz vermelha cor de carne do abajur sumiu no meio do dourado que resplandecia da boca do seu Capincho.


A madame, segura de si e experiente, ordenou que ninguém falasse nada. Todos voltariam para a função e ali se divertiriam. Mandou um taxista buscar o doutor dentista que também era cliente, e de vez em quando aparecia com o seu saxofone para tocar algumas peças. Chegando o doutor dentista, ela ordenou que ele retirasse todo o ouro da boca do Capincho e no lugar colocasse algo que ninguém fosse questionar. Assim o fez e deixou a boca de ouro do capincho reluzindo novamente. Onde havia ouro colocou coroas de papel alumínio dourado, assim o fez também nos dentes da frente desenhando e colocando as estrelinhas.


O tesouro da boca rica do seu Capricho foi para o meio do sutiã de madame. Chamaram as autoridades e explicaram o ocorrido. Levaram Capincho para a família sepultar. O velório foi concorrido. Noite animada na capela mortuária com muitos amigos da noite, gente que conheceu no garimpo e velhos irmãos caminhoneiros das estradas. As meninas também apareceram, Madame dona da casa de tolerância deu os pêsames para a esposa e filhas que choravam mais que carpideiras contratadas.


Neste dia de finados, a viúva e as filhas vão depositar flores no túmulo de Campinho, que para ela sempre foi o Arlindo Waldomiro, amado pai e marido devoto, que em momentos foi desencabeçado por mulheres de vida fácil e amigos de vida torta.


Querem saber do ouro da boca rica do Arlindo Waldomiro? A Madame Neiva comprou um apartamento na Avenida Atlântica em Balneário Camboriú, capital nacional da atividade que hoje se chama Job. Gerencia algumas carreiras de meninas e todas as tardes atravessa a rua e senta em um banco à beira mar, toma seu chimarrão, com uma bomba de prata, ouro no bocal e cravejada de rubis. A erva ela manda vir de Erechim, onde tudo começou e aconteceu. 


Neste dia de finados, Madame Neiva, também vai acender uma vela para o Arlindo Waldomiro. Ela não brinca com espíritos. Teme que um dia ao atravessar a avenida, seja atropelada por um capincho de boca dourada. Melhor se precaver.


domingo, 25 de outubro de 2026

ERA COMO UM COICE DENTRO DO PEITO

 

Caminhando por uma rua na periferia, me deparei com um prédio de apartamentos, simpático, simples, bom ajardinamento e uma placa de venda que me chamou a atenção. Um apartamento no primeiro andar com uma placa escrito com letras grandes e bem visíveis. Parei e li com atenção e o que estava escrito me fez parar e querer saber mais sobre esta oferta inusitada.


Curioso apertei no botão da campainha, pedi para ver o imóvel e puxei prosa com o vivente. Me mostrou todos os cômodos e já adiantou que estava desiludido com a cidade com a povoeira que destrói a natureza, a fumaça de fábricas, ônibus, caminhões, carros e que sente falta do verde, da água limpa do silêncio e do cantar dos pássaros, do "acoamento" dos cachorros e que ele tinha "precisão" de sair da ilusão da cidade grande.


Perguntei mais sobre a decisão dele de vender aquele apartamento bem localizado e com um valor muito atrativo.  Ele sentou em um cepo coberto por um pelego, já surrado pelos anos, olhou para longe pela janela do pequeno apartamento. Suspirou e sem nem mesmo me olhar, uma lágrima caiu de seus olhos e disse - a saudade moço, a saudade mata!


Perguntei se tinha deixado alguma amada em sua terra natal, ou um amor desfeito, ou alguém que o esperava.  Fez um longo silêncio, nada me disse, de imediato, mas aos poucos foi falando  da dor de seu sentimento, que era como um coice dentro do peito. 


Todos os dias pensava, remoía, e seu peito roía por dentro. Nunca tirou da cabeça aquela malvada que um dia lhe sorriu, beijou seu rosto, piscou para ele e lhe ofertou uma flor do campo. Mas ela só fez isso quando ele estava de saída para ir embora para a cidade grande. Se passaram 40 anos e ela não havia esquecido aquele momento.


Para ele não tinha mais sentido viver na cidade, com ilusão e solidão, enquanto a saudades de anos estaria o matando pouco a pouco todos os dias.


A tabuleta, escrita de próprio punho dizia: 


Vende-se este apartamento.

 Preço de ocasião. 

Por motivo de saudades. 

Tratar com o proprietário neste local.


Nesta semana passei novamente no local. Não vi mais a placa e perguntei se haviam vendido. Se alguém sabia daquele senhor que ali morava. E uma senhora, já idosa me respondeu que o seu Floriano havia partido. Eu quis saber para onde, afinal conseguiria matar a saudades e rever seu grande amor do passado e quem sabe tirar a agonia de dentro do peito.


A gentil senhora se calou, e me respondeu. Ele partiu para junto de quem já se foi. Está no campo santo há três semanas. Não aguentou a saudades e se foi. Morreu de saudades.


sábado, 17 de outubro de 2026

A ESTAGIÁRIA MAIS QUERIDA E A QUE TODOS GOSTAVAM DELA

 



Era jovem, brincalhona e sempre recebia os clientes, mesmo os que chegavam com lágrimas nos olhos ou profunda tristeza na alma. O seu jeitinho de receber as pessoas tornava aqueles momentos menos piores. Mimi era elegante, sempre disposta e se gostasse da clientela que atravessava aquela porta de triste destino, sentia o sofrimento e a dor das pessoas.


Mimi estava trabalhando há poucos meses, era muito novinha e já desde cedo tratou de se achegar em um local que, também a tratasse bem, onde foi acolhida lhe deram boas condições de trabalho. tinha o privilégio de ficar na frente, olhando o movimento da BR-101, em Maracajá. Por alí passam milhares de caminhões, ônibus, carros, gente com moto e a pé pela calçada. 

