sexta-feira, 23 de julho de 2021

Anjo de Olhos Verdes

 Anjo de Olhos Verdes



Seguidamente eu ia até a Catedral Metropolitana São Francisco de Paula, em Pelotas, para rezar e apreciar a arquitetura e a arte, a beleza de suas formas, de suas esculturas, vitrais e afrescos. Uma obra linda iniciada em 1813, portanto há 208 anos.


Estudei e me formei na Universidade Católica de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul, lugar frio, úmido e chuvoso, quase uma Londres. Ficava mais parecida com a capital inglesa quando baixava o nevoeiro, denso como um fog. Algumas ruas escuras dava o ar nebuloso e amedrontador como se fosse Whitechapel, onde Jack o Estripador, o mais famoso serial killer da história e literatura deixou sua tenebrosa marca.


Certo tempo trabalhei na Rádio Pelotense, a primeira emissora do Rio Grande do Sul e terceira do Brasil, que ficava próximo a catedral e em alguns momentos de folga caminhava até a igreja para apreciar a beleza e rezar, também. Era uma caminhada de 300 metros, agradável em dias de sol, porém difíceis no inverno devido a baixas temperaturas, chuvas e ruas alagadas.


Não me cansava de ver  as linhas arquitetônicas, a abóbada, as colunas, o altar, as capelas e seguidamente, no mesmo horário por volta das 10 horas da manhã, percebia a presença de uma senhora, muito devota. Religiosamente estava lá, sempre no mesmo lugar. 


Era uma dama que aparentava uns 70 anos, porém com certo vigor em sua aparência e muito bem cuidada. Estatura média, talvez 1,60, cabelos encaracolados em tons de castanho escuro. Vestia sempre roupas finas. Dava para perceber que seus trajes não eram da Pompéia e sim de magazines de luxo, possivelmente até mesmo de fora. Vestidos bem cortados lhe caiam bem, casacos feitos sob medida, possivelmente confeccionados pelos melhores costureiros, feitos nos melhores tecidos. Em dias mais frios, não dispensava um xale de caxemira e luvas finas de seda, algodão e lã por dentro.


O terço, parecia uma jóia muito cara. Dourado, aparentemente ouro com pedras verdes e vermelhas. Imagino que seriam rubis e esmeraldas para combinar com os olhos verdes da senhora. Estes olhos fitavam o interior da catedral, enquanto os dedos passavam pelas contas do rosário. Seguidamente seus olhos apreciavam os afrescos do teto pintados pelo artista italiano Aldo Locatelli e Emilio Sessa, contratados pelo bispo Antonio Zattera nos anos 50  para eternizar sua arte no sagrado templo. Seus olhos brilhavam ao ver os anjos e os vitrôs  que homenageiam as famílias envolvidas com doações para a construção da Catedral, obras dos artistas italianos trazidos pelo bispo, além de ladrilhos hidráulicos e o piso de madeira originários de 200 anos atrás.


De muitas idas e vindas, muitas vezes a vi dentro da catedral. Algumas vezes, por educação,  a cumprimentei e ela apenas fazia  um movimento com a cabeça consentindo o bom dia. 


Em uma quinta-feira, de inverno, frio, mas com um sol lindo que inundava o interior da catedral com sua luz, tornava os vitrôs mais visíveis, mais lindos e embelezavam a imagem retratada. A luz do sol ultrapassava os vitrôs e refletia a imagem no chão e para quem olhasse diretamente os vidros não tinha como não admirar tamanha beleza. A dama do rosário de ouro, como sempre estava em seu lugar, na segunda fila próximo ao altar. Ela já havia percorrido as naves laterais, tinha feito sua oração e como  sempre estava contemplando as pinturas no teto. Vestia um sobretudo de lã branco, com um cinto da mesma cor, uma echarpe de lã igualmente também branco, com um monograma bordado na ponta em verde. Algo sofisticado. Calçava botas pretas com salto e forração interna de lã. Na mão uma bolsa feita em couro com pesponto dourado. Ali guardava uma pequena Bíblia e seu rosário. Ela levantou, foi ao altar onde havia uma pia, molhou a ponta dos dedos da mão direita e fez o sinal do sinal da cruz. Estava pronta para sair e quem sabe voltar no dia seguinte.



