domingo, 31 de julho de 2022

Almoço para agradar o genro

 Almoço para agradar o genro

Nos rios pela região de Erechim, há alguns anos tinha muito lambari, uma espécie de vira-latas dos córregos e riachos. Dá para pescar com anzol, tarrafa e até com uma lata de azeite em alguns locais. Fura a lata para vazar água dá uma “tarrafeada” ou “lateada” e pronto. Um petisco barato, principalmente servido nos botecos para a gambazeira forrar o estômago. Uma prato de lambari banhado no óleo. Cura o porre e segue a beberança.

Mas um conhecido meu, começou a namorar uma moça e foram se conhecendo. Iam em acampamentos, rios para nadar no verão, pesque-pague que tem até tilápia, cascudo e outros peixes, mas o danado do lambari, sempre aparece no cardápio. Pratos decorados com alface, tomate, limão para neutralizar o forte cheiro e gordura de alguns peixes. E geralmente despejam uma poção generosa de óleo por riba. É enjoativo até de ler. Só que o rapaz ele não apreciava tal peixe. Só de pensar dava ânsia de vômito. Não tinha jeito de olhar o tal de lambari e muito menos comer.

O lambari frito sequinho até que vai. Depois entorna uma branquinha ou amarelinha para derreter aquilo tudo, quem sabe uma dose generosa de bitter.


Passados alguns meses de namoro chegou a hora de o pretendente conhecer a família da moça. Marcaram um almoço de domingo, lá para os lados do Jabuticabal, na estrada que vai para Cotegipe.  Por volta das 10h30min desceu no ponto de ônibus, foi se aproximando da casa levando um bolo de milho para agradar a sogra e um litro de 51 para acalmar as lombrigas do sogro. Uns 50 metros antes de chegar na casa deu uma parada. Deu uma olhada na casa de madeira, o chaminé fumegando e respirou fundo. Pensou: Vou sumir na braquiária e depois digo que me senti mal, que perdi o ônibus. Mas isso não seria uma atitude correta. Nada contra a moça nem a família, mas o cheiro de fritura de lambari que ela odiava percorrida uma distância que infestava a vizinhança. E ele de camisa branca comprada no Meneguzzo. Ia ficar pagando no carnet mais seis meses. Minha camisa vai ficar amarelada, empesteada, pensou, mas seguiu com o sapato lustrado que comprou na Alegretti e agora estava só pó vermelho. Estava virado num “pé vermeio”

Lá da frente bateu palmas, o receberam e já sentaram na área em frente à casa. Uma cuia grande de chimarrão com erva bem verdinha já foi servida com uma chaleira de ferro e água quente que ficara nos pés do sogro que fazia as honras da casa. Quando o véio viu a garrafa de 51 os olhos saltaram de alegria. O bolo de milho feito pela mãe do noivo era grande e cremoso. A sogra lascou: nem precisava se incomodar meu filho.

Sentaram e o cheio de lambari atormentava o rapaz. Vou vomitar, pensou. Mas aguentou uma chaleirada de água para o mate. Pediu um ramo de carqueja para colocar na chaleira e sentir se melhorava da ânsia.

Por volta das 11h30 a sogra aparece com um pratão enorme de lambari frito nadando no óleo. Aquilo era uma tortura. Nem um limãozinho. 

Come meu filho, o véio pescou ontem, e fritei agora bem quentinho para você ir apreciando.

Aquela foi a hora de pensar em se jogar no chão, chamar a ambulância e começar a babar. Mas não era uma atitude correta. Iria descobrir.

Esticou a mão trêmula, o suor frio corria pela testa e pelo corpo todo. A camisa estava encharcada, estômago embrulhado e olhos vermelhos. Vou ter um treco, pensou, mas estendeu a mão e pegou um lambari, o menor da beira do prato, que não estava tão oleoso. Deu uma dentada no rabinho, que estava mais seco. Roeu, roeu e não descia.