Os clientes do negócio, geralmente chegavam tristes, chorando, com lenços molhados de lágrimas. Mas Mimi os recebia muito bem. Quando se aquerenciou por alí sabia que a lida poderia não ser muito tranquila, em termos de sentimentos.


Infelizmente o destino traçado da jovem estagiária levou suas sete vidas de uma vez só. Sempre avisaram que não deveria passar aquela faixa preta perigosa.  Mimi, trabalhou desde que nasceu em uma funerária às margens da BR-101, onde fazia companhia com a sua chefa e colega de trabalho e de casa. Sim, dividiam a mesma casa e o mesmo trabalho. 


Minha amiga de mais de 40 anos, Rosany, perdeu sua estagiária, sua colega de trabalho, que recebia os clientes da funerária na porta da frente. Era relações públicas e recepcionista. Sua alminha continua na poltrona da frente, observando os dragões alados que cruzam a BR-101. Um deles a levou para virar estrelinha.


Certamente a estagiária Mimi está lá nos céus, em sua poltrona de couro, cheirando as flores que aromatizavam seu local de trabalho.



sábado, 10 de outubro de 2026

PENSAMENTOS E DESEJOS QUE TRAEM A EMOÇÃO

O segredo que ela guardava há 70 anos, poucos sabiam, e muitos nem desconfiavam de como era a juventude daquela senhora séria, rígida e de poucos sorrisos. 


Beirando os 90 anos não descuidava do cabelo liso e preto. Retocava todas as semanas. Era vaidosa e as unhas sempre bem cuidadas,  cremes para não criar rugas. O tempo é cruel, mas ela não aparentava a idade.


Há muitos anos foi casada com um viúvo que perdeu a esposa ainda jovem e tinha de ter alguém para lhe fazer companhia e ajudar a criar os filhos. Foi rapidamente aceita pela vizinhança e em breve se tornou comadre de alguns casais batizando filhos e dando os seus também para outros casais de amigos levarem os bebês ao altar.


Nunca descuidou da aparência e também da vivência. Mas algo em seu peito roia intensamente. Este seu segredo, seu desejo de reviver o passado sempre a atormentou. 


Perto de completar 90 anos, pediu para a neta que a levasse no salão de cabeleireira. Lá fez questão de orientar a cabeleireira que não deixasse um fio sequer de branco, e as unhas deveriam ficar perfeitas e pintadas de vermelho sangue, a cor da paixão. Borrifou seu perfume preferido e fez questão de espalhar pelo corpo todo. Vestiu seu mais belo vestido, longo com pedrarias, que só se usa na noite e calçou sapatos de salto alto, também muito bonitos com meias de seda. Olhou-se no espelho, admirou-se e deu um sorriso com o canto da boca e uma piscadela para ela mesmo. Sussurrou - você já foi a rainha.


Ao passar pelo jardim colheu uma camélia e prendeu no no vestido, na altura do busto. Embarcou no carro da neta e pediu para dar um passeio. A neta perguntou para onde iriam. Ela respondeu para seguir em direção ao aeroporto de Erechim, e assim fez a jovem. 


Orientou que seguisse um pouco mais pela transbrasiliana,  a BR-153 que margeia a cidade, e que dobrasse à direita na primeira entrada. A neta nada entendeu e perguntou o que havia ali. A dama se calou e fez sinal com a mão para que a neta estacionasse na parte alta, de onde podia ver todas as casas.


Uma lágrima correu em seu rosto, ao lembrar daquela vila que era movimentada com dezenas de casas onde ressoava a  música, o cheiro da bebida e homens dispostos a gastar grandes quantias em busca de companhia. O dinheiro corria solto com obras de construção de barragens, perfuração de prospecção de poços de petróleo, construção de rodovias e boas safras na agricultura, períodos em que o dinheiro era de sobra.  Ainda ouvia o sol dos conjuntos que tocavam ao vivo nas melhores casas e o som dos toca-discos com o melhor do bolero, do tango, da valsa e de artistas refinados como Frank Sinatra, de quem ela era admiradora.


Ali, naquela vila há sete décadas, ela havia sido rainha, cobiçada e desejada por muitos. Este sentimento não saiu de seu peito e em todos estes anos sempre reviveu diariamente em seus secretos pensamentos seus momentos de glória, de se sentir amada, pelo menos durante os minutos que os clientes pagaram por sua companhia. 


A neta queria entender o que aquele lugar representava que fez a avó chorar, mas sem borrar a maquiagem. Afinal, hoje é um bairro familiar, mas o que tinha de lembranças ali?


A menina ainda é inocente, não desconfia do que havia naquele lugar. Não sabe sobre as dezenas de casas e moças bonitas que faziam daquela vila alegre, iluminada e divertida a vida de muitas garotas com a idade dela ou menores, ainda.


A última vez que a vi, estava com o cabelo impecável, unhas longas e pintadas e com vestido novo. Sentada na varanda de sua cara, cuida de chimarrão na mão, biscoitos de polvinho e olhar distante para a rua, como se ainda pensasse na juventude e os prazeres que teve a proporcionou.


Cumprimentei-a e segui meu caminho. Eu sei sobre os pensamentos daquela senhora.



domingo, 4 de outubro de 2026

VAMOS FAZER A DIFERENÇA

A cada dois anos as mentiras se renovam e nós acreditamos. Alguns são melhores no convencimento e ganham eleições. Mas as promessas são praticamente as mesmas, surgem novos termos, surgem idiotices e falsas notícias que hoje chamamos  de fakes. Mas sempre existiram. Com a tecnologia aumentaram as ditas fake news com um arsenal surpreendente de tecnologia. Capaz de enganar por momentos muita gente que acredita, e pior, repete.


