quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Professor Vaz e a minha dúvida sobre os coelhinhos

 Professor Vaz e a minha dúvida sobre os coelhinhos


Lá por 1984 quando comecei a cursar jornalismo na Universidade Católica de Pelotas, logo já tínhamos um grupinho de colegas que se afeiçoaram mais e fizeram amizades e alguns professores também. Um deles era o Vaz. 


Certa vez ele me contou uma historinha que custei a acreditar. Passados mais de três décadas continua a dúvida. Em nosso encontro de 30 anos de formados em 2018, quase não sai pela greve dos caminhoneiros e falta de combustíveis, perguntei ao Vaz sobre a veracidade. Ele afirmou de orelhas juntas  que era verdade. Continuo em dúvida.


Mas recebi o livro de memórias escrito pelo professor Luiz Carlos Vaz, A História de Abel, e estou me divertindo com tais histórias. Infância semelhante à minha lá pelos morros de Erechim, bem diferente da campanha de Hulha e Bagé.


Ainda não terminei o livro. Chegou ontem, li uma parte e hoje devoro o restante. Até agora nenhum relato dos coelhinhos.


Nunca contou para vocês?


O Professor Vaz criava coelhos. Tratava, deixava o bichinho grande, gordinho de olhos vermelhos de pelo branquinho e um dia… TUM! Só uma batida na cabeça bem no meio dos olhinhos. O bichinho virava os olhinhos e dali em diante seria um bom assado além de tapetes, luvas e gorros para enfrentar o frio da pampa gaúcha.


Será que ele confirma?



quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Filosofadas do gringo da churrascaria

 Filosofadas do gringo da churrascaria



A prosa sem compromisso com o gringo dono da churrascaria sempre era boa.  Além da boa carne, de procedência não verificada, pois fofocavam que era de abigeato, os aperitivos de entrada faziam a alegria dos clientes. 


Os aperitivos ficavam numa ampla mesa, na entrada da churrascaria, à esquerda do salão, encostada numa parede com duas flâmulas fixadas na parede milimetricamente a do Inter e a do Grêmio e tinha mais para o lado a  do Ypiranga Futebol Clube. Havia um sortido de garrafas de aperitivos. Agradava a todos. 


Tinha cachaça com butiá, com morango, abacaxi, ervas e uma garrafa esquisita cheia de formigas. O gringo jurava que o veneno da formiga era poderoso para várias doenças, inclusive “ficar forte com as mulheres”.


Como o gringo era zoneiro, o pessoal até acreditava. Era casado com uma italiana vistosa, mais bonita que laranja de amostra. Ela sim atraia olhares e encantava os clientes.Muitos iam na churrascaria só para ver a Sofia Loren da churrascaria, pois a beleza era igual a da artista italiana. Quando ela atravessava o salão, a churrascaria parava e não se ouvia nem zunido de mosquito. 


De vez em quando meu sobrinho Fábio Pichler quando sobrava uns trocados ia almoçar lá na churrascaria, mais para ouvir a filosofia profunda do gringo.


Num sábado por volta das 11 horas os dois estavam no balcão do caixa e a prosa ia esquentando. O gringo no caixa e Fábio sentado num banco daqueles alto de balcão de bar. Se aventurou na dose da formiga com cachaça, pensando “vai que faz efeito”. O gringo começou a “queimar campo” contando as façanhas e aventuras na zona de Erechim e meu sobrinho viu o perigo das confissões. Gringo não viu a Sofia Loren se aproximar e ouvir a conversa toda. Ela Só pegou uma toalha dessas que usam para limpar as mesas e tacou na orelha do gringo. Ele nem viu de onde veio o marimbondo. Ficou dois dias com o ouvido zunindo.


  • Te fiz sinal, seu gringo carniça!  disse meu sobrinho e o gringo desatou no gemido e na filosofia.

  • Esta gringa do demônio não sabe o quando eu amo ela. Ela que  nem chega perto de mim e o pior de tudo é não ser amado. 

  • - Mas como não ser amado? Ela vive aqui, trabalha com você e cuida de tudo e ainda ficou com ciúmes das tuas mentiras, argumentou meu sobrinho.