Para minha surpresa, sentou-se ao meu lado e puxou conversa:

  • Reparei que você vem sempre aqui na Catedral. Você aprecia esta igreja?

  • Sim. Acho um belo exemplo de arquitetura, tem história, tem beleza, tem arte e paz de espírito. Aqui agradeço e peço. Renovo minha fé, minha esperança para seguir meu caminho - respondi.

  • Você sabe um pouco da história desta Igreja?

  • Pouca coisa. Apenas sei que tem quase 200 anos e que é uma verdadeira obra de arte.

  • Isto é porque os anjos estão aqui!  Comentou que o artista contratado Aldo  Locatelli era muito talentoso e dedicou-se muito. Retratou muitos rostos de pessoas da alta sociedade que ajudaram financeiramente com vultosas doações para finalizar a catedral e contratar os artistas. Era uma forma de retribuição. Porém as más línguas dizem que Locatelli pintava os anjos mais bonitos com o rosto das moças e damas que haviam sido suas amantes. 

  • Deve ser fofoca mesmo! Comentei. Mas sempre a vejo aqui. Porque a senhora vem praticamente todos os dias e fica apreciando os afrescos. Também gosta de arte?

  • Gosto de arte, vivi esses tempos e sempre me traz ótimas lembranças, com carinho de um tempo que não volta mais. Mas que ficou eternizado na obra deste fabuloso artista. Vejo todos os vitrais, ando por todo o espaço, e não canso de olhar para o teto, onde estão os afrescos e o que mais admiro são os anjos.

  • A senhora admira uma pintura em especial, algum anjo retratado?

  • Sim, veja já em cima, à direita. Na ponta do meu dedo. Viu? Pois é, aquele anjo é o mais belo, certamente pintado com mais ardor, fé, paixão  e amor. Sempre acreditei nisso e nele. Aquele anjo sou eu. Preste atenção. Veja meu rosto imaginando 40 anos ou mais antes. Não sou eu?

Observei, olhei com atenção e consenti. 

  • Sim, certamente é a senhora.

  • Obrigado meu rapaz. Continue sua oração que volto amanhã, disse ela sorrindo com seu olhar angelical de esmeralda. Levantou-se, guardou o rosário na bolsa e seguiu para a porta de saída. Ajoelhou, fez o sinal da cruz e seguiu caminhando. Curioso também saí para ver onde ia. Só vi que embarcou em um Landau preto cuja porta foi aberta pelo chofer,  esperou ela entrar, se acomodar, fechou a porta do carro, fez a volta, tomou seu lugar de motorista e saiu. O carro desapareceu pelas ruas estreitas e molhadas e uma leve névoa dissipante.

Segui frequentando a Catedral, mas nunca mais vi a bela dama de olhos verdes e cara de anjo. Será que ela realmente existiu ou foram meus pensamentos? Ou quem sabe recordações da linda cigana Esmeralda, personagem do livro O Corcunda de Notre Dame, escrita por Victor Hugo em 1831?

A única certeza é seu retrato delicadamente pintado no teto da Catedral. O único anjo de olhos verdes.


sexta-feira, 16 de julho de 2021

Porta Aberta

 Porta Aberta



Há uns 40 anos, num inverno de renguear cusco, peguei o Unesul e rumei para Porto Alegre. Tinha alguns dias de férias do escritório de contabilidade do Ruy Antoni onde eu trabalhava em Erechim. Era metido, destemido e viajava sozinho com 16 anos em diante. Não tinha medo de assombração, nem de trovoada e muitos menos de noite chuvosa com relâmpago. Embarquei às dez e  meia noite no ônibus branco com a tradicional faixa escrita Unesul sobre as cores azul e vermelho, certamente para agradar gremistas e colorados. Naquela época não existia banheiro nos ônibus e o pessoal além de fazer lanche que levavam de casa ainda fumavam dentro do ônibus. Isto no século passado em 1981.


