domingo, 15 de janeiro de 2023

O sumiço do ouro do cacique

Este fato verídico, verdadeiro e com testemunhas ocorreu há um bom tempo no Votouro/Faxinalzinho. E meu parente Anildo Torres não me deixa mentir sozinho, pois sabe mais detalhes do ocorrido.




Quando as novas terras no norte do Rio Grande do Sul estavam sendo desbravadas, com corte de florestas, abertura de estradas e surgimento de povoados, muitos migrantes, imigrantes foram para lá tentar a sorte, iniciar novos negócios e tentar uma vida melhor.




Erechim já era uma cidade consolidada, pois já fez 100 anos. O antigo distrito de São Valentim virou município em 1945, mas o Faxinalzinho era uma localidade de passagem, pouso, alimentação para quem seguia para Santa Catarina, passando por Nonoai e descendo as barrancas do rio Uruguai até chegar no porto do Goio-ên e ali pegar uma balsa. Antes de entrar na balsa não havia um vivente que resistisse às bergamotas que caiam dos pés de tão carregadas que ficam até hoje.




Mas no Votouro, corria a fofocama de que o chefe da indiada tinha um tesouro escondido. Era ouro puro tirado das terras do Alto Uruguai, rica em pedras preciosas e águas termais.




Escondia seus achados, bem guardado. Era um índio maleva forte e era a própria lei da aldeia. Resolvia no braço as questões. Caso a bagunça fosse um pouco mais acalorada era com o rabo de tatu e se algum se altercava um pouco mais por causa dos efeitos da marvada pegava o camboim e fazia o julgamento e a condenação na hora. Mas se o ocorrido envolvesse mais de 4 ou cinco parentes ou visitantes, daí o três listras crispava do lombo da indiada e cada um ia para sua casa curar a bebedeira e esfriar as ideias.




Mas sabedores do tal tesouro, alguns começaram a planejar o resgate de tal riqueza.




Vamos fazer uma festa de aniversário para o véio - sugeriu um parente.


O véio é esperto, vai descobrir e o rabo de tatu vai lanhar o lombo da indiada - argumentou um primo.


Já sei, vamos aproveitar a festa da paróquia e a procissão. Ele não perde e a casa fica sozinha. Deu a ideia para outro aparentado.




No domingo de festa o pessoal começou cedo. O chefe da indiada, como de costume levantou na madrugada, afiou a prateada e seguiu para o salão paroquial. Em um galpão mais adiante uma turma pelava os porcos, depenavam galinhas, outros preparavam os espetos de madeira, outros principiavam o fogo numa vala no chão. As mulheres na cozinha preparavam saladas, cuscuz, pães e doces. E não podia falar um traguinho de cachaça para limpar a goela e tirar a poeira vermelha.




Lá pelas 10 horas chegou um padre vindo de Erechim, mas era nascido em São Valentim, de onde saíram muitos padres que se ordenaram no Seminário Nossa Senhora de Fátima de Erechim. O cacique estava no lugar de honra dentro da igreja, mas não soltou sua prateada atravessada na guaiaca, nas costas.




Enquanto acontecia a missa, os planejadores do resgate do tesouro aproveitaram para entrar na casa, que era grande, de madeira e alta. Construída em madeira de lei e assentada em cepos de cerne de angico.




Subiram a escada, abriram a taramela e pé ante pé foram direto no quarto. A cada passo rangia a madeira e os valentes engraçados paravam, olhavam e ouviam a cada passito. Vai que o véio volte com a prateada. Reviraram tudo. Até destruíram o colchão de crina. Nada em nenhuma peça da casa. Abriram o alçapão no forro da casa e nem reluz do tal ouro ou pedras preciosas.




Após a procura sem resultados de encontrar do tesouro do chefe da aldeia. Resolveram ir embora e voltar a lida na festa, a missa estava chegando ao fim e o almoço estava quase começando no salão paroquial.




Saíram da casa, fecharam a porta da sala e trancaram com a taramela de novo. Ao chegar no primeiro degrau da escada para descer, a visão do inferno. Era o próprio coisa ruim. Sim, era ele que estava embaixo esperando os parentes visitantes. tinha que descer por ali. Haja desculpa.