Come piá, pra ficar forte. Fui de bicicleta lá no Tigre pegar estes lambaris. Aproveita. Incentivou o sogro

E lá foi mais uma mordida engolindo inteiro o corpo do peixe. Deixou a cabeça de lado e o sogro: Mas a cabeça é melhor, para ficar sabido. 

Sabido era o noivo que se levanto, pegou a garrafa de cachaça que trouxe de presente. Serviu um talagaço com duas doses de bitter mayerle bonnekamp misturou e anunciou um brinde ao sogro, sogra, noiva e ao lambari. E foi entrando pela cozinha para o almoço imaginando que o cardápio iria melhorar. Na mesa, salada de alface com cebola e tomate, macarrão com um delicioso molho à bolonhesa e de sobremesa sagú de vinho, arroz doce e pudim. Estava salvo, até que a sogra gritou. Pega lá os lambari para mistura que o rapaz gostou.

Ele nunca gostou de lambari, mas se salvou. E o lambari ensopado no óleo não atrapalhou o casório que já deve ter completado as bodas de prata.

O que tem para o almoço de domingo, hoje? Não é lambari frito. 


domingo, 24 de julho de 2022

Uma carta de amor

 Uma carta de amor


Esta é uma carta de amor. De uma paixão que dura 30 anos sem perder o vigor, o fervor, o desejo. Ela é uma bela dama, requintada e que trabalha muito para que a vida seja melhor.


A cada dia ela cativa mais admiradores, mas não sinto ciúmes. Não é só minha, eu sei. Cheguei mais tarde, mas tenho um lugar em seu coração gigante que recebe todos de braços abertos.


Ela oferece o que há de melhor de si mesmo. Todos os anos milhares de fãs apaixonados demonstram seu amor por Joinville. Quando me perguntam onde moro, eu sempre respondo: Moro no melhor lugar do mundo! Mas sempre tem os chatos que acham defeitos, que apontam isto, aquilo, acolá. Pior, gente que nunca fez nada além de discursos baratos e vazios. Quando se pergunta o que você faria? A resposta não sai de suas mentes fracas.

Através de meu trabalho converso com muitas pessoas, geralmente destaques das artes: dança, balé, música, pintura, teatro, literatura e demais manifestações artísticas.

Semana passada tive o privilégio de entrevistar o diretor do Balé do Teatro Guaíra, que fez a abertura do 39º Festival de Dança que está ocorrendo, Luiz Fernando Bongiovanni. Foi bailarino que percorreu o mundo, agora coreógrafo e responsável por esta grande companhia paranaense. A magnífica apresentação do Lago dos Cisnes na abertura encantou a todos.

E na última sexta-feira conversei com um dos maiores destaques do balé mundial o uruguaio brasileiro Marcelo Misailidis, que coreografou junto com sua companheira de palco Ana Botafogo o espetáculo ST Tragédias na noite de gala. Uniu peças de Shakespeare (Romeu e Julieta e Otelo) com a música de Tchaikovski. Dois gênios que viveram em lugares diferentes e em épocas diferentes. São 200 anos de distância entre suas criações que se uniram num grande espetáculo, grandioso e majestoso como é o Festival de Dança, como é Joinville que oportuniza isto para todos. 

Este ano veio a novidade da dança para pessoas com mais de 40 anos e com mais de 60 anos. Dá para olhar o brilho no olhar da experiência. Me surpreendi com um grupo de Erechim: “Vovós sim, Velhas jamais” que percorreram quase 600 km de ônibus para estar no palco. Isto é vida, é saúde, é admiração e com energia juvenil.

Anos atrás, em 2007, eu estava num jantar com bailarinos do mundo após a apresentação da companhia Hell`s Kitchen de Nova Iorque. Fiquei um pouco afastado, cansado da noite e o garçom me trouxe um baldinho com 6 cervejas.  Um pouco tempo depois chega o Mikhail Baryshnikov. Perguntou se a cerveja que eu estava bebendo era boa, em tom de brincadeira. Respondi que era a melhor do Brasil. Ele pediu se poderia beber uma. É claro que concordei. Ele bebeu três long necks de meu baldinho, agradeceu e voltou para a mesa do jantar com os convidados. Deveria estar de saco cheio e só queria uma cerveja gelada. 

