terça-feira, 16 de junho de 2020

Farmacinha caseira

 Farmacinha caseira


Cancorosa (espinheira santa) resolvia qualquer problema de gastrite, dor no “estomo”, azia e úlcera. Hortelã, funcho, cidreira, boldo, um pé de limão e outro de laranja. Curavam falta de sono, era calmante, resolvia indigestão, curava gripe e até frieira no meio dos dedos. Mel não podia faltar, principalmente no inverno para fazer um chá de limão, mel e gengibre um santo  remédio para a gripe. Esta era a farmácia básica que tínhamos em casa e minha avó Elvira era a médica. Nem precisava exame. Dava o diagnóstico e dava o remédio.

E se a doença fosse mais grave nunca podia faltar o emplastro poroso Sabiá para dores e “jeito” nas costas, álcool e merthiolate que ardia mais do que queimadura com água quente. A cartela de Cibalena era essencial, bem como o bicarbonato de sódio. Usava-se para mau-estar, indigestão e  culinária. De manhã uma  colherzinha de bicarbonato com limão era a receita para uma vida saudável e longa. A cada 15 dias era preciso limpar o sangue com “sal amargo”. 

E o mais milagroso que servia para tudo e não podia faltar:  pomada Minâncora. Curava doenças de pele, mau cheiro de axilas e chulés, cicatrizante, anti coceira, alergias, tratamento de feridas e picadas de insetos. Era o antídoto para as picadas de formigas, cobreiro, espinhas e acnes. Nunca podia faltar a latinha de cor laranja da Minancora

Duvido que com este arsenal o Covid chegaria perto.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Pobre Diablo

 Pobre Diablo




Nunca se sabe o que se passa no coração, no sentimentos de cada pessoa, suas paixões, desilusões, seus amores, sofrimentos, recordações. Amores inesquecíveis, traições, reconciliações. Promessas de amor eterno que às vezes não sobrevivem ao primeiro ciúmes.

Nos anos 80 eu trabalhava no escritório de contabilidade do Ruy Antoni, pois eu já tinha curso de datilografia. Comecei como office-boy e fazia o trabalho nos bancos, clientes, repartições a pé, de bicicleta e não tinha tempo ruim. Na esquina da avenida Maurício Cardoso com Torres Gonçalves, em Erechim, havia uma lanchonete que era um ponto de encontro do pessoal da turma. Ali também eu fazia algum lanche antes de ir para aula no José bonifácio à noite. Ao me ver o garçom já vinha com o misto quente.

E nos finais de semana a gente se reunia ali para um sorvete e uma Serramalte. Nos finais de ano o serviço no escritório aumentava e após um lanche voltava para mais algumas horas eram épocas de balanço e eu após algum tempo era digitador de livros-diários nas máquinas Audit.

Certa noite lá pelas nove da noite passei na lanchonete para comer alguma coisa e ir para casa. Noite quente de verão, casa cheia e um povaréu na calçada olhando para dentro. Pelo aglomerado imaginei que a coisa estava animada, deveria ter alguém tocando um show. Afinal estavam progredindo.

Cheguei mais perto e vi o show. Um cidadão de uns 50 anos em cima da mesa, num discurso inflamado contando sua decepção amorosa e convidando para beberem que “hoje quem paga sou eu” parafraseando tango imortalizado por Nelson Gonçalves. 

Chovara aos prantos que dava dó. Ninguém chegava perto com medo que ele caísse e se machucasse, alguns riam da tragédia humana e o cantor com seu violão Gianinim caixas de som meio roucas não parava com os sucessos do momento.

Chamei o garçom que era meu conhecido e perguntei o que estava acontecendo.

  • É nosso cliente trabalha ali na concessionária. Vem seguido aqui sempre mais tarde, mas eu avisei o cantor.

  • Mas está com o coração partido- comentei

  • Eu falei para o cantor. Não  toca essa.- explicou o garçom

  • Mas o que não era para tocar?