Mas os discursos são os mesmos: "vamos fazer a diferença". Bordão enjoativo e cansativo. "vamos lutar pela saúde e educação", meu pai do Céu. Para vereador é sempre isso, para deputados a mesma coisa  e até para majoritárias. Tem um que promete acabar com a "ambulancioterapia" , ou seja, transporte de pacientes para consultas, exames e  cirurgias na capital. Isto se promete, pelo menos há 40 anos que eu lembro. Nunca resolveram. Mas alguns acreditam que agora vai..


E tem aqueles mais acéfalos que acreditam que vão "implantar o comunismo no Brasil", mesmo discurso quando João Goulart queria dar garantias aos trabalhadores e promover a reforma agrária. Com alguns eu até argumento que o dito comunismo não existe em lugar algum do planeta e que visitei muitos países e alguns ditos comunistas. O que vi foi uma economia de mercado forte. Mas continuam a acreditar em baboseiras. 


E até as brigas de cabos eleitorais mudaram. Hoje não mais com peleias com cabos de bandeiras, mas se vingam com o roubo e destruição dos wind banners conforme vi nas notícias. E tem os ghosts, que surgem na névoa com o tradicional: - Meu amigo, que bom te rever. Sabe que sou candidato e gostaria de contar com teu apoio...


Nem esquente a moringa, Amanhã começa a campanha para prefeito e vereadores. Sem sossego. Vamos lá votar nos menos piores. Democratas, que lutem pela liberdade e pela arte, cultura, ciência e  pelo trabalho. 






quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O empanturramento do motorista

Este causo verídico, verdadeiro e com testemunhas me foi contado pelo livreiro Zeka Chaves de quem compro livros, sempre de excelente qualidade.


Um aparentado dele, lá do interior do Paraná, que trabalha como caminhoneiro e percorre as estradas do Brasil teve uma vistoria e tratamento exemplar em um posto policial.


Sabedor e malandro, como todo caminheiro, deveria passar no Cinquentinha, conhecido posto policial em uma BR do Ceará. Mas como todo caminhoneiro que não é patrão andava com os pilas contados no bolso da camisa de tergal. 


A uns 10 quilômetros do famoso posto policial Cinquentinha ele viu na margem direita uma churrascaria com carnes nobres de boa procedência. A placa fincada nas margens da rodovia propagandeava que alí serviam espeto corrido com a melhor carne do Mato Grosso. O churrasqueiro era gaúcho com larga experiência e os acompanhamentos eram do dia com direito a sobremesa de ambrosia. Tudo isto por apenas R$ 49,90. Não teve dúvidas, parou o caminhão, esticou a única nota de R$ 50,00 que tinha e se fartou. Nem pensou o que faria logo adiante.


Meio mole, devagar com a pança cheia, ligou o 1113 e seguiu viagem devagarito. Ao chegar no posto cinquentinha, o policial mandou encostar, revistou faróis, sinaleiras, mandou pisar no freio, conferiu nota fiscal e tonelagem. E ficou enrolando com os documentos e CNH do aparentado do Zeka Chaves na mão e ficou proseando como quem não quer nada, esperando que o motorista desse a gorjeta.


O motorista explicou que estava sem um puto tostão, porque o patrão não pagou a diária antes e que ele estava com fome, não tinha comido nada e que nem sabia o que faria. Ouvindo isso e desconfiado de que perdeu o cinquentinha da gorjeta, convidou o caminhoneiro para descer e ir até a copa do posto policial. Mandou que sentasse e o próprio policial serviu a mesa.

Colocou um copo de "cristal" daqueles que vinham com  massa de tomate e a gente usava a vida toda. Uma jarra de K-Suco daqueles que deixa o beiço pintado. Tirou o pano de cima do pão caseiro, cortou duas generosas fatias, entupiu de manteiga e fartas porções de mortadela, de procedência duvidosa porque nem marca tinha.


- Agora o amigo pode comer bem, porque daqui não deixamos ninguém com fome. Imagina o que vão falar no Paraná se a gente deixasse um filho de Deus, protegido de Padre Cícero, sair pela estrada sem comer nada. E o motorista sem fome, pois estava de pança cheia, empurrou o sanduíche de mortadela e o suco ralo. Cada vez que ele terminava o policial fazia mais um e ficava ali até que o vivente terminasse. Assim o fez por quatro vezes até que o motorista caiu da cadeira com a barriga explodindo. Ali adormeceu. Meia hora depois acordou e o policial ofereceu mais um sanduíche para o amigo não sair falando mal do posto policial cinquentinha. 


Rapidamente o caminhoneiro pegou os documentos de cima da mesa da copa do posto e se arrancou para dentro do Mercedes. 


Jurou que nunca mais vai comer sanduíche de mortadela e agora busca outras rotas que fujam da BR do posto cinquentinha, Mas como ficou precavido agora sempre guarda uma nota de 50 como reserva. Esconde em uma abertura no interior do parasol do caminhão. Vai que tenha de passar lá de novo. Sanduíche de mortadela com k-Suco...revira os olhos do vivente só de pensar.


sábado, 19 de setembro de 2026

O NAMORADOR E A BOMBACHA



Neste domingo, 20 de setembro, como em todos os anos, a gauchada comemora o Dia do Gaúcho, foi quando se iniciou a Revolução Farroupilha. E ficaram dez anos peleando há quase 200 anos em protesto contra o tratamento desigual que o Rio Grande do Sul recebia e os altos impostos. A Semana Farroupilha é para recordar e reforçar os valores do povo rio-grandense que não se verga e não se entrega.