  • Nada! é uma ingrata. Dorme no outro quarto e você tem que entender meu sofrimento, disse o gringo abrindo o coração. Pegou um garrafão de vinho que guardava nos pés dele, embaixo do balcão do caixa da churrascaria. Encheu um bicherote de tinto seco e tacou nos beiços. Tomou tudo num gole só. Os olhos já ficaram vermelhos, a pele mudou de cor e uma lágrima caiu de seus olhos. 

  • O que houve vivente?. Para com isso- disse Fábio tentando acalmar o gringo que suspirou profundamente e largou uma filosofia que traduzia sua vida

  • “Muié feia é que nem pantufa. Dentro de casa vai, mas na rua dá uma vergonheira” Mas  esta daí que me maltrata é bonitona mas não me quer e eu  nem quero mais saber de ninguém nem da vida porque “um homem amar sem ser amado é que nem se limpar sem ter cagado”. 



Depois desta filosofada profunda, só restou ao meu sobrinho terminar a dose de cachaça com formiga e correr para casa para ver se faz efeito, antes que “Sofia Loren” voltasse com o pano de louça molhado.


Conselho, sempre olhem pelo espelho ou dêem uma olhada para trás.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Véio Tide e a Donzela

 Véio Tide e a Donzela



Em dezembro fui até Erechim para rever a parentagem. Pelo menos uma vez por ano, caso sobre alguns cobres, dá para se aventurar. Mas a 7 contos o litro da gasolina fica mais difícil. Melhor nem parar para o lanche durante os quase 600 Kms.


Mas andando pela cidade, que mudou muito nos quase 40 anos que estou vivendo no exterior. Sim, exterior. o Rio Grande do Sul é uma nação à parte. fora disso é estrangeiro. Outro dia relato como é viver em outro país que não seja a terra gaúcha.


Passando pela Prefeitura lembrei de quando estudava no José Bonifácio, onde cursava o segundo grau noturno.Certa noite de frio, no rigoroso inverno ouvi uma conversaiada vindo de umas macegas embaixo de uma árvore que havia na rua entre a Prefeitura e a sede abandonada dos Correios, onde hoje tem um banheiro público e uma repartição municipal.


Nesta esquina quando o dia morria e a noite nascia, umas moças prestavam serviço. Em épocas de pagamento era uma fila de fusca, chevette, corcel, kombi, yamaha 50 cc e bicicletas. Sim, alguns iam pedalando para namorar.


Era mais ou menos quase sete horas da noite, eu indo para aula e de longe vi o fusca de um alfaiate conhecido, que era freguês habitual. E a bicicleta inconfundível do véio Tide, que trabalhou a vida toda na Cotrel. Recebeu o salário, que na época as empresas pagavam em dinheiro dentro de um envelope, e o trabalhador assinava o holerite. 


Com a guaiaca recheada, Tide saiu da Cotrel às 18 horas, pedalou uns 1.500 metros e estacionou a enfeitada num poste da Praça da Bandeira. Amarrou com corrente e um cadeado Papaiz grande dos bons. Deixou ali por causa da iluminação para evitar que roubassem, enquanto cumpria uma missão mensal.


Atravessou a praça devagarito, cruzou a rua e chegou em frente a escadaria da Prefeitura. deu a volta no prédio e viu que a sua preferida estava sozinha.


  • Psiu! Psiu! Vamos conversar? cochichou tide.

  • Conversar véio? Fala logo o que tu quer? devolveu a moça. Mesmo com frio ela vestia uma blusa decotada, saia curta para cima dos joelhos, Não economizava no perfume e nos adereços. Parecia um bibelô ambulante.

  • Quero saber se podemos namorar? perguntou ansioso o Véio Tide.

  • Vai te custar 20 pilas. 

  • Tá bom, vamos onde?


Ela pegou Tide pela mão e o levou embaixo da árvore que ficava colada ao muro dos Correios. Ali era o “ninho de amor”. A árvore protegia do frio, da garoa e da geada na madrugada e embaixo as macegas serviam de colchão, um cobertor pega pulgas servia de colcha para não gelar os corpos. Chegaram na suíte, noite fria mas estrelada. Ela tinha um radinho de pilha que ligava e tentava achar uma estação com música boa para namorar. Na época só havia duas estações a Erechim e a Difusão AM. FM estava engatinhando. Mas como era hora da Voz do Brasil, nem adiantava tentar achar alguma coisa. Nem mesmo a Rádio Gaurama.


