quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O entregador de pizza

 O entregador de pizza


Malandro bom é o malandro esperto, espirituoso e rápido no gatilho. Quando cheguei em Joinville, vim para trabalhar no jornal e lá encontrei uma turma ótima, gente boa, que me receberam muito bem, se fizeram amigos, companheiros rapidamente. Era mais um na matilha!


Maioria jovens na faixa dos 23, 24 25 anos alguns casados, outros solteiros outros bígamos outros polígamos. Trabalhávamos em sintonia e não tem como não saber, desconfiar da vida pessoal de quem convive a maior parte do dia em um salão de 40 pessoas, que na época usavam máquina de escrever, réguas de paica e tudo era desenhado em papel e o jornal montado em grandes mesas de colagem (past up).


Sabíamos quem sai com quem, quem tem amante, quem tem casinhos, quem ficou com quem. Situação quase que normal. Ou romances de final de festa embalados apenas por algumas Faixa Azul que eram fabricadas em Joinville, considerada a melhor cerveja mundial do Brasil, devido a qualidade da boa água extraída em jazida própria alí no bairro América.


Mas um alemãozinho magro, mais feio que indigestão de torresmo, de óculos, falante, boa praça, sujeito educado e bom colega tinha fama de conquistador. Eu só pensava: este mal acabado, falta até reboco e cheio de namoradas e eu não consigo nem um oi. Mas deixa pra lá, um dia surge um chinelo velho para meu pé torto.


O alemãozinho era festejado pelos colegas e algumas lançavam olhares lânguidos para o sujeito. De canto de olho eu só observava. E corria a falação de que ele visitava com regularidade uma das colegas, casada, mas o marido trabalhava em outra cidade e vinha de vez em quando.


Semanalmente ele ia fazer uma visita, assistir um filme do Corujão (não existia internet nem Netflix) e levava o lanche porque a fome aumentava com tanta movimentação noturna. Não tinham dia para se encontrar. Todo dia era dia, afinal o marido não estaria.


Era uma terça-feira, dia tranquilo sem ter que preparar edições de final de semana. Lá pelas 20 horas ela saiu e foi para casa. Só deixou o bilhetinho na mesa: Passa lá!. Com sorrisão de lagarto e mais faceiro que mosca em rolha de xarope, o alemãozinho adiantou serviço, tratou de guardar tudo e nem tchau deu para a turma.


Dá-lhe calcanhar até uma pizzaria do centro. Escolheu uma gigante de 4 sabores (Calabresa, Margherita, Muzzarela e Napolitana) para agradar mais ainda. Aproveitou para levar um vinho do bom. Nada de garrafão. Gastou os tubos na compra de um Almadén, que na época era coisa de rico e só para ocasiões especiais, principalmente para quem ganha salário de jornal.


Saiu da pizzaria fazendo poeira na calçada. Já eram 21h30min. Sobe e desce calçadas, atravessa a rua rápido para não esfriar a pizza e nem esquentar muito o vinho que ele pediu gelado.


Esbaforido meteu a mão na fechadura, que deveria estar aberta como sempre foi o combinado. Ela estaria de penhoar esperando na cama, e o toca-fitas tocando Total Eclipse of the Heart de Bonnie Tyler. Ué, será que trancou? Pensou e forçou de novo a porta. Nada!

  • Pois não, o senhor deseja algo? - atendeu um homem aparentemente  mais velho. 

  • Não, nada é que sua senhora queria lhe fazer uma surpresa e mandou entregar esta pizza com este vinho - se desvencilhou rapidamente o alemãozinho malandro.

  • Quanto custa. Tenho de pagar? Questionou o marido.

  • Tá pago, tá pago, não precisa...disse o colega e saiu queimando sola.

  • Amor, adorei sua surpresa, só estranhei que o motoboy veio a pé. Coitado! Vamos comer? Convidou o marido colocando a pizza sobre a cama e o vinho no bidê com dois copos cristalcica.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Pescaria em Corumbá

Planejada a viagem entre os amigos, tudo pago e um importante cidadão, que vamos chamado de Antonio, viu o roteiro de 1.551 km a percorrer atravessando Paraná, São Paulo e Mato Grosso até chegar no pesqueiro em Corumbá, foi rápido na decisão. “Estou com uma crise de ciático e não aguento tudo isso num banco de ônibus”, justificou. E a dor, de acordo com ele era pior que dor de parto. Tinha ido em clínicas particulares e até em benzedeira afamadas, tomado garrafada e nada.

