domingo, 23 de novembro de 2025

O JORNALISTA BÊBADO QUE DESENCABEÇOU A FREIRA



Os jornalistas da chamada velha guarda praticavam a fase de romantismo da profissão. Pouco ganhavam, o que escreviam eram textos muitos deles mais literatos e desenvolviam grandes "nariz de cera". A introdução era muita enrolação até se chegar ao fato. A objetividade do jornalismo veio depois quando se responde as principais questões já de início para o leitor se interessar em se informar. A técnica é responder: o quê, quando, onde, como e porque. 


Mas isso não tem importância para o que eu vou contar. Quando eu trabalhava no Diário Popular em Pelotas, almoçava no bar da esquina denominado Boteco Cruz de Malta. A comida era boa e barata. Ahh, sim, havia baratas e ratos, também. E dali seguia para o Café Aquários na mesma rua para um cafezinho e saber das novidades, principalmente da política. Havia uma fauna multidiversificada naquela esquina democrática.


Um deles era um jornalista da velha escola, da velha guarda, já com uma idade avançada. Era bem magrinho, com seu terno surrado e não largava o cigarro e a xícara de cafezinho. Vez por outra um conhaque para "limpar a garganta". Era conversador e gabola. 


Nos anos 60, ele trabalhava em jornais da capital e cobria pautas pelo Estado. Como era comum a toda um geração de escribas, saiam dos jornais e seguiam para os bares e casas de procedência duvidosa. Me contou que em inverno rigoroso, frio, gelado, com vento sul e a temida tormenta de Santa Bárbara acabou adoecendo. A receita era simples, como para a maioria desta turma da noite. Frequentava as casas noturnas com maestria, onde havia cigarro, bebidas, mulheres, quase nada de comida e ali deixava seus poucos caraminguás.


Certa noite caiu desacordado com elevado teor alcoólico, cheiro de cigarro e nenhum tostão nos bolsos. Os colegas de copo chamaram o Samdu, que era o  Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, precursora do SUS que hoje conhecemos. Foi levado quase morto para um hospital público,daqueles centenários, úmidos, paredes descascadas e reboco do teto caindo sobre os pacientes.


Desacordado ficou por alguns dias recebendo tratamento, alimentação e cuidados. Ao acordar, se esforçou para abrir os olhos colados de ramela. Pouco via, pois além de muita secreção pelas infecções, estava sem óculos e a catarata, também dificultava. 


Olhou o ambiente com pé direito alto, tudo branco, ouviu gemidos, ranger de molas das camas, descarca de banheiros e de repente, muito próximo, uma voz doce e angelical que insistia para ele  sentar na cama para tomar os remédios. Aquela voz entrou em seus ouvidos e tomou conta de seus sentidos. Sentiu o tom carinhoso, cuidadoso e imaginou que já estava no céu. Morreu e subiu. Mas no seu  íntimo duvidou disso, pois com a vida que levara e os atos praticados, seria mais plausível que estivesse na companhia do capa preta. Não havia cheiro de enxofre e sim uma fagrância  de jasmin que entrava pela janela que estava entreaberta para arejar o local. 


Inebriado pelo perfume e pela voz doce, suave e carinhosa, abriu os olhos e viu um anjo na sua frente. Um anjo jovem, de branco, com um lenço no cabelo que escondia os fios loiros. Ela tinha uma pele clarinha, fina e aparentava ser uma bonequinha de porcelana chinesa viva.


- Bom dia senhor! Que bom que acordou. O senhor precisa se alimentar, aconselhou a bela mocinha.


- Onde estou? O que houve comigo? Questionou o velho jornalista.


- O senhor foi trazido aqui. Estava caido e estamos tratando de sua pneumonia. Quase que o senhor foi encontrar Jesus.


- E você quem é? Um anjo?


- Sou uma freira aqui do hospital. Sou a irmã Ágatha.


Aquele nome soou como se fosse um canto gregoriano, cheio de suavidade. Pediu que ela chegasse mais perto para poder vê-la melhor. 


Alguns dias depois teve alta, mas não tirou a freira de seus pensamentos. Ele sempre foi um rapaz namorador e já havia perdido muitas moças para o seu maior rival. Elas se cansavam das bebedeiras, da falta de compromissos e iam se dedicar às causas sociais e buscavam na religião o amparo pelos estragos que ele havia feito na vida delas. Perdeu muitas para Jesus, como ele mesmo dizia. Mas desta vez não! Pensou.