Mas os dois foram para baixo do sombreiro que os protegeria do sereno e dos olhos curiosos de quem queria saber mais do que devia.


Mesmo sem música, começou o romance. Tide com as mãos grandes já queria acariciar os cabelos da moça e foi descendo e ela deixando. 


  • Vai devagar que sou donzela. É minha primeira vez aqui. Disse ela carinhosamente ao véio Tide que já havia pago adiantado os 20 pilas.


Seguiram as carícias e ele tentando tirar mais peças de roupas da moça. Até que chegou mais adiante e ele meio nervoso e tonto porque tomou dois copos cheios de vinho tinto da colônia, feito numa vinícola na estrada que vai a Cotegipe. Sempre carregava uma garrafinha na bolsa que prendia no bagageiro da bicicleta. Amarrava bem com borracha de câmara de pneu de bicicleta com ganchos de arama nas pontas para prender, porque é mais elástica e fácil de manusear.


Lá pelas tantas, após uns minutos de sofrência tentando completar o ato, reclamou que estava difícil. Ela candidamente disse para Tide:

-Bobinho, você não sabe nada. é que sou donzela e por isso que está difícil.


O véio que não era bobo e tinha gasto 20 pilas para namorar e estava nervoso por causa da Barra Forte que amarrou na praça do outro lado da rua foi rápido. Meteu a mão no sutiã da donzela pegou os 20 pilas de volta e lascou:


-Donzela é? Se não tirar esta meia-calça não te dou os 20 contos e levantou do ninho de amor, correu pelo lado da prefeitura que havia uma calçada no meio do jardim, atravessou a rua como um raio, desacorrentou a Barra Forte e partiu para o Jaboticabal. Com o frio, 6 km de pedal chegou em casa com os 20 na carteira, mas ainda sonha com a formosa dama.


E vamos viver um ótimo 2022.


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Me enterrem na terra vermelha missioneira

 Me enterrem na terra vermelha missioneira



Medeirinhos era um senhor já com idade avançada. Trabalhou na “repartição” onde cumpriu seu horário diário por mais de 35 anos. Sempre britânico em sua pontualidade. Nunca perdeu um dia de serviço e também nunca adoeceu a ponto de não ir trabalhar.


Estudado para ser Agrônomo, fez concurso para trabalhar no governo. Recebia um salário médio bom, mas nunca desperdiçou um níquel sequer. Ia todos os dias para o serviço, sempre de fatiota. Sua única extravagância nos gastos era um bom alfaiate e os únicos adereços que usava eram um relógio e um anel de formatura em ouro e safira azul. Conservador, nunca admitiu que no serviço público o cidadão fosse atendido por alguém “em mangas de camisa”. Expressava sua insatisfação.


Sempre estava com os sapatos lustrados, que ele mesmo dava o brilho. Jamais gastaria com  um engraxate. Lavava as próprias roupas para economizar e morava em quartos de pensão ou de famílias que alugavam cômodos.


Gastava o mínimo do que ganhava e vivia franciscanamente. Pouco comia. Era um senhor de baixa estatura, magro e sempre gentil, educado e pronto para uma boa conversa. Nunca se casou e também nunca viram ele em companhia feminina, nem mesmo em casas de tolerância. Era uma incógnita.


Assim era Medeirinhos. Sem referência de família, pouco  se sabia da vida pessoal. Apenas que tinha uma sobrinha em São Luiz Gonzaga, de onde ele veio há muitos anos para trabalhar na repartição estadual que cuidava dos parques florestais. Econômico porque temia o futuro


  • Nunca se sabe o dia de amanhã! repetia Medeirinhos que recebia seu salário no Banrisul e depositava a maior parte em uma caderneta de poupança da Caixa Econômica Estadual do Rio Grande do Sul. 


Serviços médicos usava os do Ipergs - Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul. Se o assunto de saúde não era grave, ia na Farmácia onde o “Doutor Paulo” receitava  e vendia. Era um farmacêutico que dava consulta, prescrevia e manipulava remédios.


Para os colegas da repartição sempre deixava dito que se algo acontecesse com ele os amigos deveriam abrir a pasta preta pendurada atrás da porta do quarto da pensão ou moradia onde estivesse vivendo. Ali estavam as instruções.Bem à vista e fácil de encontrar.

