sábado, 26 de março de 2022

A Fogueira Santa e a cobra dedo-duro

 A Fogueira Santa e a cobra dedo-duro




Nos anos 60 e 70 era comum grupos missionários, geralmente charlatões, fazerem pregações nas praças públicas, inevitavelmente no centro das cidades, reunindo um bom público, pois na época pouco se tinha para fazer. Não era comum ter televisão, que estava engatinhando na casa dos brasileiros e nas cidades menores do  interior chegou mais tarde.


A diversão era dar um passeio pelo centro da cidade nas noites quentes, olhar as vitrines. Eu corria para a Plasticolândia, pois na vitrine haviam os melhores e mais lindos brinquedos da Estrela e sempre montavam um trem elétrico, denominado Ferrorama ou um autorama que ficava ligado, para encher os olhos da criançada. Era coisa de rico. Não podia comprar, mas olhar era de graça. Vitrine de encher os olhos, grande, loja bem iluminada e cheia de brinquedos.


No final dos anos 60 teve uma semana de pregação na Praça da Bandeira, em Erechim, ao lado do chafariz, para o lado do “Castelinho” (antiga Comissão de Terras e Colonização). Lá pelas sete horas de uma  noite quente passamos pela praça e percebemos a movimentação. Já havia um círculo grande de pessoas em volta de um grupo de pregadores com vestimentas espalhafatosas e que “oravam” com fervor. E ia juntando gente. Eu estava interessado na melancia que geralmente a gente comprava para refrescar o calor noturno. Após a melancia uma pitada de sal para não fazer mal. Na volta para casa havia caminhões com barracas e cargas de melancia na praça Daltro Filho.


No meio da multidão um pregador gritava com toda força que podia. Entoava hinos, balançavam bandeiras e levantava as mãos para o céu e o povaréu, ali. Alguns incrédulos, outros já de joelhos, outros acompanhavam a reza de olhos fechados, mãos espalmadas ao alto. E também tinha um piazote metido, que só estava observando e de olho em tudo à sua volta.


  • Aqui tem um homem que bebe todo dia e não dá nada para a família! Bradou o pregador. Neste momento começou a movimentação, uns olhando para os outros, mulheres cutucando o marido com o cotovelo nas costelas, filhos querendo falar alguma coisa e os pais mandando calar a boca e prestar atenção.


  • Em vez de beber cachaça, jogo do bicho ou gastar com aquelas moças ali atrás da Prefeitura, deveriam ajudar nossa pregação. É hora do ofertório. E as obreiras passavam um saquinho de pano branco com uma cruz finamente bordada. 


E o piazito metido não parava quieto. - Pai, pai, tem dinheiro aí? Questionava o patriarca, com cara de poucos amigos. Não tenho nada guri. O que tenho é para a melancia, respondeu. Mas o piá metido enfiou a mão no bolso do pai, pegou 10 cruzeiros e jogou dentro da sacolinha. Aquilo ferveu o sangue do pai que ficou com vontade de dar um aplauso na orelha do filho, mas se conteve em meio a multidão.


E segue a pregação. 


  • Irmãos, chegou a hora de queimar os pecados na Fogueira Santa.  Quem não atirar seus pecados aqui vai queimar com a bola de fogo que virá do céu. Bateu o pavor no pessoal. 

  • Joguem no centro deste círculo um papel com seus pecados, as revistas de mulher pelada, as fotonovelas que empobrecem e aprisionam a alma, os jornais que trazem notícias tristes. Vamos queimar todo o pecado para a vida seguir. Ordenou o pregador que fez sinal para uma assistente. Ela sim cometeu um crime. 


Entrou no meio do grupo com um turíbulo ardente. Lá dentro uma chama que ele jurava ser da fogueira ardente do Monte Sinai. Rasgou um pedaço da famosa Penthouse americana, uma revista sueca e o sacrilégio um quadrinho do Zéfiro. Principiaram o fogo. Alguém correu, trouxe uma Playboy e jogou na labareda, que se alastrava com jornais, revistas, panfletos e alguns livros que julgavam comunistas.


Logo em seguida foi a vez do cigarro. Os fumantes atiravam seus maços de cigarro no fogo e o piazote levou a mão no bolso da camisa de tergal do cunhado, arrancou o maço de cigarro Hudson com ponteira, de embalagem verde  e “pinchou no fogo”. Agora o cunhado estaria curado. 


