sábado, 30 de abril de 2022

O vizinho triste



O vizinho triste




O sujeito era bem apessoado, roupas boas, sapatos lustrados, cabelo aparado e sempre bem apresentável. Nunca soube o que fazia, mas era um cara emburrado, mal educado e nunca cumprimentava ninguém no prédio. Se tivesse que dividir os 12 andares de elevador, fechava a cara e ia até o alto ou até o térreo calado, sem levantar o olhar.




Ela uma mulher vistosa, bonita, cabelos claros, pele bronzeada pelas horas de sol. Corpo escultural e roupas sensuais que chamavam a atenção. Pela beleza deveria ter vindo lá dos lados de Bagé ou Alegrete. Formavam um casal bonito, se andassem juntos. Eram um casal, marido e mulher.




Eu e mais dois colegas morávamos no apartamento ao lado e de vez em quando ouvíamos gritos, bater de móveis, cadeiras arrastando, enfim coisas de alguma discussão do casal. Mas como diz o ditado em briga de marido e mulher não se mete a colher.




Num feriado de 1º de maio de 1985, há 37 anos, a barulheira começou cedo. Um colega, madrugador também, deu a sugestão de a gente usar um copo colado na parede para ouvir a conversa. A peleia parecia esquentar.




Peguei já uma caneca enorme para ouvir melhor. Fomos encostando na parede e seguindo o pequeno apartamento popular de paredes finas e ficamos ouvindo a conversaiada.




Você é ingrata, só queria sair daquela vidinha e casar. Me sinto enganado.


Seu trouxa você que é bobalhão. Não viu isto antes? devolveu ela.


Você sabia que eu sempre te amei e sempre te quis. Porque faz isso comigo?


Deixa de ser frouxo. Vá lavar a louça que vou sair.




Alguém empurra um móvel com força e ouvimos um barulhão de cacos de louça e vidros quebrando. Pensamos, agora vai dar morte. Se fez um silêncio e em seguida um barulho como se fosse alguém varrendo e juntando os cacos.




Onde você vai Dalva Cristina?


Não te interessa. Não tenho hora para voltar.


Você acha que vou continuar aturando você se encontrando com aquele velho de orelha peluda? Ou com aquele que parece uma múmia uruguaia? Ou você acha que eu não sei do Porco Gordo bizarro, aquele que você andava com ele e que agora está toda faceira por ter encontrado de novo?


Se sabe porque pergunta onde vou? Provou a mulher.


Te perdôo porque ainda te amo. Gosto de te beijar, de te tocar, de te abraçar, mas você nem deixa eu chegar perto? Você me rejeita. Não posso nem segurar na sua mão.


Pára de encheção, de frescura. Tchau e não sei que horas volto. Vá ver um jogo do Xavante e me deixa em paz.




Escutamos a prosa toda e ficamos bem quietinhos. Neste altura, já nem achávamos mais o sujeito antipático, estávamos com pena dele. A bruxa era ela que sorria e nos tratava bem.




E como era nosso costume lá pelo final da tarde antes de ir para a aula, nos reuníamos alguns colegas para uma roda de chimarrão. Nos finais de semana alguém sempre trazia uma cachacinha, pipoca. um bolo de milho para acompanhar a prosa e passar algumas horas.




Alguns metros de distância avistei o vizinho, protagonista da nossa espionagem. Cabisbaixo, passou pelo nosso grupo fez um leve gesto com a cabeça cumprimentando a todos e colocou o primeiro pé para dentro da porta do prédio.

Num ímpeto o chamei:




-Vizinho, aceita uma cuia?



Ele me olhou, parou e voltou.

Moço, posso falar com você um pouco?




Me amedrontei porque somos vizinhos de lado e dava para ouvir tudo. Levantei do portal e fui ouvi-lo.




Sei que você ouviu a discussão lá em casa. gostaria que você mantivesse discrição com os demais, enfim, é algo que me incomoda. Solicitou.



Fiquei meio sem jeito mas garanti a ele que nada contaria e falei:

Vizinho, como conselho de alguém mais jovem e sem muita vivência ainda. O que o senhor vive não vale a pena.


Mas ainda gosto dela, ele argumentou


Não implore por carinho, não implore por amor. Se não é natural não é verdadeiro e tem muitas pessoas por aí bem melhores. O senhor não merece se desfazer tanto desta maneira. Não permita isso com o senhor.


Obrigado moço e vou aceitar uma cuia de mate.




Peguei a cuia da mão de um colega que terminou, servi dei ao vizinho. Sorveu o amargo, aceitou uma balinha de menta e uma bicada na cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Ainda dei um pedaço da rapadura, também de Santo Antônio, que é a melhor rapadura do mundo.