E saiu o Mercedes com apenas um motorista. Seguiu para Getúlio Vargas, Passo Fundo, Soledade, Lageado, Canoas e finalmente Porto Alegre. Lá pelas 6h30min acordo com o ônibus descendo a rampa da rodoviária na capital gaúcha, luzes acesas, alguns passageiros já em pé pegando a bagagem de mão. Sempre tem os apressados. E na descida da rampa o ônibus deu uma freada brusca, devido ao congestionamento de outros ônibus na manobra nos locais de embarque e desembarque. Quando deu a brecada eu estava sentado e senti o baque. Os que estavam em pé se desequilibraram e uma mulher tipo perua com frasqueira na mão, falando alto e toda rebocada de rouge carmim voou lá para frente do ônibus se esparramando no corredor. Foi um alvoroço. Corre daqui, corre dali para acudir a madame que não havia  atendido o pedido de ficar sentada até que o ônibus estivesse parado. Como se faz nos aviões. Com o ônibus estacionado, todos descem, pegam bagagens de mão e seguem para os maleiros na parte inferior para pegar as malas, sacolas, caixas e encomendas. Eu sempre viajo com pouca coisa, Uma mochila apenas.


Sai da rodoviária, atravessei a passarela e peguei o ônibus que me levaria na casa de um amigo onde eu ficaria alguns dias. Quando sai do terminal e fui para o largo da calçada que dá acesso a travessia senti meus ossos congelarem. Vento frio pior que o minuano e vinha a umidade do Guaíba que fica margeando a avenida logo abaixo. E eu nem trouxe um pala de lã.


Subi no Carris e rumei para a casa do colega. Lá chegando aperto o interfone lá pelas 7h da manhã, sonhando com uma xícara de café preto e um pão com manteiga. Nada de atender. Insisti algumas vezes. Nada. Afinal, há 40 anos não existia celular, telefone era coisa de gente rica que financiava uma linha. A gente ia na casa dos outros em avisar e chegava querendo pouco.


Não esquentei, Voltei para o Carris e fui até a Praça 15, no centro histórico de Porto Alegre, ali perto do Mercado Público. Ali só dá malandro que vive na volta do mercado. Dei uma volta na praça, fui até perto da Rádio Guaíba e não aguentei o frio. Voltei para o mercado, atravessei a praça da Prefeitura, onde tem um bela fonte de água, que foi restaurada agora a Fonte Talavera de La Reina, um presente da colônia espanhola ao município em 1935. Cruzei a rua e fui ao Mercado Municipal, onde antes da reforma, era cheio de botecos de fama duvidosa. 


Eu vestia um casaco de pelúcia que a minha avó havia feito. Quentinho, mas feio. Eu mais parecia um cobertor de lá, já que foi feito de um cobertor que havia lá em casa. Foi só cortar e costurar.


Passo na frente de uma das portas em busca de uma boa xícara de café preto, sem açúcar para espantar aquele frio e ouço alguém gritar: Tchê Loco! Eiii...Benhur de Erechim! - gritou forte o caboclo dentro do bar. Parei, olhei e reconheci um antigo colega que havíamos estudado de 5ª a 8ª séries no Colégio Estadual Polivalente.


Parei, entrei no bar e cumprimentei-o . Quanto tempo, o que anda fazendo aqui? - perguntou-me. Peguei alguns dias de férias e vim dar uma volteada aqui pela capital.

E você o que anda inventando? questionei. Me disse que estava trabalhando como servente de pedreiro e estudando para ser “brigadiano”. No Rio Grande do Sul a Polícia Militar se chama Brigada Militar. Naquela época não precisava estudar muito. Era só o primeiro grau.


Pedi um café e o meu amigo estava com um Rabo de Galo, que é uma mistura de cachaça com vermute. Os mais exibidos pedem em copo alto com gelo e limão. Mas no botecos do Mercado era num “martelinho” ou num “mercedinho”. Numa conversa de meia hora já foram dois rabos de galo e comeu um croquete de validade duvidosa.


Ele tinha de ir para a obra, mas combinamos voltar ao mesmo local no final da tarde para papear mais um pouco. ele saiu eu terminei meu café e fui caminhar pelo centro de Porto Alegre, que é bonito, porém durante anos ficou abandonado e judiado. Para passar o dia peguei um ônibus até a Restinga, para visitar a cidade. Chegamos no ponto final onde todos descem, esperam meia hora e a linha volta ao centro. O motorista chegou para mim e perguntou - Você não é daqui né? Respondi que não, era de Erechim e peguei o ônibus para conhecer a cidade um pouco. Então você não desce do ônibus, fica aqui, espera meia hora que vamos te levar de volta. Se descer é perigoso. Atendi a sugestão do motorista. Eu era destemido porque não conhecia os riscos. Botei os fones de meu walkman com fita cassete e fiquei ouvindo James Taylor até que ele deu a partida e retornamos ao centro da capital gaúcha.


