quinta-feira, 17 de abril de 2025

CONVERSAS ÍNTIMAS DENTRO DO ÔNIBUS

Viajar de ônibus pode ser divertido e ouvir as conversas nos revela as intimidades e segredos que as pessoas falam, confessam, sem se preocupar com os passageiros ao lado, já que são estranhos e certamente nunca mais vão se ver. Sentei na minha poltrona, fechei a cara de bull-dog para que ninguém me cumprimentasse e nem puxasse conversa, mas os sem noção usam seus aparelhinhos no viva-voz. Não sei qual o prazer sentem em obrigar todos a ouvir o que estão falando com as outras pessoas do outro lado da linha.


  • Você é um jaguara, nunca pensei que você pensasse isto de mim, que fosse agir deste modo. O que você pensa que eu sou? Acha que vai ficar assim, que me usa e joga fora? Vou me cobrar seu cachorro. A baixinha estava furiosa e sussurrava com ódio ao homem do outro lado da linha que só disse - Vai te enxergar encardida.


No banco de trás um gorducho avantajado, parecia estar com voz embargada e lamentava a separação. 


  • Ainda gosto de ti. Não paro de pensar. Pensa melhor, e meu peito doi de ficar longe das crianças. Volto em alguns dias e vamos conversar de novo. Do outro lado, ela fala e ele com o viva-voz ligado permitindo que outros passageiros ouçam a prosa, mesmo sussurrando. Ela estava  escutando um desses insuportáveis sucessos sertanejos e mandou uma direta pra ele:  - Me esquece e não liga mais e se não mandar o PIX da pensão te boto na cadeia. Ao fundo ele ouviu uma voz de homem que gritou: - Larga essa merda de celular e volta aqui para a brincadeira! Só ouvi soluços de um choro preso no peito.

Uma senhora com certa idade avançada. Grita a pleno pulmões:


  • Fia, a mãe tá saindo, me espere na “radiovial” (certamente queria dizer rodoviária). A filha responde que está tudo bem e que a leitoa deu cria e que quando ela chegar vai conhecer os “netinhos”. A senhora feliz encerrou a chamada de vídeo com um “Que Deus abençõe os bichinhos”.


Na primeira fila do double deck no andar de cima, que é uma vitrine, um homem de meia idade, gordão, estava bem instalado, quando chega um outro com três filhos, sacolas, pacotes de biscoitos e o salgadinho fedorento de queijo que quando abre não se sabe se é mau cheiro de desodorante vencido, chulé ou falta de banho nas partes baixas. Educadamente, ele disse ao pai das crianças que cederia o lugar para que pudessem ver a paisagem durante a viagem e fugiu dali, chegaria ao final da viagem com um cheiro nada agradável e tapado e migalhas de salgadinhos.


Bom mesmo é quando o motorista sobe as escadas, acorda todos com a tradicional chamada: Meia hora de parada para o café.


sábado, 29 de março de 2025

LIVROS E MEIAS

  Organizando meus livros encontro preciosidades. Uma Bíblia presenteada para minha mãe em 1969, portanto há 56 anos e que está comigo como herança e um dicionário que foi presenteado há 42 anos em 1983 pela nossa vizinha Setembrina Telles. Era mais que vizinha, era uma pessoa da grande família do bairro, tempos que a gente ia na casa dos outros, entrava porta adentro pois nunca as portas estavam trancadas.


Dona Setembrina, era  onde eu ia ler gibis. Quando o neto dela, o Inho (Waldemar, que virou Waldemarzinho e Inho), foi servir na Aeronáutica deixou malas de gibis embaixo da cama. Tinha Recruta Zero, Bolota, Bolinha, Brasinha, Pato Donald, Fantasma, Pimentinha, Cavaleiro Negro, Jerônimo, Flintstones, Tarzan e tantos outros. Era comum às tardes eu ir na casa dela, próximo da nossa, entrar sem cerimônia, ir direto no quarto puxar a mala abrir e ler os gibis. Uma tarde, a dona Setembrina saiu para ir ao centro pagar contas e comprar o que precisava e na volta notou algo estranho. Pressentiu alguém dentro de casa. Era eu, sentadinho lendo gibis. Ali fiquei a tarde toda sem que ela tivesse percebido minha presença ao sair no início da tarde.


