domingo, 20 de março de 2022

Poliglota

 Poliglota



Há muitos anos passei em frente ao Bar Glória do Rudi, num final de  tarde quente. Pedi uma cerveja gelada para refrescar, espantar a poeira e limpar a garganta. Como sempre meia dúzia de gambás que batiam o ponto debruçados no balcão e numa mesa de canto um homem falando sozinho. Imaginei, deve ser mais um doidinho desses que andam por aí, ou já encheu os cornos de schnaps.


Servi  o primeiro corpo e bebi com gosto num gole só. Enchi o segundo copo Catarina, um luxo para o bar, mas tinha alguns exemplares. Enquanto bebericava, ouvia o sujeito falar sozinho em quatro idiomas.


  • Come set here. Entendi perfeitamente e até pensei que fosse um convite para fazer companhia ao falante solitário.


  • s'il vous plait, approchez-vous. Também entendi. Nessa altura eu já havia bebido três copos de cerveja e com certo nível de bebidas a gente fala até russo e javanês.  Pensei, o que este cara tá querendo. Convidando quem chegar mais perto?


Continuei na observação e pedi um Boonekamp que é bom para digestão, uma bebida joinvilense feita de ervas. Mais amarga que a saudade de um amor desfeito. Um pouco de silêncio e o cliente pediu uma branquinha. O bolicheiro levou. Ele bebeu num gole só aquele copinho feito para uma dose da “marvada”.


  • Kommen Sie näher, um Wurst zu gewinnen! Falou o homem com tom mais enérgico. Como não entendo nada de alemão. Perguntei a outro cliente o que ele havia falado. Aquela língua é bem difícil. Um senhor de uns 70 anos, roliço feito barril de chope, rosto vermelho e com estrias marcantes no rosto. Tirou o boné e me olhou e traduziu: - Vem mais perto para ganhar linguiça.




Imaginei com meus botões. Este cara está de palhaçada.


Servi o quarto e último copo de cerveja, terminei o Boonekamp em um gole só e me levantei bruscamente para ir em direção ao banheiro antes de ir para casa. Fui em direção a mesa do falante solitário, que ficava perto da porta do banheiro, só masculino porque dificilmente alguma dama entraria ali.


Alí se desfez o mistério e meu pavor ficou estampado no rosto. Tremia, sem condições de correr porta afora. Congelado e imobilizado, assim fiquei.


Saiu de trás de um monte de engradados de garrafas vazias um enorme rottweiler, com cara de poucos amigos, dentes afiados e sentido matador aguçado


O gigante me olhou, olhei para ele e o latido foi ouvido a quilômetros na velocidade da luz. Paralisei. Vi minha alma saindo do meu corpo e lá de cima me vi com a jugular sangrando e o rottweiler se deliciando num pescoço gordinho.


Sorte que foi momentos de pavor. Em seguida o solitário falante ordenou:


  • Margarida, deixa o moço passar, senta aqui e come a linguiça com mostarda. Prontamente a Margarida me deixou passar e delicadamente começou a engolir os pequenos pedaços da Schweinswurst.


Passado o susto, me aproximei, perguntei ao acompanhante da Margarida como ela era poliglota. E ele esclareceu. Haviam morado no Canadá onde se fala inglês e francês. Até aí entendi, a Margarida foi alfabetizada bilíngue. E o alemão?  A avó do dono da cachorra era moradora do Glória, falavam alemão em casa e Margarida ouviu e aprendeu e quanto ao português ela aprendeu nos botecos mesmo.



Guten Sonntag

Bon dimanche

Good Sunday

Bom domingo, Margarida.


E como hoje é domingo dia 20 de março, aproveitem para conhecer o Arquivo Histórico de Joinville que completa 50 anos. Durante todo o dia haverá visitação guiada e programação cultural. O Arquivos Histórico fica na beira rio. 


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Diana a Rainha Guerreira



Diana a Rainha Guerreira





Era uma manhã de sábado em outubro de 2006. Fui na Agropecuária 15 comprar ração para tartarugas e pássaros ao ar livre e para a Athena, uma pinscher que já tínhamos.




Logo na entrada havia um cercadinho de tela com vários filhotes para adoção. Peguei a Isis, uma cachorrinha de pelagem preta e trouxe para casa. Era um presente para meu filho menor Victor. Chegando entreguei a nova amiguinha e falei que eram duas irmãs gêmeas. Peguei a pretinha e lá ficou a marrom. Ele argumentou, com seis anos, que era injusto separar as irmãs; Voltei rápido na agropecuária e por sorte a marrom ainda estava lá. Trouxe também.Ela poderia ter cativado outra pessoa, com seu olhos cor de mel, neste pequeno tempo que me desloquei de ida e volta.