Mas tem um conhecido que anda de namorico com uma gaúcha e se entusiasmou com a cultura tradicionalista, valores do povo do sul e se apaixonou por uma bela chinoca. Conheceu a família, conforme os bons costumes, pediu permissão para namorar e uma das primeiras perguntas do sogro, que tem a idade do pretendente, era se ele torcia pelo Grêmio ou Internacional. A resposta poderia já negaciar o encontro e não ter permissão. Mas a moça antecipadamente avisou que ele deveria torcer pelo Grêmio. Caso contrário o namoro não iria adiante.


O tal sogro questionou sobre o que pensava do Brizola, Pedro Simon e Paulo Brossard de Souza Pinto. Até aí a prosa foi boa e o pretendente estava sendo aprovado. O pai da moça perguntou se ele apreciava os filmes e as músicas do Teixeirinha e já colocou na vitrola um elepê com a tradicionalíssima música Coração de Luto. O velho serviu uma cachacinha de Santo Antônio da Patrulha. Bebericou e em seguida repartiu uma rapadura e alternava um pedaço de rapadura e um golinho da pura. Se emocionou ao ouvir Teixeirinha. E falou dos filmes do astro gaúcho.


Meu conhecido, foi se achegando e achando que tinha sido aceito pela família até que a sogra perguntou se ele é de algum CTG - Centro de Tradições Gaúchas e se ele estava com pilcha completa e bota campeira para o baile, que iria ocorrer de noite no CTG que eles frequentam. Seria um baile de limpar banco com Os Monarcas de Erechim. Recomendou que em bailes de CTG, o comportamento tem que ser de respeito. Nada de agarramento e ao dançar que se respeite as regras de distanciamento. Não pode apertar a moça. Desconversou e disse que não trouxe porque não poderia dançar. Torceu o tornozelo e não teria como bailar a noite toda. Desconfiaram, pois nem mancando estava.


Mas o vivente, ladino por vivência, começou a manquejar igual tobiano que não gosta da lida. De volta para Joinville tratou de encomendar uma pilcha completa e bonita. Com favo bem trabalhado dos lados. Só que encomendou em um dessas plataformas de vendas. Esta semana a compra chegou e ele mostrou para a noiva a novidade que agradaria a família toda.


Ela nem quis olhar e já se emburrou. Se vestir isso daí te arranca da minha frente. A tal bombacha, comprada pela internet era uma calça larga com pregas, daquelas que se usavam nas disco clubs de frequência duvidosa nos anos 80.


Agora de manhã questionei se ele iria no encerramento da Semana Farroupilha no Parque Harmonia em Porto Alegre, afinal o show de encerramento é com Adair de Freitas e seus sucessos como De Já Hoje, Previsão de Vaqueano, Meu Canto e tantas outras. Não me respondeu Desconfio que andou tomando umas relhadas da gaúcha.


E viva a gauchada neste 20 de setembro.



domingo, 30 de agosto de 2026

DOCE LATIDOS

São mais de 400 anos de história. Este ano se completaram quatro séculos das missões jesuíticas-guaraníticas presentes no Rio Grande do Sul, Paraguai e Argentina. Os povos das missões foram dizimados, assim como mártires desta bela história de nossa gente.


Um dos mártires que virou santo foi o padre paraguaio Roque González de Santa Cruz. Assassinado e queimado, em Caaró, perto de São Miguel das Missões (RS),  seu coração permaneceu intacto após a tragédia.  Esta relíquia está em Assunção, na Capela dos Mártires da Paróquia Cristo Rei, dos jesuítas. É o primeiro santo paraguaio.


Tive a oportunidade de visitar uma exposição criada por três artistas paraguaios que retratam os 12 batimentos cardíacos de São Roque González. Dentro das comemorações dos 400 anos das missões jesuíticas-guaraníticas a exposição retrata 12 corações que reinterpretam os valores da história e o legado de Roque González. 


Rubén Sykora usa pedrarias, cristais, pérolas e evoca a delicadeza dos altares jesuíticos. Liliana Sykora,  expressa a conexão entre terra, céu e espiritualidade, mostrando a figura humana do padre que se tornou santo. José Quevedo incorpora elementos da rica flora e fauna, folclore, história e a textura artesanal de nossa natureza tropical.


Doce Latidos, uma moderna exposição de arte contemporânea, com resgate histórico e multi sensorial com luzes, sons e áudios com textos para cada um dos 12 corações de Roque González, esteve aberta ao público no Centro Cultural da República El Cabildo, no centro de Assunção.


Assim como os 12 batimentos, os 12 corações evocam os 12 povoados missioneiros, os 12 meses do ano, os 12 apóstolos e os principais eventos do período retratado.   Nossa história é muito rica e precisamos de mais produções artísticas como essa para não esquecermos os 400 anos de história dos povos missioneiros. E para que as futuras gerações compreendam e levem adiante este pedaço de nosso passado e o mantenham vivo, como o coração de Roque González que continua batendo em fé e esperança. 


domingo, 23 de agosto de 2026

FUI NUMA FESTA EM ASUNCION CAPITAL DO PARAGUAY

     O título acima lembra a polca paraguaia Galopera, mas não fui em um baile mas em uma festa de aniversário de um querido e estimado amigo. Em su cumpleãnos oportunizou o reencontro de alguns amigos de faculdade. E lá se vão 42 anos desde o início do curso em 1984 na Universidade Católica de Pelotas. 


A fiesta em Asuncion, como toda festa paraguaia teve horário para iniciar e não para terminar e assim se seguiu na madrugada adentro com direito a boa comida tradicional paraguaia, artistas locais, incluindo harpa paraguaia e finalizando com um baile no bosque com os sucessos do pop rock dos anos 80, quando éramos, jovens,magros e bonitos. 