Em todas as datas como Natal, Páscoa, aniversário ela sempre me presenteava com meias ou cuecas. E eu sempre agradecia e respondia: - Eu estava precisando! E ela sempre ria  de meu agradecimento. E era um presente útil. Mas instigava o estudo e a leitura. Dava livros e às vezes levava a piazada da rua para um culto na Igreja Adventista do Sétimo Dia, que ficava no centro de Erechim, independente de qual religião cada um seguia. Naquela rua não se criou nenhum malfeitor quando adultos. Tiveram bons exemplos. 


Livros, meias, orientações e carinho. Assim era a infância saudável. As dedicatórias demonstram a afeição de Setembrina pelas pessoas e pelo caminho correto, do estudo, da fé, da honestidade, do caráter e do respeito aos outros. 


Os livros ainda os tenho e guardo com carinho por todos estes anos. As meias? Usei até desmancharem. E o final de semana é indicado para ficar sem meias e ler um pouco da Bíblia que é o livro dos livros pelos séculos. Sempre se aprende algo a cada folhear de páginas.


sábado, 15 de março de 2025

A CARTA

Mais uma grata surpresa se revela saindo de trás das cortinas de um livro antigo. Uma carta escrita há 36 anos, do tempo em que se escrevia a mão, se colocava em um envelope e íamos nas agências dos Correios para selar e enviar. E se esperava uma resposta.


Esta carta recebi de minha mãe, onde ela conta a rotina diária, o que fazia e o aperto no coração de não ter minha convivência. Mesmo crescendo não deixamos de ser crianças. Mesmo eu já estar encaminhado na vida, formado e com três bons empregos e portanto renda para me manter, ela avisa que vai me mandar “uns pilas para eu comprar uma paleta de ovelha”, sabedora que era de meus gostos culinários.


Conta como estão os amigos próximos e os irmãos. E esta era uma rotina semanal que tínhamos. Todas as manhãs ela preparava um mate e sentava na área em frente da casa esperando o carteiro, que era nosso vizinho e corredor. De vez em quando ele parava, tomava uma cuia e seguia. Na semana em que eu não enviava uma carta certamente seus dias não eram felizes. Mas às vezes eu telefonava para a casa da vizinha e iam chamá-la, mas nada substitui uma carta, que podemos guardar, recordar, reler e revivermos tempos quando éramos felizes com muito menos.


Esta sobreviveu ao tempo, às mudanças graças a um livro. Guardarei, como sempre, com muito carinho.


Quanto a ovelha, é bom demais e neste final de semana está acontecendo a Festa da Ovelha em Campo Alegre. Dá vontade de subir a serra e me deliciar com uma paleta. Claro que é uma inteira só para eu degustar.



domingo, 2 de março de 2025

O CARNAVAL SEM MÚSICA DE CARNAVAL

Um músico conhecido meu de muitos anos, dos tempos em que eu tocava trompete em conjuntos musicais só em carnavais, para ganhar um dinheiro extra, estava desabafando que infelizmente não se fazem mais carnavais como conhecíamos . Eram pelo menos quatro bailes no contrato nas noites de quinta a sábado e o matinezão para a criançada nos domingos de tarde.


Me relatou que um presidente de um clube chic contratou a banda para um grande baile do clube mais  tradicional da  cidade. Lá por novembro ele acertou com  os músicos que faltavam, ensaiaram todas as marchinhas, sambas e algumas novidades. Mandou fazer uniforme para todos e tinha até um grupo de dançarinas e dançarinos.


Na tarde que a banda estava instalando os equipamentos de som e instrumentos e iam “passar o som” o presidente do clube chegou com cara de poucos amigos.


  • Quero deixar claro que no meu clube só aceito música decente. Que respeite os nossos valores. Sentenciou o presidente um baixinho gordo, que parecia um liquinho ambulante. Nossa casa é de respeito.

  • Concordo, seu presidente, disse meu amigo, acenando com a cabeça.

  • Quero ver a lista de músicas antes de vocês tocarem, intimou o gorducho mais metido que toucinho em feijoada.

  • Mas meu senhor, são as tradicionais músicas de carnaval tocadas há quase 100 anos, argumentou o músico.