Seguiu a pregação combatendo o vício da bebida. Todos deveriam esvaziar suas garrafas em casa e não frequentar os botecos, pois ali deixavam o moral, a saúde e o dinheiro que faltava em casa. Quando o piá ia falar algo, só disse - AAiiiiiiii. Era a mãe que lhe aplicou um beliscão com vontade.


E o piazote metido arrancou o Correio do Povo que o pai dele segurava entre o corpo e o braço. Correu e incendiou as notícias que o pai nem lera, pois só o faria quando chegasse em casa após exaustivo dia de trabalho. Aquele dia o pai nem pode ouvir o Correspondente Renner na Rádio Guaíba e queira se inteirar das novidades.


E segue a pregação e a queimação dos pecados na dita  Fogueira Santa. Papelório queimando. Surge uma senhora de idade avançada e joga os biquínis da neta, que julgava serem imorais e coisa do demônio. E o piá gritou - Isso mesmo vó. Eu sei que ela usa para pecar! Todos olharam e o metido que ficou com os olhos fixos na fogueira que ardia os pecados e transformava em fumaça. Através da fuligem que subia, simbolizando os pecados queimados, se via a antiga Catedral São José, que foi demolida para dar lugar a um prédio ridículo que mais parece um ginásio de esportes.


Quase no final da pregação, todo paramentado o dito pastor chama um assistente com uma caixa de madeira medindo 50 cm x 50 cm com furos em cima e aparentemente uma abertura na lateral.


  • Vocês já ouviram falar dos 7 pecados capitais e hoje queimamos estes pecados na Fogueira Santa. Mas tem mais um pecado: o da Luxúria. O Irmão Aderbal vai revelar as mulheres e homens que namoram mais de uma pessoa ao mesmo tempo. 


Aí a platéia começou a murmurar, ver para os lados, alguns fuzilavam vizinhas com olhares de atirador de elite, outras comentavam à boca pequena, se cutucavam, apontavam. 


  • Agora o Irmão Aderbal vai soltar uma poderosa e venenosa cobra sábia que trouxe da escuridão da floresta africana e com conhecimentos dos faraós do Egito. Ela vai percorrer o círculo de fogo, dará três voltas e vai parar em frente a maior pecadora. Depois seguirá para os pecadores que são muito namoradeiros também.


Aí o piá deu um pulo, correu em direção a uma vizinha, que morava próximo a casa deles, mas que namorava um padre famoso de uma cidade próxima,  tocador de gaita, cantor e que todos gostavam, Mas Toda semana vinha tomar um café  e às vezes ficava até o outro dia. A vizinhança fofoqueira sabia de tudo.


Naquela altura todos se viraram para o guri.


  • Tia, tia, vamos embora a cobra vai te pegar! Gritou a plenos pulmões pegando pela mão da “Tia” para lhe salvar da cobra inquisidora. Ali acabou a pregação da fogueira que queimava os pecados. Todos caíram na gargalhada e para alívio de centenas só uma foi crucificada. A tia disfarçava. - Para com isso guri, o que vão pensar de mim?


Com isso houve dispersão geral e rápida, vai que mais alguém aponte o dedo-duro de cobra africana egípcia.Os  pregadores trataram de recolher as cinzas pecaminosas.


Naquela noite foram embora sem a melancia, pois o metido havia dado o dinheiro para os charlatões. 


Aconselho que se avistarem um círculo de gente numa praça pública e alguém vociferando alguma pregação, faz de conta que não viu, passa para o outro lado da calçada e segue teu rumo. Vai que a cobra fofoqueira africana ainda esteja por aí apontando em sua direção.



quarta-feira, 23 de março de 2022

A mula sem cabeça veio me buscar

 A mula sem cabeça veio me buscar



Era noite de inverno, vento assobiando, chuva fina e o breu da noite era assustador. Cheguei em casa por volta das nove horas da noite. Na época com 24 anos eu nada temia, Nem assombração, nem tempestade e muito menos  Saci Pererê e Mula Sem Cabeça.


Logo que me formei na Universidade Católica de Pelotas, já estava empregado e com dois bons empregos. Era redator e  locutor da Rádio Atlântida FM e chefe de jornalismo da RBS TV de Pelotas, o que me garantia uma boa renda para um rapaz solteiro.