Vizinho esta rapadura é para adoçar suas palavras e sua alma e não esqueça Não mendigue carinho, amor, amizade!




Nos dias que se seguiram ele passou a nos cumprimentar e às vezes até parava. Anos depois o reconheci em umas edições da Fenadoce, em Pelotas. Estava com semblante feliz, seguro e bem acompanhado com alguém que transparecia gostar da companhia do meu ex-vizinho.




Junho terá nova edição da Fenadoce, onde se encontram os melhores doces do mundo. Quem sabe o ex-vizinho esteja por lá.


sábado, 16 de abril de 2022

A MOÇA DE SÃO GABRIEL E O PRETENDENTE

 A MOÇA DE SÃO GABRIEL E O PRETENDENTE



Lá por volta dos anos 30, quase nenhuma liberdade as moças tinham. Recebiam ensinamentos de afazeres domésticos, fazer boa comida, pregar, cerzir,engomar, bordar e se preparam o enxoval para um casamento com alguém de melhor vida do que tiveram até então.


Há algum tempo Maria havia ido morar com a madrinha que era bem de vida e morava num belo casarão perto da praça, no centro de São Gabriel. A madrinha era a mulher do estancieiro que empregava os pais de Maria. Esta estância ficava para os lados de Rosário do Sul perto do Caverá onde reinava Honório Lemes o chamado Leão do Caverá, figura lendária da história rio-grandense.


Maria era uma moça vistosa, como a maioria das moças da fronteira oeste que vai de Uruguaiana,  Livramento até Pelotas, pelo sul do estado. Quer conhecer moças bonitas? Visite Bagé, Alegrete, São Borja, São Gabriel, Dom Pedrito e Rosário do Sul. Mais bonitas que a laranja de amostra. Algumas tão belas de fechar o comércio.


Numa tarde de domingo de Páscoa, a madrinha comunicou a afilhada que se preparasse e se comportasse pois viria um pretendente. Um rapaz de boa família, estudado e de posses para  cortejar a moça.


Na hora aprazada, com pontualidade britânica toca a aldrava na imensa porta de angico, entalhada com motivos da Revolução Farroupilha. Uma cena de batalha estampava a imensa porta  fixada com grandes dobradiças de aço. 


A madrinha ordenou que uma das empregadas atendesse o visitante. A serviçal abre a primeira porta com belo vitral colorido e segue para abrir a imensa porta de madeira e ferro. Ao abrir o visitante se apresenta:


  • Boas tardes. Sou o filho de Dona Mariquinhas e do Coronel Feliciano. Vim fazer uma visita.

  • Boas tardes moço, a patroa está lhe esperando, pode entrar e sinta-se à gosto. Encaminhou o moço até a sala de estar onde na mesa de centro havia um bule de porcelana inglesa, que fazia parte de um jogo de chá finamente decorado em ouro vindo de Oxford.


A madrinha chegou, cumprimentou o rapaz e chamou Maria, sua afilhada, para dar início a conversa. Deixou-a na sala, cada qual em sua poltrona, separados apenas pela mesa de centro e o bule, xícaras e biscoitos finos amanteigados. A madrinha ficou por perto, em outro cômodo com orelha em pé para tentar ouvir algum pedaço da conversa. como falavam baixo, e ela com certa idade não conseguiu ouvir nada. Só ouviu a porta da frente se fechar poucos minutos após ter deixado os dois na sala.


Surpresa, a madrinha voltou para a sala, o rapaz nem havia mexido nos amanteigados, cuja lata novinha em folha havia sido aberta para a especial ocasião. E a coberta de mesa de porcelana também estava intacta e nem um gole de chá ele tomou.


  • Maria, o que aconteceu? onde foi o filho de Mariquinhas e do Coronel?

  • Não sei madrinha, disse que se sentiu mal e pediu desculpas mas tinha de ir rápido porque acha que está com “nó nas tripas”.

  • Huumm, esta história está mal contada. Desconfiou a madrinha


Vocês devem estar pensando o que houve. Mas revelo a verdade. É que Maria não queria um casamento arranjado com alguém de posses. Já havia conhecido um outro rapaz, pobre, mas de quem se afeiçoou. E aos domingos de tarde quando ia passear na Praça hoje denominada Dr. Fernando Abbott, perto do quartel do Exército, bem no centro de São Gabriel, flertavam à distância. Até começaram a trocar algumas palavras e aos domingos de tarde se encontravam, quando a madrinha estava sesteando.