Algum tempo depois, com idéia fixa de reencontrá-la, já com saúde restabelecida, emprego fixo e local de moradia, propôs casamento para aquele anjo que cuidou dele.


E em uma loucura maior. a freirinha linda e angelical aceitou largar o hábito e se casar com talzinho.


Quando foram oficializar o casamento,  ele chegou bem pertinho do altar, olhou fixo para a imagem de Jesus na cruz  e sussurrou:


- Desta vez eu ganhei, parceiro. 



segunda-feira, 17 de novembro de 2025

MEU QUARTO VIROU BIBLIOTECA

 

Em 1984, quando fui fazer vestibular na UCPel- Universidade Católica de Pelotas, me hospedei no Pensionato Gaúcho, localizado na rua Dom Pedro II, pertinho da reitoria. E quando iniciaram as aulas, fui morar uns tempos no mesmo local. Casarão secular, pé direito alto, portas enormes e arquitetura bonita, porém mal cuidada. As casas dos ricos, como um dia foi essa, tinham apenas um banheiro para atender todos os moradores.


Recentemente descobri que esta casa estava para ser demolida, já que uma construtora se interessou em comprar para construir um prédio. A pesquisa sobre as origens do imóvel revelaram um grande segredo. A casa foi construída e foi residência do escritor pelotense e um dos maiores nomes da literatura gaúcha, João Simões Lopes Neto que foi empreendedor, e sua paixão era a literatura. Com as dificuldades financeiras teve de vender sua casa e outros bens para quitar dívidas. Morreu pelas circunstância aliado a umidade e frio da gélida Pelotas. A casa passou de mão em mão até que seu fim estava destinado. Mas foi salva pelo gongo, após pesquisas que revelaram seu verdadeiro valor. Hoje abriga o Instituto João Simões Lopes Neto, onde estão sua obra, sua vida, sua história para que as futuras gerações possam conhecer um pouco mais deste grande escritor gaúcho.


Morei nesta casa e minha  “vaga” na pensão era num dos quartos da frente que hoje abriga uma biblioteca. Eram dezenas que ali moravam, dividindo espaços, um único banheiro e um único tanque para lavar as roupas e estender atrás da casa, onde nem aparecia o sol. Fiquei contente em descobrir a origem da edificação e seu principal ilustre criador e morador. Aproveito meus últimos dias de férias para reler Simões Lopes Neto. Estou com Casos do Romualdo. Depois vou ler o belo trabalho de outro expoente pelotense e gaúcho Aldyr Garcia Schlee que preparou uma edição comemorativa do Centenário de Contos Gauchescos de  Simões Lopes Neto (1912-2012). Estes três livros de Schlee são  “Contos & Lendas", uma edição comentada. Outro volume é o sobre o “Vocabulário” do escritor pelotense e um terceiro volume do conjunto intitulado “Lembrança”, Schlee busca e recupera a imagem de Simões Lopes Neto, com base em textos que falavam a respeito do autor.


Isto dá orgulho de ser gaúcho, de ter estudado em uma cidade culta com ótimas universidades, bons professores  e pessoas comprometidas com a história, com o resgate da cultura e comprometimento com o futuro. Também vale enaltecer os guerreiros valentes que não permitiram a demolição da casa de Simões Lopes e trabalharam pela criação do Instituto para preservar e ser a cidadela guardiã da obra e biografia deste grande expoente literato. 


Não é à toa que o rio Grande do Sul é considerado o Estado mais culto do Brasil. É o que mais lê, num momento em que todos estão com os focinhos enfiados em um celular. Novas gerações pouco estudam, mal escrevem e alguns são incapazes de elaborar uma frase. Cada vez mais é necessário incentivar os jovens a visitar locais como este, participar de feiras de livros e ler obras históricas e atuais. Assim formaremos um novo país. O Rio Grande do Sul, já é uma Nação que dá exemplos ao Brasil.


Parabéns ao Instituto João Simões Lopes Neto e todos que se dedicaram a esta causa.


E meu quarto é uma biblioteca….


sábado, 15 de novembro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-IV AS CARTAS NÃO MENTEM E REVELAM O DOUTOR CARENTE DE AMOR

 


A cartomante, que era conhecida por muitos anos da costureira e sua família, fazia uma visita toda semana, principalmente nas quintas-feiras quando o movimento de clientes era maior. Nesta convivência haviam segredos íntimos que nunca foram revelados, pois muitos senhores casados e respeitáveis da alta sociedade frequentavam a zona da cidade e alguns até tinham uma companhia fixa para os encontros semanais.