Tratei de comprar um terreno na praia do Laranjal, e comecei a construir uma casa, sem financiamento e sem dívidas. Combinei com o pedreiro que iria construir aos poucos. Projeto de casa simples com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Concluído o fundamento da casa, ele ergueu uma parte que incluía o banheiro e uma peça. Alí fui morar e aos poucos fui construindo o resto da casa.


Mas o inusitado ocorreu em uma noite chuvosa e gelada de uma quinta-feira. Desci do ônibus da Transportes Santa Maria, no ponto perto da Mercearia Hilda,  levantei a gola do sobretudo de lã da marca Alfred, que havia sido de meu pai. Era quentinho e com mais de 30 anos de uso continuava inteiro e aquecendo. Atravessei a avenida e caminhei na pequena rua, encharcada, cheia de buracos, poças enormes que tinha de ir desviando e com fraca iluminação que dava acesso a via onde eu morava. O vento que assobiava entrava pelas frestas dos botões do sobretudo e gelavam o peito, as costas e deixavam as mãos encarangadas. Como se diz no Rio Grande do Sul, era um frio de renguear cusco.


Entrei em casa, cansado, pois trabalhava das 6h até 20 horas todos os dias. Estava morto. Larguei a indumentária no sofá que servia de cama também, comi um sanduíche e adormeci, ouvindo os uivos do frio cortante.



Na madrugada gelada acordei com um barulho estranho perto da minha janela. Meio sonolento levantei e fui espiar pelas frestas da veneziana para me certificar que resmungos eram aqueles. Mistura de gemido, crepitar de fogo e relinchos.


Ao olhar, tive um sobressalto. Me veio a consciência que espantou a sonolência. O coração disparou e fiquei bem quieto. Era assustador. Estendi a mão e peguei o rosário, que ficava pendurado junto a um  crucifixo sobre estante de tijolos e tábuas onde eu deixava  uma estátua pequena da Santo Antônio, feita em prata, que perdi nas minhas várias mudanças. De joelhos no piso duro, puxei a rezaria. Em certa altura já estava orando em castelhano. 


  • Padre nuestro, que estás en el cielo, Santificado sea Tu nombre; Venga a nosotros Tu reino; Hágase Tu voluntad en la tierra como en el cielo. Alternava para o português e suava frio. Me salve dessa! Implorava!


Isto é coisa mandada, ou chegou minha de hora de prestar contas com o coisa ruim ou com São Pedro. 


Alí na frente de casa  estava me esperando nada menos que a

Mula Sem cabeça. Uma bola de fogo, queimando, labareda alta na noite escura, que nem mesmo a chuva era capaz de apagar.


Pensei em sair pela porta dos fundos e correr para a cara do seu João, um bom vizinho que sempre cuidava da casa dos outros nas ausências, mas era distante  uns 50 metros. Era a moradia mais próxima. Mas se o trote da bicha for firme eu não conseguiria. Me pegaria no galope. Melhor ficar dentro de casa, rezar e esperar que amanheça.


Aquela agonia durou algum tempo e a chuva não parava, o vento cortava o silêncio da noite.

 

Mas logo se desfez o mistério do além. Quando ouvi sirenes, me animei e abri um pouco a janela, meio desconfiado. Vai que a Mula sem Cabeça me puxa e me leva. Só tinha 24 anos, jovem demais para descer aos calabouços onde governa o Capa Preta.


Vi uma nova perspectiva. Ai fiquei valente, abri a porta, sai e respirei fundo


  • Xô vai te embora daqui! Ordenei dando um tapa na anca do animal. Assustada saiu trotando rumo à escuridão.


Enquanto isso, do outro lado da rua os bombeiros apagavam um incêndio num casebre abandonado.


O que era a Mula sem Cabeça


Quando olhei pela fresta vi um animal com cabeça de fogo, mas era um cavalo pastando, de cabeça abaixada e pelo ângulo da fresta da veneziana na minha janela, no lugar da cabeça onde eu via uma bola de fogo,  era o incêndio logo adiante.


Pelo menos a noite serviu para rezar o terço e me precaver. Tratei de colocar uma cerca e uma lâmpada de 100 velas para o lado de fora. Plantei também arruda, espada de São Jorge e joguei no portal da casa um litro de água benta misturada com cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Não poupei gastos. Vai que ….Bem.. mas hoje é quinta-feira. Estou ouvindo relinchos vou lá espiar pela janela.





domingo, 20 de março de 2022

Poliglota

 Poliglota



Há muitos anos passei em frente ao Bar Glória do Rudi, num final de  tarde quente. Pedi uma cerveja gelada para refrescar, espantar a poeira e limpar a garganta. Como sempre meia dúzia de gambás que batiam o ponto debruçados no balcão e numa mesa de canto um homem falando sozinho. Imaginei, deve ser mais um doidinho desses que andam por aí, ou já encheu os cornos de schnaps.