No dia da visita do pretendente rico, na tarde de domingo de Páscoa, Maria teria de dar um fim nas investidas da madrinha. Antes do moço rico chegar ela pegou uma fotografia do amado, fez dois furos e passou um colar pelos buracos. Pendurou no pescoço com a foto escondida dentro da blusa. De um lado a foto de quem ela gostava,  escrito  AMO-TE e no verso da fotografia um recado claro ao pretendente: NÃO AMO-TE.


Ao estarem sozinhos para o chá, biscoitos amanteigados e uma conversa de compromissos, Maria discretamente puxou a fotografia e deixou a mostra, primeiro o verso, dispensando o pretendente e depois virou com a foto do amado, deixando claro de quem era seu coração.


A madrinha nunca soube a verdade e o filho do coronel Feliciano pegou o “Minuano” e deu com os costados na capital dois dias depois para seguir carreira na política já que não gostava da lida campeira.


O pretendente não ganhou nem um chocolatinho e muito menos experimentou os finos amanteigados que voltaram para a lata estampada.


Naquela tarde Maria foi para a praça encontrar o amado, contou o acontecido e marcaram data para o casório, que ocorreu meses depois, sem a presença da madrinha, que ainda guarda a coberta de mesa de porcelanas e os finos biscoitos.



sábado, 9 de abril de 2022

Cancelado



Cancelado





Esta foi meu sobrinho Fábio que me relatou. O ocorrido foi em uma madrugada fria de Erechim, no inverno, durante uma das operações da Balada Segura, quando os agentes de trânsito param veículos e orientam preventivamente para que não bebam antes de dirigir ou não dirijam após encher os cornos.




No final da avenida Sete de Setembro, está o Colosso da Lagoa, o Estádio do Monumental Ypiranga, que este ano quase foi campeão gaúcho. Faltou um tiquinho para correr com o Grêmio.




Lá pelas 2 horas de uma madrugada fria, gelada e quase chegando a geada que cai no alvorecer, ele viu um auto estacionado próximo ao estádio e fez a abordagem segura. Bate no vidro do veículo com película escura, que nada dava para ver de fora para dentro.




Toc toc toc! bateu no vidro do motorista para que ele abrisse. E nada. O motorista se fez de surdo, mas dava para ver uma movimentação dentro do carro.


Toc toc toc” insistiu. Senhor, favor baixar o vidro. Solicitou ao condutor, imaginando que poderia estar meio alcoolizado e parou para descansar, disfarçar ou esperar que os agentes terminem a operação ele possa passar pela blitz.


Toc toc toc! Senhor, baixe o vidro. é importante, o que está ocorrendo? Questionou o agente.




Um pouco depois o vivente baixou 5 centímetros e perguntou:




Qual é a questão, moço? Indagou o motorista todo descabelado, com alguns fios que lhe restavam, suado naquele frio de renguear cusco.


CNH, documentos do carro e abra o vidro e mantenha as mãos no volante, ordenou


Tá frio, não vou abrir. Respondeu e entregou os documentos pela fresta da janela.


O agente olhou os documentos, consultou on-line a situação do veículo e no Detran tem o registro de licenciamento atrasado e multas por ziguezaguear na pista e farol queimado..


O senhor faça o favor de sair do carro e se mantenha em pé ao lado. Deu o comando e chamou o colega de patrulha.


Tu tá louco não saio daqui nem f…….Se alterou o motorista.

Não sobrou alternativa em chamar a guarnição da Brigada Militar, parceira na fiscalização.




Com os brigadianos o papo é mais firme. Abriram a porta e surgiu a verdade. O condutor só de camisa e sem nada da cintura para baixo. E do lado do carona, que num primeiro momento não dava para ver, um rapaz daqueles que se fantasiam de mulher e trabalham na madrugada fazendo ponto perto do Ypiranga. Nu em pêlo, pois estava prestando serviços naquela madrugada gelada. No chão do veículo latinhas de cerveja e meia garrafa de Drurys, dois maços de Marlboro.




Tiraram todos do carro e o “rapaz” começou a congelar, pelado no meio da rua já virou atentado violento ao pudor. Deram um cobertor pega pulga para se aquecer.




Lá se foram para a Delegacia da Civil de plantão. Quase chegando o fim do turno chegaram na delegacia. Escrivão manda todos sentarem na recepção, verifica documentos e o delegado foi chamado para tomar os depoimentos.




O delegado arbitrou uma fiança e iria liberar o condutor para ir curar porre em casa. Faria um termo circunstanciado e depois correria o processo. Mandou que ligassem para um familiar e que pagassem a fiança e seria liberado




Umas três horas depois, com o sol raiando e derretendo a geada que deixou tudo branco de gelo, chega a esposa do condutor na delegacia.