Em uma tarde dessas de quinta-feira a tia Anita, cartomante conhecida chegou cedo, por volta das 14 horas para uma prosa e quem sabe “botar as cartas” para algumas clientes. Uma senhora elegante, esposa de um afamado médico havia mandado fazer alguns vestidos para os bailes que viriam nas próximas semanas nos clubes do Comércio e Atlântico, de Erechim e também o jantar de final de ano dos colegas médicos do hospital onde o marido trabalhava. Ela nunca acreditou no oculto, em previsões, ciganas e cartomantes, mas sempre teve na mente a crendice popular de que as “cartas não mentem jamais”. Mas naquela tarde resolveu tirar a febre com uma consulta. 


Consultas com a cartomante eram feitas na cozinha, longe dos olhares e dos ouvidos das outras. A elegante dama solicitou os serviços, foram para a cozinha e ela deixou claro que não acreditava nas besteiras que ouviria. Pagou adiantado, independente do que as cartas revelariam. A cartomante apenas disse que a cliente iria se surpreender com a verdade revelada e que deveria estar pronta para decepções, alegrias, tristezas, frustrações ou felicidade extrema do que o futuro revelaria. Se acomodaram na cozinha, frente a frente na mesa onde a família fazia as refeições. A vidente fechou a porta e ficaram as duas. Embaralhou as cartas e pediu que a cliente cortasse no meio. Assim foi feito. Pediu então que escolhesse uma das cartas do segundo monte separado. Foi assim que agiu e entregou a carta para a tia Anita.


  • Huumm. A senhora é feliz em seu casamento? Questionou, após várias cartas colocadas sobre a mesa. A mulher disse que sim, afinal casou bem com um médico famoso e rico. Ela vivia bem e o dinheiro não lhe faltava. A cartomante perguntou de novo se ela era feliz, pois não se tratava de dinheiro. A cliente emudeceu.

  • O que a senhora está vendo nesta bobagem? Temos um casamento feliz. Isto é o que me interessa. Mas me diga o que está vendo aí? Inquiriu rispidamente e com curiosidade. Seu tom de voz revelava, também apreensão, insegurança e certa vergonha de que viesse à tona a realidade de sua vida. O que os outros iriam pensar se soubessem que há anos vivem em quartos separados? E que o marido não a procura por muito tempo?


Revelações começaram a aparecer e tudo foi dito. A mulher saiu do atelier e foi embora. Deixou as roupas para outra ocasião. Passou a observar os passos do doutor. Toda quinta-feira de noite ele tinha “reunião com a equipe” ou “plantão”  e chegava tarde com leve cheiro de bebida, fumaça de cigarro, mas com um ar de felicidade. Ela seguiu e viu o que não queria. Sua decepção maior é que o marido se encontrava com a dona de uma das casas da zona. Era da mesma idade dela, porém obesa, mas tinha um sorriso que encantava qualquer pessoa. Pensou na cartomante e lembrou do que ela havia dito, de que não acreditava em bobagens de videntes e cartas. Estava tudo certo. Em uma tarde ela foi na casa onde o marido frequentava e pediu para falar com a amante do marido.


  • Boa tarde, eu sou…Nem deu tempo de dizer seu nome e nem se apresentar. A amante e dona da casa na zona. Convidou ela para entrar, levou-a para a cozinha e fez um café.

  • Seja bem vinda. Sei quem é a senhora e o motivo de estar aqui.

  • Não entendo como pode querer estragar minha vida.

  • Nunca estraguei sua vida, nem fui atrás de seu marido. Nunca o amarrei e puxei com uma corda para cá. Ele veio sozinho e bem disposto.

  • Me desculpe, estou sem chão. Nem sei o que lhe dizer. 

  • Não diga nada, tome seu café.

  • Vamos evitar sermos inimigas mas me conte o que ele vem fazer aqui? Insistiu a esposa do médico.

  • Ele vem buscar apoio, amizade, uma boa conversa, atenção e amizade, coisas que não encontrou no casamento de vocês, possivelmente.

  • Mas como? Vocês não se deitam?

  • Não. Apenas conversamos, ele bebe um bom uísque, escuta boleros, conta sobre a vida, casos de  pacientes e evita falar da senhora. E paga o “instante”, como se tivesse feito algo. Vai embora com um sorriso de menino.

  • Só isso? 

  • Sim, só isso. Também custei a entender, contemporiza a dona da casa.