Servi  o primeiro corpo e bebi com gosto num gole só. Enchi o segundo copo Catarina, um luxo para o bar, mas tinha alguns exemplares. Enquanto bebericava, ouvia o sujeito falar sozinho em quatro idiomas.


  • Come set here. Entendi perfeitamente e até pensei que fosse um convite para fazer companhia ao falante solitário.


  • s'il vous plait, approchez-vous. Também entendi. Nessa altura eu já havia bebido três copos de cerveja e com certo nível de bebidas a gente fala até russo e javanês.  Pensei, o que este cara tá querendo. Convidando quem chegar mais perto?


Continuei na observação e pedi um Boonekamp que é bom para digestão, uma bebida joinvilense feita de ervas. Mais amarga que a saudade de um amor desfeito. Um pouco de silêncio e o cliente pediu uma branquinha. O bolicheiro levou. Ele bebeu num gole só aquele copinho feito para uma dose da “marvada”.


  • Kommen Sie näher, um Wurst zu gewinnen! Falou o homem com tom mais enérgico. Como não entendo nada de alemão. Perguntei a outro cliente o que ele havia falado. Aquela língua é bem difícil. Um senhor de uns 70 anos, roliço feito barril de chope, rosto vermelho e com estrias marcantes no rosto. Tirou o boné e me olhou e traduziu: - Vem mais perto para ganhar linguiça.




Imaginei com meus botões. Este cara está de palhaçada.


Servi o quarto e último copo de cerveja, terminei o Boonekamp em um gole só e me levantei bruscamente para ir em direção ao banheiro antes de ir para casa. Fui em direção a mesa do falante solitário, que ficava perto da porta do banheiro, só masculino porque dificilmente alguma dama entraria ali.


Alí se desfez o mistério e meu pavor ficou estampado no rosto. Tremia, sem condições de correr porta afora. Congelado e imobilizado, assim fiquei.


Saiu de trás de um monte de engradados de garrafas vazias um enorme rottweiler, com cara de poucos amigos, dentes afiados e sentido matador aguçado


O gigante me olhou, olhei para ele e o latido foi ouvido a quilômetros na velocidade da luz. Paralisei. Vi minha alma saindo do meu corpo e lá de cima me vi com a jugular sangrando e o rottweiler se deliciando num pescoço gordinho.


Sorte que foi momentos de pavor. Em seguida o solitário falante ordenou:


  • Margarida, deixa o moço passar, senta aqui e come a linguiça com mostarda. Prontamente a Margarida me deixou passar e delicadamente começou a engolir os pequenos pedaços da Schweinswurst.


Passado o susto, me aproximei, perguntei ao acompanhante da Margarida como ela era poliglota. E ele esclareceu. Haviam morado no Canadá onde se fala inglês e francês. Até aí entendi, a Margarida foi alfabetizada bilíngue. E o alemão?  A avó do dono da cachorra era moradora do Glória, falavam alemão em casa e Margarida ouviu e aprendeu e quanto ao português ela aprendeu nos botecos mesmo.



Guten Sonntag

Bon dimanche

Good Sunday

Bom domingo, Margarida.


E como hoje é domingo dia 20 de março, aproveitem para conhecer o Arquivo Histórico de Joinville que completa 50 anos. Durante todo o dia haverá visitação guiada e programação cultural. O Arquivos Histórico fica na beira rio. 


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Diana a Rainha Guerreira



Diana a Rainha Guerreira





Era uma manhã de sábado em outubro de 2006. Fui na Agropecuária 15 comprar ração para tartarugas e pássaros ao ar livre e para a Athena, uma pinscher que já tínhamos.




Logo na entrada havia um cercadinho de tela com vários filhotes para adoção. Peguei a Isis, uma cachorrinha de pelagem preta e trouxe para casa. Era um presente para meu filho menor Victor. Chegando entreguei a nova amiguinha e falei que eram duas irmãs gêmeas. Peguei a pretinha e lá ficou a marrom. Ele argumentou, com seis anos, que era injusto separar as irmãs; Voltei rápido na agropecuária e por sorte a marrom ainda estava lá. Trouxe também.Ela poderia ter cativado outra pessoa, com seu olhos cor de mel, neste pequeno tempo que me desloquei de ida e volta.