Karaokê sempre agrada e até os menos afinados como eu se arriscam a cantar Frank Sinatra e por amizade todos aplaudem e elogiam. Inclusive os nativos paraguaios sabiam as letras de cor e salteado dos sucessos de Paralamas, Ira, Kleiton e Kledir, Capital Inicial, Legião Urbana, Barão Vermelho, Cazuza, titãs, Kid Abelha, Lobão, Lulu Santos, Blitz, Engenheiros do Hawaii e tantos outros. Depois de certa hora e embalado pelo clima nostálgico me arrisquei a cantar em guarani. Sucesso total. 


E nesta Fiesta em Asuncion, capital do Paraguai, vi as paraguaias sorridentes a bailar. Pessoas queridas, aprazíveis que tornaram aquele momento marcante em nossas vidas de seis décadas. Sempre repito que a vida é muito curta para deixarmos de viver cada momento. Vale muito reencontrar amigos, recordar de situações vividas e conhecer novos lugares e novas pessoas. E o maior presente que poderíamos ter dado ao aniversariante foi nossa presença em su cumpleaños.


Um forte e sincero abraço no aniversariante e amigo de tantos anos, o paraguaio mais gaúcho e brasileiro que conheci; José Quevedo Allende, protegido pela Virgen de la Asuncion, pois nasceu no dia da padroeira. 


Pra matar minha saudade

Pra minha felicidade, Paraguai, eu voltarei

Pra minha felicidade, Paraguai, eu voltarei 


E como testemunhas del festín en el bosque, apenas o bugio que ficou arriba nas árvores cantando. E vale a máxima: o que acontece em Lambaré, fica em Lambaré.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

VOCÊ ME DEVE UMA LIBRA DE SUA CARNE


Um agiota não perdoa o pagamento de uma dívida e muito menos os juros pelo atraso no pagamento. Nem mesmo se a dívida foi contraída para assuntos amorosos.


Há 430 anos o dramaturgo William Shakespeare, escreveu a peça O Mercador de Veneza, que trata de um empréstimo avalizado pelo mercador Antônio para ajudar um amigo que pretendia uma conquista amorosa com rica e jovem viúva. O  agiota judeu Shylock garantiu o alto valor e no contrato exigia o pagamento macabro de uma libra de carne, equivalente a quase meio quilo, do corpo de Antônio, em caso de atraso do pagamento.


E esta encenação, que assisti semana passada no Teatro Guaíra em Curitiba, com elenco competente e o consagrado ator Dan Stulbach na personagem de Shylock, me fez recordar algo semelhante.


Há alguns anos, um conhecido me procurou para lhe ajudar a ir para a Rússia buscar uma noiva. Me disse que ele tinha certeza, pois os espíritos garantiram que ele havia sido um Czar. E lá na Rússia estaria seu grande amor. Queria saber os trâmites, já que ele sabia que já tinha ido para a Rússia e leste europeu.


Expliquei os procedimentos e fiz uma rápida estimativa de valores para ele. Quando soube da burocracia, da distância e dos valores que iria necessitar, pensei que desistiria da empreitada amorosa. 


Nada disso, Olhou para mim e com toda a certeza me intimou:

- Fui um Czar russo em vidas passadas e tenho que ir. Você vai me ajudar. Me empresta, pelo menos  uma parte do dinheiro que eu vou buscar minha noiva. Parei, respirei e pensei por segundos o que responderia. 


Me ocorreu de contar esta história para ele e o que poderia acontecer. E enfatizei. Para conseguir dinheiro tão alto precisaria cortar na carne, até no osso, pois era uma viagem cara. Ele me olhou e perguntou se cortariam a carne dele também. Reafirmei que sim. Não só cortariam a carne dele cobrando juros de quem ele pegar empréstimo, bem como os russos poderiam cortá-lo. Afinal, golpes do  amor fazem muitas vítimas todos os dias.


Esta semana, coincidentemente o encontrei com uma bela jovem, loira. Pensei que até que era filha dele, mas não era. Em tom de brincadeira perguntei se era russa. Me respondeu que era quase isso. Era descendente de ucranianos e que vivia na região de Porto União, mais especificamente no distrito de Nova Galícia.


Preservou sua libra de carne. E agora deve estar se sentindo um Czar russo. Ele que fique esperto, se o Putin descobre.. Afinal ela é de origem ucraniana. 




sábado, 25 de julho de 2026

QUEM COMEU A COALHADA?


Era comum as famílias visitar os parentes, amigos, compadres e passar o dia na casa deles. Íamos de manhã e alí ficávamos o dia todo. Era almoço, café da tarde, conversas, passeios e só se voltava para casa no final da tarde e início da noite. Numa destas aprazíveis visitas dominicais me levaram para um sítio de uma parentagem no interior de Barão do Cotegipe, cidade próxima a Erechim quando nem existia asfalto.


Eu tinha uns 12 anos e na propriedade havia muita diversão. Um riacho de água limpa que passava na divisa da propriedade, espetacularmente limpo e ótimo para banhos em tardes de calor. A moenda puxada por uma junta de bois rangia ao moer a cana que sorvia uma garapa doce, deliciosa onde bebíamos na fonte da vitamina poderosa.


Em um galpão onde ficavam ferramentas e colheita de grãos havia uma máquina que julgo ser revolucionária na tecnologia mundial. Sempre repito para mim mesmo. Depois que inventaram o debulhador de milho, o mundo mudou. A tal máquina debulhava o milho e moia em quireras de várias grossuras. Como já existia luz elétrica, um pequeno motor era ligado, e os donos orgulhosos da maquinaria que trouxe maior facilidade e produtividade. O milho colhido no morro em frente a casa dava comida para galinhas, porcos, vacas leiteiras e era possível moer o milho para uma boa quirera e preparar com galinha ao molho.