A prosa entre as duas foi longa, terminaram amigas e combinaram ir na sala de costura fazer novos vestidos, consultar as cartas que “não mentem jamais” e enviar a conta para o doutor carente de amor. 


Querem saber a verdade? As cartas na mesa…




sábado, 1 de novembro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-III O SUMIÇO DO BEBÊ

  Todas semanas a “alemoa do queijo” vinha na costureira para vender queijo fresco, nata, requeijão, iogurte natural e mel. Vinha com duas sacolas e dalí saia com poucos produtos. Já que a casa sempre tinha muitas clientes e compravam produtos saudáveis, feitos pela agricultora. Era uma jovem, ainda, porém mal cuidada. Obesa, lhe faltava um dente, era tímida e tinha um ar de pessoa desconfiada, possivelmente por não ir para a cidade tantas vezes, estar mais dedicada a lida da colônia. 


Certa tarde, ela chegou com cara de choro e sentou. Colocou suas duas sacolas próximo dos pés, abriu-as e deixou à vista para que as mulheres pudessem escolher. Naquela tarde, poucas clientes estavam no atelier tirando medidas, provando roupas ou escolhendo modelos. A costureira Dona Lili perguntou o que estava acontecendo com ela, se havia acontecido alguma coisa grave. Levou ela para a cozinha para lhe servir uma xícara de café com pão feito no forno de tijolos, naquela manhã, e chimia de abóbora que tinham feito em tacho de cobre, em casa naquela semana.


  • Roubaram meu alemãozinho. Disse ela chorando.

  • Do que você está falando? perguntou Lili.

  • Meu filho nasceu e disseram que morreu. Enterraram e eu sei que me roubaram.


Lili ficou sem palavras, pois nem sabia que a  “alemoa do queijo” esperava bebê, já que pelo tamanho dela, ninguém imaginava isso. Ela contou que no hospital o menino nasceu saudável, chorou forte e ela deu de mamar. Foi levado e ela nunca mais o viu. Só a notícia de que não havia sobrevivido.


  • Sou mãe, sinto isso. Me tiraram ele. Eu vi ele vivo. Desabafou a “alemoa do queijo”.

  • Tome seu café, chore à vontade e me dê um abraço. Deus vai amparar seu filhinho. Quem sabe uma boa família o recebeu. A costureira tentou amparar a alma sofrida daquela agricultora. Fez um chá de camomila colhida no terreno e comprou todos os produtos para que ela pudesse pegar o ônibus e voltar para a colônia e no aconchego de seu lar tentar seguir a vida com essa dor no peito que pela sua existência permanecerá.

Nos anos 60 e 70, quando não havia legislação sobre o assunto, situações como essa aconteciam. E pessoas menos afortunadas e sem conhecimento eram vítimas e remoiam suas perdas sem ter a quem  reclamar. 


Ao escrever esta série de crônicas, me inspirei no escritor Nelson Rodrigues continua sempre atual, mesmo com o passar dos anos. A vida é assim e cada vez mais vivemos a Vida como ela é. 



domingo, 26 de outubro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-II A DEVOLUÇÃO DO AMANTE

Quando o “auto de praça” parou em frente a casa da costureira, muitas mulheres que ali estavam foram até a porta pra ver o carrão. Era um Opala 4 portas marrom. A porta direita traseira se abriu e dela desceu uma mulher deslumbrante. Primeira imagem foi seu pé direito com um sapato de salto alto e logo em seguida suas pernas bem torneadas e o vestido de tafetá  cor vinho. Ao se levantar do banco de passageiros pediu ao chofer que a esperasse. Não importava pagar a hora parada do taxista. 


Na calçada antes de entrar na casa, sua beleza, encantamento e sedução, era capaz de seduzir não só homens, mas mulheres também que olhavam admiradas para a famosa “Cola de Ouro”. Dona de uma casa afamada na zona do município e que não economizava tostões no bem viver. Se dava ao luxo de boas roupas, viagens, jóias vistosas e manter seu taxista com carro de luxo sempre à disposição. 


Mantinha uma casa de respeito, frequentada por clientes que podiam pagar. Ela sempre repetia que na casa dela, as meninas não bebiam cerveja. Apenas uísque de boa qualidade para “não criar barriga”. Cerveja engorda e damas da noite gordas, inchadas, com pneuzinhos não era bom para os negócios nem para  a fama da casa. A alcunha “Cola de Ouro”, vocês devem imaginar do que se trata. Sim, era caro. 