  • Falei e escrevi no bilhete: Pobre Diablo do Júlio Iglesias. Ele entendeu que era para cantar. Deu nisso. O polaco loqueou, lembrou da ex e está desse jeito. Pobre Diablo.

Sentei num canto e pedi meu misto quente e fiquei pensando quem foi o mais FDP o garçom que tentou avisar ou o cantor que não entendeu o recado.

“Pero Sigo como un tonto enamorado”!


domingo, 14 de junho de 2020

A véia dos gatos e o dia que conheci Obama

 A véia dos gatos e o dia que conheci Obama



A escola dos Subúrbios, hoje João Germano Imlau, em Erechim, fica perto de onde eu morava, uns 500 metros a pé subindo o morro da Salgado Filho, na época impossível em dias de chuva pois não havia uma rua. Era uma picada íngreme de barro.

Entre os 7 e 10 anos no ensino fundamental a piazada inventa coisas. Onde está o Sesi, perto do Hospital Santa Terezinha havia um mato fechado. Alguns tinham coragem de atravessar para encurtar caminho para as Três Vendas. Minha casa era para o outro lado, em direção ao centro. Numa manhã fria um colega chegou correndo e dando a notícia trágica. Havia um enforcado naquele mato. Maioria saiu correndo pelo portão dos fundos, onde havia um quadra de esportes e mais 200 metros estavam no mato. Ensaiei a corrida e fui até a esquina. Voltei. Vai que o enforcado se mexe….

Havia trabalhos de escola que devíamos fazer em grupos. A gente ia na casa dos colegas. Uma vez eu e um colega de sobrenome Marmentini que morava ali pertinho construímos um vulcão. Só nós dois na casa dele e a cadela Diana. Imagina dois sujeitos com fósforo, cola, cartolina. Quase incendiamos a casa, O Vulcão que deveria ir para a Feira de ciências virou cinzas na lava.

Mas havia personagens assustadores. Para ir na casa de outro colega inevitavelmente tínhamos de passar na Marcílio Dias, próximo ao antigo “lariscola”. Só que a valentia ia até certo ponto. Num trecho antes da casa do colega havia a “Véia dos Gatos”.  Era uma casa de madeira de uns quatro cômodos, pintura descascada, algumas tábuas necessitando trocar devido ao apodrecimento, telhas quebradas, e a frente precisando de cuidados, pelo menos. Muitos gatos habitavam aquela casa. Ficavam na varanda em frente, pelas janelas, telhados, circulando, dormindo, e o sofá já desgastado na área da frente era  preferido deles. A “véia dos gatos” pouco sociável, dava medo. Muito branca, magra, cabelos ralos, pele um pouco avermelhada e os olhos pareciam faiscar. Ralhava com quem passava na rua. Xingava em polonês, coisas que nem entendíamos. Gritava babando, até parecia um animal com raiva. Daí o medo. Em dias de fúria jogava a vassoura, panela,pedra o que tinha na mão. As más línguas fofoqueiras inventavam que ela “vendia coelhos assados para a elite do centro”, nunca acreditei nisso, mas também nunca apreciei coelhos. Porém ela mantinha uma pequena horta com cebolinha, salsinha, alho, orégano e outras ervas que se usa em temperos de carnes, Naquela época era chic ter um casaco de peles de coelhos. 

Era um risco passar pela rua, na nossa cabeça de crianças, éramos valentes até ter que passar na rua da véia dos gatos. Ou no trechinho em frente a casa dela todos corriam juntos, até cruzar aqueles temíveis 15 metros de frente do terreno. Mas o importante era o amor dela aos bichinho. Cuidava e sustentava todas aquelas dezenas.