Para na recepção, olha o vivente, nem dá bola e segue para o balcão da delegacia Questiona o que houve e o escrivão relata o fato que ele foi preso com documentos atrasados e numa situação deveras constrangedora.




A senhora trouxe o dinheiro da fiança que o delegado arbitrou para liberar seu marido?

Sim, está aqui, Mas me responda uma coisa. Quem é aquela coisa do lado dele? enrolado no cobertor?


Pois é senhora. Estavam namorando dentro do carro lá perto do Ypiranga.




Ela recolheu o dinheiro que pagaria para a fiança e liberaria o marido. Jogou dentro da bolsa e resmungou ao escrivão:




Você não conseguiu me encontrar! E ao sair da delegacia teria de passar na frente dos dois que esperavam num banco, com a devida escolta. Ela só deu uma paradinha e sentenciou:


Você está cancelado! E foi embora, deixando o vivente ali a curar o porre. Só seria liberado na segunda-feira, após 24 horas na mesma sala que a sua companhia da madrugada.

Não esqueçam, tem coisas que sempre podem piorar.




sexta-feira, 1 de abril de 2022

Quase foi para a Seleção



Quase foi para a Seleção





Nesta sexta-feira (1/4/22) eu estava acompanhando pela televisão os sorteios dos jogos da Copa do Mundo deste ano, que será no Catar e me lembrei de uma conversa de boteco ocorrida há mais ou menos dois meses.




Em boteco as conversas dos habituais clientes são sempre as mesmas e geralmente ocupam as mesmas mesas e mesmos lugares, como se estivessem na firma. Isto estranhei quando cheguei em Joinville há 30 anos, passava em frente ao Barbante, na esquina das ruas Campos Salles e 15 de Novembro, onde numa noite fui apresentado a um alienígena horroroso, o tal de caranguejo. Coisa do compadre Ronaldo Corrêa. Mas eu morava na Campos Salles e diariamente ia na Blupão e numa mesa de canto diariamente cinco clientes, cada um no seu lugar e cada um com sua cerveja. Nenhum bebia nem um copo servido da garrafa do outro. Estranhos não eram bem vindos.




Mas voltando ao assunto, as conversas de frequentadores de bar são as mesas e muitas vezes repetidas. Depois do segundo copo, começam a contar vantagens.




Tem um que jura de pé junto que namorou uma ex-miss Brasil e depois atriz de renomado sucesso em televisão e cinema. Conheceu a moça quando era novinha em Blumenau. Outros enumeram suas conquistas amorosas, outros mentem sobre pescarias no Mato Grosso e rios do Paraguai, sobre como são exímios e espertos no doominó. Tem aqueles que viram valentes e que em certa feita enfrentou até uma patrulha de brigadianos e “cagou os policia de pau”. Será? Vamos acreditar. Pior que todos acenam positivamente com a cabeça, concordando, aprovando os comentários e alguns até aumentam o conto com um ponto.




Tem um colega jornalista, já veterano, decano e quase no bico do corvo que lascou uma de doer. Garante que foi um grande atleta de futebol, que era um prodígio, corria os 90 minutos, fazia gols que eram uma obra de arte, de dar inveja. Não sobrava nada para Hoppe, muito menos para Garrincha, Pelé, Maradona e muito menos para Cristiano Ronaldo e nem os ronaldos o Fenômeno e o Gaúcho.




Cada vez que tocam no assunto ele estufa o peito e começa:




No meu tempo, quando vim para Joinville para jogar…e segue a cantilena. Sempre tem um colega, como se diz no Rio Grande do Sul “queimador de campo”, se mete na conversa e dá seu testemunho de que o fulano era um jogador excepcional.




Nem precisava de aquecimento, alongamento e concentração. Chegada 15 minutos antes do jogo vestia o “fardamento”, calçava uma chuteira com número menor para ficar com raiva e depois, em campo, sentar a botina na bola contra os adversários.




Conversa vai, conversa vem, cerveja que abre, cachacinha para regular a lenta, bitter Mayerle Boonekamp para limpar o estômago da graça acumulada com o torresmo, salsichão e joelho de porco que estavam beliscando. E assim segue a conversaiada por longas horas.




Mas como toda mentira tem perna curta, numa quinta-feira de noite, nos encontramos no Bloco C, em frente a Anhanguera, no bairro Glória. O veterano depois de meia garrafa de vinho que trouxe lá de Pinheiro Preto, já havia analisado o futuro da reportagem, fim dos jornais, surgimento de portais de releases, morte das grandes e profundas matérias. Lembrou se suas conquistas amorosas, o que a maioria duvida da formosura das damas que ele enaltece em seus sonhos. E insistiu que foi um grande jogador de futebol. Porém não há fotos e nem testemunhos reais.