O cacique nem perguntou. Um por um passavam por ele e recebiam a Santíssima Trindade pelo pecado de cobiçar as coisas alheias:




Um relhaço com rabo de tatu, um pranchaço de três listras e uma benzedura com galho de camboim. Nem precisou usar a prateada.




A festa ocorreu normalmente e os caçadores de tesouro aproveitaram o sal grosso do churrasco para desinfetar e cicatrizar as feridas. Sal grosso e cachaça feita com cana de açúcar da região. Sobrou até para o padre que teve que jogar água benta para tirar o demônio do couro dos envolvidos.




E o tesouro? Parece que o véio havia enterrado lá para os lados do campo santo. Morreu sem ninguém se aventurar a cavar na sepultura. Huumm, será que compro uma pá?



terça-feira, 10 de janeiro de 2023

80 ANOS

Num final de tarde de domingo ele estava abandonado no meio da rua. Assustado, choramingando, com fome sem saber para onde ir. Era uma rua pequena de terra, eu dirigia devagar. Parei e recolhi. Por uns dias cabia em uma caixa de sapatos. Limpo, medicado, alimentado começou a reconhecer seus domínios. Era uma bolinha de pelos que rolava pelo pátio, pela casa. Curioso e ranzinza.




Hoje completa 16 anos, o equivalente a 80 anos humanos. E com isso os mesmos problemas de uma pessoa idosa que requer cuidados, atenção, carinho e amor.




Dói as juntas, já não tem mais forças para se levantar sozinho. Quando quer algo late, resmunga. Alguém tem que atendê-lo. É pegar pelas ancas e levantar o traseiro e esperar estabilizar para que não caia de novo.




Como todo idoso, suas necessidades não param. Quer trocar de local, mudar de lado ao ficar deitado, quer comida, água, fazer o número 1 ou fazer o número 2.




Odeia ficar sozinho. Quer companhia o tempo todo. Levanta cedo. Geralmente às 5 horas já chama para que o ajudem. Vai direto no meu quarto e ali fica. Gosta de ver as notícias pela TV, com o ventilador ligado e apreciar os passarinhos que iniciam o dia cantando. Cochila, às vezes dorme e baba no chão. Volta e meia acorda e olha assustado para minha cama.




Estou aqui, estou aqui. Fica tranquilo. Digo e abano para ele ter a certeza de que ninguém o abandonou. Mais tranquilo volta a repousar a cabeça no chão para mais um cochilo.




Quando vou cozinhar ele fica nos pés, vou tomar chimarrão, igualmente.




Quando saio para trabalhar explico que ele cuide da casa e ele ouve atentamente.




Ao chegar ele estará lá sorrindo para me ver.




Francisco o Imperador dos domínios do pátio, é um encrenqueiro, mas é amável, faz parte de nossas vidas. Pede tão pouco por tudo o que ele oferece. Por isso prefiro os cães. Pena ter que viver com humanos.




Parabéns Chicão.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Natal que a indiada enfrentou os brigadianos

Li no jornal de Erechim que aconteceu uma grande confusão em Faxinalzinho, onde fica a reserva indígena kaingang do Votouro.




Foi na véspera do Natal deste ano, dia 24. Estava tudo preparado para um evento de Natal no centro da cidade. Começou um empurra-empurra, discussão mais acalorada, possivelmente por algo fútil, mas a “marvada” que atormenta as idéias ferveu.




Um guarnição de Pedro e Paulo, ou seja um dupla de brigadianos foi intervir para acalmar a indiada. Abordaram os brigões pedindo que parassem. Utilizaram o tal spray de pimenta. Mas o que é um spray de pimenta para quem está acostumado com mato, picada de borrachudo, uivo de coruja, corrida de leão-baio, mordida de cachorro do mato e picada de jararaca? Qualquer chá de carqueja e um trago de cachaça mata qualquer veneno.