Os irmãos Victor e Arthur as batizaram de Diana, a Rainha Guerreira (marrom) e a Isis, Poderosa Isis, a Deusa da Fertilidade na Mitologia egípcia que espalhou pelo mundo greco-romano.




Nos últimos tempos, já com quase 16 anos, o equivalente a serem idosas, se comparadas a humanos, já apresentam sinais de demência, dificuldades de andar, de se alimentar e mesmo com todos os remédios e internações e cuidados, o ciclo da vida se encerra.




Diana é a divindade da lua e da caça, muito poderosa e forte. Pode ser também a Mulher Maravilha dos desenhos da DC Comics. Mas para nós era alguém muito amada, querida, uma caçadora de emoções, uma conquistadora de carinho, de amor, mesmo com seus pulos e beiçadas fortes.




Nos últimos dias as convulsões aumentaram, e sobreviveu mais um tempo em coma induzido e com sonda para se alimentar. Muito sofrimento para quem recebeu e deu amor, carinho, companhia e muitas brincadeiras. Além de cuidar de todos e da casa.




Caçadora rápida. Não havia camundongo que ela não pegasse, mas também abatia pássaros. Sentiremos muito sua falta, mas sua gêmea que fica a Isis já sente sua ausência.




Os irmãos Francisco, também idoso já está ranzinza e cria encrenca com qualquer um que tente atravessar a porta onde ele se acomoda todos os dias. E o Banzé o mais jovem com 10 anos continua ágil e metido.




Mas nos últimos dias os olhos deles estão tristes. É claro que entendem o que está acontecendo. E lêem nossa alma, também. São sensíveis, adoráveis, amorosos e capazes de ler o interior de cada um de nós.




Diana nos deixou na tarde de segunda-feira de Carnaval. Certamente já está com sua fantasia de Mulher Maravilha pulando com São Francisco o protetor dos animais.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Gritos suplicantes na madrugada

 


Gritos suplicantes na madrugada


Os gritos de desespero sussurrados, se ouvia fracamente ao longe. Um calafrio correu pela espinha, uma sensação horrível de algo ruim acontera. Era noite escura, e por volta das duas horas da madrugada os gritos vinham de longe trazidos pelo vento gélido da noite. Uma voz fraca, e carregada de sofrimento, de solidão e desespero agonizava um pedido de ajuda.


  • Socoooorroooo!. Me ajudem. Por favor…estou morrendo. Alguem ajuda!  No silêncio da noite se ouvia este clamor que poderia ser de gente, ou de coisa ruim mandada para atormentar. Poderia ser uma alma penada, ou imaginação de quem ouviu.


Assim seguiram os pedidos aflitos, tormentosos querendo  ajuda. Mas o que será que houve? Pouco se ouvia ou via alguém naquela casa.


Um vizinho levantou para ir ao banheiro e ouviu essa súplica. Chegou na janela para verificar se realmente era real ou foi um sonho ou uma peça de sua idade avançada, também.


A mulher dele também levantou e ouviu o mesmo martírio . Não teve dúvidas e percebeu que era algo sério. Telefonou para a polícia, relatou o ocorrido e deu o endereço. A resposta foi imediata, e em pouco tempo uma guarnição da Brigada Militar chegou ao portão da casa e ouviu gemidos profundos de grande sofrimento. Os dois brigadianos abriram o portãozinho, entraram no terreno pouco iluminado, e com muita vegetação, pois havia muitas plantas. Repentinamente uma luz veio do céu e um foco do luar levou diretamente ao local que deveriam procurar.  O soldado da BM encontrou-a deitada no pátio, desacordada e com muitos ferimentos. Magra, suja, ferida, doente e faminta. 


Tentaram perguntar o que houve, se ocorreu assalto, violência, mas a fraqueza da idosa não permitia que falasse. Apenas apontava com o indicador para a casa e com olhar desesperado balbuciava algo sem que os soldados pudessem entender.


Enquanto um passava um rádio pedindo ambulância, o outro foi averiguar a casa Percebeu a porta  aberta. Entrou lentamente com cuidados, pois poderia ter sido obra de algum malfeitor que poderia ter assaltado a casa e agredido a senhora de 84 anos. Afinal ela foi encontrada caída sem sentidos no terreno onde estava desde a tarde e só recobrou a consciência para gritar por ajuda na madrugada seguinte.


O soldado foi pé ante pé em todos os cômodos, certificando de não haver um assaltante na residência.  Dentro da casa de madeira, outra cena horrível para qualquer ser humano. Um cenário de tristeza, desolação, falta de humanidade, de amor , de carinho, atenção saúde, de higiene, de solidariedade. 