Vim para Joinville a peso de ouro. Era um jogador que estava predestinado a seleção brasileira. Bradou em alto e bom som com um copo de vinho na mão. Aqueles de garrafão vindo de Pinheiro Preto ficava aberto preso aos seus pés.




Lá dos fundos do boteco um senhor aparentemente da mesma idade do nosso amigo, já meio tontinho de umas quatro “marvada” levantou ofereceu um brinde e lascou:




Um brinde para ti meu ídolo. Lembro dos tempos de jogador! Ofereceu erguendo o copinho. A esta altura de peito estufado nosso amigo levantou, encheu mais uma “taça” com vinho. Era peculiar pois usava um vidro que vinha com conservas da Stein, que ele guardava até com o rótulo desgastado com o tempo.


Viu pessoal. Aqui há uma testemunha presente dos meus tempos de glória nos gramados. Conta aí para o pessoal se eu não era bom de bola mesmo. Desafiou.


Lembro sim, daquele jogo memorável, inesquecível e do seu gol.Relatou o ex-fã.


Você está falando do pênalti, drible ou cruzamento com gol de bicicleta? Se exibiu o papudo.


Estou falando do gol contra que você fez no Torneio do Porco, lá perto do Salão Jacob, no Piraí em 1968. Graças àquele pataço contra o seu goleiro, meu time venceu a segundona e levamos um porco de 100 kg para casa. Deu duas latas de banha.




Só restou ao meu amigo papudo encher o vidro da Stein de vinho tinto seco, tomar num gole só e sair porta afora. Até deixou o garrafão aberto e o chapéu sobre a mesa. Semana que vem ele se recupera. Acho que não vai mais comentar como era bom de futebol. Quanto a missa? Vamos acreditar mais algum tempo.

sábado, 26 de março de 2022

A Fogueira Santa e a cobra dedo-duro

 A Fogueira Santa e a cobra dedo-duro




Nos anos 60 e 70 era comum grupos missionários, geralmente charlatões, fazerem pregações nas praças públicas, inevitavelmente no centro das cidades, reunindo um bom público, pois na época pouco se tinha para fazer. Não era comum ter televisão, que estava engatinhando na casa dos brasileiros e nas cidades menores do  interior chegou mais tarde.


A diversão era dar um passeio pelo centro da cidade nas noites quentes, olhar as vitrines. Eu corria para a Plasticolândia, pois na vitrine haviam os melhores e mais lindos brinquedos da Estrela e sempre montavam um trem elétrico, denominado Ferrorama ou um autorama que ficava ligado, para encher os olhos da criançada. Era coisa de rico. Não podia comprar, mas olhar era de graça. Vitrine de encher os olhos, grande, loja bem iluminada e cheia de brinquedos.


No final dos anos 60 teve uma semana de pregação na Praça da Bandeira, em Erechim, ao lado do chafariz, para o lado do “Castelinho” (antiga Comissão de Terras e Colonização). Lá pelas sete horas de uma  noite quente passamos pela praça e percebemos a movimentação. Já havia um círculo grande de pessoas em volta de um grupo de pregadores com vestimentas espalhafatosas e que “oravam” com fervor. E ia juntando gente. Eu estava interessado na melancia que geralmente a gente comprava para refrescar o calor noturno. Após a melancia uma pitada de sal para não fazer mal. Na volta para casa havia caminhões com barracas e cargas de melancia na praça Daltro Filho.


No meio da multidão um pregador gritava com toda força que podia. Entoava hinos, balançavam bandeiras e levantava as mãos para o céu e o povaréu, ali. Alguns incrédulos, outros já de joelhos, outros acompanhavam a reza de olhos fechados, mãos espalmadas ao alto. E também tinha um piazote metido, que só estava observando e de olho em tudo à sua volta.


  • Aqui tem um homem que bebe todo dia e não dá nada para a família! Bradou o pregador. Neste momento começou a movimentação, uns olhando para os outros, mulheres cutucando o marido com o cotovelo nas costelas, filhos querendo falar alguma coisa e os pais mandando calar a boca e prestar atenção.


  • Em vez de beber cachaça, jogo do bicho ou gastar com aquelas moças ali atrás da Prefeitura, deveriam ajudar nossa pregação. É hora do ofertório. E as obreiras passavam um saquinho de pano branco com uma cruz finamente bordada. 


E o piazito metido não parava quieto. - Pai, pai, tem dinheiro aí? Questionava o patriarca, com cara de poucos amigos. Não tenho nada guri. O que tenho é para a melancia, respondeu. Mas o piá metido enfiou a mão no bolso do pai, pegou 10 cruzeiros e jogou dentro da sacolinha. Aquilo ferveu o sangue do pai que ficou com vontade de dar um aplauso na orelha do filho, mas se conteve em meio a multidão.