 

E como o tempo e destino são implacáveis, Medeirinhos certa manhã não apareceu na repartição. Os colegas estranharam pois ele era o primeiro a chegar e o último a ir embora. O relógio na parede marcava 8h01min e nada do Medeirinhos. Os colegas, da mesma faixa etária, começaram a se preocupar e a  comentar. Combinaram: Cada uma vai por uma rua até a casa onde ele mora lá perto do Mantovani (escola estadual de segundo grau). 


Chegando na residência bateram palmas e em seguida a dona da casa que alugava quartos abriu a porta:


  • O que houve? Perguntou uma senhora, bem forte, de descendência italiana

  • Viemos saber se está tudo bem com o seu Medeirinhos que não foi para a repartição.

  • Também não vi ele no café, vamos lá bater na porta do quarto. Convidou a dona da casa.


Bateram na porta e nem sinal de Medeirinhos. Escutaram encostando o ouvido na porta e nada. A dona da pensão pegou um copo e colocou na porta para melhorar a audição. Certamente apreciava ouvir os segredos dos hóspedes. Sugeriram que a dona da casa abrisse a porta pra ver se ele estava dormindo. O que era improvável. Medeirinhos era madrugador. Acordava cedo, se barbeava, vestia o terno, escolhia a gravata e lustrava os sapatos antes de ir para o café e depois caminhar cerca de um quilômetro até a repartição.


Abriram a porta e lá estava Medeirinhos pronto e devidamente vestido com seu melhor terno. O chapéu de feltro estava ao lado dele, e o rádio ligado, no programa do Jovino Martins da Rádio Erechim. O quarto pequeno tinha apenas uma cama de solteiro, uma cadeira e uma mesa. Uma cômoda com as roupas dobradas e bem passadas. 


Sua feição era de tranquilidade. Rosto com sulcos pela idade, mas o cabelo farto bem preto. Há quem diga que ele pintava. Tinha um leve sorriso no rosto. Morreu em paz. Os colegas lembraram da recomendação de que abrissem a pasta preta com instruções.


Se estão lendo é porque chegou a minha hora. Trabalhei muitos anos, poupei para o dia de amanhã. Nunca se sabe quanto tempo vai durar esta crise. Meu último pedido é que chamem minha sobrinha e que ela me leve para me enterrar na minha cidade. Quero voltar à terra vermelha de São Luiz Gonzaga. Deixo minha Caderneta de Poupança da Caixa para as despesas e o resto ela guarde para o futuro dela.


Entendido o pedido, os colegas trataram de chamar a sobrinha que após uma longas horas de tentativas de contato e anúncios feitos na rádio das missões ela retornou. Telefonou para a repartição onde todos os cinco colegas estavam na volta do telefone para ouvir quando a sobrinha do Medeirinhos viria. Explicaram o acontecido e as instruções do amigo falecido. Os cinco na volta da mesa do telefone ouviram:


  • Vamos fazer assim. Vocês enterram o tio por aí e o que sobrar me mandam uma ordem bancária. Ele nem vai saber onde está enterrado. E também nem consigo mais pegar o trem esta semana. Determinou a sobrinha.


Os colegas do Medeirinhos se olharam e ficaram quietos, mas prosseguiram com o plano. Compraram um terreno bem situado no cemitério, fizeram um jazigo decente e na lápide uma inscrição: “Aqui jaz um missioneiro que amou sua terra e agora volta ao solo da pampa. Do pó viemos e ao pó retornaremos”. Usaram as economias da crise do dia de amanhã que nunca veio. O que sobrou doaram para o asilo. A sobrinha recebeu uma carta alguns dias depois com os recibos dos gastos, comprovantes da doação e o extrato da Caixa com saldo zero. E um bilhete dos amigos


Fizemos conforme sua orientação. Enterramos Medeirinhos com dignidade e respeito aqui mesmo. Afinal você mesmo disse que ele nem vai saber onde foi enterrado. Junto neste envelope os recibos dos gastos que foram necessários. Requer ainda que você mande o valor do último aluguel.


Esta foi uma justa vingança.




terça-feira, 23 de novembro de 2021

Entra aqui, entra ali, agora para

 Entra aqui, entra ali, agora para


Próximo ao natal de 2011, me ligaram da concessionária Citroen avisando que meu carro havia chegado e poderia retirá-lo na loja. Agendei para uma segunda-feira e assim o fiz. Peguei o C4 Pallas grafite deixando o antigo de cor preta como troca. Daí segui para Florianópolis, como fazia toda semana. Ia na segunda e voltava final de semana, porém às vezes seguia por toda Santa Catarina para visitar escolas, obras de novas unidades e reformas, juntamente com o secretário estadual da Educação.