Esta é a cidade que que nos dá o maior espetáculo de dança do mundo, com apresentações e aulas gratuitas por toda a cidade neste período. É a Joinville que mantem uma Casa da Cultura fabulosa com todas as artes e recentemente criou a Escola Municipal de Teatro. 

E tem mais. Em agosto teremos Ópera, em setembro o Pianístico, com grandes talentos do piano, em novembro a mais tradicional e maior Festa das Flores do Brasil.


Cada vez que ouço um idiota falar mal do apoio que os governos precisam dar para as artes, nem respondo por não gastar tempo com obtusos. Essa gente sem cultura possivelmente acha que não precisa arte para viver. Para que Leonardo da Vinci, Shakeaspeare, Michelangelo, Picasso, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Dostoievski, Monet Di Cavalcanti, Laurence Olivier, Al Pacino, Juarez Machado e tantos talentos que criam e embelezam nossas vidas.

Esse povinho obtuso não sabe o que é mecenas. Não tem noção de quem patrocinou as belezas de Roma, Milão, Florença, Paris, Londres, Moscou, Praga, Egito, Istambul e tantos outros lugares.

Vale citar o ex-governador Luiz Henrique, que investiu muito em cultura e trouxe a Escola do Teatro Bolshoi para o Brasil. “Uma cidade sem cultura é um mero depósito de gente”. E vou além recordando Titãs “A gente não quer só comida/ A gente quer comida, diversão e arte”

Enfim, este caso de amor e paixão vai durar até a eternidade, como é a arte.

Joinville. O melhor lugar do mundo! Podem ficar com dor de cotovelo.


domingo, 17 de julho de 2022

O sumiço do Saci Pererê



O sumiço do Saci Pererê



A gauchada conhece a lenda do Saci Pererê. Desde piá a gente aprende e ouve estas histórias, mas a de hoje eu conto como se resolveu um mistério envolvendo o Saci Pererê. Em uma sexta-feira bem cedinho, uma senhora de aproximadamente 70 anos chamou a Brigada Militar para “dar uma queixa” do roubo de um botijão de gás, quase cheio. Já era o terceiro “bujão” que levaram da casa dela, uma aposentada com poucos recursos. Um prejuízo enorme.

Chegando os brigadianos ela já saltou por afora e foi gritando.

- Este Saci fiadaputa, de uma perna só levou de novo meu “bujão”. Vocês têm que prender este vagabundo. Ordenou a senhora.

- Bom dia senhora, fique calma, vamos investigar o ocorrido. Conte o que aconteceu? Questionou o Sargento da Brigada que atendeu a ocorrência e já conhecia a Dona Valdevina, pois ela havia trabalhado na casa deles como doméstica há anos.

- Meu “fiu”, este ladrão não sabe o quanto custa um “bujão”. Eu vim do Centro Espírita do Pai Nelito lá pelas dez da noite e fui direto para a cama. Acordei de madrugada com um barulho e fui “oiá”. E tinha um fantasma, um Saci de uma perna só que arrancou o meu “bujão” e saiu correndo de bicicleta e de muletas.

- Huummm” Certo dona Valdevina, mas alguém mais viu o tal Sací?

- Você me “aduvida” eu vou lá falar com tua mãe”. Pergunte aí pros vizinhos. Todos já tiveram “bujão” roubado por este fantasma do coisa ruim.

O sargento, um cabo e um soldado que dirigia a viatura começaram a conversar com a vizinhança ali perto da antiga “usina” próximo ao Centro Espírita do seu Nelito, bem no início do bairro São Cristovão, em Erechim.

E os relatos era assustadores. Todos já tinham sido roubados e avistaram a assombração nas madrugadas.