E segue a pregação. 


  • Irmãos, chegou a hora de queimar os pecados na Fogueira Santa.  Quem não atirar seus pecados aqui vai queimar com a bola de fogo que virá do céu. Bateu o pavor no pessoal. 

  • Joguem no centro deste círculo um papel com seus pecados, as revistas de mulher pelada, as fotonovelas que empobrecem e aprisionam a alma, os jornais que trazem notícias tristes. Vamos queimar todo o pecado para a vida seguir. Ordenou o pregador que fez sinal para uma assistente. Ela sim cometeu um crime. 


Entrou no meio do grupo com um turíbulo ardente. Lá dentro uma chama que ele jurava ser da fogueira ardente do Monte Sinai. Rasgou um pedaço da famosa Penthouse americana, uma revista sueca e o sacrilégio um quadrinho do Zéfiro. Principiaram o fogo. Alguém correu, trouxe uma Playboy e jogou na labareda, que se alastrava com jornais, revistas, panfletos e alguns livros que julgavam comunistas.


Logo em seguida foi a vez do cigarro. Os fumantes atiravam seus maços de cigarro no fogo e o piazote levou a mão no bolso da camisa de tergal do cunhado, arrancou o maço de cigarro Hudson com ponteira, de embalagem verde  e “pinchou no fogo”. Agora o cunhado estaria curado. 


Seguiu a pregação combatendo o vício da bebida. Todos deveriam esvaziar suas garrafas em casa e não frequentar os botecos, pois ali deixavam o moral, a saúde e o dinheiro que faltava em casa. Quando o piá ia falar algo, só disse - AAiiiiiiii. Era a mãe que lhe aplicou um beliscão com vontade.


E o piazote metido arrancou o Correio do Povo que o pai dele segurava entre o corpo e o braço. Correu e incendiou as notícias que o pai nem lera, pois só o faria quando chegasse em casa após exaustivo dia de trabalho. Aquele dia o pai nem pode ouvir o Correspondente Renner na Rádio Guaíba e queira se inteirar das novidades.


E segue a pregação e a queimação dos pecados na dita  Fogueira Santa. Papelório queimando. Surge uma senhora de idade avançada e joga os biquínis da neta, que julgava serem imorais e coisa do demônio. E o piá gritou - Isso mesmo vó. Eu sei que ela usa para pecar! Todos olharam e o metido que ficou com os olhos fixos na fogueira que ardia os pecados e transformava em fumaça. Através da fuligem que subia, simbolizando os pecados queimados, se via a antiga Catedral São José, que foi demolida para dar lugar a um prédio ridículo que mais parece um ginásio de esportes.


Quase no final da pregação, todo paramentado o dito pastor chama um assistente com uma caixa de madeira medindo 50 cm x 50 cm com furos em cima e aparentemente uma abertura na lateral.


  • Vocês já ouviram falar dos 7 pecados capitais e hoje queimamos estes pecados na Fogueira Santa. Mas tem mais um pecado: o da Luxúria. O Irmão Aderbal vai revelar as mulheres e homens que namoram mais de uma pessoa ao mesmo tempo. 


Aí a platéia começou a murmurar, ver para os lados, alguns fuzilavam vizinhas com olhares de atirador de elite, outras comentavam à boca pequena, se cutucavam, apontavam. 


  • Agora o Irmão Aderbal vai soltar uma poderosa e venenosa cobra sábia que trouxe da escuridão da floresta africana e com conhecimentos dos faraós do Egito. Ela vai percorrer o círculo de fogo, dará três voltas e vai parar em frente a maior pecadora. Depois seguirá para os pecadores que são muito namoradeiros também.


Aí o piá deu um pulo, correu em direção a uma vizinha, que morava próximo a casa deles, mas que namorava um padre famoso de uma cidade próxima,  tocador de gaita, cantor e que todos gostavam, Mas Toda semana vinha tomar um café  e às vezes ficava até o outro dia. A vizinhança fofoqueira sabia de tudo.


Naquela altura todos se viraram para o guri.


  • Tia, tia, vamos embora a cobra vai te pegar! Gritou a plenos pulmões pegando pela mão da “Tia” para lhe salvar da cobra inquisidora. Ali acabou a pregação da fogueira que queimava os pecados. Todos caíram na gargalhada e para alívio de centenas só uma foi crucificada. A tia disfarçava. - Para com isso guri, o que vão pensar de mim?


Com isso houve dispersão geral e rápida, vai que mais alguém aponte o dedo-duro de cobra africana egípcia.Os  pregadores trataram de recolher as cinzas pecaminosas.