Os irmãos Victor e Arthur as batizaram de Diana, a Rainha Guerreira (marrom) e a Isis, Poderosa Isis, a Deusa da Fertilidade na Mitologia egípcia que espalhou pelo mundo greco-romano.




Nos últimos tempos, já com quase 16 anos, o equivalente a serem idosas, se comparadas a humanos, já apresentam sinais de demência, dificuldades de andar, de se alimentar e mesmo com todos os remédios e internações e cuidados, o ciclo da vida se encerra.




Diana é a divindade da lua e da caça, muito poderosa e forte. Pode ser também a Mulher Maravilha dos desenhos da DC Comics. Mas para nós era alguém muito amada, querida, uma caçadora de emoções, uma conquistadora de carinho, de amor, mesmo com seus pulos e beiçadas fortes.




Nos últimos dias as convulsões aumentaram, e sobreviveu mais um tempo em coma induzido e com sonda para se alimentar. Muito sofrimento para quem recebeu e deu amor, carinho, companhia e muitas brincadeiras. Além de cuidar de todos e da casa.




Caçadora rápida. Não havia camundongo que ela não pegasse, mas também abatia pássaros. Sentiremos muito sua falta, mas sua gêmea que fica a Isis já sente sua ausência.




Os irmãos Francisco, também idoso já está ranzinza e cria encrenca com qualquer um que tente atravessar a porta onde ele se acomoda todos os dias. E o Banzé o mais jovem com 10 anos continua ágil e metido.




Mas nos últimos dias os olhos deles estão tristes. É claro que entendem o que está acontecendo. E lêem nossa alma, também. São sensíveis, adoráveis, amorosos e capazes de ler o interior de cada um de nós.




Diana nos deixou na tarde de segunda-feira de Carnaval. Certamente já está com sua fantasia de Mulher Maravilha pulando com São Francisco o protetor dos animais.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Gritos suplicantes na madrugada

 


Gritos suplicantes na madrugada


Os gritos de desespero sussurrados, se ouvia fracamente ao longe. Um calafrio correu pela espinha, uma sensação horrível de algo ruim acontera. Era noite escura, e por volta das duas horas da madrugada os gritos vinham de longe trazidos pelo vento gélido da noite. Uma voz fraca, e carregada de sofrimento, de solidão e desespero agonizava um pedido de ajuda.


  • Socoooorroooo!. Me ajudem. Por favor…estou morrendo. Alguem ajuda!  No silêncio da noite se ouvia este clamor que poderia ser de gente, ou de coisa ruim mandada para atormentar. Poderia ser uma alma penada, ou imaginação de quem ouviu.


Assim seguiram os pedidos aflitos, tormentosos querendo  ajuda. Mas o que será que houve? Pouco se ouvia ou via alguém naquela casa.


Um vizinho levantou para ir ao banheiro e ouviu essa súplica. Chegou na janela para verificar se realmente era real ou foi um sonho ou uma peça de sua idade avançada, também.


A mulher dele também levantou e ouviu o mesmo martírio . Não teve dúvidas e percebeu que era algo sério. Telefonou para a polícia, relatou o ocorrido e deu o endereço. A resposta foi imediata, e em pouco tempo uma guarnição da Brigada Militar chegou ao portão da casa e ouviu gemidos profundos de grande sofrimento. Os dois brigadianos abriram o portãozinho, entraram no terreno pouco iluminado, e com muita vegetação, pois havia muitas plantas. Repentinamente uma luz veio do céu e um foco do luar levou diretamente ao local que deveriam procurar.  O soldado da BM encontrou-a deitada no pátio, desacordada e com muitos ferimentos. Magra, suja, ferida, doente e faminta. 


Tentaram perguntar o que houve, se ocorreu assalto, violência, mas a fraqueza da idosa não permitia que falasse. Apenas apontava com o indicador para a casa e com olhar desesperado balbuciava algo sem que os soldados pudessem entender.


Enquanto um passava um rádio pedindo ambulância, o outro foi averiguar a casa Percebeu a porta  aberta. Entrou lentamente com cuidados, pois poderia ter sido obra de algum malfeitor que poderia ter assaltado a casa e agredido a senhora de 84 anos. Afinal ela foi encontrada caída sem sentidos no terreno onde estava desde a tarde e só recobrou a consciência para gritar por ajuda na madrugada seguinte.