Não tinha dúvidas, era o Saci Pererê de uma perna só com muleta e bicicleta.

E roubava não só no São Cristovão. Certa feita subiu para a Cerâmica, perto de um campo bonito de grama e um pinheiral que de tão bonito dava até para tirar retrato. Passou bem de madrugada enquanto havia cerração, “bombeou” as casas, fez um estudo de onde era mais fácil levar mais uns botijões que vendia num ferro-velho ali perto da Paróquia do bairro. Se desse polícia jogava no rio que cortava o São Cristóvão.



A Brigada iniciou uma grande investigação para saber que entidade do além era essa que estava roubando botijões de gás. Até telegrama mandaram para o comando em Porto Alegre. Seria necessário reforçar o efetivo para lidar com o sobrenatural, com uma lenda gaudéria missionária e centenária? Deveriam envolver o MTG? Historiadores, pajelança ou era caso de exorcismo?



A carreira do Saci foi duradoura, mas o excesso de confiança sempre nos trai. O Saci se achava imbatível, Nem Sherlock Holmes o descobriria. O Saci não contava com uns piás metidos e sem medo de assombração. Voltavam para casa de madrugada, com a cabeça já cheio de laranjinha do Balvedi e quem sabe alguma mistura. Viram a cena e sabiam que era coisa de outro mundo. Ouviram no Jovino da Rádio Erechim tal causo. Se esconderam atrás de um pinheiro e quando Saci passou pedalando a bicicleta com muleta e um “bujão” novinho, que reconheceram, já que haviam comprado na sexta-feira, não tiveram dúvidas. Sem medo pularam em cima do malfeitor. Foi um gritedo e se desfez o mistério



Saci era um malandro que havia perdido a perna com um tiro dado anos atrás por alguém que teve o botijão de gás surrupiado. Mas não perdeu o vício.



Levou um tapas na orelha e liberado. No domingo Dona Valdevina mandou rezar uma missa em agradecimento a São Cristovão que atendeu os pedidos dela e uma santa alma devolveu o “bujão”.

Na segunda-feira no programa do Jovino Martins, na rádio Erechim, ele noticiava

-Resolvido mistério do sumiço dos “bujão”! Coisa ruim rouba e São Cristovão devolve! A manchete irradiada fez eco por todo o bairro. Era quase um milagre.

E Saci Pererê nunca mais foi visto pelo bairro. Se faltar botijão de gás na vizinhança, olhe pela janela de madrugada, vai que um homem de uma perna só esteja carregando na bicicleta. Se tiver uma muleta no pedal, É ele.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

O pneu que destruiu a diversão vespertina

 O pneu que destruiu a diversão vespertina


Um afilhado de meus pais, rapaz trabalhador desde cedo, gostava de carros e como todo garoto, fez uma poupança e chegando a maioridade comprou um automóvel. Estava cansado de andar a pé, de bicicleta e de ônibus que custava caro. Perto da casa dele havia um taxista afamado com carro do ano, mas pegar um auto de praça, só em casos de muita precisão, para levar alguém para o hospital, velório ou casamento, o que dá no mesmo.

Agora vai chover garotas! Pensou o vivente. Nem dava bola para a capota do conversível. Mesmo em dias de garoa e frio perto de zero grau nas manhas de geada, em Erechim, levantava cedo, tirava o cobertor de cima do carro que ficava na garagem, ligava o Puma amarelo 1971 e partia para ganhar o dia. Andava com a capota recolhida, afinal queria ver e ser visto. 

Com o tempo mandou instalar bancos de couro Recaro e escapamento Kadron com ponteira niquelada. Um luxo. Só aí nestes dois incrementos foi quase o valor da máquina. Mas tinha que ter um som bacana. Na época era só rádio AM. Só pegava as rádios Difusão e Erechim. Mas tratou de gastar os tubos num toca-fitas Motoradio com equalizador Tojo. Tudo instalado em uma espécie de “gaveta” retirável para evitar roubos.