Naquela noite foram embora sem a melancia, pois o metido havia dado o dinheiro para os charlatões. 


Aconselho que se avistarem um círculo de gente numa praça pública e alguém vociferando alguma pregação, faz de conta que não viu, passa para o outro lado da calçada e segue teu rumo. Vai que a cobra fofoqueira africana ainda esteja por aí apontando em sua direção.



quarta-feira, 23 de março de 2022

A mula sem cabeça veio me buscar

 A mula sem cabeça veio me buscar



Era noite de inverno, vento assobiando, chuva fina e o breu da noite era assustador. Cheguei em casa por volta das nove horas da noite. Na época com 24 anos eu nada temia, Nem assombração, nem tempestade e muito menos  Saci Pererê e Mula Sem Cabeça.


Logo que me formei na Universidade Católica de Pelotas, já estava empregado e com dois bons empregos. Era redator e  locutor da Rádio Atlântida FM e chefe de jornalismo da RBS TV de Pelotas, o que me garantia uma boa renda para um rapaz solteiro.


Tratei de comprar um terreno na praia do Laranjal, e comecei a construir uma casa, sem financiamento e sem dívidas. Combinei com o pedreiro que iria construir aos poucos. Projeto de casa simples com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Concluído o fundamento da casa, ele ergueu uma parte que incluía o banheiro e uma peça. Alí fui morar e aos poucos fui construindo o resto da casa.


Mas o inusitado ocorreu em uma noite chuvosa e gelada de uma quinta-feira. Desci do ônibus da Transportes Santa Maria, no ponto perto da Mercearia Hilda,  levantei a gola do sobretudo de lã da marca Alfred, que havia sido de meu pai. Era quentinho e com mais de 30 anos de uso continuava inteiro e aquecendo. Atravessei a avenida e caminhei na pequena rua, encharcada, cheia de buracos, poças enormes que tinha de ir desviando e com fraca iluminação que dava acesso a via onde eu morava. O vento que assobiava entrava pelas frestas dos botões do sobretudo e gelavam o peito, as costas e deixavam as mãos encarangadas. Como se diz no Rio Grande do Sul, era um frio de renguear cusco.


Entrei em casa, cansado, pois trabalhava das 6h até 20 horas todos os dias. Estava morto. Larguei a indumentária no sofá que servia de cama também, comi um sanduíche e adormeci, ouvindo os uivos do frio cortante.



Na madrugada gelada acordei com um barulho estranho perto da minha janela. Meio sonolento levantei e fui espiar pelas frestas da veneziana para me certificar que resmungos eram aqueles. Mistura de gemido, crepitar de fogo e relinchos.


Ao olhar, tive um sobressalto. Me veio a consciência que espantou a sonolência. O coração disparou e fiquei bem quieto. Era assustador. Estendi a mão e peguei o rosário, que ficava pendurado junto a um  crucifixo sobre estante de tijolos e tábuas onde eu deixava  uma estátua pequena da Santo Antônio, feita em prata, que perdi nas minhas várias mudanças. De joelhos no piso duro, puxei a rezaria. Em certa altura já estava orando em castelhano. 


  • Padre nuestro, que estás en el cielo, Santificado sea Tu nombre; Venga a nosotros Tu reino; Hágase Tu voluntad en la tierra como en el cielo. Alternava para o português e suava frio. Me salve dessa! Implorava!


Isto é coisa mandada, ou chegou minha de hora de prestar contas com o coisa ruim ou com São Pedro. 


Alí na frente de casa  estava me esperando nada menos que a

Mula Sem cabeça. Uma bola de fogo, queimando, labareda alta na noite escura, que nem mesmo a chuva era capaz de apagar.


Pensei em sair pela porta dos fundos e correr para a cara do seu João, um bom vizinho que sempre cuidava da casa dos outros nas ausências, mas era distante  uns 50 metros. Era a moradia mais próxima. Mas se o trote da bicha for firme eu não conseguiria. Me pegaria no galope. Melhor ficar dentro de casa, rezar e esperar que amanheça.


Aquela agonia durou algum tempo e a chuva não parava, o vento cortava o silêncio da noite.

 

Mas logo se desfez o mistério do além. Quando ouvi sirenes, me animei e abri um pouco a janela, meio desconfiado. Vai que a Mula sem Cabeça me puxa e me leva. Só tinha 24 anos, jovem demais para descer aos calabouços onde governa o Capa Preta.


Vi uma nova perspectiva. Ai fiquei valente, abri a porta, sai e respirei fundo


  • Xô vai te embora daqui! Ordenei dando um tapa na anca do animal. Assustada saiu trotando rumo à escuridão.