Mas todas perceberam que por trás dos finos óculos escuros e do rosto encoberto pelo chapéu chic, havia uma lágrima que descia pelo belo rosto da bela mulher que deveria ter uns 40 anos. Entrou na sala de costuras cumprimentou todas as senhores incluindo damas da sociedade e damas da noite que juntas folheavam revistas de moda Burda, Figurino, Vogue, Desfile, Manequim e outras para escolher os modelos das roupas que iriam confeccionar. Ela já trouxe o desenho do novo vestido, o tecido e os acessórios que queria. Indicou a bordadeira para o detalhe final. Ela queria um bordado de uma camélia vermelha. 


Sentindo que a cliente não estava muito bem, a costureira a convidou para ir até a cozinha tomar um cafezinho. Sentou-se e serviu meia xícara de café preto sem açúcar, para manter a elegância. Agradeceu o pedaço de pudim, não faria isso com ela mesma. A costureira perguntou:


  • O que houve minha filha, porque tanta tristeza?

  • Acabou. Não aguento mais. Minha vida se tornou um vazio imenso. Repontou a famosa cortesã.

  • O que de grave aconteceu? Você está chorando. Sempre foi uma moça tão alegre, contemporizar a costureira.

  • Depois de 20 anos tive de devolver o Celsinho. E sinto falta dele. Celsinho foi o amante dela por anos. Pequeno, magrinho, educado, calmo, e que a ajudou no início, pois ele era um bem colocado funcionário do Banco do Brasil. Deu a ela um talão de Cheque Ouro. Foram anos de convivência e ela aturando o alcoolismo dele. Para nada servia em termos de homem e mulher, mas ele era boa companhia e dava respeitabilidade a ela e a casa. Ninguém arrumava bagunça, pois ela era do Celsinho e nenhuma beberagem ou confusão na casa também em respeito ao Celsinho.

  • Mas há motivos para isso? Questionou a costureira.

  • Ele está morrendo de câncer, de tanto fumar e beber a vida toda e ontem não tive escolha. Peguei as coisas dele e mandei entregar na casa dele. A esposa atendeu e na carta expliquei que ela poderia ficar com ele de agora em diante. Ele precisa de cuidados. As lágrimas contidas se transformaram em choro desesperado. Abraçada na costureira buscou amparo e acolhimento. 


Recomposta e com a maquiagem refeita voltou à sala de costuras para tirar as medidas, discutir o modelo que veio desenhado por modelista. Ao sair cumprimentou todas as frequentadas e seguiu para o carro. Aquela seria outra noite de trabalho normal, destruída por dentro, pelo amor desfeito, mas sorriso no rosto para bem receber os clientes dispostos a diversão, boa bebida e música ao vivo, onde imperava tangos e boleros. 



sábado, 18 de outubro de 2025

CONVERSAS DE SALA DE COSTURA-I - AS NAMORADAS DOS PADRES

     Fui criado no meio de tecidos, costuras, clientes, provas de roupas, entra e sai de gente em casa. Minha mãe era costureira e na sala de costuras se ouvia de tudo. Era confessionário, clínica de psicologia e até psiquiatria. O mundo de cada uma das clientes desfilava por ali e com elas suas dores, amores, segredos, sonhos, desilusões, esperanças, desesperanças, perdas, danos, conquistas. Enfim suas vidas circulavam em rodas de chimarrão e muita conversa. Nesta série vou contar um pouco do que ouvi, vivi e guardei.


Esta primeira crônica, após acompanhar na semana passada o caso da  fiel, moça linda, jovem e noiva que pediu para "usar o banheiro e o quarto" do pároco em Nova Maringá (MT) , vem na lembrança duas clientes de minha mãe.


Na rua onde me criei, uma das vizinhas tinha uma amizade muito próxima com um padre da região. Ele era um senhor de origem alemã, gorducho, baixinho e divertido. Cantava e tocava acordeão e os Kerb comunitários eram sucesso pela sua animação. Festa de Igreja com o tal padre era casa cheia.Toda semana ele vinha fazer uma visita para nossa vizinha. Dava a benção e ia embora. Com esta amizade mantinha uma boa casa, boa comida, bons calçados e boas roupas. Era bonitona, bem do tipo italiana avantajada de ancas largas e seios fartos. 