Combinou que iria até São Paulo de avião, lá pegaria outro vôo com destino a Campo Grande. Encontraria lá na capital do Mato Grosso do Sul  o grupo que viajava num moderno ônibus leito de dois andares fabricado pela Busscar.

No dia marcado, bem cedinho a turma do ônibus sai rumo ao Paraná. Seguem pela BR 101, entram em terras paranaenses até a primeira parada para o almoço em Ponta Grossa. Mas nesta parada tinha uma novidade. Lá embarcaram um grupo de “comissárias de bordo”. Serviam, entretiam e só não levaram aparelhos de medir pressão. Bem. Afinal, nenhuma saberia manusear ou saber o que significa 12/8 ou 20/10. Aí a viagem começou a ficar animada. Deviam dar parabéns ao “manager” que planejou a viagem, pensou em quase tudo.

E dá-lhe estrada. Rodas comendo na BR 376 até lá em Mauá da Serra onde se pega a rodovia estadual 445 em direção a Londrina e vai em direção ao oeste de São Paulo. Atravessa o Paranapanema, passa a lo largo de Presidente Prudente e come mais asfalto. Enquanto isso, alguns dormem babando de boca aberta, outros no carteado embaixo e os mais astuciosos no belvedere apreciando a viagem em boa companhia, Belvedere porque dá para ir vendo a viagem naqueles janelões do andar superior bem em cima da cabine do motorista. Deita, apoia os pés no vidro e toca a viagem. Passa Prudente, passa Venceslau e segue em Presidente Epitácio onde se atravessa a grande ponte de 2.550 metros que liga os estados do Paraná e Mato Grosso do Sul. É um marzão de água doce, coisa mais linda do mundo. Tem muito chão pela frente.

Dez horas depois o possante de  dois andares fabricado em Joinville entra no pátio do Posto América 2, perto do autódromo. Lá estava o personagem do nervo ciático com sua malinha de mão. Chegou no aeroporto, pegou um táxi e ficou esperando no posto. Finalmente os pescadores chegaram. Dalí pra frente mais 500 km e chegariam a pescaria. Alguns desceram para esticar as pernas, outros ficaram no ar condicionado do ônibus por que naquele desertão de terra vermelha às margens da BR 262 o calor estava de riscar chifre no asfalto.

Vamos lá pessoal, vamos chegar ainda cedo. Vamos subir - ordena o chefe da equipe. E Antonio com dificuldades de subir ao segundo andar, já que as escadinhas são estreitas e em formato de L recebe ajuda com a malinha e lá se foi degrau por degrau.

Escalados os difíceis degraus da escada interna do ônibus, que naquela altura parecia escalada do Aconcágua ou do Everest, Antonio meio cansado se deparara com o resto da turma e lá do belvedere uma voz feminina esfuziante grita e vem correndo abraça-lo;

  • Antonio, você aqui, que saudades! - ele não acreditou.

 Seguiu a viagem no belvedere. É difícil se esconder  até com 1.500 quilômetros de distância. O manager deveria saber se a “comissária de bordo” já havia trabalhado por aqui. Sim esta havia prestado serviços na Barra Velha e conhecia a maioria dos pescadores.


domingo, 19 de janeiro de 2020

Velórios de antigamente

Definitivamente não se faz mais velórios como antigamente. Eram acontecimentos onde se reuniam amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos. Alguns iam para ocupar o tempo ocioso ou para se divertir um pouco.

Os velórios eram realizados nas residências das famílias, e o extinto ficava em posição nobre no meio da sala com os pés para a porta da frente, geralmente no meio de quatro velas. E o dito velório durava de um dia para o outro. E as notas fúnebres lida nas rádios fazia eco. Um contava para o outro. Mandavam até para rádios de outras cidades onde se sabia que tinham parentes.