Os brigadianos não deram conta e correram para o auto usar o rádio e chamar reforços. A Polícia Federal que tem jurisdição para área indígena é longe. Plantonistas não iriam. Solução foi ligar para o quartel em Erechim. Em uma hora chegaram mais três guarnições enquanto isso a peleia estava cada vez mais feia




Ao ver o reforço a indiada incendiou mais ainda. Voava garrafa de Serramalte e de pinga, mas tudo vazia. Voava cadeiras que alguns trouxeram para sentar e ver a apresentação de Natal. Até um cepo de cerne de angico foi atirado acertando uma luminária que veio abaixo.




Quando viram o campo de guerra os brigadianos sentiram que não estava bom para eles. Pensaram em recuar, mas deixar por isso mesmo? Foi quando o alvoroço aumentou.




Do meio do povaréu revoltado e brigão, surgiu um índio curto e grosso, de chapéu tapeado na testa, abrindo caminho em direção aos policiais. Brandindo um facão três listras e o povo abrindo alas como se fosse Moisés abrindo o mar. A cada 10 passos riscava o facão nas pedras que relampejava na noite escura.




Chegou em frente aos brigadianos, deu um pranchaço de facão nas costas de um, no pescoço de outro, abriu o capô do carro da polícia com um faconaço bem dado, furou os faróis do segundo veículo e quebrou a vidraça de um terceiro carro com um golpe só.




Assustados, os brigadianos recuaram a pé em direção a São Valentim para pedir mais reforços. E o índio curto e grosso riscou de novo o facão na pedras e gritou:




Te arranca daqui!




Observou alguns minutos os brigadianos seguirem o caminho de volta, voltou e atravessou a multidão. Se fez silêncio. Pegou a estradinha que vai para o campo santo e sumiu na escuridão. A indiada se olhou uns para os outros, meio curando o porre e ficaram com a pulga atrás da orelha e o falatório já começou.




Mas este vivente era o …..


Não pode, morreu há mais de 60 anos


Benza Deus…Mas o três listras era o dele..


Vamos tomar mais uma porque isto é coisa de outro mundo.




Já estava raiando o sol quando chegaram mais brigadianos e encontraram só o cenário da batalha campal. Nenhuma viva alma. Quem sabe na Missa das 10h. Mas antes que o índio curto e grosso volte decidiram retornar ao quartel. vai que ele volte….

sábado, 17 de dezembro de 2022

O caderninho

Era uma tarde de domingo de tempo enfarruscado, nuvens cinzentas e parecia que vinha um temporal. O cacique alertou que tinha maus sentimentos naquela tarde. Mandou a indiarada para suas casas para ver se estava tudo fechado. Poderia vir uma tempestade de granizo.




Mas logo em seguida parou um carro corcel 72, quatro portas de cor azul. Estacionou na frente do bar, restaurante e hotel no Faxinalzinho, que fica entre São Valentim e Nonoai. O carro ficou embicado para a estrada que segue para Nonoai e em seguida para o Goio-ên, onde tem passagem pelo Rio Uruguai para Santa Catarina.




O cacique ficou desconfiado porque o chofer não desceu do carro e o motor ficou ligado. Nada bom para aquela tarde de domingo. E a indiada já meio emborrachada, falando alto, alguns cantando e outros peleando por causa do Inter e do Grêmio, já que mais tarde teria Grenal.




A dona do estabelecimento, aparentada do cacique do Votouro, pegou de baixo do balcão o “amansa louco”, nada mais do que um porrete feito de cerne de angico. Resolvia qualquer encrenca. Era só mostrar o lustroso que os malevas já curavam a bebedeira.




Os três falquejados que desceram do auto entraram firmes no boteco. Subiram os três degraus de madeira e já tomaram conta. Dois calçaram os clientes com duas garruchas e o líder seguiu para o balcão.




Dona, nem adianta pegar o amansa louco. Ninguém vai se machucar. Só quero o “caderninho”. Silêncio se fez. Não se escutava nem um mosquito zunindo. A indiada toda ficou bem quieta. Nem o cacique fez frente para defender a parente e os demais caingangues da reserva.


Não sei do que o senhor está falando - respondeu calmamente a dona do hotel, restaurante e boteco. Ela dividia os ambientes. Uma parte era familiar para recepção do hotel, e um armazém de secos e molhados e na outra parte era um bar onde servia cachaça, cerveja, bitter e eram preparados alguns pratos como torresmo, linguiça frita para forrar o estômago da “gambazeira”.