Ao final da tarde voltei ao Mercado Público, no mesmo boteco catinguento que marquei com meu colega. Lá estava ele, conforme o combinado. Vi de longe que daria perda total. Já estava com um liso grande de Porta Aberta, uma mistura vinho com coca-cola, já pela metade


Senta aqui, vamos beber porque está frio. Sentei, eu ia pedir um chocolate quente ou café quente, mas o garçom, gordo com um pano no ombro já me trouxe aquele copo cheio de marcas de dedos. Acho que nunca lavaram e transbordando. 

Bebe vai te esquentar as orelhas, me recomendou meu colega. Beberiquei meio com nojo do copo e do conteúdo.

Fica tranquilo, isto é Porto Aberta, como as portas do mercado, que nunca fecham, como as portas do coração de mãe, como as portas das mulher amada. Aconselhou o colega, já num tom poético e falando alto. Bebemos dois cada um e eu querendo me livrar da situação, afinal estava esfriando e eu nem tinha onde dormir, tinha de voltar na casa do meu amigo para bater e ver se tinha alguém em casa e pedir pouso.


Cada vez que meu copo estava na metade ele fazia sinal para o meliante do garçom trazer mais dois. Agora nós vamos mudar de bar, dobrando aqui tem um boteco do uruguaio que tem música, um castelhano canta bem desde bolero, tango e até Nelson Gonçalves.

Aí eu vi que eu estava perdido num mato sem cachorro. O frio e a chuva fina caindo lá pelas seis da tarde. E o tempo passando e papo de gambá correndo solto.


Chegamos no boteco do castelhano e lá tinha um sujeito num canto sentado numa cadeira de palha coberta com um pelego para proteger o traseiro do cantor. Um violão de 7 cordas e uma gaita de oito baixos. O cantor e violeiro estava dedilhando algumas notas, e escalas, bebericando um conhaque Domecq. Logo chega um baixinho que larga uma sacola ho Zaffari no chão e empunha a gaitinha e faz algumas escalas. De uns 10 minutos e chega um argentino com cara de índio, cabelos pretos escorridos com um bombo leguero nas costas.

Imaginei. é hoje que durmo no mercado ou morro de frio aqui nestas paragens.


Começaram abusando. O gaiteiro puxou Mercedita, que não tem como ficar brabo. tem que aproveitar. Depois veio Orelhano, Romance na Tafona, Tropa de Osso, De Ja Hoje, Gardel, Por Una Cabeza. E dá-lhe Porta Aberta.


Lá pelas dez da noite já não aguentava mais e para fechar a noite meu colega levanta faz um brinde aos músicos e pede uma do Vicente Celestino - “Porta Aberta” que prontamente foi executada com maestria.


Antes de sair ele pede mais dois Porta Aberta pra levar. Saímos porta afora ele pegaria o ônibus e eu voltaria para casa do meu amigo para pedir um pouco. Mas que nada! Hoje você vai lá para casa. Determinou o convite assim fomos. Uma hora e meia de ônibus que nem lembro o bairro, chegamos, descemos do ônibus mais uns 15 minutos de caminhada por ruas estreitas, poeirentas e escuras.


Chegamos. A Porta Aberta para os amigos sempre. Disse com um sorriso e gesticulando para que eu entrasse. Casa simples, e me acomodei no sofá. Ele disse que o banheiro ficava logo adiante e que eu não reparasse porque não tinha portas, ainda deu para comprar.  dormi tranquilo e no dia seguinte tomei meu rumo despacito. Ao descer do ônibus ali perto da Praça 15, nem olhei para o mercado e fui para os lados do Piratini. Vai que a porta esteja aberta de novo….



quarta-feira, 2 de junho de 2021

O que restou

 O que restou


Na terça recebo uma mensagem de whatsapp de um amigo me convidando para almoçar na Churrascaria Chimarrão, no dia seguinte. Prontamente aceitei, havia tempo que não falávamos pessoalmente, mesmo trabalhando juntos por quase três décadas, devido a pandemia.