Vinham parentes distantes para se despedir, vizinhança se revezava, a viúva dava chiliques e era amparada pela comadres e parentagem. Ou o viúvo ensaiava algumas lágrimas sob os olhares atentos de novas pretendentes.

Que pouca vergonha, a fulana nem esfriou e a vizinha já está “espichando o olho” para o viúvo - comentavam as jararacas.

Não se faz mais velórios como antigamente!. Ao anoitecer vinha mais gente e a cozinha era o local melhor da casa, ali estavam fazendo alguma comida boa para servir aos que vinham e iam e para os que passavam a noite. No pátio, nos fundos da casa sempre tinha um grupo com chimarrão, pipoca, pratão de bolacha Maria, um garrafão de vinho, uma cachacinha e no fim virava cantoria e contação de piadas. E aí atravessava a noite.

A seriedade voltava com o alvorecer. Alguns iam trabalhar curtidos pela noite, outros tomavam tenência e se chegavam perto do caixão. Afinal mais tarde o padre vinha para a missa de corpo presente.

A chegada do sacerdote era algo esperado e importante. Afinal conseguir um padre para ir em casa era muito difícil. As relações de amizade contavam, pois geralmente alguém ajudava na Igreja, ou era aparentado do líder religioso. Já o recebiam lá na rua e vinham em cortejo, entre choros e lamentações. Missa boa e válida tinha que ser com o Padre, nada de seminarista ou diácono. Para encomendar a alma e levar o distinto (a) para o Céu, só valia as bençãos de um Padre formado no Seminário.

Feita e encomendação, caixão fechado, choradeira, desmaios, corre-corre, vinha outra parte divertida. Às vezes atrasava para esperar um parente ou um filho que ainda não chegou para o último adeus.O cortejo. Seguiam o carro funerário os veículos e depois os ônibus. Sim, colocavam ônibus para os amigos que queriam dar seu último adeus. Se media a importância do morto pelo número de carros no cortejo. Alguns paravam o trânsito e o comério. De tão lindo o cortejo até parecia desfile de 7 de Setembro.

Eu gostava de ir nos velórios para andar de ônibus. Uma vez um colega passou na frente da minha casa e disse: - Vamos a Cotegipe (município distante 12 km) o ônibus vai e volta. O vizinho da rua ali de cima morreu e vai ter missa de corpo presente. - Não pensei muito. Vamos lá conhecer. Na época não tinha asfalto. Estrada ruim esburacada e lá se foi o cortejo com ônibus quase lotado. Chegando em Cotegipe, todos foram para a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, bem no centro. Eu e meu colega foram para o turismo pelas ruas do pequeno município. Não podíamos perder o ônibus para voltar. Andava uma quadra, esticava o pescoço para ver o movimento na porta da Igreja.

E eu nunca soube quem era o vivente que se foi.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Que sejam lágrimas de alegria

 Que sejam lágrimas de alegria


“Se houver lágimas, que sejam lágrimas de alegria”. Esta frase teria sido dita pelo argentino Jorge Mario Bergoglio antes de entrar na Capela Sistina onde estavam os cardeais que o elegeram, para logo em seguida ir para a varanda do Vaticano  e ser apresentado como o novo Papa Francisco  ovacionado pelo povo.


Esta é a cena final do filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e que concorre ao Oscar. Dois Papas. Recomendo que assistam. Vale pela excepcional, como sempre, atuação de Anthony Hopkins interpretando Ratzinger, o Papa Bento 16 que renunciou ao pontificado.E também ótima caracterização e interpretação de Jonathan Pryce como Francisco I.


Uma conversa honesta entre duas pessoas que não pensavam igual. Sinceridade do olho no olho e a humanidade de dois seres humanos mais próximos a Deus. Antes de exercer o mais alto cargo da Igreja Católica são gente de carne e osso que comem, bebem, dormem, gostam de música e futebol. E também cometem pecados e carregam pela vida toda fardos acumulados por algumas atitudes ou escolhas da juventude ou no caminho da vida.