Deixe de conversa. Me passe o caderninho e vamos embora. Insistiu o líder da quadrilha.


Não sei de caderninho nenhum, insistiu a bodegueira até que ouviu um dos clientes, que ela não identificou gritar lá de perto da porta:


Ela esconde dentro da “brusa”.....




O líder da bandidagem ouviu e insistiu que ela entregasse. - Não quero faltar com o respeito com a senhora, aqui tem até parentes seus. Não vou pegar com minhas mãos, mas quero o caderninho.




Lentamente ela largou o porrete de angico em cima do balcão, cheio de riscos de facão, virou-se de costas, retirou o tal caderninho e largou em cima do tampo de angelim.




O assaltante pegou o tal caderno, olhou as anotações e saiu de costas. O mesmo fizeram os outros dois comparsas. O corcel que estava com tanque cheio e motor ligado e quente saiu fazendo poeira na estrada que sai de Faxinalzinho, passou pela frente do cemitério e não foi mais visto.




Refeitos do susto, um por um foi saindo do bar. E a dona gritou: - Podem voltar. Aí tem dente de coelho. Acham que as dívidas se foram com o caderninho, pois vocês, seus velhacos, que armaram esse assalto não sabem que eu entreguei um livrinho de receitas e não a caderneta das contas penduradas de vocês. Sorte minha que o ladrão não sabia ler e azar de vocês porque as dívidas continuam e agora aumentaram com a despesa de hoje.




Um a um passaram pelo balcão, atualizaram a despesa e foram para casa ouvir o Grenal pela Rádio Guaíba em ondas curtas. Emburrados de contratar um perigoso bandido que não sabia ler.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Afrodisíaca

As três amigas estavam animadas. Sorridentes num início de tarde de sol. Escolheram a mesa que dá vista para o mar. Mas pouco apreciaram a beleza do mar, do sol, dos barcos, do horizonte. Estavam mais interessadas em seus celulares. Sim, isso mesmo. Esta doença ataca até idosos.




O garçom se aproximou e antes mesmo de ler o cardápio já pediram a santíssima trindade etílica.




Uma caipirinha de moranguinho - pediu a primeira mais animada.


Eu quero uma cerveja - solicitou a segunda amiga e a terceira em tom elegante pediu espumante, mas deveria ser servido no baldinho e em uma taça de cristal.




A conversa recheada de risadas ia aumentando o volume na medida que os copos iam esvaziando.




Moço, tira uma foto nossa? Uma delas pediu ao garçom que na hora caprichou em várias poses e ainda falou do contra-sol que poderia não ficar bem. Feitas as fotos uma com biquinho, outra como cleópatra e a do espumante com olhar fatal para a câmera do celular.




Rapidamente se reuniram uma atrás da outra para ver as fotos.




Ficou bom!


Mas queria tirar esse papinho..


KKKK não tem photoshop. No teu caso só com plástica, kkk


Vou mandar para meu filho. ele que trabalhe para a mãe poder aproveitar a vida, rsrsr




Assim prosseguiu a conversa do grupo que está preocupado em viver o que resta. Não perderam tempo discutindo candidaturas, copas ou qualquer outro assunto chato.




Logo em seguida o garçom trouxe o pedido. Algo lindo de tirar fotos e de dar água na boca.




As famosas ostras gratinadas estavam na mesa pronta para serem degustadas.




Me disseram que ostra é afrodisíaca, rsrs - comentou a primeira


De que vai nos adiantar? retrucou a segunda


Para mim pouco adianta, o Oswaldo fica deitado o dia todo no sofá de calção, cochilando e babando. Justifica a terceira amiga




Riram muito das situações de cada uma e devoraram as ostras gratinadas na tarde de sol. Aproveitaram a companhia de cada uma, tornando a vida melhor.




Assim é a vida e o Oswaldo continuava deitado no sofá quando ela chegou com energia da ostra gratinada e efeitos do espumante gelado degustado em taça de cristal.




La vie est belle!

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A falecida na cozinha

 A falecida na cozinha



Há alguns anos, morreu uma senhora muito querida, da vizinhança. Amizade familiar que ultrapassou meio século. Naquele tempo em que os portões não tinham tramela e se dormia com as portas sem chavear.