Na época fizemos concurso público em períodos próximos e o destino nos aproximou para trabalharmos juntos no gabinete do prefeito. Assim foi durante anos. Terminado o governo que fomos secretários municipais, nos mantiveram juntos depositados em outra secretaria.


Entre um corte de picanha, alcatra, entrecot,  um gole de Tannat, um corte de ovelha e outro gole de vinho, assim fizemos um balanço de nossas vidas e de nossas realizações. Avaliamos todos os prefeitos a que servimos e os “assessores” que trouxeram.É melhor não tecer considerações.


Infelizmente hoje temos de ouvir tanta besteira de quem não conhece o serviço público. Como um sujeito conhecido que veio conversar e vem com as brincadeiras tolas de que nós estamos bem, temos aposentadoria integral, que os salários são pagos etc. Todo tipo de besteira. Para gente assim, a vontade é falar: estou aqui porque estudei, faça o mesmo. Vá atrás de editais, estude, faça as provas, elimine centenas ou milhares de candidatos, tire uma boa nota e seja aprovado. Mas isto seria ofensivo. Poderia achar que eu estava me enaltecendo e chamando-o de burro ou cidadão inferior. Não faria isso!


Não temos o dito FGTS, que todos tem, porém temos a estabilidade que é um seguro para a sociedade. Agora estamos vendo o noticiário, nas questões de compras fraudadas de remédios, vacinas com superfaturamento. Coisas feitas por “assessores” indicados. Gente que não é servidor público, que nunca prestou concurso público. E os políticos querem acabar com a estabilidade  no serviço público justamente para passar o boi e a boiada. Mas não é disso que vamos falar. Isso todos estão lendo e vendo


Vivemos momentos bons de parceria e outros nem tanto. Ganhamos eleições e perdemos disputas ganhas.


Mas o que resta após 30 anos de serviço público? E quando chegar a hora da aposentadoria? O que fazer?


Respondi que eu pretendo viver; Ler,escrever, fazer comida boa, se o dinheiro der passear um pouco. Nada além do simples da vida, apreciar a beleza de viver.


Foi assim nosso almoço e nossa tarde. Só fomos embora após todos os funcionários serem dispensados e daí travamos uma boa conversa com o dono da churrascaria, o Moacir Ongaratto, empreendedor nato, que saiu de Anchieta no extremo oeste catarinense, percorreu o Brasil e acabou dando com os costados em Joinville. Em 2004 abriu uma ótima casa que se mantém, com alta quelidade, e só fomos embora porque ele precisava reabrir a casa pouco depois.


Este foi  mais um dia prazeroso de coisas simples, boas e de uma excelente amizade de quase 30 anos com o Imperador do KM 4, Carlos Roberto Caetano, que deu o seu máximo pelo serviço público, seja na Prefeitura, Câmara Municipal, Governo do Estado e que agora deve aproveitar os filhos o cachorro e a Barra do Sul.


Sim, lá naquela praia que só dá gente….. bonita. Quem sabe ele me convida novamente para uma gaivira assada na brasa.


sábado, 29 de maio de 2021

Caçadores de Velório

 Caçadores de Velório


Já ouvimos falar dos Caçadores da Arca Perdida, Caçadores das Galáxias, Caçadores do Santo Graal, Caçadores de Emoção, Caçadores de Mentes, Caçadores de Recompensas. Tudo isto já foi eternizado por Hollywood em filmes, muitos de sucesso de público e crítica.


É que ninguém pensou em fazer uma produção sobre os Caçadores de Velórios. Isto mesmo. Lá perto de casa tinha uns quatro compadres que não podiam perder um velório. Era um evento social, diversão, passatempo, reencontro de amigos, conversa, chimarrão e era comum panelões de “brodo” em noites frias. Café a noite toda para velar o “santo” .Muitas vezes tinha roda de violão, cantoria, cachaça e vinho. E o morto? Solito no más, na sala,  já que a diversão estava melhor lá no lado da casa.