O ultra conservador Ratzinger renuncia e recolhe-se em Castelgandolfo. Frustrado por não ter conseguido fazer as reformas que a Igreja Católica precisaria e passa a responsabilidade para o argentino que assumiu há seis anos e tem tudo para fazer. 


O filme relata diálogos dos temas difíceis ao Vaticano e que precisam de ações concretas para evitar ainda mais a perda de fiéis: roubos frequentes no Banco do Vaticano, pedofilia latente em todo o mundo, e ao invés de punir o sacerdote, apenas mudam de paróquia. Neste caso Bergoglio fala para Ratzinger: “e quem defende as crianças? Protegemos os nossos mudando de paróquia”. E outros temas abordados que ainda virão à discussão é a questão da homossexualidade e sua aceitação pela Igreja. 


A narrativa bem feita aborda estes temas e repassa a vida de ambos. Nos faz pensar na necessidade de modernização dos Católicos. Desde a formação dos padres até a missa. Alguns padres são tão chatos que afastam as pessoas. Há paróquias com líderes espirituais simpáticos, acolhedores e com missas agradáveis que dá gosto participar.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A Jeripoca vai piar!

 A Jeripoca vai piar!


Esta história eu posso contar porque o principal personagem já não está mais conosco, mas vou preservar os demais personagens que ainda andam por aí. O causo aconteceu nos anos 90 e quando falo com alguma amiga, colega eu sempre alerto: seu marido vai pescar no Mato Grosso, Argentina, Paraguai? Coloque uma nota de 100 na isca. Se no retorno o dinheiro estiver alí….huuummmm.


Há mais de 20 anos uma turma grande saia de Joinville para pescaria nestes locais distantes. Era muita vontade de pescar. Mais de 3.000 quilômetros, ida e volta de ônibus para pegar uns peixinhos. E nada trazem, pois alegam que a pescaria é “esportiva e/ou contemplativa” Pescam, fotografam e devolvem ao rio. Tá bom….


Este evento ocorreu em Corumbá, num pesqueiro às margens do caudaloso rio Paraguai, lá na esquina onde se encontram Brasil, Paraguai e Bolívia, lugarzinho bom demais. Dizem que há sobra de Surubim, Pacu, Dourado, Tucunaré azul e amarelo e também tem piranha dos dois tipos, o peixe carnívoro e ...bem vocês sabem. E tem também a Jeripoca, um peixe de couro escuro esverdeado com tons de castanho e manchas pretas ovaladas. Tipo uniforme militar camuflado. Este peixe nada na superfície e emite um som característico, que gerou a expressão popular naquela região: a “Jeripoca vai piar”. Significa que vai acontecer algo inesperado, intenso, forte.


Mas os “pescadores” se foram. A viagem divertida com boa bebida, boa comida, jogo de cartas, contação de piadas. Uns bagunçam, outros dormem e assim cumprem os quase 1.600 km de trajeto. Chegando lá o pessoal saiu do ônibus na frente do pesqueiro e quando este meu amigo personagem desceu as escadas já chamou a atenção da guia. Ele com uns 50 anos, alto, magro, cabelhos grisalhos e bem apessoado. Bem humorado, bebedor de bom uísque e infelizmente fumante. Era um cigarro atrás do outro. Vou denominá-lo como Alberto.


Alberto ao dar o primeiro passo no solo vermelho mato-grossense de Corumbá já avistou a líder, que se chegou. Com um aperto de mão que mais parecia uma prensa hidráulica. Vestida de roupas camufladas, faca na cintura e um cinturão onde pendurava um relho e um cantil. Media cerca de 1m90, 80 quilos bem distribuidos num corpo firme, musculoso e sem nenhuma gordurinha. O aperto de mão e a faca na cintura  era um prenúncio do que ela era capaz quando queria algo. A guia ignorou todos os outros 30 “pescadores” e foi direto no Alberto - Bom Dia. Eu vou ser a guia do pesqueiro e você é um homem muito bonito. Hoje a “Jeripoca vai piar”. Saiba que já fui miss Pantanal?” - adiantou. Sem nada falar Alberto só sentiu a firmeza daquela mão e imaginou do que era capaz numa boa briga para apartar ou para bater.