Mas o melhor estava por vir. Um dos filhos do casal aparentado me mostrou uma novidade e foi a melhor parte do passeio. 


  • Gosta de quaiada? Me perguntou e eu sem saber do que se tratava disse que sim. E ele abriu o porão da casa, onde ficaram voltas de  salames, linguiças secando, barrica de vinho e de cachaça, latas de banha, compotas de frutas e legumes e os queijos maturando. 


A tal “quaiada” estava em bacias cobertas por um pano branco. Ele retirou o pano de algodão bem alvo e a coalhada estava ali sendo preparada para a feitura dos queijos que seriam vendidos na semana. Com uma colher de pau experimentamos a coalhada que estava fermentando. Achei meio estranho, mas em seguida veio a perdição. Ele trouxe um pote de barro cheio de açúcar amarelinho, produzido na moenda ali da propriedade e um vidro cheio de melado.


  • Mistura um pouco que fica bom. Recomendou. Não tive dúvida. Misturei com açúcar amarelinho grosso e um pouco de melado e a coalhada ficou um manjar dos deuses. Quase melhor que ambrosia ou arroz doce. A bacia acabou rapidinho com os dois terneiros se servindo com colher grande pau, devorando a matéria prima que daria vida aos queijos, que eram a subsistência da família. 


Já era hora do almoço, subimos e a galinhada estava pronta. Banquete farto e de sobremesa goiabada, queijo fresco, gelatina com merengue. Até pedi um chá de carqueja para desmanchar aquilo tudo, afinal estava empanturrado feio leitão novo.


Pelo meio da tarde a prima, dona da casa desceu para ver como estava a coalhada, pois ainda fazia queijos para o marido sair vender na semana seguinte.


Voltou com cara nada boa. Perguntou ao filho dela o que houve com a “quaiada”. Ele se fez de desentendido e prontamente respondeu para a mãe dele que ele desconfiava de um gambá que andava pela volta e que ele viu saindo do porão e seguiu para o galpão do debulhador de milho. Ela fez que acreditou e olhou fixamente na minha camiseta que havia ganhado de brinde nas lojas J.H. Santos. Uma mancha de coalhada de cor amarelada e farelos do açúcar produzido por eles. E o canto da boca melado já seco.


Terminado o passeio no final da tarde voltamos para Erechim, de pancinha cheia. Conto este causo 50 anos depois. Ela não vai se lembrar de quem consumiu toda a coalhada do queijo.


Fico a pensar. Como será que aquela máquina debulha o milho,solta o sabugo e ainda faz ração e quirera? Uma invenção fenomenal. Tecnologia avançada.



domingo, 19 de julho de 2026

DOCE DE LARANJA EM TACHO DE COBRE




Era um pé de laranja de casca grossa e amarga. Experimentei uma vez, depois de passar pelo Kelly, um cachorro de pelo tigrado que ficava em sua casinha embaixo daquela árvore, no pátio. Com o Kelly ficava uma gata que eram amigos, lagarteavam no sol, dormiam juntos para se aquecer do rigoroso inverno. O cachorro viveu muito, até que lhe caíram os dentes. Nos últimos tempos só comia sopa.


Mas voltando ao pé de laranja, descobri que só servia para doce. Eram laranjas grandes, de casca grossa. E em dia de fazer doce de laranja a lida começava bem cedo. Cada um ajudava com alguma tarefa.


Embaixo da sombra de uma árvore de cancorosa era feito o fogo com lenha, protegido por pedras que davam suporte ao tacho de cobre, que ficava guardado no porão da casa. Lá estava também a colher de pau de cabo longo, usada para mexer os doces, sejam de laranja, abóbora, melancia, figo, pêssego. 


Mas neste dia era de laranja, que eu julgava amarga demais. A tal de laranja cidra. Não serve para comer. Dias antes as laranjas haviam sido descascadas, retirando a fina camada da casca externa, onde está o maior amargor. Depois de deixar no molho em água para ajudar a tirar a acidez, eram cortados em pedaços. Com o fogo no ponto era o momento de iniciar o cozimento da laranja com açúcar Cristal que via em sacos de 5 quilos. Açúcar grosso. Também usávamos para adoçar o café e outras receitas.


O fogo embaixo do tacho de cobre atraia meu olhar. Gostava de ver e conforme ia ocorrendo o cozimento a calda ficava mais grossa e as laranjas assumiam uma coloração como se fosse uma obra de Van Gogh ou de Henri  Matisse. Como uma pintura, o tempo, o controle do fogo e nunca parar de mexer a colher de pau para não grudar e nem perder o ponto do doce, era como se fosse um pintor acertando as cores, a perspectiva até o envernizamento do quadro e sua assinatura


Eu observava, trazia lenha, mas nunca me deixavam mexer o doce com uma grande colher de pau. Era perigoso. Poderia me queimar com o fogo, doce quente. Era melhor esperar as compotas prontas ou a chimia. E você deve estar pensando nas cascas? Não ia para o porco e nem para as galinhas, muito menos para adubo na hora. Virava um doce cristalizado. Deliciosos. E quando prontas as compotas de laranja, embelezavam a cozinha. Vidros de compota bem fechados na prateleira, o tom alaranjado decorava e iluminava o ambiente. Cada vidro aberto encantava pelo aroma, e o sabor da laranja desmanchando, a calda grossa era um licor dos deuses, digno de beber em copo de cristal ou encher a colher como se fosse uma farta porção de mel. A doçura e a riqueza da natureza em forma de alimento e arte. 


sábado, 11 de julho de 2026

O ASTRO DO VELÓRIO

Eu deveria ter uns 8 anos no máximo. Cheguei no dito velório da mãe de uma vizinha. Parei na calçada, pois deveria descer a escadaria de tijolos e notei algo estranho, já que todos me olharam com jeito de surpresa. Uns balançavam a cabeça em desaprovação, outros cochichavam algo nos ouvidos de quem estava mais próximo. A tarde fria de sol fazia com que a maioria estivesse no pátio em frente a casa lagarteando, enquanto a morta estava sendo velada na sala da casinha de madeira. Naquela hora, por volta das quatro horas da tarde, esperavam o padre para fazer o encomendamento. O ônibus já estava estacionado em frente a casa para levar o pessoal para o cortejo funerário que seguiria até o Cemitério Municipal.