Cheguei na Educação em Florianópolis lá pelas 11h, com aeronave nova e reluzente, cheirinho de novo. Na sede ali da rua João Pinto, bem no centro, como era de costume antes de subir para minha sala no 12º andar parava no 10 para uma conversa com o secretário Marco Tebaldi. Tomamos algumas cuias de mate, alinhavamos a semana e para onde iríamos. Antes de sair da sala ele me interpela. 

  • Tem que ir a Lages - balbuciou.

  • Tá bom quando vamos? questionei

  • Vai sozinho e resolva isso - me alcançando um post it amarelo. Li, refleti e não mostrei os dentes.

  • Liga para o Negão que ele te ajuda - sugeriu

Sai da sala do secretário e subi para a minha. Liguei para o Negão e avisei que no dia seguinte lá estaria que me esperasse. 


Na terça, acordei 4h, vesti uma fatiota nova de alfaiataria sob medida, camisas com monograma, coisa chic. Sai de Jurerê, onde eu morava nos dias de semana e peguei a estrada, segui rumo a Palhoça, Santo Amaro, Rancho Queimado e chegando na Janaina (posto na 282). Parei  para tomar um café preto, lavar o rosto para afastar a preguiça e seguir. Pedi o café e bebi devagar pois estava muito quente. O dono do lugar me ofereceu um suco de mirtilo, informando que era uma plantinha nova que deu certo na serra catarinense e estava dando sustento para muito agricultor. É uma frutinha roxa com alto poder antioxidante.


Reanimado segui a subida da serra até chegar no ponto de encontro com o Negão. Nas margens da BR-282 ali no Gethal, onde ele mora. De longe já vi o sujeito abagualado, com um chapéu tão grande que, com certeza era maior que os chifres de Guzerá.


Parei e o sujeito abre a porta de trás e se escarrapacha no meu carro novo, bancos de couro cheirando a novo e tapetes de camurça. O aromatizador expelia perfume francês, que vinha um com refil. Pensei,  tudo isso para ele sujar todo meu auto com botas cheias de barro.


Nos cumprimentamos e seguimos. Falei onde precisava ir e o que faria e que ele me guiasse para não perder tempo, pois queria voltar ainda no mesmo dia.


Disse que compreendeu tudo e seguimos devagar. Dai ele me manda entrar a direita. Entrei.

  • Pare aí, que eu tenho que entregar brindes para as crianças - pediu e atendi, afinal é uma causa bonita. 

E assim foi, só no Gethal cinco paradas, adentramos no Guarujá, Pisani, Conta Dinheiros, Popular, Várzea, Vila Nova e assim foi a manhã toda. Fizemos uma parada na rua das Uvaiaras no Habitação, onde morava uma irmã minha, que já faleceu.

E em cada parada eu ficava no carro, com ar condicionado ligado e ele descia, para entregar os presentinhos e fazia pose, proseava, tomava uma cachacinha e apontava para o carro e para mim. Eu, quieto pouco me viam devido a película escura. Ele voltava sentava no banco traseiro e seguiamos ao próximo local.

Eu agoniado com a situação, pois tinha de tratar dos meus assuntos. Até terno novo feito sob medida em alfaiate eu vesti. e os sapatos lustrosos, de boa qualidade que nem descia do carro para não sujar de lama.

Lá pelas tantas acabou o roteiro e disse que deveria me orientar para onde eu seguiria Afinal ele era meu cincerro. Daí ele pediu mais uma paradinha num boteco ali pelo Santa Rita. Eu só bombeando o caboclo. Meteu nos queijos um martelinho de branquinha e fez um jogo do bicho. gesticulou, apontou para o carro, deu risada e voltou.

  • E aí, acabou a andança? Vamos na minha lista? e o que você tanto dá risada e proseia com esta turma aí? Aponta para o carro e fica de falatório? questionei?