Semana passada, falando com o tio Nelson Guimarães, comentei com ele, que os compadres não podiam ver um velório. Escutavam a Rádio Erechim para ver os avisos da Funerária Passuelo. Era mais ou menos assim que o locutor anunciava : “É com pesar que comunicamos o falecimento do fulano de tal, conhecido como cicrano. O Féretro está sendo velado em tal lugar e o corpo segue para missa de corpo presente tal hora. Depois será sepultado no cemitério municipal Haverá ônibus de ida e volta”.  Sabedores do evento, estava pronta a caça ao velório. Como não havia telefones, era fácil caminhar até a casa ao lado ou próxima  para avisar os compadres da novidade. Às vezes a piazada levava o recado.


Eram quatro cavaleiros do Apocalipse na minha quadra: meu pai o Fábio, o compadre Nelson, o Chiodi que morava ao lado e o Abrahão Aoach, da rua de cima. Abrahão era um judeu bem de vida, com duas lojas perto da rodoviária. Sempre de carro novo. Todo ano ia na Ford e pegava um Corcel estalando de bonito. Lembro de um modelo 75  branco com listras pretas no capô e laterais. Um luxo.


Numa tarde de sábado o Abrahão encontrou o Nelson Guimarães na rua Liberato Salzano, perto da escadaria e o convidou para um velório e já deu o recado. - Avisa o Lima também.


Guimarães queria mais detalhes de quem era o morto, afinal não tinha dado na rádio. Não ouviu nem o Jovino e nem o Tramotina falar nada. Na outra rádio o Jerônimo Nunes não irradiou também. Quem seria?


  • Mas Abrahão quem é o falecido? É conhecido nosso?

  • Não! Nem conheço, mas vamos lá quero aproveitar que tem bastante gente para vender um “fogon” a lenha usado.


Só restou ao Nelson dar uma risada. O judeu queria caçar um velório, de gente que nem conhecia para vender um fogão usado. Vai que alguém lá precisa. 


Quer saber se foram?


Foram sim, afinal não tinha muito o que fazer num final de semana em Erechim. Velório era um acontecimento e não vão me acreditar, o Abrahão vendeu o fogão. Veio para casa com uns pilas no bolso. 


Bom final de semana e escutem a rádio para ver se tem algum anúncio fúnebre. Numa noite fria certamente vão servir uma sopa bem quentinha e um brodo com caldo grosso. Se tiver algum com boa concorrência, café passado na hora e um caldo de galinha bem forte e quente,me avisem. Vai esfriar.


domingo, 23 de maio de 2021

Nelson e o Simca Jangada

 Nelson e o Simca Jangada



Esta semana tive uma ótima surpresa. Quarta-feira de noite recebo uma ligação com DDD 051, da grande de Porto Alegre. Inicialmente, pensei não atender porque ligação sem identificação pode ser de empresas de telemarketing, mas atendi e a surpresa foi ótima.


  • Aqui é um índio véio lá do Voutoro. Se apresentou do outro lado da linha um velho amigo. Nosso vizinho lá de Erechim e pai de amigos infância do Clóvis, da Miriam e do Wagner. Nelson Guimarães, aos 82 anos está firme, forte e saudável; Porém com um defeito irrecuperável, incorrigível e imperdoável. torcedor do Sport Club Internacional.


Não falava com ele desde 1988, quando eu ia seguido a Porto Alegre, durante muitos anos. Moravam na Mariante, pertinho do viaduto da Protásio, e já se passaram 33 anos. É muito tempo.


Daí me recordei coisas boas da infância, quando éramos vizinhos, em Erechim. Os contatos eram diários. Ele e meu pai eram caçadores de velórios. Outra hora conto este causo.


Eram famílias conhecidas e os vizinhos eram mais do que parentes, conviviam, se ajudavam e tinham uma prosa diária com uma cuia de chimarrão.


Recordo do Simca Chambord Jangada do Nelson Guimarães. Carrão de dar inveja. Uma station wagon, motor 2.3  V-8. Beberrão, fazia uns 6 km por litro. Mas nos anos 70 a gasolina era muito barata. Dava para andar nestas banheiras. O nosso vizinho da frente o Nilton Tibursky tinha um Galaxie ou Landau. Coisa linda, um luxo. Na rua de baixo, na Farrapos tinha o Schwingel que exibia um Dodge Dart. Mas imagina o custo para encher o tanque.