Mesmo estranhando, desci a escadaria com meu sapato plataforma marrom. Daqueles de salto grosso e alto que se usava nos anos 70. Fui me achegando pelo meio das pessoas até entrar na pequena sala da casa de quatro cômodos sendo sala, cozinha dois quartos A patente ficava do lado de fora, como era de costume. No meio da sala a dita senhora, amparada por quatro velas em castiçais de pé alto. Havia passado dessa para a melhor, como dizem os antigos. Três filhas em uma choradeira, uma delas fazendo fiasco com um espelhinho no nariz da falecida e jurava que a velha ainda respirava. Por um momento o choro parou, me olharam, se olhavam como querendo dizer, que ridículo este piá da comadre. Parei ao lado do caixão, olhei, vi que ela segurava um rosário entre as mãos. Rezei um Pai Nosso, uma Ave Maria e sai pelos fundos onde estava mais animado. Um grupo de parentes e vizinhos contando piadas, jogando cartas, cantando e tocando.


Um dos vizinhos me chamou e disse, corre ali na tua casa e traga limão. Sei que o Seu Lima tem pés de limão. É para renovar a caipira. Enquanto isso, o samba comendo forte nos fundos da casa do velório. O pandeirista que era conhecido lá de casa ainda reforçou o pedido e me aconselhou:


- Já traga meia dúzia de limão, açúcar e uma forminha de gelo que tem no congelador. E tire essa roupa ridículo porque já estão rindo de você. 


Fique trocando orelhas. Onde se viu ridículo, me arrumei todo para ir ao velório. Roupa nova, bonita, sapato plataforma, camisa de “Volta ao Mundo”. Mas sai ligeiro que nem tatu mulita. Subi a escadaria num pulo e fui a trote para casa. Antes de ir no pátio pegar os limões corri para a frente do espelho para ver como eu estava. Afinal, ele disse para trocar a roupa porque eu estava ridículo. 


Olhando e avaliando minha pessoa ao espelho, concordei com o pandeirista. A dita roupa era um conjunto estilo Safari, que vi na TV e pedi que a mãe costurasse um igual e como não tínhamos o tecido adequado, a sarja, que era cara, pedi que ela usasse retalhos de tecidos que havia sobrado de uma cortina, que uma cliente mandou fazer. Era uma estampa de motivos norte-americanos. Um algodão branco estampado com bandeira norte-americana, inscrições US Army, do exército americano, enfim nem um cigano se fantasiariamelhor. Tratei de tirar o modelito e o sapato plataforma. Eu achava que estava bonitão. 


Voltei irreconhecível para o velório com a sacola cheia de limão, açúcar e duas forminhas de gelo. A festa de comemoração estava garantida. Muitos nem me reconheceram nesta volta triunfal. Conjunto safari com tecido e estampa de cortina? Nunca mais. Porém anos mais tarde inportunei para que a mãe fizesse um casaco usando um cobertor de lã. Mas este é outro causo.



domingo, 28 de junho de 2026

TROCOU A NOVINHA POR UMA VELHA DE 40


As excursões para santuários, principalmente, podem ser muito divertidas. Na maioria dos casos a turma de romeiros é composta por 90% de senhoras de certa idade, alguns casais e quase nenhum jovem  solteiro. Tem que ter paciência até chegar ao destino, já que a maioria está com seus celulares com os olhos na tela. A conversaiada começa já antes do embarque, com os tradicionais envios de bom dia e mensagens daquelas que irritam e enchem as contas dos grupos dos viajantes.


Tem àquelas que fazem ligação de vídeo a todo volume para se despedir dos netos. Não adianta o guia informar que devem usar fone de ouvido. Mas o divertido é ficar ouvindo as conversas dos outros, que não falam baixo. E geralmente se conhecem por serem parentes, vizinhos, amigos ou já terem viajado juntos. 


E os diálogos são ricos revelando suas vidas para todos os 30 ou 40 passageiros. Perguntam como estão, se estão com saudades da vovó, mesmo a viagem nem ter começado. Outras recomendam sobre o café da manhã e o almoço que deixaram preparado com mesa posta. Tem aquelas que deixam a roupa na máquina de lavar e recomenda que estendam caso o sol abra. Caso venha a chover que use o varal lá dos fundos no coberto onde deixam as tralhas.


E próximo a minha poltrona uma senhora com a filha e o netinho de 7 meses. A vovó tomou conta do netinho, trocava fraldas e o aroma do resultado inebriava o ônibus de excursão. Levaram seus lanches, também, para evitar gastar nas paradas e na hora do almoço. A moça era jovem e bonita e quando o guia começou a conversar com os passageiros ela já disse que era solteira, pois o pai do menino não prestava. O pai da garota não permitiu o namoro porque ele era “caixeiro” ,  uma espécie de ladrão que assalta caixas eletrônicos. Está em uma temporada na pensão da penitenciária. Tudo isso se descobre apenas observando e ouvindo a conversa alheia dentro de um ônibus, num posto de saúde, em um ponto de ônibus e em outros locais públicos. As pessoas não reservam suas intimidades. Confidenciam, relatam, contam e aumentam. 