O soldado que entrou na casa não conteve a emoção e engoliu o choro ao ver a situação. De longe sentiu o cheiro horrível da falta de higiene pessoal e necessidades feitas ali mesmo.


Afundada em uma cama, colchão mal cheiroso, estava a irmã mais velha de 90 anos que estava muito doente e precisando de atenção. Foram levadas para o hospital público, recebendo toda atenção e cuidados necessários. Não havia parentes e nenhum registro para quem telefonar, nunca tiveram filhos e não gostavam de crianças nem de vizinhos. A mais nova de 84 anos morreu no dia seguinte, de infarto, aliado aos machucados da queda e do rastejamento no dia anterior em busca de socorro. A mais idosa, finalmente voltou às origens. a BM achou uma sobrinha que a acolheu em seus últimos dias ou horas. 


Viveram sozinhas nos últimos 50 anos, uma cuidava da outra. Vieram de uma cidade próxima, Barão do Cotegipe, onde venderam uma pequena propriedade e compraram uma casa boa próxima ao centro. Mas nunca quiseram amizades, vizinhança e seus atos eram de rejeição a qualquer contato com os vizinhos.


Primeiro ato foi arrancar o portão que dava acesso ao nosso terreno. Não queriam contato algum. Reclamavam de folhas que caíam no terreno delas e da água da chuva que escorria.


Nunca cultivaram amizades com vizinhos, que na verdade são os melhores parentes, pois podem te socorrer em uma noite de agonia.


Cultivem amizades, cumprimentem, sejam gentis. Informe seu telefone e escreva possíveis problemas que você possa ter e algum contato em caso de “precisão” conforme dizia minha avó.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

1973 um ano de grandes conquistas

 1973 um ano de grandes conquistas



Estava na terceira série do primário no Ginásio Estadual das Subúrbios, hoje se chama João Germano Imlau. Vinha da segunda série, fraco com o boletim tapado de S, na avaliação da professora Neli Maffessoni,  pois na época  os alunos recebiam os seguintes conceitos: Insuficiente, Suficiente, Bom, Muito Bom. 


Aprovado da segunda para terceira série, meio que empurrado, agora a coisa era mais séria e entravam mais matérias. Também mudava de  professora. As aulas eram com a professora Jandira Bisognin. Como eu vinha meio fracote, acabaram minhas tardes livres de correr pelas ruas, andar de bicicleta, ver tv, que era o máximo que tínhamos no século passado.


Nem adiantava a piazada ir lá em casa me convidar para ir pra rua. Foi um ano de clausura estudantil para ver se entrava alguma coisa na cabeça. Minhas aulas eram de manhã e após o almoço, ajudava com a louça, descia as escadas nos fundos de casa até o  pátio, brincava com o Bolinha, meu cachorro, atravessava o terreno, passava pelo temível Kelly, um cão tigrado de 18 anos ou mais já sem dentes que ficava embaixo de uma laranjeira,  e subia a escada dos fundos que dava numa despensa e na cozinha da casa da minha irmã Pepita. Se eu falar o nome dela ninguém vai saber. Mas o nome é Belmy, mas há mais de 70 anos é Pepita.


Naquele 1973 o estudo em casa foi árduo mas com excelentes resultados. Pelo menos 3 horas de estudos e nada de Jim das Selvas, nem Tarzan, muito menos National Kid e Batman. Correr de bicicleta na volta da quadra só depois de terminados os estudos e feito o “tema de casa”.


Naquela época a rede de lojas Grazziotin premiava os melhores alunos. Mensalmente, quando recebíamos o boletim, íamos no Grazziotin trocar por cupons para participar, no final do ano, de um sorteio de produtos aos melhores estudantes da cidade. Mas era só para quem tinha MB e Ótimo. Lavei a égua com uma montoeira de novas boas. Enchi a guaiaca de cupons de boas notas durante o ano.


Lá por dezembro, antes das férias e após a entrega dos boletins, acontecia uma tarde de espetáculo com mágica, brincadeiras, distribuição de pipoca, algodão doce, balas e outras atrações no ginásio dos Maristas. No domingo marcado para o grande evento, alguém me levou e nem prestei muita atenção no mágico e nem nas outras apresentações. Só queria saber  dos brindes.


Começou o sorteio e nada de eu ganhar alguma coisa. Já findando o sorteio o locutor grita o nome tirado do globo:


  • O sorteado é o aluno da Escola dos Subúrbios, Benhur Antonio Cruz de Lima. O povaréu todo aplaudiu e ele ficou me chamando para receber o presente.