Cada qual no seu quarto, instalados foram descansar um pouco, já que a pescaria iniciaria bem cedo no dia seguinte, afinal ficaram dois dias sovando dentro de um ônibus num calor superior a 40 graus lá fora. E no Pantanal, a umidade e calor não é para fracos. Imagina para bebedor de uíque e fumante. Preferia observar a pescaria das barrancas do Paraguai. Nem selfie fazia porque não existia celular e as máquinas de fotografia (proibidas por razões óbvias de segurança familiar) eram de filme, Algo complicado para colocar e tirar, principalmente quando a cachacinha era boa.


Após descanso a guia havia preparado um Dourado e um Tucunaré para a turma de famintos. Volta e meia era passava perto do Alberto e atentava: Hoje a Jeripoca vai piar”. Já o deixou preocupado. Imaginou tanta coisa: será que é uma cobra, assombração, que diabo é isso que esta doida está falando?- questionou em seus pensamentos, mas nada comentou com os colegas.Continuou com seu uísque copo longo com gelo. Algumas doses a mais já estava no cowboy. Huumm, pensando bem,  também acho que a Jeripoca vai piar. Vai começar a ouvir coisas: onça, coruja, jacaré, e vai ouvir de pertinho a Jeripoca.


Mas Alberto desanuviou os pensamentos e  ouvia seu inseparável radinho de pilha. Levava sempre para ouvir o JEC-Joinville Esporte Clube, mas lá ouvia as músicas das rádios locais. Guarânias do Paraguai, Milionário e José Rico na rádio Corumbá ou uma diablada boliviana. Pancinha cheia, cada qual no seu quarto. Cansados da viagem e bem alimentados, todos foram dormir lá pelas 21h.


Lá pelas 21h15min começa a assombração. Alberto meio zonzo do uísque ouvia as corujas, já sentia o jacaré entrando pelo quarto jura ter visto uma onça caminhar pelo telhado da pousada. A decoração era  pitoresca, mas assustadora: piranhas, couro de cobra, tapete de couro de onça e uma imensa cabeça de jacaré com a boca aberta na parede dos pés da cama. Eu não ficaria alí.

Mas o barulho que o intrigou foi na porta de sua suíte selvagem:

    -Toc ! Toc! Toc! - Abra a porta meu lindo! Não te faz de bobo. Eu te prometi que hoje a Jeripoca vai piar”.- sussurava uma voz feminina grossa. Na dúvida se fosse efeitos do uísque, assombração ou o cumprimento da promessa da guia do pesqueira. Alberto só levantou o volume do radinho de pilha e adormeceu na cama com colchão de palha, travesseiro de penas. Tocava no radinho Paixão Proibida. Na manhã seguinte no café? Nem um piu!



Domingos no rio Dourado

 Domingos no rio Dourado



Com o calor do verão me recorda tempo de infância. Lá em Erechim não fazia tanto calor como aqui no litoral e principalmente em Joinville, que é um caldeirão. Deve ser também pela altitude de  783 metros. Em Joinville, acho que tem uma fornalha ligada dia e noite. E aliada a umidade é um paraíso para cupins, insetos diversos e para criar “caruncho”, como diziam os antigos.


Mas voltando 45 anos recordo com alegria das tardes de domingo em rios, açudes, os ditos balneários. Água suja, mas nem dávamos bola. Nem pegávamos doença de pele.


Além das estâncias hidrominerais como Marcelino Ramos e Piratuba, para quem tinha mais dinheiro, os menos afortunados iam para os rios, Dourado e Tigre, além dos açudes particulares de algumas propriedades que abriam para o “turismo”. Praia? Só para quem tinha mais dinheiro, ou quem guardava embaixo do colchão o ano todo para no verão “ir pras praia”. A gringalhada voltava feito camarão. 