  • Não me interessa. Aqui não vão tocar porcaria para estragar os jovens e deixar as senhoras sem graça, vociferou o contratante e cada vez que se alterava puxava o suspensório já que a calça caia e a pança vinha à mostra.


Meu amigo puxou a pastinha e mostrou a lista.


     - O que? O senhor acha que isto aqui é casa de raparigas? Gritou o presidente e continuou.

  • A Cabeleira do Zezé? quer me arrumar processo? É dos carecas que elas gostam mais? O que está pensando com esta nojeira de duplo sentido? A Pipa do Vovô? Mas que degradação é essa? Maria Sapatão? Quer que o clube feche seu irresponsável? Andorinha? Acha que nossas mulheres precisam se soltar com outros para serem felizes?, safado. Também gente de noite, músicos tudo igual…Nega Maluca? Mais um processo? Maria Escandalosa? Só se for da sua família. Cachaça não é água? Claro que não seu beberrão, gambá; O Teu Cabelo Não Nega? Credo, o senhor deveria estar preso por tocar esses lixos. E assim seguiu o presidente do clube analisando, comentando e cortando músicas.


Incomodado com tal situação, meu amigo o músico jogou forte e tentou ganhar no pano verde, achando que tinha cartas:


  • Pois então, senhor arrume outro conjunto que não vamos aceitar esta interferência e o clube vai honrar o contrato. Estamos aqui e o senhor é que nos impede. 


O baixinho, gordo, de suspensório nada falou, arrancou os fios das caixas de som e gritou


  • Te arranca daqui pervertido. Só falta querer tocar na Boquinha da Garrafa.

  • Claro que sim é na outra folha seu tatu do rabo mole, devolveu o músico.


Se o baile ocorreu? Sim, foi um desastre. O presidente arrumou um toca-discos com as seleções dele mesmo e um sobrinho ia colocando as páginas musicais. Ninguém ficou porque os músicos lá pelas 11 da noite se instalaram na rua e começaram a tocar de graça para o pessoal que abandonou o clube onde o gorducho era presidente. Ficou ele emburrado, bufando olhando os sócios se divertirem.


O ponto alto foi quando tocaram “Fuscão Preto” em ritmo de marchinha.


Vamos aproveitar o feriado e deixar os chatos bem longe.



domingo, 23 de fevereiro de 2025

MARISCADA AFRODISÍACA


Na lousa montada sobre o  cavalete na calçada do bar estava escrito: Hoje mariscada afrodisíaca. Apenas 10 pilas a bacia.  Como é de costume, um grupo de amigos que se reúne sempre no mesmo lugar, combinaram de ir comer o tal marisco e beber algumas cervejas na noite quente de quinta-feira.


Neste bar, o bolicheiro faz costelada, dobradinha, linguiçada e outras comidas de boteco. Higiene do banheiro nem é bom comentar, imagina onde a comida é feita. 


Quando o grupo chegou lá pelas seis horas da tarde, chamaram o dono do bar e pediram para início da reunião seis bacias de bom marisco com propriedades sobrenaturais de ressuscitação. Só que a decepção foi grande. Havia acabado e só tinham duas marmitas guardadas e já pagas antecipadamente.

    - Ué! O que aconteceu: Está ali o anúncio e viemos experimentar o milagroso marisco. Questionou um dos colegas.


    - O amigo de vocês veio mais cedo, devorou o estoque, comprou duas marmitas que estão guardadas para ele levar e atravessou a rua, explicou o dono do bar apontando para uma casa de tolerância ao lado do posto de gasolina e tradicional na cidade. Saiu daqui garganteando que hoje vai passar o rôdo.

    - Ficamos muito putos da cara com o sujeito, que se adiantou na poção e foi se divertir na casa que tem pelo menos de 40 a 50 recepcionistas belas, bem arrumadas, agradáveis e caras. Para frequentar tem que ter tufo na guaiaca, como diz um renomado arquiteto conhecido nosso.


O grupo ficou por ali, uns pediram amendoim, outros batatinhas fritas de pacote e cada um bebericou a bebida de sua preferência. Uns minutos mais tarde deu movimentação na casa. Uma ambulância entrou rapidamente e o sexto sentido do grupo deu o alerta.