O soldado foi pé ante pé em todos os cômodos, certificando de não haver um assaltante na residência.  Dentro da casa de madeira, outra cena horrível para qualquer ser humano. Um cenário de tristeza, desolação, falta de humanidade, de amor , de carinho, atenção saúde, de higiene, de solidariedade. 


O soldado que entrou na casa não conteve a emoção e engoliu o choro ao ver a situação. De longe sentiu o cheiro horrível da falta de higiene pessoal e necessidades feitas ali mesmo.


Afundada em uma cama, colchão mal cheiroso, estava a irmã mais velha de 90 anos que estava muito doente e precisando de atenção. Foram levadas para o hospital público, recebendo toda atenção e cuidados necessários. Não havia parentes e nenhum registro para quem telefonar, nunca tiveram filhos e não gostavam de crianças nem de vizinhos. A mais nova de 84 anos morreu no dia seguinte, de infarto, aliado aos machucados da queda e do rastejamento no dia anterior em busca de socorro. A mais idosa, finalmente voltou às origens. a BM achou uma sobrinha que a acolheu em seus últimos dias ou horas. 


Viveram sozinhas nos últimos 50 anos, uma cuidava da outra. Vieram de uma cidade próxima, Barão do Cotegipe, onde venderam uma pequena propriedade e compraram uma casa boa próxima ao centro. Mas nunca quiseram amizades, vizinhança e seus atos eram de rejeição a qualquer contato com os vizinhos.


Primeiro ato foi arrancar o portão que dava acesso ao nosso terreno. Não queriam contato algum. Reclamavam de folhas que caíam no terreno delas e da água da chuva que escorria.


Nunca cultivaram amizades com vizinhos, que na verdade são os melhores parentes, pois podem te socorrer em uma noite de agonia.


Cultivem amizades, cumprimentem, sejam gentis. Informe seu telefone e escreva possíveis problemas que você possa ter e algum contato em caso de “precisão” conforme dizia minha avó.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

1973 um ano de grandes conquistas

 1973 um ano de grandes conquistas



Estava na terceira série do primário no Ginásio Estadual das Subúrbios, hoje se chama João Germano Imlau. Vinha da segunda série, fraco com o boletim tapado de S, na avaliação da professora Neli Maffessoni,  pois na época  os alunos recebiam os seguintes conceitos: Insuficiente, Suficiente, Bom, Muito Bom. 


Aprovado da segunda para terceira série, meio que empurrado, agora a coisa era mais séria e entravam mais matérias. Também mudava de  professora. As aulas eram com a professora Jandira Bisognin. Como eu vinha meio fracote, acabaram minhas tardes livres de correr pelas ruas, andar de bicicleta, ver tv, que era o máximo que tínhamos no século passado.


Nem adiantava a piazada ir lá em casa me convidar para ir pra rua. Foi um ano de clausura estudantil para ver se entrava alguma coisa na cabeça. Minhas aulas eram de manhã e após o almoço, ajudava com a louça, descia as escadas nos fundos de casa até o  pátio, brincava com o Bolinha, meu cachorro, atravessava o terreno, passava pelo temível Kelly, um cão tigrado de 18 anos ou mais já sem dentes que ficava embaixo de uma laranjeira,  e subia a escada dos fundos que dava numa despensa e na cozinha da casa da minha irmã Pepita. Se eu falar o nome dela ninguém vai saber. Mas o nome é Belmy, mas há mais de 70 anos é Pepita.


Naquele 1973 o estudo em casa foi árduo mas com excelentes resultados. Pelo menos 3 horas de estudos e nada de Jim das Selvas, nem Tarzan, muito menos National Kid e Batman. Correr de bicicleta na volta da quadra só depois de terminados os estudos e feito o “tema de casa”.


Naquela época a rede de lojas Grazziotin premiava os melhores alunos. Mensalmente, quando recebíamos o boletim, íamos no Grazziotin trocar por cupons para participar, no final do ano, de um sorteio de produtos aos melhores estudantes da cidade. Mas era só para quem tinha MB e Ótimo. Lavei a égua com uma montoeira de novas boas. Enchi a guaiaca de cupons de boas notas durante o ano.