    Nunca vim porque não tinha dinheiro e nem iria enfrentar 600 km de distância para sujar meu pé na areia, dormir empilhado e passar calor. É o que fazem centenas de turistas que aportam o litoral catarinense e gaúcho. Imagine a epopéia dos argentinos…


Os banhos de açudes eram divertidos. Nas cascatinhas que tinham por alí também. Mas o bom era levar câmara de carro ou caminhão para descer o rio. Eu tinha uns 12 anos e o vizinho da frente aos domingos de tarde, geralmente ia com sua família nestes locais pelo interior. Era mecânico dos bons e piloto de quilômetro de arrancada com seu Opalão duas portas, envenenado e com rodas de magnésio. O Poletto (não lembro o primeiro nome)  acomodava todos no Opala ou às vezes íamos com a camioneta C-10 Chevrolet 78 da oficina. Todos na carroceria igual uma carga de porcos kkk. Era divertido


Ao chegar no Dourado,  comprava pão, salame, queijo, cuca para o lanche da tarde. Atravessávamos a criação até chegar no riozinho. Alguns pisavam na bosta de vaca, mas era só lavar que a água levava embora. Daí a alegria era total. Jogo de bola na água, câmara de caminhão  e não tinha tristeza. Nem sentíamos os borrachudos. Voltava para casa murcho de tanta água, refrescante, barriga cheia e prontos para iniciar a segunda-feira.


Coisas pequenas, diversões baratas que nos davam a sensação de felicidade.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Tristeza no olhar

Andando pelas ruas de minha cidade - Sim! Minha cidade! Nasci em Erechim, no Rio Grande do Sul, morei em várias cidades mas me estabeleci em Joinville. Portanto sou Joinvilense. - percebo o surgimento de novas casas de repouso para idosos. Algumas são meros depósitos de velhos, jogados numa cadeira ou “sentados no trono com a boca aberta esperando a morte chegar”, parodiando o magnífico poeta futurista Raul Seixas.

Semanalmente alguém comenta: - Fulano está no asilo. Mas daí a gente pensa. Mas ele? Era bem sucedido, dono de empresas, casa aqui, na praia, bem posicionado. Mas precisaria estar numa “casa de repouso”?

Colegas de profissão também acabam tendo de se abrigar em recintos assim.

Perto de onde eu trabalho, onde fica a “repartição”, no bairro Bucarein há várias dessas casas. Geralmente eram residências que passaram por uma pinturinha e colocaram a placa na frente. Assim é no Bucarein, Anita Garibaldi e parte do Atiradores.

Confesso que o coração fica apertado ao passar em frente e ver aqueles olhares tristes, sem brilho, distantes, saudosos. E me pergunto. Será que meu fim também vai ser assim? Largado, abandonado, esquecido?

Estamos vivendo mais. A vida está se prolongando graças a Medicina e aos cuidados que estamos tendo com base na consciência de fazer consultas e exames regulares, um pouco de exercícios e alimentação controlada. Chegar aos 80 já é normal. Chegar aos 90 em breve será coisa comum. Quando eu era criança, uma pessoa com 50 anos era velha. Hoje a “terceira idade” está fixada em 60, mas o governo quer empurrar para os 65. Porém nem todos contam com uma boa saúde, com afeto, carinho, atenção. Às vezes a pessoa só quer um bom dia, uma conversa, alguém que note sua existência.

Tenho curiosidade de saber quem foi o FDP que inventou o termo “melhor idade” deve ser um grande FDP. Babaquice ao quadrado. A dita melhor idade vem com abandono, com custos elevados de remédio, internações, tratamentos, depressão. Planos de saúde exorbitantes e as dificuldades naturais do envelhecimento. Para piorar um governo de burocratas acostumados com vida fácil em gabinetes acarpetados e com ar condicionado, querem obrigar o povo a trabalhar até os 65/70 anos. É canalhice da pior espécie.

O futuro do abandono já chegou. Os filhos seguem seus rumos. Estamos cada dia mais individualistas e sem paciência para o mesmo teto. E se o “velho” tiver parkinson, sequelas de AVC, Alzheimer, enfim doenças da velhice?

Os governantes precisam colocar em seus planos de governo não só cheques públicas, mas asilos/casas de repouso públicas também para quem não pode pagar. No futuro teremos mais idosos do que crianças.

Nascemos de fraldas e terminamos com fraldas.

E assim caminha a humanidade.

O AUTO DA APARECIDA