Deu uma gargalhada e disse:

  • Tebaldi não te falou nada? Ele me ajudou a comprar os presentinhos e garantiu que ia me mandar um motorista de terno para me levar nas entregas. A lista tua é falsa e em cada boteco desses eu falei que você era meu chofer que em mandei vir lá da minha fazenda do Paraná onde crio pinhão. E o auto novo, nem placa tem, tirei ali na concessionária agora de manhã. E falei com você é um ex-caminhoneiro de São Marcos que estava matando cachorro a grito lá em Vacaria e eu te trouxe para te dar um ajutório.

Restou- me dar uma sonora risada, largar o abagualado na beira da 282 no Gethal e voltar para Jurerê e ter uma boa noite de sono.


E como é domingo de Páscoa, que Deus os proteja. Me vou despacito que meu mate está pronto, cheio de carqueja para limpar o vivente.


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Bicicleta Voadora

 Bicicleta Voadora



Esta semana recebi de meu sobrinho Fábio Pichler, que mora em Erechim, uma novidade bastante avançada. Um tal de ônibus espacial fabricado em terras gaúchas. Ele que já trabalhou em uma fábrica de ônibus, pode falar com repertório de conhecimento. Mas o maior cagaço foi quando um ciclone quase pegou a aeronave lá para os lados dos americanos. Sentiu a bombacha mais pesada, se enrolou no pala e gritou dentro do avião: Que venha esse ventinho metido. Quem enfrentou o minuano e geada não tem medo desta garoa que chamam de  Katrina e queria se apinchar do jato. Seguraram o vivente porque não sobreviveria a queda e nem ao Katrina. Acho que o poncho de lã não aguentaria também.


Mas o causo é que em breve uma das fábricas gaudérias vai mandar um ônibus para Marte, com tecnologia toda desenvolvida na República do Pampa. Coisa louca de especial movido a carvão, com churrasqueira, tulhas, cagador químico. É só atirar uma pá de cal que some tudo.


No sortimento da cozinha não vai faltar bergamota das costas do rio Uruguai,, erva mate de Erechim, feijão de Sobradinho, arroz de Camaquã, Charque de Alegrete, torresmo de Aratiba e uma pinga de Santo Antônio da Patrulha. Mas nada disso é novidade.


Nos anos 70 a NASA veio antes para conhecer outro invento colossal que correu coxilha. Era uma bicicleta voadora. Isso mesmo. Logo depois que inventaram a tal de Apolo 11 que foram para a Lua, e tem vivente que acha que foi tudo lorota da televisão. Queriam novas tecnologias. 


Mas correu a notícia de que um polaco de Cotegipe, meio chegado a este meu sobrinho por parentesco por parte de casamento,  tinha inventado uma bicicleta voadora e com fonte de energia renovável e autônoma. Era um falatório um buchincho que fazia eco em todos os cantos. Rádio falava, nas rodas de conversa, no botecos alguém sempre dizia que era fenomenal que tinham conhecido. E vocês sabem, quem conta um conto aumenta um ponto, diz o velho ditado.


Como o assunto engrandeceu, o polaco marcou data para fazer a bicicleta voar. Aquilo se espalhou de coxilha em coxilha.   Era gente preparando excursão com ônibus do Zardo que botou carros fazendo rotas de Marcelino Ramos, passando por Viadutos, Gaurama, Áurea, Erechim e até Cotegipe. Outra rota vinha de Nonoai, passando pelo Votouro São Valentim até o destino. Outro grupo vinha de Passo Fundo, cruzando Estação, Getúlio e cortando pela Frinape até pegar a estrada para a terra dos polacos. Era uma poeira que ninguém aguentava. As mulheres nem podiam quarar a roupa no gramado e nem arear as panelas. era uma nuvem de poeira que não dava para ver um palmo diante do focinho. Era muita gente querendo conhecer a bicicleta voadora do polaco.


Num domingo de sol bonito, que tinha festa na Matriz de Cotegipe o padre estranhou. Apenas meia dúzia de carolas na primeira fila. Estavam com um bico de beber água em jarro. Esperavam a missa desde cedo. Elas sempre vinham para ajudar na preparação e só saiam bem depois de todo mundo. Após a celebração ajudavam o padre a guardar tudo, limpar a igreja e fechar as portas. Naquele domingo nenhuma viva alma apareceu. O Padre chegou na porta da igreja olhou para o lado direito na estrada do outro lado do rio que corta a cidade. Era um domingo de sol claro, só viu uma nuvem marrom de poeira. Imaginou. É o Juízo Final. Vamos entrar e rezar.