Depois da missa das 10h no Santuário, tempo livre para caminhar pelo parque e almoço antes do retorno. No início da tarde todos de volta aos seus lugares e a garota preocupada com o pai que ficou em casa, mas pelo menos tinha comida pronta que a mãe deixara cedinho antes de saírem. 


  • Mãe, e o pai, tem que ligar para ele. Ver se está bem.

  • Te aquieta “fia”. Aproveitou para pedir para Santo Antônio te encaminhar na vida? Hoje é o dia do santo casamenteiro.

  • Mas tem que saber como ele está.

  • Não precisa. Deixei comida pronta. Ele que se vire. E você tome tenência, já se desencabeçou demais. 

  • Mas mãe,  o pai não telefonou, nem passou mensagem. Será que está bem?

  • “Fia”, você não vai ligar. O véio deve estar “encharcado”, ainda. Antes de chegar no desembarque a gente avisa. A filha se aquietou e como a vovó cuidava do menino ela fuçava no celular, vendo o instagram e comentava cada foto e novidades que estava lendo.

  • Mãe, o Toninho trocou de mulher?

  • Parece que sim. Largou aquela piriguete, sentenciou a senhora.

  • Mãe, olha só. Eu não sabia, mas largou a Paulinha por uma velha..

  • Bem isso. A comadre me falou que ele já andava enrabichado com outra.

  • Mãe, mas ele trocou a Paulinha por uma velha. Esta “véia” deve ter uns 40 anos..Que coisa..

  • É, veja só. Parece que isto é moda agora. Guri novo com mulher “véia”.


Pelo jeito as duas mudaram os limites de idade da humanidade. E quando o ônibus chegou no desembarque, a filha pegou o celular e fez uma ligação. Ouviu resmungos, fala atrapalhada e enrolada. Desligou e disse para a mãe que era melhor chamar um Uber, porque o véio continuava encharcado, com os pés molhados e dando curto.


Embarcaram, também chamei meu Uber e fui para casa matutando. Huumm, velha de 40? Então assim já me consideram um matusalém. Na próxima excursão eu vou ouvir tudo de novo atentamente para anotar e depois conto para vocês. Será para Aparecida, lá onde está a Padroeira do Brasil. O repertório deve ser maior. Bom domingo e não percam a missa, mas sem celular e nem reparar na vida dos outros. 


sábado, 20 de junho de 2026

O ENTERRO DO POETA QUE PAROU O BAIRRO

Por volta das cinco horas da tarde, de uma quinta-feira de outono, o dono do boteco com os olhos cheios de lágrimas, inchados e vermelhos amarra uma fita preta na porta do estabelecimento. Naquela tarde receberia os habituais fregueses com um sentimento de pesar. Nada de música alegre que sempre tocava na rádio preferida e nem a TV ligada para quem gosta de assistir jogos de futebol. O dia era diferente.


No meio da tarde começaram a chegar os clientes habituais.


  • Me dá uma gelada.

  • Dá para fazer uma caipira dupla?

  • Serve um “mercedinho” triplo

  • Sobrou costela de ontem? Me faz um sanduba

  • E aquele torresminho lá do oeste, chegou?


Começaram os pedidos dos clientes que notaram a cara de poucos amigos do bolicheiro. Ele só ia servindo, mas sem mostrar os dentes. Também nada falou sobre a fita preta amarrada na porta do bar. Volta e meia olhava para o mar, suspirava, respirava fundo e voltava a servir às mesas. O mesmo pano que limpa as mesas é o mesmo que seca a louça, limpa as mãos e tira o suor do rosto. Tardes de outono à beira-mar são lindas com um sol forte que não esquenta, mas revela a beleza da natureza.


Pouco antes das cinco da tarde começaram a chegar mais pessoas, mais chegados, amigos e conhecidos do poeta, rostos tristes, olhares distantes e lacrimosos. Ele deixaria saudades.


Cinco horas, com pontualidade britânica, o melhor amigo do poeta e que viveu com ele por muitos anos pediu respeito do silêncio e a palavra para explicar o ocorrido e marcar o momento solene de dor, tristeza e despedida. 


Viveu até muito idoso. Alegrou a todos, era parceiro, amigo e brincalhão. E era assíduo e pontual no bolicho, praticamente todo dia. Nem mesmo com chuva e vento sul, ele não  faltava ao compromisso. Mas a natureza é implacável. A idade chega a cavalo e nos leva a trote pelo campo celeste.


O bar se calou, até os menos tolerantes com a presença do poeta, sentiram a perda. Afinal com quem vamos ralhar. O seu melhor amigo com quem viveu até seus últimos dias não teve forças e nem disposição para falar. Apenas abriu a urna e depositou as cinzas com o próprio punho, carinhosamente espalhou no pequeno canteiro com grama ao lado da porta de entrada. Ali ficará o poeta, olhando para o horizonte do mar de Coqueiros, onde viveu e frequentou, fez amigos e admiradores. 


Lupicínio viveu com muitas histórias e foi testemunha de muitos amores, de muita beleza e também dos desabafos dos amores terminados, perdidos, novas paixões, alegrias e desencantos dos cativos frequentadores do bolicho à beira-mar. Mas Lupi, que ganhou esse nome em homenagem ao poeta, compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, o que mais entendeu a dor de cotovelo dos amores impossíveis, proibidos, inacabados, ciumentos e paixões arrebatadoras. 


O poeta canino de quatro patas não deixou em testamento a música preferida para o dia de sua partida, mas certamente seria essa, composta pelo compositor gaúcho:


Felicidade foi-se embora

E a saudade no meu peito ainda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora 





A BOCA RICA DO ARLINDO WALDOMIRO