Faltava ainda as rodas tala larga para dar estabilidade e o carrão ficar mais bonito. O Puma ficou uma joia rara, não tinha quem não olhasse. Quando estacionava nos finais de semana em frente aos cinemas Luz ou Ideal a piazada babava. Ou nos rolês pela 7 de Setembro aos domingos de tarde, nas paradas no bosque de seminário Nossa Senhora de Fátima ou na boate do Ypiranga que realizava matinezão ou soirée.

Numa tarde de sábado, voltando para casa, já no bairro São Cristovão, perto da Igreja, seguia o trajeto pisando firme no acelerador e o kadron anunciava de longe, Lombo colado no Recaro de couro e os cabelos esvoaçantes no Puma sem capotas, meteu o pé e a nave assobiava chegando a 60 km por hora. Era um sucesso. Passou pela Oficina de Lataria e Chapeção do Donadel como um risco e perto da igreja só sentiu o estouro: Buummmm!

Foi um gritedo de gente correndo, alguns completamente nus, assustados. 

- É o fim dos tempos! Gritou uma carola que estava em frente a paróquia.

- Vão tudo queimar no fogo do inverno! Concordou outra mas sem tirar os olhos da situação.

- Aquele ali é o marido da tua sobrinha! Que sem vergonha, condenou apontando uma delas.

O afilhado, dono do Puma ficou alguns minutos sem nada entender e só sentiu  um baque como se o estivesse caído sentado no chão e arrastado o traseiro na brita.

Ocorre que uma das rodas tala larga, mal apertada se soltou e com a velocidade rodou até bater numa casa próxima que era de uma das mulheres mais importantes da cidade. Era uma renomada empresária do entretenimento masculino noturno. Tinha casas na zona de Erechim e Passo fundo. Para atender a clientela que não podia sair de noite mantinha uma casa respeitável e familiar perto da igreja que atendia até as 18horas os senhores com famílias ou que não podiam sair à noite

O pneu tala larga rodou e deu em cheio em uma das paredes da casa de madeira. Despregou algumas tábuas e o susto foi grande. Foi uma correria e griteiro. Alarmou metade do São Cristovão. Alguns clientes foram pegos desprevenidos completamente desnudos e as moças que lá trabalhavam também saíram correndo porta afora pensando que a casa estava caindo.

Foi um ajuntamento de gente que até hoje o fato é lembrado

O Pneu tala larga? Foi devolvido discretamente por senhora elegante, eu trajava um vestido de noite, salto alto, perfume que dava para sentir de longe e muitas jóias nos braços, pescoços e um par de brincos enormes. Tudo de ouro. 

- Você está bem menino. O seu pneu está aí, mande consertar aqui no Donadel, eu pago tudo. Vamos só esquecer o assunto e não precisa chamar nem polícia nem fazer ocorrência. A culpa não foi sua, Acidentes acontecem. 

E além de não ter prejuízo, ganhar o conserto do carro e se livrar de problemas ainda recebeu um convite tentador:

- Peque este cartão, passe lá na minha casa, vou separar uma surpresinha para você e uma grade de Serramalte, leve algum amigo se quiser.

Duas semanas depois o Puma 71 estava reluzindo e ele foi visto com um sorriso no rosto de canto a canto.

Se foi na casa receber a surpresinha? Não sei, mas que estava sorridente, estava e ainda presentou o padrinho com meia dúzia de Serramalte fabricada em Getúlio Vargas. 

Rendeu!



Puma

Casa da ester no são cristovão

Perdeu roda e bateu na casa


domingo, 29 de maio de 2022

O goleiro namorador



O goleiro namorador





O sujeito não tinha jeito. Amaurílio, um goleiro profissional de times de futebol. Vindo de Porto Alegre jogou em clubes de todo o Brasil, alto forte, de boa estampa e bom na posição que jogava. Mas, gostava de namorar. É da mesma estirpe de César Maluco, Serginho Chulapa, Paulo César Caju, Renato Gaúcho e tantos outros na história do futebol.