Mas Genoveva, uma senhora de mais de 80 anos, não se conteve

- É castigo por causa do polaco louco da bicicleta voadora.

- Irmã que está blasfemando, do que se trata?

- Padre, o senhor sabe, todo mundo quer conhecer a bicicleta voadora, tem vindo gente de longe. O Polaco marcou para hoje o vôo da bicicleta. Anda proseando por aí que vai para a Lua. 

- Não pode ser, Jesus! Maria e José que Deus nos proteja. Vamos lá ver. Fechem tudo.


Fecharam a Igreja e desceram as escadas. As carolas e o Padre, entraram no fusca do sacerdote e seguiram para a propriedade que fica uns 5 km distante do centro, já num sítio na área rural.


Uma propriedade simples, onde faziam queijo. Algumas vacas, bacias para o coalho, uma moenda para fazer garapa e açúcar amarelinho. Lá nos fundos um riacho de água limpa onde tomavam banho e lavavam as roupas.


Um quilômetro antes o padre já viu o tumulto, a poeira e o povaréu dando risada. 


Dá licença, dá licença, ia abrindo caminho o sacerdote.


A poucos metros viu a cena e fez o sinal da cruz:


Deus nos perdoe. Não acredito nisso! bradou em voz alta


Quando viram o padre devidamente paramentado saindo do Fusca todos silenciaram e abriram caminho. 


Benção Padre

Deus te abençoe repetia aos fiéis que apreciavam a invenção do polaco. A famosa bicicleta voadora.


-Desce daí meu filho. Você não vai a lugar nenhum.

- Padre, eu inventei ela “avoa”. Vou para a lua que nem os homens do foguete.


- Seu Evanildo. Desce daí que o tempo não está bom para voar para a Lua.


Convencido pelo padre, Evanildo desceu da bicicleta voadora.


 Nada mais era do que uma bicicleta normal que ele pendurou em uma árvore com cordas, com duas asas de folhas de bananeira, sustentadas por hastes de cana de açúcar. No bagageiro da Barra Forte Caloi, uma bolsa de lona tipo alforge com  um suprimento de queijo, coalhada e garapa para dar “sustança” na viagem. E no guidão um rádio a pilha para saber como seria o Gre-Nal no domingo de tarde.

Como a bicicleta “avoadora” não “avoou” vamos aproveitar o feriadão com chuva e frio. Casa, comida, cama. Bom feriado a todos. 







sábado, 30 de outubro de 2021

Tesouros de João Maria

 Tesouros de João  Maria



Cada vez que passo em Irani, no meio-oeste catarinense em direção a Erechim, paro no Cemitério do Contestado onde há sepulturas, e um pequeno museu. Do outro lado da Transbrasiliana (BR-153) um monumento à luta e aos mortos da Guerra do Contestado. Uma enorme cruz segurada por duas mãos.


Me recordo da infância quando ouvia histórias de gente que sumiu no mundo em busca do tesouro do Contestado. E na semana passada li matéria da colega Ângela Bastos na edição digital do portal NSC, sobre o Assalto ao Trem Pagador, ocorrido em 1909 pelo grupo liderado por Zeca Vaccariano, um empreiteiro que tinha de pagar os trabalhadores na construção da ferrovia. Como levou calote dos donos da ferrovia, resolveu recuperar seu prejuízo confiscando valores do trem. Fato ocorrido no meio oeste catarinense alguns anos antes do conflito que contestava as linhas demarcatórias de Santa Catarina e Paraná. (1912-1916).


Há casos contados pela minha avó Elvira de que alguns agricultores arando a terra encontraram baús recheados de ouro. Muitos acreditavam na maldição do monge João Maria, pois profanaram segredos do líder messiânico e sumiram no mundo sem deixar rastros.


Isto reavivou minhas lembranças dos causos contados em casa, ou que ouvia da conversa dos adultos. O mistério dos monges João  Maria permeia a cabeça de muita gente e principalmente há pouco mais de 100 anos quando houve o conflito e as disputas a sangue por todo o território do meio-oeste é de acreditar que algumas moedas de ouro e prata ficaram enterradas.