 Envergonhado, demorei para sair lá dos fundos, atravessar o ginásio todo, subir a escadinha de madeira que dava acesso ao palco e receber o brinde. Eu tinha 9 anos e enfrentar um ginásio de esportes lotado com milhares de pessoas me deixou meio sem graça. Subi ao palco e ele fez mais uns gracejos e anunciou:


  • Como você foi um bom estudante e teve notas boas, aqui está um presente da rede de lojas Grazziotin e me entregou uma bela caixa vermelha com um jogo de talheres inoxidáveis. Aquilo me encheu os olhos. Me abracei naquela caixa e voltei rápido para meu lugar. Já queria ir embora para levar para casa. Vai que me pedem de volta… ou me roubem no meio do povo..


Não via a hora de chegar em casa e dar de presente para minha mãe. Acho que foi o primeiro presente que dei a ela. Anos depois quando comecei a trabalhar a primeira compra foi uma máquina de lavar daquelas que parecia um tonel de madeira. Ficava na cozinha assim evitava que ela tivesse de  descer até o tanque que ficava no porão úmido e no canto atrás do tanque de roupas morava um sapo gordo. Boas lembranças.


Ahh, devo lembrar que só naquele ano fui um aluno MB e Ótimo, no meio século seguinte apenas mediano entre notas de 5 a 7, mas “Tão bão ansim”.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

A alegria de um latido

 A alegria de um latido



Quem não se sente bem ao ser recebido com um abano de rabo, um latido e uma lambida de seu cachorrinho (a) ou um miado e dengo de seu gatinho (a). É como a letra da música do baiano Dorival Caymmi: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Vale para quem não gosta de animais


Tive vários cachorrinhos desde criança e na vizinhança acho que tinha mais cachorros do que gente, o que ocorre hoje na minha rua. Uma rua pequena, mas cada casa tem no mínimo 2 e em algumas chega a cinco.


Mas me remeto há 40 anos quando em feriados, eu voltava para Erechim para visitar a parentagem, principalmente o pai e a mãe. Nunca avisava quando ia, para evitar que gastassem em fazer comida para agradar.


Quando “dava na telha” e sobrava uns trocados ia na rodoviária e seguia o destino. De Porto Alegre saia o Unesul às 23h30min e chegava em Erechim por volta das 6h. Da rodoviária eu ia a pé até em casa, pouco mais 2 quilômetros. Carro de praça era caro. Em meia hora de trote estava me aproximando de casa.  Andando pela Avenida Sete fui acompanhando ao longo dos anos a destruição das pequenas casas e o surgimento de edifícios residenciais e comerciais. Perda de qualidade de vida. Não sei qual a graça de trocar uma casa com terreno, cachorros e gatos por um cubículo apertado e horrível. 


Chegando perto de casa, rua em silêncio, nada de carros, nem pessoas. Vizinhança toda dentro de casa, cachorrada dormindo. Uns 20 metros antes eu já anunciava minha chegada, que era inconfundível, inimitável. Começa a latir forte, imitando um cachorro grande, depois um cachorro pequeno, um rosnado e simulava uma "discussão" entre cães grandes, pequenos,  gatos e um macaco metido que inticava com a cachorrada.


Era uma confusão de au au, graurrrrr e miau que alarmava a vizinhança.


Com a barulheira toda estava armada a confusão e como o quarto da mãe e do pai era o da frente da casa de madeira onde morávamos, eu ouvia:


  • O Benhur chegou, vou abrir a porta e fazer um café- falava a mão para o pai que ficava um pouco mais na cama.


Este era meu latido poderoso que dava alegria para quem me criou, me amou e encaminhou na vida. É claro que eu não abanava o rabo, mas dava um abraço bem apertado e beijos carinhosos, afetuosos e agradecidos por tudo.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Professor Vaz e a minha dúvida sobre os coelhinhos

 Professor Vaz e a minha dúvida sobre os coelhinhos


Lá por 1984 quando comecei a cursar jornalismo na Universidade Católica de Pelotas, logo já tínhamos um grupinho de colegas que se afeiçoaram mais e fizeram amizades e alguns professores também. Um deles era o Vaz. 


Certa vez ele me contou uma historinha que custei a acreditar. Passados mais de três décadas continua a dúvida. Em nosso encontro de 30 anos de formados em 2018, quase não sai pela greve dos caminhoneiros e falta de combustíveis, perguntei ao Vaz sobre a veracidade. Ele afirmou de orelhas juntas  que era verdade. Continuo em dúvida.