Quando jogou em Joinville, morava em um hotel no centro e defendia as cores do América. Jogou no Barroso de Itajaí e no Hercílio Luz de Tubarão. Quando estava em Itajaí, num sábado, saiu da concentração para dar um rolê pela Brava, Cabeçudas e se aventurou a ir até Balneário Camboriú guiando um Maverick, que consumia o salário na hora de encher o tanque. O Maverick foi um “presente” do patrono do clube na hora da contratação. Hoje seria um presente de grego. Mas o negão estava todo metido no Maverick, braço para fora, relógio de marca, corretão de ouro e camisa estampada..




Voltou na madrugada para o alojamento do Barroso e domingo de tarde enfrentaria o JEC-Joinville Esporte Clube, recém formado. A esquadra entra em campo, Amaurílio todo fardado, luvas, camiseta preta com o número 14, correspondente ao gato no jogo do bicho. Aos 26 minutos do primeiro tempo Amaurílio estava mortinho e o sol era um maçarico no campo em Itajaí. Ressaca pior daquelas que fecha o porto em dias de tempestade.




JEC começou a pressionar e na época o Fontan era a grande estrela do time joinvilense. Meteu um chutão lá do meio do campo e pimba. Gol no time dos peixeiro. JEC 1,Barroso 0. Segue o baile, juiz apita o reinício e não deu três minutos, Fontan recebe a bola num cruzamento e de cabeçada enfia a bola lá onde canta a coruja, raspando o travessão. JEC 2, Barroso 0. Juiz apita para o centro do gramado para recomeçar. Barroso consegue chegar perto da zaga do JEC, mas perde a posse de bola que é lançada para o lado dos itajaienses. Novamente o carrasco Fontan dá um pataço que estufa a rede e Amaurílio, seco, cozido da noite nem vê a bola, passou como um meteoro. Resultado do primeiro tempo Joinville 3 x 0 Barroso.




Na segunda-feira o goleiro namorador, já vendeu o Maverick e seguiu rumo a São Paulo. Tratou de se enturmar e passou a frequentar a Escola de Samba Império de Casa Verde do bicheiro Chico Ronda. Tocava tamborim e no primeiro dia de ensaio cresceu o olho na passista da escola de samba. Morena linda, medidas perfeitas e desfilava em cima de um salto alto, toda graciosa e protegida pelo porta-bandeira. Mas, tamborim daqui, passinhos de lá, em pouco tempo a rainha da escola estava faltando nos ensaios e sendo vista em Ilha Bela, Guarujá e São Sebastião.




Um segurança da escola encostou no Amaurílio e deu a letra:




Ei três a zero, vaza! Pede pra sair que o patrono tá sabendo da tua amizade com Edicreusa, nossa passista, nossa rainha. Disse o segurança, um sujeito que mais parecia um cofre quadrado.


Tá enganado. não fiz nada- argumentou Amaurílio, só imaginando a orelha zunindo se o guarda-roupas de 8 portas e maleiro resolvesse entregar o recado do patrono.


Patrono sabe, e Edicreusa falou da tua coleção de camisetas de clubes de futebol e mostrou o chaveirinho do Hercílio que tu deu pra ela. Ali a conversa terminou. Mal largou o tamborim e partiu. Mudou de bairro e esqueceu aquela passista.




Fiquei sabendo que hoje frequenta a Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, onde se dedica a harmonia. Acho que não se encantou com nenhuma passista e nem com a rainha da bateria. Continua batendo uma bolinha aos domingos de manhã e dando rolê na praia, sempre acompanhado nos domingos de tarde. Não perdeu o vício. Deixa o patrono descobrir….








sexta-feira, 27 de maio de 2022

Quem será que é?

 Quem será que é?