Enquanto isso, do outro lado da rua os bombeiros apagavam um incêndio num casebre abandonado.


O que era a Mula sem Cabeça


Quando olhei pela fresta vi um animal com cabeça de fogo, mas era um cavalo pastando, de cabeça abaixada e pelo ângulo da fresta da veneziana na minha janela, no lugar da cabeça onde eu via uma bola de fogo,  era o incêndio logo adiante.


Pelo menos a noite serviu para rezar o terço e me precaver. Tratei de colocar uma cerca e uma lâmpada de 100 velas para o lado de fora. Plantei também arruda, espada de São Jorge e joguei no portal da casa um litro de água benta misturada com cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Não poupei gastos. Vai que ….Bem.. mas hoje é quinta-feira. Estou ouvindo relinchos vou lá espiar pela janela.





domingo, 20 de março de 2022

Poliglota

 Poliglota



Há muitos anos passei em frente ao Bar Glória do Rudi, num final de  tarde quente. Pedi uma cerveja gelada para refrescar, espantar a poeira e limpar a garganta. Como sempre meia dúzia de gambás que batiam o ponto debruçados no balcão e numa mesa de canto um homem falando sozinho. Imaginei, deve ser mais um doidinho desses que andam por aí, ou já encheu os cornos de schnaps.


Servi  o primeiro corpo e bebi com gosto num gole só. Enchi o segundo copo Catarina, um luxo para o bar, mas tinha alguns exemplares. Enquanto bebericava, ouvia o sujeito falar sozinho em quatro idiomas.


  • Come set here. Entendi perfeitamente e até pensei que fosse um convite para fazer companhia ao falante solitário.


  • s'il vous plait, approchez-vous. Também entendi. Nessa altura eu já havia bebido três copos de cerveja e com certo nível de bebidas a gente fala até russo e javanês.  Pensei, o que este cara tá querendo. Convidando quem chegar mais perto?


Continuei na observação e pedi um Boonekamp que é bom para digestão, uma bebida joinvilense feita de ervas. Mais amarga que a saudade de um amor desfeito. Um pouco de silêncio e o cliente pediu uma branquinha. O bolicheiro levou. Ele bebeu num gole só aquele copinho feito para uma dose da “marvada”.


  • Kommen Sie näher, um Wurst zu gewinnen! Falou o homem com tom mais enérgico. Como não entendo nada de alemão. Perguntei a outro cliente o que ele havia falado. Aquela língua é bem difícil. Um senhor de uns 70 anos, roliço feito barril de chope, rosto vermelho e com estrias marcantes no rosto. Tirou o boné e me olhou e traduziu: - Vem mais perto para ganhar linguiça.




Imaginei com meus botões. Este cara está de palhaçada.


Servi o quarto e último copo de cerveja, terminei o Boonekamp em um gole só e me levantei bruscamente para ir em direção ao banheiro antes de ir para casa. Fui em direção a mesa do falante solitário, que ficava perto da porta do banheiro, só masculino porque dificilmente alguma dama entraria ali.


Alí se desfez o mistério e meu pavor ficou estampado no rosto. Tremia, sem condições de correr porta afora. Congelado e imobilizado, assim fiquei.


Saiu de trás de um monte de engradados de garrafas vazias um enorme rottweiler, com cara de poucos amigos, dentes afiados e sentido matador aguçado


O gigante me olhou, olhei para ele e o latido foi ouvido a quilômetros na velocidade da luz. Paralisei. Vi minha alma saindo do meu corpo e lá de cima me vi com a jugular sangrando e o rottweiler se deliciando num pescoço gordinho.


Sorte que foi momentos de pavor. Em seguida o solitário falante ordenou:


  • Margarida, deixa o moço passar, senta aqui e come a linguiça com mostarda. Prontamente a Margarida me deixou passar e delicadamente começou a engolir os pequenos pedaços da Schweinswurst.


Passado o susto, me aproximei, perguntei ao acompanhante da Margarida como ela era poliglota. E ele esclareceu. Haviam morado no Canadá onde se fala inglês e francês. Até aí entendi, a Margarida foi alfabetizada bilíngue. E o alemão?  A avó do dono da cachorra era moradora do Glória, falavam alemão em casa e Margarida ouviu e aprendeu e quanto ao português ela aprendeu nos botecos mesmo.



Guten Sonntag

Bon dimanche

Good Sunday

Bom domingo, Margarida.


E como hoje é domingo dia 20 de março, aproveitem para conhecer o Arquivo Histórico de Joinville que completa 50 anos. Durante todo o dia haverá visitação guiada e programação cultural. O Arquivos Histórico fica na beira rio. 


O AUTO DA APARECIDA