    - Deu merda com o fulano, vamos lá.. Correram e lá chegando estava o vivente sendo atendido pelos socorristas. Estava com o soro e sendo levado ao Pronto Socorro. 


A dona casa falando grosso já intimou:


    - Vocês são amigos do fulano? Tratem de pagar o que ele ficou devendo e limpar esta vomitança toda de marisco que ele fez. Uma das hostess estava fantasiada de marisco, salsinha, cebola, cheiro de molho com ácido de vômito. E esbravejando sem parar.


    - Madame. Não conhecemos este senhor. corremos aqui porque vimos a ambulância chegando e poderia ser algo grave, respondeu o mais velho e ladino do grupo e já foi retirando o grupo da casa, antes que dona, muito esperta atravesse a rua e pergunte ao bodegueiro.


Deve ser lenda urbana ou litorânea esta de que o marisco faz milagres…Deu congestã..




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A PRISÃO DO NÔNO NA DELEGACIA DE CAXIAS DO SUL

Desde a madrugada pai e filho estavam sentados na calçada em frente a delegacia de polícia de Caxias do Sul, enfrentando o ar gelado e o vento. Esperavam a repartição abrir para falar com o delegado a respeito de uma injustiça e também visitar o detento, pois estavam com saudades. Desde a prisão do “nôno” suas vidas ficaram vazias. Não tinha mais graça colher a uva e pisar a fruta nas imensas gamelas para fazer o vinho.


Porco cane! Mas este tal de delegado “non vem trabaiá”. - Figlio di un rospo! Esbravejava o italiano agasalhado com um desgastado sobretudo de lã, fabricado  pela confecção Alfred, marca famosa na cidade. Lá pelas nove horas da manhã apareceu o delegado, um sujeito de fora, magrinho, de terno, gravata, bigodinho e chapéu de lado.


Um policial convidou pai e filho para entrarem, pois ali estava frio e em seguida o doutor delegado os atenderia. O policial conhecido ofereceu umas cuias de mate e umas cuecas viradas ou grostoli, como queriam, fritadas  na tarde anterior, que sobrou em sua casa e ele trouxe para a delegacia. Pouco tempo depois o doutor delegado pede que o cidadão entre para ouvir a reclamação,


  • Dotore, viemo ver o Nôno, uma visita e queremo que o senhor solte ele. Não fez nada. Non é criminoso, mas fica falando o tempo todo e nos diverte.


O delegado olhou, solicitou as fichas dos presos ao escrivão e não encontrou nenhum nôno, nenhum  idoso e ninguém estava preso na delegacia.


  • Meu senhor, deve haver algum engano. Não temos prisioneiros.

  • Tem sim! Prenderam lá fora na “colonha” e trouxeram para cá. Queremos uma explicasson, agora. É tudo culpa daquele Getúlio aquele disgraziato. Eu tô vendo o “nôno” ali no armário.

Com o rumo da prosa o doutor delegado entendeu do que se tratava.


  • Ahhh! Entendo sua preocupação, mas é ordem federal, e não posso liberar o prisioneiro. Senão eu vou preso e as forças nacionais me levam daqui. É que o seu nôno é altamente perigoso de acordo com os governantes da Guanabara. O delegado encheu mais uma cuia, comeu mais uma cueca virada e questionou:


  • Mas porque nôno!

  • É igual meu pai, falava o dia todo, reclamava, cantava, nos divertia, ia junto para roça, para o parreiral e de vez enquanto cochichava e trocava palavras depois de uns bicchiere di tinto.

  • Vou fazer um acerto com o senhor. vou liberar o nôno para visitar vocês em casa, mas quando o sargento for lá buscá-lo, favor liberar o prisioneiro para voltar para delegacia. De acordo?

  • Giusto e grazie!


Esta história é quase ficcional. Ocorreu em Caxias do Sul                                                                                                                                     e li durante visita no Museu Municipal sobre o confisco de rádios em colônias de colonização italiana em maio de 1945. Resolvi contar de uma forma diferente, mas parecida de como aconteceu para lembrar deste meio de comunicação que no último dia 13 de fevereiro se comemorou o Dia Mundial do Rádio.