Ela já estava em idade avançada e numa tarde de verão quente não aguentou o calor, idade avançada, pulmões fraquinhos e pressão alta. Sempre teve saúde de ferro. Viveu muito porque também não dispensava um copo de vinho tinto todos os dias, desde que o pastor não soubesse e gostava de banana amassada com aveia no lanche da tarde. Tinha disposição de ir para o centro a pé enfrentando ladeiras, tinha de pegar a aposentadoria e pensão, pagar os carnês das lojas, água e luz. O que sobrava guardava em casa, pois não deixaria o dinheirinho no banco.


A notícia de sua morte não foi surpresa. Já passava dos 90 anos.


Vizinhança tratou de avisar filhos e netos e prepararam o velório em casa mesmo,  evitando gastos.  Durante a noite, mais para a madrugada apenas dois vizinhos estavam na sala com a morta. Os parentes tinham ido para outro lugar discutir o que fariam com a casa e quanto daria pra cada um. Afinal ninguém queria viver ali. 


E lá pelas 3 horas da madrugada de lua cheia o meu sobrinho Fábio e outro vivente ali da vizinhança sentaram na escadinha em frente a casa para papear, esperar o sol clarear e ver se os parentes voltam e a chegada de mais vizinhos. Lá pelas 10 viria o padre encomendar o corpo, o carro fúnebre e o ônibus para levar os amigos e vizinhos até o cemitério para enterro.


Os dois ouviram um barulho estranho dentro de casa. Levantaram e se afastaram mais para o lado da rua, onde tinha outra escadinha que dava acesso ao passeio público. Fizeram silêncio, e novamente barulhos estranhos vindo de dentro da casa onde na idéia deles só havia a falecida no meio da sala entre 4 velas.


Mais um silêncio e novamente barulho de panelas. 


  • Será que a vó ressuscitou? Já ouvi falar de coisas assim. Disse Fábio ao outro vizinho que estava em vigília. Estava mais branco que pano alvejado em quarador.


  • Pois olha Fábio. Eu vou embora. Com assombração eu não mexo. Já me caguei todo uma vez lá no Pai Nelito. Tchau! - despediu-se o vizinho deixando Fábio solito na madrugada com o mistério do barulho que vinha de dentro da casa.

Mais um pouco de silêncio e veio forte um chiado de fritura e cheiro de ovo na frigideira. 


  • Mas não pode ser. Aí tem dente de coelho ou é coisa mandada. Pensou. Precavido, deu a volta na casa e espiou pelos fundos. Subiu uns degraus da escadinha em cima do poço e olhou para a cozinha que ficava nos fundos da casa. O que viu foi assustador.


  • Sai daí seu gambá. desliga o fogo e te  aquieta, ordenou meu sobrinho ao acontecido.


O mistério se desfez. O vizinho cachaceiro, criado na vizinhança, vivia com o beiço inchado de cana. Entrou pelos fundos curtido de cachaça, com fome, viu que não tinha ninguém, nem foi na sala onde estava a falecida. Ligou o fogão, derrubou algumas panelas e esquentou a frigideira. Atirou meia dúzia de ovos no óleo, fez uma lambança, sujeira e se fartou. Agora restabelecido, desceu e foi embora dormir, na casa ao lado.


Restou ao meu sobrinho esperar o amanhecer para não deixar a falecida sozinha. Vai que o cozinheiro volte…


sábado, 15 de outubro de 2022

o sumiço dos gatos

 o sumiço dos gatos




De uma ora pra outra começou a sumir os gatos da vizinhança e vieram as acusações de que tal vizinho tinha dado veneno, ou atirado todos na sanga. Alguns até teriam visto o malfeitor. E assim estava estabelecido o terror. Havia um serial killer de gatos na cidade. Muitos até desistiram de comer os tradicionais churrasquinhos na madrugada ou aos domingos no campo de futebol. Um senhor que vendia peles e carnes de coelho foi para a inquisição dos fofoqueiros da pequena cidade. Nada foi provado, mas seu negócio de peles para gorros, cobertores e casacos para as madames faliu. Ninguém tinha a certeza da procedência do coelho assado vendido aos domingos pela esposa do peleiro curtidor.