Há 30 anos sou usuário do “postinho” de saúde, que agora inventaram um novo nome, Unidade Básica de Saúde da Família, aqui no bairro Glória. é um simpático postinho com uma equipe pequena e super preparada, atenciosa e educada. Sempre atendem os "velhinhos" e os novinhos também com um sorriso e com cortesia.


Mensalmente retiro remédios, verifico a pressão arterial e mantenho minhas vacinas em dia. E sempre há um grupo de idosos por ali, ou para serem atendidos, pegar remédios ou acompanhar alguém. Esta semana fui me vacinar contra a gripe (influenza). Como sempre fui bem recebido e conferiram minha carteirinha e solicitaram que aguardasse a minha vez. Assim o fiz, e fiquei observando os demais.


Passei os olhos em cada pessoa, Notei um casal da minha rua e  um senhor me olhava, fazia menção de me cumprimentar, enfim como se me conhecesse. Confesso que não percebi muito, pois não o reconhecia.


Passados uns 10 minutos, ele chamou meu nome para meu espanto. 


Como sabe quem eu sou? Estou famoso e nem sei? 


Ele levantou do banco e se aproximou, e puxou conversa.


  • Como estás? Está tudo bem? Não saiu sua aposentadoria ainda? Questionou. Daí o reconheci, quando chegou bem perto. Confesso que fiquei envergonhado sem ter onde enfiar o focinho. Era um grande amigo e colega de trabalho que por muitos anos trabalhamos próximos. Eu era secretário de Comunicação do prefeito Luiz Henrique e ele chefe de Gabinete. Era o Fraiz. Firme, forte, saudável, porém mais magro e sem o seu tradicional bigode. Aparenta mais jovialidade aos quase 70 anos, possivelmente pela leveza sem o farto bigode. 


Recebeu a quarta dose contra a Covid e saiu serelepe, 


Segui para sala de vacinação, fiz uma injeção no glúteo e verifiquei a pressão. E a enfermeira recomendou: - O senhor tem que vir mais vezes acompanhar a pressão para registro no sistema e acompanhamento médico. Garanti a ela que vou mais vezes sim. Ainda envergonhado de  não reconhecer um bom amigo e colega que durante anos trabalhamos em salas uma do lado da outra sai do postinho e respirei fundo na varanda onde se espera a hora de atendimento.


Na saída, já indo embora. Outro senhor, me cumprimenta, vem falar comigo. 


  • Você aqui? Puxou conversa. Desta vez prontamente repondi que fui me vacinar. Trocou algumas palavras e me despedi. 

Continuo sem saber quem era nem de onde o conheço. Mas  a fisionomia não é estranha. 


Será que estou caducando?


domingo, 22 de maio de 2022

A RIFA

 A RIFA



Acomodado na última mesa de canto do bar, estava o Adroaldo Roberto, um conhecido. Estava com cara de emburrado, não queria ser importunado. O dono do boteco, que ficava lá na Vila do Cachorro Sentado, em alusão a várias casinhas “meia-água”,  até fez um sinal e cochichou nem chegue perto. Deu curto circuito no chifre. Tá sofrendo.


Em cima da mesa de metal, dessas que usam em bares com quatro cadeiras e estampa de uma marca  de cerveja, estava ele com um monte de papel de embrulhar pão. Escrevia números e rasgava em pedacinhos. Colocava tudo em um baleiro, igual aos que ficam nos balcões dos bares com pirulitos, balas, chicletes, gomas e todas doçuras para estragar os dentes da piazada.


Tinha com ele um toca-fitas e gravador cassete, que tocava sem parar as músicas  do Lindomar Castilhos. Era uma dor de corno só: Nós Somos Dois Sem Vergonhas, Camas Separadas, Muralhas da Solidão, Coração Vagabundo, Ébrio de Amor, Você é Doida Demais e Eu vou Rifar Meu Coração./O som não era alto porque aqueles aparelhinhos tinham pouca potência, mas dava para levar a qualquer lugar.