Mas recebi o livro de memórias escrito pelo professor Luiz Carlos Vaz, A História de Abel, e estou me divertindo com tais histórias. Infância semelhante à minha lá pelos morros de Erechim, bem diferente da campanha de Hulha e Bagé.


Ainda não terminei o livro. Chegou ontem, li uma parte e hoje devoro o restante. Até agora nenhum relato dos coelhinhos.


Nunca contou para vocês?


O Professor Vaz criava coelhos. Tratava, deixava o bichinho grande, gordinho de olhos vermelhos de pelo branquinho e um dia… TUM! Só uma batida na cabeça bem no meio dos olhinhos. O bichinho virava os olhinhos e dali em diante seria um bom assado além de tapetes, luvas e gorros para enfrentar o frio da pampa gaúcha.


Será que ele confirma?



quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Filosofadas do gringo da churrascaria

 Filosofadas do gringo da churrascaria



A prosa sem compromisso com o gringo dono da churrascaria sempre era boa.  Além da boa carne, de procedência não verificada, pois fofocavam que era de abigeato, os aperitivos de entrada faziam a alegria dos clientes. 


Os aperitivos ficavam numa ampla mesa, na entrada da churrascaria, à esquerda do salão, encostada numa parede com duas flâmulas fixadas na parede milimetricamente a do Inter e a do Grêmio e tinha mais para o lado a  do Ypiranga Futebol Clube. Havia um sortido de garrafas de aperitivos. Agradava a todos. 


Tinha cachaça com butiá, com morango, abacaxi, ervas e uma garrafa esquisita cheia de formigas. O gringo jurava que o veneno da formiga era poderoso para várias doenças, inclusive “ficar forte com as mulheres”.


Como o gringo era zoneiro, o pessoal até acreditava. Era casado com uma italiana vistosa, mais bonita que laranja de amostra. Ela sim atraia olhares e encantava os clientes.Muitos iam na churrascaria só para ver a Sofia Loren da churrascaria, pois a beleza era igual a da artista italiana. Quando ela atravessava o salão, a churrascaria parava e não se ouvia nem zunido de mosquito. 


De vez em quando meu sobrinho Fábio Pichler quando sobrava uns trocados ia almoçar lá na churrascaria, mais para ouvir a filosofia profunda do gringo.


Num sábado por volta das 11 horas os dois estavam no balcão do caixa e a prosa ia esquentando. O gringo no caixa e Fábio sentado num banco daqueles alto de balcão de bar. Se aventurou na dose da formiga com cachaça, pensando “vai que faz efeito”. O gringo começou a “queimar campo” contando as façanhas e aventuras na zona de Erechim e meu sobrinho viu o perigo das confissões. Gringo não viu a Sofia Loren se aproximar e ouvir a conversa toda. Ela Só pegou uma toalha dessas que usam para limpar as mesas e tacou na orelha do gringo. Ele nem viu de onde veio o marimbondo. Ficou dois dias com o ouvido zunindo.


  • Te fiz sinal, seu gringo carniça!  disse meu sobrinho e o gringo desatou no gemido e na filosofia.

  • Esta gringa do demônio não sabe o quando eu amo ela. Ela que  nem chega perto de mim e o pior de tudo é não ser amado. 

  • - Mas como não ser amado? Ela vive aqui, trabalha com você e cuida de tudo e ainda ficou com ciúmes das tuas mentiras, argumentou meu sobrinho.

  • Nada! é uma ingrata. Dorme no outro quarto e você tem que entender meu sofrimento, disse o gringo abrindo o coração. Pegou um garrafão de vinho que guardava nos pés dele, embaixo do balcão do caixa da churrascaria. Encheu um bicherote de tinto seco e tacou nos beiços. Tomou tudo num gole só. Os olhos já ficaram vermelhos, a pele mudou de cor e uma lágrima caiu de seus olhos. 

  • O que houve vivente?. Para com isso- disse Fábio tentando acalmar o gringo que suspirou profundamente e largou uma filosofia que traduzia sua vida

  • “Muié feia é que nem pantufa. Dentro de casa vai, mas na rua dá uma vergonheira” Mas  esta daí que me maltrata é bonitona mas não me quer e eu  nem quero mais saber de ninguém nem da vida porque “um homem amar sem ser amado é que nem se limpar sem ter cagado”. 



Depois desta filosofada profunda, só restou ao meu sobrinho terminar a dose de cachaça com formiga e correr para casa para ver se faz efeito, antes que “Sofia Loren” voltasse com o pano de louça molhado.


Conselho, sempre olhem pelo espelho ou dêem uma olhada para trás.


O AUTO DA APARECIDA