Outro pároco famoso, com uma voz bem grave e muito bem querido no bairro onde era o pároco, trazia a secretária da paróquia toda semana para novas roupas. Vestidos, camisas, taileur para ficar bem vestida durante  os expedientes na secretaria paroquial. Ele ficava aguardando, sentado em uma das cadeiras espreguiçadeiras, feitas com armações de ferro pesadas e trançados de fios plásticos fortes,  que tínhamos na área da frente de casa, uma ante-sala. Ali fumava seu cigarro, tomava umas cuias de chimarrão com meu pai e aguardava a funcionária tirar medidas, provar as roupas. Ela fazia questão de vir com a nova peça mostrar e sempre perguntava:


- Estou bem, o que o senhor acha? com um sorriso maroto. E o padre sério, com olhar um tanto encabulado e tragando mais uma baforada de Du Maurier longo, e com voz forte de baixo aprovava.

- Estás belíssima, minha filha, dizia o padre enquanto olhava para meu pai e estendia a mão devolvendo a cuia. E todos sabiam que ela era bela, elegante e atraente. Tão elegante e desejada quanto Monica Belucci no filme Malena. Principalmente na cena que ela caminha de vestido branco, bolsa preta e sapatos de salto alto. Cabelos pretos esvoaçantes, beijados pelos ventos do litoral. 


Ótimas clientes e o pagamento era à vista, em dinheiro e sem regatear. Almas abençoadas.


Imagem: Monica Bellucci - Filme Malena (2000)


sábado, 4 de outubro de 2025

PIAZOTE VALENTE E O ESCONDERIJO

Outubro é o mês em que comemoramos o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e também o dia das crianças, no próximo dia 12. E com estas datas nos lembramos de quando éramos crianças. Nem todos tiveram boas infâncias e boas recordações. Eu as tive.  Fui afortunado de ter pais amorosos, uma casa, comida, escola, vizinhos, amigos e brincadeiras na rua até altas horas. E também tinha peleias, das boas.


Certa feita arrumei uma encrenca com a piazada da rua e como eu era valente tratei de mostrar quem  mandava no campinho. Provoquei a gurizada do outro lado da rua e corri para dentro de casa. Voltei com um facão três listas com cabo de chifre, já fora da bainha de couro. Ficava guardado perto do fogão à lenha. Tratei de pegá-lo, sem que ninguém visse. Saí da cozinha, passei pela sala de costura da mãe que estava com muitas clientes e nem a vó Elvira percebeu minha proeza. 


Saí pela porta da frente e cheguei na calçada. Levantei o facão e comei a façanha. E dê-lhe gritos com os inimigos. Ali iria começar uma nova Revolução Farroupilha. A rua tinha sido calçada recentemente com paralelepídeos e a cada brado provocativo eu riscava o facão nas pedras que saia chispa. Estava valente igual ao General Bento Gonçalves. Era faísca pra todo lado. Nenhum deles atravessou a rua para me enfrentar. Mas nas minhas costas fui atraiçoado por um grito feroz: 


  • Já pra dentro. Guarda o facão do teu pai e espera ele chegar! Como não podia me dar por vencido olhei para o outro lado da rua e berrei:

  • Eu volto, me aguardem. E entrei correndo para meu esconderijo e assim arquitetar a volta triunfante. Não me dei por vencido de jeito  nenhum. Sai de meu esconderijo e voltei ao local da batalha. 


Iniciei uma guerra de pedrada. Era pedra que ia e pedra que vinha. Numa de minhas artilharias pesadas acertei a tolda do jipe de um vizinho que morava próximo. Só que ele  era amigo de meu pai. Era o jipe do Abrahão Haoach, um comerciante libanes que tinha lojas no centro. Quando vi a besteira e percebi que ele parou o jipe e voltou, me retirei estrategicamente em marcha rápida para meu esconderijo. Quieto, quase sem respirar estava aguardando tudo se acalmar, para quem sabe continuar a batalha. 


Senti duas mãos que me pegaram pelos tornozelos e me arrastaram rapidamente, me tirando debaixo da cama da avó Elvira. Ali era meu esconderijo preferido a cada necessidade de fuga rápida. 


Ouvi as acusações, Abrahão foi embora e veio o julgamento, sentença e aplicação da pena com a vara de marmelo. Ali encerrei minha carreira de peleador. Nada mais de facão, pedras e abandonei meu esconderijo. No ano seguinte comecei a frequentar a Escola Estadual dos Subúrbios, com boas notas ganhei uma Monareta 1970. Deixei de ser peleador para ser um aventureiro e descobrir a quadra toda, a rua de trás e depois os bairros. Era a liberdade de uma infância saudável e feliz.


O AUTO DA APARECIDA