Observei algum tempo, pedi torresmo, laranjinha Balvedi e fiquei por ali observando o Adroaldo. O Lindomar Castilhos estava rouco de tanto tocar a fita. Ele escrevia e rasgava papelzinho, dobrava e colocava no baleiro.


Lá pelas tantas cheguei perto e puxei conversa:


  • Que tá inventando aí? perguntei tentando quebrar o gelo e matar a curiosidade.

  • Não te interessa e você deve ter culpa também. 

  • Deixa de ser tanso, bicho véio, me fala. Adroaldo ficou em silêncio, respirou profundamente, deu um suspiro  de dar dó. Entornou mais um “mercedinho” de purinha e virou a fita. Apertou na tecla play e aumentou o volume.

O som rouco do toca-fitas cassete Nacional era ruim e a fita gasta mas  ele não queria saber. Botou o volume no mais alto e se recostou na cadeira. Era ainda Lindomar Castilhos cantando “Eu Vou Rifar Meu Coração”


  • É isso que vou fazer! Já escrevi os números, estão todos no baleiro. Vou rifar meu coração para quem me der mais carinho.


Ouvi a prosa do Adroaldo e sai. Dias se seguiram e a turma toda durante a semana pegou número da rifa, mais para diversão. Vendeu os números a um cruzeiro. E marcou o sorteio para o terceiro domingo de maio às 11h ali mesmo no Bar Gambá Enfastiado.


Era uma manhã bonita, clara, sol radiante,mas a temperatura estava por volta dos 8 graus. Os amigos, parceiros de boteco apareceram. Veio até o João Cuiudo com a gaita e puxou  sucesso de Teixeirinha, Quem é Você agora , composta quando Mary Terezinha o deixou.


Estava na hora do sorteio. O Velho Tatu Mulita, dono do Gambá Enfastiado abriu a tampa do baleiro e anunciou o início do sorteio.


  • Vamos começar o sorteio do “coração” do nosso amigo Adroaldo Roberto  que recentemente sofreu grande desilusão amorosa. 


Adroaldo trouxe o toca-fitas cassete e apertou play, novamente a música Eu Vou Rifar meu Coração, que ficou como fundo musical. Quem passava na frente do Gambá Enfastiado olhava, parava e alguns ficaram. Enquanto isso, o bodegueiro Tatu Mulita meteu a mão que mais parecia um remo de tão grande. Pegou um papelzinho e todos ficaram em silêncio. Só se ouvia o fundo musical 

Eu vou rifar meu coração

Vou fazer leilão

Vou vendê-lo a alguém

Não vou deixar o coitadinho

Viver sempre sem carinho

Ficar sempre sem ninguém


Todo mundo em suspense até que sai o número sorteado: 


  • Vamos ver quem ganhou. Anuncia o Mulita. É o número 6, para quem não sabe é cabra no jogo do bicho. Em seguida foram ver a lista dos compradores da rifa. E na lista correspondente ao número estava o Miguelão, 140 quilos, 1m90, mecânico de caminhão num posto de molas na Transbrasiliana, do outro lado da Vila do Cachorro Sentado. Miguelão dava medo só no caminhar do vivente e sempre andava com uma prateada na cintura.


Todo mundo ficou em silêncio. Foram saindo aos poucos. Tatu Mulita entregou os frangos assados das encomendas e desceu a porta de ferro de enrolar. 


Adroaldo recobrou a consciência, nunca mais se falou no assunto e ninguém foi revelar o resultado do sorteio ao Miguelão.


Adroaldo desistiu de rifar o coração. Está namorando a filha do dono do Gambá Enfastiado e a fita cassete que enrolou no cabeçote ficou lá. Aposentou até o toca-fitas. Comprou um walkman. Assim ninguém sabe o que houve e nunca mais ninguém tocou no assunto. Anos depois casou e se mudou para Viadutos, na esperança de que ninguém lembre quem foi o ganhador do sorteio.


Acho também que nunca mais ouviu “Eu Vou Rifar Meu Coração”.


O AUTO DA APARECIDA