Aos domingos de verão, tio Nelson levava os filhos e eu de contrapeso até o Colégio Agrícola Ângelo Emílio Grando, onde havia um açude em que a piazada tomava banho. Era uma água suja barrenta, mas era tudo alegria. Dava para fazer piquenique, tomar banho no calor e nem se pegava doença de pele. Voltávamos no final do dia, cansados mas todo mundo contente.


Em outra ocasião, Nelson atravessou o Rio Grande do Sul com a  Jangada. Fez os 600 quilômetros de Erechim a Alegrete, onde viviam os avós maternos dos filhos dele. A viagem era uma aventura, pois era época sem rodovia duplicada, alguns trechos nem pavimentação tinha. Era buraco e poeira. E para turbinar a nave, misturou com gasolina de aviação, que se conseguia com amigos no aeroporto. O Chambord voava pela pampa gaúcha. Chegava a 100 km por hora e as velas ficavam azuis. Ultrapassava Opala, Corcel, Itamaraty, Aero Willys. Cruzando o Passo Novo, quase chegando a Alegrete, um peão de uma fazendo vendo àquela nave em uma carreira sem fim imaginou que era um moderno trem. Melhor que o Minuano e saiu queimando campo por lá.


Conversamos por telefone quase uma hora rememorando causos e situações que me deu pano para mais umas histórias. E como hoje é domingo e estou longe do açude do colégio agrícola, vou ficar por aqui mesmo, fazer um mate com erva da Barão e encher de quebra-pedra e carqueja dentro da garrafa térmica.

A história dos velórios? Conto semana que vem. 


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Presentinho

 Presentinho


Quando eu era criança,  diariamente nossa casa estava cheia. Como a mãe era costureira vinham as clientes, as comadres e vizinhas e alí passavam as tardes e início de noite.


Falavam de suas vidas, de seus filhos, de seus problemas. Era um verdadeiro consultório sentimental, psicológico e de aconselhamento. Tinha até uma conhecida que “botava  as cartas” para as senhoras curiosas de suas vidas e futuros. Era a tia Ana Rigotti, que Deus a levou neste último domingo aos 98 anos.


Cada uma tinha sua história de vida, seus segredos, seus problemas. Algumas gostavam de bebida, outras de fumar, outras de fumar e beber, outras de gastar em vestidos novos e algumas roíam unhas, como vícios, nervosismo, outras eram carolas e não perdiam uma missa, outras só falavam da vida dos outros, outras se lamentavam da vida que tinham, outras pensavam o que fariam de comida. Enfim, assuntos variados. Repertório não faltava. 


Eu tinha uns 8 ou 9 anos, numa tarde a minha mãe me chamou e mandou eu levar um presentinho para a Tia Marlene. É a mãe de amigos de infância que convivíamos diariamente, o Wagner, a Miriam e o Clóvis.


  • Vai lá na tia Marlene e entrega este pacotinho para ela. Para mais ninguém - recomendou. 


Obedientemente peguei o pacotinho e fui caminhando, pelo costado da rua. Ainda não havia pavimentação e nem calçadas. Era perto de casa,  uns 200 metros de caminhada, próximo a famosa Escadaria, em Erechim, que ligava a avenida Salgado Filho da parte de baixo com a parte de cima da cidade.


Cheguei entrando. Naquela época,  chegávamos sem cerimônia,  as casas ficavam abertas. Desci a entrada da garagem, subi a escada que ficava do lado da casa,  que dava numa varanda que circundava toda frente e lateral direita da casa e tinha acesso a despensa e cozinha. Uma coisa que me chamava atenção naquela casa é que tinha uma banheira, dessas que só se via no cinema. Achava chic. Uma banheira estilo filme Psicose, de Alfred Hitchcock, onde o Normal Bates…….Com cortina de plástico.


Ao chegar o cachorrinho já me anunciou. Tia Marlene veio ver do que se tratava.

  • A mãe lhe mandou um presentinho - anunciei faceiro, imaginando que fosse de aniversário ou outra data especial, certo de estar trazendo uma boa surpresa.

  • Obrigado, vamos ver o que é - respondeu.

  • Tá bom. Concordei. Ela abriu o pacotinho, mal embrulhado, com papel simples e colado com durex. Desembrulhou o pacotinho onde havia uma caixinha dentro. Abriu a caixinha, fez uma cara pensativa, imaginando o que responder. Por frações de segundo me olhou, fitou a caixa e mandou o recado.