Assim correu a fofocaiada que nem poeira ao vento levada pelo minuano. E o sumiço dos gatinhos não parava. Chegou a informação pelo rádio, bem cedinho de que na cidade vizinha também os felinos domésticos estavam desaparecendo. Mas estavam deixando os de pelagem escura e parda. Só os branquinhos eram levados, destes gatos que de longe parecem coelhos.


O comissário de polícia foi até a telefônica municipal e tentou falar com a capital sobre o assunto. Não conseguiu completar a ligação. Era uma chiadeira que não se entendia nada. Aproveitou atravessar a rua e entrou nos Correios. Mandou um telegrama para a chefatura de polícia.


Acusamos aumento de assassinatos de felinos. Reforços urgentes. No aguardo de providências”. Uma semana após mandar este telegrama, o comissário estava na delegacia e ouviu uma movimentação fora do comum. Estacionaram cinco jipes com policiais civis e brigadianos fortemente armados. Entraram na delegacia, uma casa de madeira alugada com algumas goteiras e muitas paredes roídas pelos ratos, afinal diz a lenda que quando “os gatos saem os ratos fazem festa”. O comissário explicou a problemática que estava tomando conta da região.


O chefe da policiada tomou a liderança e determinou ações. Vasculharam cada casa suspeita e indivíduos que poderiam ter o perfil. E acabaram descobrindo até um dono de bar na zona do meretrício que vendia um apreciado  churrasquinho de paca, que na verdade era carne de gambá.


Passaram três semanas e nada da descoberta sobre o assassino de gatos. A força tarefa foi desfeita e os brigadianos e investigadores da capital voltaram a Porto Alegre.


Uns dois meses depois o comissário recebe denúncia de que havia forte cheiro de podridão em uma casa abandonada, que tinha sido de um homem idoso recluso e que pouco se sabia. Haviam comentários de que foi muito rico e avarento. Ganhou dinheiro como balseiro no rio Uruguai, também explorou muita gente nas jazidas de pedras e até de ouro que se achava no Alto Uruguai. Não gastava, não saia de casa. 


Chegando na propriedade, se longe sentiram o cheiro de carne podre. 


  • Sinto o cheiro da morte- sentenciou o comissário que valentemente abriu o portão e seguiu a passos largos e firmes pela entrada cercada de palmeiras. O cheiro era insuportável, Vários cadáveres de pequenos animais jogados no terreno. Ouviu sussurros e deu meia volta. Pensou em pedir reforços. Tirou o Taurus 38 da cintura, certificou que tinha balas no tambor. Mas imaginou que pelo ocorrido precisaria de água benta e um ramo de oliveira. O caso era de sobrenatural. Se aproximou e viu um sujeito de aproximadamente 30 anos resmungando algo como : “ o tesouro é meu, o tesouro é meu”. Correu para o carro e na estrada encontrou o leiteiro que estava fazendo entregas. Pediu ajuda. Chame o Samdu urgente com camisa de força, ordenou. Assim foi feito.


Chegando a ambulância do Samdu - Serviço de Assistência Médica e Domiciliar, que havia antes do Inamps, INSS e SUS, se aproximaram e recolheram o vivente que só repetia: o tesouro é meu, o tesouro é meu”


Horas depois se desfez o mistério com o depoimento do serial cat killer.


Ele queria o tesouro escondido na velha casa do ermitão, pois a avó dele contou a lenda e que para achar o tesouro deveria adentrar pelo caminho ladeado de palmeiras com uma parelha de gatos brancos, unidos por uma canga de marmeleiro. Em determinado horário da noite os gatos brancos iriam reluzir com o brilho da lua e indicar o local do tesouro.  


O tesouro não foi encontrado, o caçador de tesouro foi internado, a casa está no mesmo lugar e ainda hoje se ouvem barulhos estranhos e miados fortes, principalmente quando o vento sopra em direção a cidade. 


Quem tiver coragem pode se aventurar na busca do tesouro, mas deixe a lenda dos gatinhos de lado.






O AUTO DA APARECIDA