Lá por dezembro, antes das férias e após a entrega dos boletins, acontecia uma tarde de espetáculo com mágica, brincadeiras, distribuição de pipoca, algodão doce, balas e outras atrações no ginásio dos Maristas. No domingo marcado para o grande evento, alguém me levou e nem prestei muita atenção no mágico e nem nas outras apresentações. Só queria saber  dos brindes.


Começou o sorteio e nada de eu ganhar alguma coisa. Já findando o sorteio o locutor grita o nome tirado do globo:


  • O sorteado é o aluno da Escola dos Subúrbios, Benhur Antonio Cruz de Lima. O povaréu todo aplaudiu e ele ficou me chamando para receber o presente.


 Envergonhado, demorei para sair lá dos fundos, atravessar o ginásio todo, subir a escadinha de madeira que dava acesso ao palco e receber o brinde. Eu tinha 9 anos e enfrentar um ginásio de esportes lotado com milhares de pessoas me deixou meio sem graça. Subi ao palco e ele fez mais uns gracejos e anunciou:


  • Como você foi um bom estudante e teve notas boas, aqui está um presente da rede de lojas Grazziotin e me entregou uma bela caixa vermelha com um jogo de talheres inoxidáveis. Aquilo me encheu os olhos. Me abracei naquela caixa e voltei rápido para meu lugar. Já queria ir embora para levar para casa. Vai que me pedem de volta… ou me roubem no meio do povo..


Não via a hora de chegar em casa e dar de presente para minha mãe. Acho que foi o primeiro presente que dei a ela. Anos depois quando comecei a trabalhar a primeira compra foi uma máquina de lavar daquelas que parecia um tonel de madeira. Ficava na cozinha assim evitava que ela tivesse de  descer até o tanque que ficava no porão úmido e no canto atrás do tanque de roupas morava um sapo gordo. Boas lembranças.


Ahh, devo lembrar que só naquele ano fui um aluno MB e Ótimo, no meio século seguinte apenas mediano entre notas de 5 a 7, mas “Tão bão ansim”.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

A alegria de um latido

 A alegria de um latido



Quem não se sente bem ao ser recebido com um abano de rabo, um latido e uma lambida de seu cachorrinho (a) ou um miado e dengo de seu gatinho (a). É como a letra da música do baiano Dorival Caymmi: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Vale para quem não gosta de animais


Tive vários cachorrinhos desde criança e na vizinhança acho que tinha mais cachorros do que gente, o que ocorre hoje na minha rua. Uma rua pequena, mas cada casa tem no mínimo 2 e em algumas chega a cinco.


Mas me remeto há 40 anos quando em feriados, eu voltava para Erechim para visitar a parentagem, principalmente o pai e a mãe. Nunca avisava quando ia, para evitar que gastassem em fazer comida para agradar.


Quando “dava na telha” e sobrava uns trocados ia na rodoviária e seguia o destino. De Porto Alegre saia o Unesul às 23h30min e chegava em Erechim por volta das 6h. Da rodoviária eu ia a pé até em casa, pouco mais 2 quilômetros. Carro de praça era caro. Em meia hora de trote estava me aproximando de casa.  Andando pela Avenida Sete fui acompanhando ao longo dos anos a destruição das pequenas casas e o surgimento de edifícios residenciais e comerciais. Perda de qualidade de vida. Não sei qual a graça de trocar uma casa com terreno, cachorros e gatos por um cubículo apertado e horrível. 


Chegando perto de casa, rua em silêncio, nada de carros, nem pessoas. Vizinhança toda dentro de casa, cachorrada dormindo. Uns 20 metros antes eu já anunciava minha chegada, que era inconfundível, inimitável. Começa a latir forte, imitando um cachorro grande, depois um cachorro pequeno, um rosnado e simulava uma "discussão" entre cães grandes, pequenos,  gatos e um macaco metido que inticava com a cachorrada.


Era uma confusão de au au, graurrrrr e miau que alarmava a vizinhança.


Com a barulheira toda estava armada a confusão e como o quarto da mãe e do pai era o da frente da casa de madeira onde morávamos, eu ouvia:


  • O Benhur chegou, vou abrir a porta e fazer um café- falava a mão para o pai que ficava um pouco mais na cama.


Este era meu latido poderoso que dava alegria para quem me criou, me amou e encaminhou na vida. É claro que eu não abanava o rabo, mas dava um abraço bem apertado e beijos carinhosos, afetuosos e agradecidos por tudo.


O AUTO DA APARECIDA