Muita gente veio do Rio Grande do Sul se aventurar em terras catarinenses nos anos 30 em diante, quando começaram as colonizações, criação de cidades, desmatamentos para fazer lavouras e o início da agroindústria com os cooperados. Era terra barata e de boa qualidade para plantio. A terra era arada com uma junta de bois. E quanto a parelha empacava sem força pois o arado havia engatado em alguma pedra ou toco de árvore restante do desmatamento. Alguns tinham uma surpresa. Poderia ser um baú, armamentos enterrados ou algo mais valioso.


E na faixa que vai de Canoinhas-Porto União descendo pelo Meio Oeste até chegar em Marcelino Ramos no Rio Grande do Sul, foi palco de batalhas. Volta e meia achavam garruchas, munições, espingardas, espadas, facas, usadas nas peleias e também ossos de pessoas que morreram e ali ficaram com suas roupas dentes de ouro, algumas moedas de prata nos bolsos. 


Volta e meia eu ouvia falar de algum conhecido, vizinho ou parente de alguém que em busca da riqueza fácil  se aventurou em busca dos tesouros, que acreditavam existir. Um deles era um próspero comerciante de pedras preciosas e semi-preciosas. Se paramentou com detector de metais, mochila, alforje, barraca, enfim tudo o que precisava para andar pelos campos onde haviam ocorrido as batalhas e achar algo valioso e assim “enricar”. Até uma égua nova comprou com todo o encilhamento necessário.


Se despediu da família. Deixou uns trocados para a mulher e recomendou que ela não deixasse faltar nada para os cinco filhos. Além de  um maço de Cruzeiros entregou a ela um saquinho de feltro com pedras que valiam muito e deixou dito: - Se algo acontecer de eu não voltar, vá vendendo estas pedras. Fale com o ourives que ele sabe o que fazer. Despediu-se de todos, montou na égua e seguiu a trotezinho em direção a Santa Catarina. Na época, a travessia era de  balsa para cruzar o rio Uruguai abaixo do Estreito ou cruzar a ponte férrea em Marcelino Ramos. Seguiu pelo traçado em direção a Irani, onde acamparia e começaria sua caça aos tesouros do Monge, ou de algum comerciantes, fazendeiro que tenha enterrado sua riqueza para fugir dos saques das batalhas. Ou quem sabe ainda haveria um baú com moedas de prata confiscadas do trem. Ou uma “boca rica” com alguns dentes de ouro. Era fácil. Só sacudir esqueletos que os dentes de ouro se soltavam. 


Passaram anos sem que voltasse com sua riqueza, seu tesouro. Enquanto isso a mulher foi vendendo as pedras, criando os filhos e tocando a vida, de forma modesta. Sempre com a esperança de que um dia o marido voltasse com algum tesouro, ou que só voltasse para conhecer os netos.


Volta e meia alguém dava notícias de que ela havia sido visto em alguma localidade e o peito dela se enchia de esperanças. Outros informavam que estaria enterrado no cemitério, ou que se perdeu em uma caverna.


Em um final de tarde de tempestade, o sol sumiu por volta das 16 horas. Era chuva que Deus mandava. Ela fez uma cruz de sal em cima da mesa para Santa Bárbara acabar com a tempestade. Neste momento, ouviu a porta da cozinha ranger e ser arranhada por fora. Era um som distante como se fosse uma mistura de apito de trem e uivo de lobos. Parecia que alguém estava tentando entrar, mas não com batidas e sim com arranhões em uma causa desesperada, como se estivesse dentro de um caixão enterrado vivo e tentando sair ou pedindo socorro. Mesmo com temor, ela abriu a porta para ver do que se tratava. Ninguém. Apenas um vento gélido acariciou seu rosto, espalhou seu cabelo e percorreu seu corpo como se fossem carícias. No momento ela sentiu que algo era definitivo. Ali ela recebeu o mandado do Céu de que ele nunca mais retornaria.


Eu havia planejado uma incursão pelo Contestado. Já que em breve vou me aposentar e poderia empreender uma cruzada em busca de tesouros. Seria bom, enriquecer, colocar uns dentes de ouro, pelo menos na frente para brilhar quando sorrir, comprar uma propriedade, encher de ovelhas e ficar mateando 


Mas, lembrando este causo que a vó contava, acho melhor nem parar mais ali no Cemitério do Contestado. Vai que o João Maria desconfia que estou de olho nas patacas enterradas. Bom feriado de Finados a todos.




O AUTO DA APARECIDA