  • Leva de volta pra tua mãe e diz para ela comer tudo! Imagino você, se prestar para um serviço desses! - Devolveu o presente rindo.


Fiquei meio sem graça e voltei para casa. Voltei mais rápido do que fui. Tipo um pé lá e outro cá! Entrei porta adentro meio assustado e fui direto  na sala de costura. Sentadas quatro mulheres me olhando e intimamente ansiosas para saber como foi a reação da entrega do presente. Me olharam, com um leve sorriso sarcástico no canto da boca e babando para saber o que houve.

  • O que a tia falou?, perguntou a mãe rindo.

  • Disse que é para a senhora comer tudo - respondi


A mãe, a avó Elvira, a tia Koka e a dona Setembrina caíram na gargalhada. Pois eu fui apenas o mensageiro.


As “véias”  pegaram uma caixinha de fósforo, tiraram os palitos e encheram de unhas cortadas e mandaram eu levar para provocá-la. Já que a Marlene tinha o costume de roer as unhas. Logo em seguida chega a tia Marlene, que veio “tirar satifação”. Só restou darem risada umas das outras e seguir a roda de chimarrão e em meio a tecidos, máquinas de costura.


Lembranças de uma infância feliz.


terça-feira, 18 de maio de 2021

As costuras de Casildo

 As costuras de Casildo



Já era esperada esta triste notícia. Acordei e li o ocorrido, mas já era algo que se esperava. Ele estava doente e fora hospitalizado. Mas é bom guardar a imagem de um sujeito de coração maior que Santa Catarina, de alguém bem humorado, brincalhão, mas que sabia exercer autoridade com respeito

Morre com Casildo uma fase da história catarinense e de grandes líderes políticos carismáticos e amados pelas pessoas.


Em 2001 quando foram derrubadas torres gêmeas de Nova Iorque, estávamos no San Willas Hotel em São Miguel do Oeste e o Diário Catarinense publicou uma pesquisa do Ibope e que Luiz Henrique nem teria chances contra Amin. Isto um ano antes da eleição. Luiz Henrique ficou chateado, visivelmente abatido. Casildo tratou de animá-lo. 

-Luiz, temos muito chão e poeira pela frente, Vamos ganhar essa. Tentava animar.

Na volta, eu, Luiz Henrique e Casildo num Sêneca voltamos tarde da noite. LHS chateado nem falou com a gente. Eu e Casildo secamos uma garrafa de uísque para afogar as mágoas.

Mas não esmoreceu e nem deixou LHS ficar chateado, continuou firme por toda Santa Catarina para eleger o amigo governador. 

  • Luiz Henrique diz que sou costureira! - brincava ele pois LHS falava das costuras políticas que o senador oestino não se cansava de fazer. Buscava os históricos, convencia os novatos de que era importante buscar todos, inclusive de outros partidos para obter a vitória.

Assim era Casildo, um ser humano merecedor de ser seu amigo.



Senador da Galícia


Em outra ocasião, estávamos em Porto União, no distrito de Nova Galícia. Era uma festa da comunidade ucraniana. Uma professora havia feito uma exposição de fotos da Lumber, empresa americana que assassinou a floresta catarinense para abastecer o mercado americano.

 

E ali estava a foto de Ted Roosevelt, que foi presidente americano, na época senador. E Casildo, no discurso da professora, foi o segundo senador a por os pés na Nova Galícia. Primeiro Roosevelt e segundo Maldaner. 

Era bom companheiro de estrada, alegre e brincalhão.


Me chamava de “irixim”, com seu sotaque alemão. Ele era de Carazinho, perto de Erechim região que ele conhecia e em nossas andanças conversávamos bastante nos longos trechos de cidade em cidade em busca de votos para tornar Luiz Henrique governador.


Em 2013 esteve em Joinville, me ligou e fomos ao Sopp, restaurante bacana que não existe mais. Ali comemos Hackpeter e insisti para ele experimentar o submarino.

Tomou dois ou três submarinos, um ato de valentia.


Este era Casildo, uma alma enorme que Deus o tenha.




QUEM COMEU A COALHADA?