E fica o convite para que ouçam a Rádio Joinville Cultural na frequência 105,1. Também estamos em plataformas de áudio e no streaming. Rádio Joinville Cultural.



sábado, 8 de fevereiro de 2025

ELA É MINHA

Quando a professora Inês desceu as escadas da faculdade, fez com todo cuidado, pois dia de chuva e piso molhado sempre há riscos. No último degrau o calçado e o piso tramaram contra ela e lá se foi para o chão. Torceu o tornozelo e se espalhou. Foi um corre corre dos colegas para ajudá-la. 


Rapidamente chamaram um professor doutor em fisioterapia para uma avaliação e saber o que fazer.


  • Professora Inês, há quanto tempo não vejo a senhora. Me deu aulas na quarta série. Vamos ver o que houve. O diagnóstico foi que seria melhor levá-la ao hospital pois o entorse precisa de faixas e talas para evitar a piora.


Chamaram o serviço de emergência dos bombeiros, e nova surpresa. O socorrista ao vê-la questionou:


  • Oi diretora, o que houve. A senhora não se lembra de mim? Tenho boas lembranças até mesmo de seus conselhos na secretaria. Mas vamos levá-la e tratar do tornozelo. E lá se foi a professora na ambulância dos Bombeiros até o hospital da cidade. O motorista da ambulância a cumprimentou, sem muito entusiasmo porque estava com a missão de levar a professora para um salvamento importante. Mas recordou. - A senhora antes de ser diretora me deu aulas, também. Chegando lá foi prontamente atendida pela equipe de plantão.


  • Olha só quem chegou! Exclamou a enfermeira chefe do plantão. Professora Inês, há quanto tempo? Veio nos visitar e nem temos um biscoitinho com chá para lhe oferecer, brincou a mocinha. Ela lembrou a professora de que foi aluna dela no curso de enfermagem, já na faculdade. Encaminhou aos procedimentos, feito o raio X, veio a médica plantonista com os exames, olhando contra a luz. Inês, olhou e viu que não era estranha aquela moça. Claro, frequentava sua casa, pois era coleguinha de seu filho, quando adolescentes. 


  • Mas veja só, quem aparece… Inês que bom que a senhora está aqui. Disse a médica plantonista. Mas corrigiu. Bom não é, mas sempre é bom rever pessoas que nos ajudam a construir nossas vidas e carreiras.  Enquanto a médica conversava explicando a situação de que havia apenas um rompimento de um tendão e assim inchou o tornozelo, o médico ortopedista chegou em seguida e já ordenou:


  • Deixe que eu assuma daqui.

  • Mas eu conheço a professora Inês há tempos..argumentou a médica.

  • Eu conheço há mais tempo ela me alfabetizou, respondeu o ortopedista em tom de brincadeira. 


Por algumas horas a professora Inês foi paparicada por seus ex-alunos, hoje encaminhados na vida. Mas fiquei sabendo deste causo porque a vi com uma bota imobilizadora ortopédica.


  • Boa tarde professora, virou criança com botinha Ortopé? Provoquei em tom de brincadeira. Ela me olhou, pensou e respondeu


  • Escute meu senhor. Não lembro de quem seja, mas é uma lesão no tendão e não sou criança para usar botinha Ortopé. Fiquei meio desconcertado com a resposta,mas ela emendou a prosa e me contou a história acima. Esclareci

  • Nós trabalhamos juntos  na Secretaria de Estado de Educação. Daí ela lembrou. Me despedi e a confortei:

  • Professora a dor vai passar e a senhora vai ficar com o pé novinho em folha. E com tanta manifestação de carinho, apreço e gratidão vai lhe fazer melhorar mais rápido. A senhora deixou muitas coisas boas em cada coraçãozinho dessa piazada que hoje estão encaminhados. Comemore isso. Me despedi e segui em frente. Dei uma olhadinha para trás e vi Inês secando lágrimas. Devem ser gotas de felicidade pela gratidão de seus ex-alunos.


 Não faço mais piadinha sobre botinha Ortopé. Mas o jingle era bonitinho. Era assim: Ortopé, Ortopé, tão bonitinho. Tênis e botinhas, sandálias, sapatinhos….












O AUTO DA APARECIDA