 Duas amigas minhas de infância e de adolescência podem receber este título. A Marielise já se autodenominou a “véia dos gatos”. E outra é uma amiga de infância que crescemos juntos. E a Marisônia (Kuka) visitei-a no Balneário Rincão no sul de Santa catarina. Impressionante: construiu um triplex para os gatos. Um quarto térreo da casa virou o lar de dezenas de gatos que ocupam também o duplex no segundo andar. Pelo lado de fora contam com uma área de verão cercada por uma grade de cima a baixo que permite a escalada de um andar para o outro. Coberta por caramanchão para amainar o calor do verão. E no triplex sabem que mora?  Sim. Tive a honra de conhecer o Obama. Um simpático gato preto. Nem me deu bola. Ficou na dele quieto observando a gataria.

A honra era grande. Cheguei perto do presidente Obama, cumprimentei-o e pedi licença para sair de seu gabinete pois o almoço de macarrão com galinha ao molho feito em panela de ferro estava esperando e o aroma me torturando. With his license, it was a pleasure to meet you president.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Dia dos Amorados

Dia dos Amorados



  • Me dá aquele ali.

  • Este?

  • Não o outro do lado.

  • Este aqui? Indagava o bodegueiro pegando um a um dos artigos, sem nem mesmo lavar as mãos dos serviços anteriores que estava fazendo ao atender no balcão do boteco. No balcão de madeira e vidro com 4 baleiros em cima e vários artigos espalhados. Misturava desde o pão, salame pendurado, uma mortadela e um queijo já cortados e o mosquedo por cima. Era um armazém de secos e molhados.

  • Sim. este ali.

  • Ahhhhh, vai dar o anel para a namorada, hein….. Caçoou o bodegueiro metido. Recolheu os cinquenta centavos e guardou na gaveta. E nosso personagem saiu faceiro com o presente. Um anel de pedra vermelha incrustado num sorvete seco. 

Atravessou a rua, entrou em casa e ficou admirando o possível presente para a vizinha que embalava seus sonhos. Matutou a manhã toda como faria a aproximação e o que diria. Imaginou vários diálogos e até como estenderia a mão para presentear. Aquilo atormentava  “as idéia”. Não saiu de sua cachola e o sofrimento foi por horas. Tinha de tomar uma decisão antes do final do dia, afinal era uma data especial que não queria perder. E se ela nem der bola? E se não quiser meu presente? Ficou avaliando. Já era cinco da tarde, começava escurecer, a mosquitama já estava aparecendo e os vagalumes em breve acenderiam suas luminosas luzinhas e era hora de caçar vagalumes, correr pela rua de noite com o resto da piazada. Olhou pela última vez para o sorvete seco. Retirou a jóia que vinha em cima e em duas abocanhadas devorou o que seria o presente que declararia seu amor. Afinal viver é melhor que sofrer!.

Mas o título, lá em cima, é um conceito do compositor Lulu Santos convidando para uma “live” que fará neste dia. Ele explica que é para todos que são “amorados” ou seja que amam,que tem amor, que tenham algum sentimento por outra pessoa ou até seu bichinho de estimação. Há pessoas que preferem a solidão, outras a companhia de seu cachorro, de seu gato, de sua iguana, de seu papagaio, de seu pássaro. Se você não tem um namorado (a) ou não pode tirar selfie por não poder assumir publicamente, nem ir a um jantar ou comemorar numa banheira de hidromassagem no motel, devido a seu parceiro (a) ser casado (a) ou ter outra pessoa, então comemore o “Dia dos Amorados”. Sim hoje dia 12 as 21h30min #llovelululive. Aproveite a noite chuvosa e fria e assista com “Um certo alguém”, mesmo que seja à distância on line mas conectados.

E você já foi amado (a) por um certo alguém? A resposta que tive a esta questão, que nem chega a ser shakespeariana foi de que é  uma área difícil, pois o amor é o sentimento mais bonito que existe. Ele suporta coisas, porque quer ver o outro bem, o amor cuida, protege, faz a gente se sentir vivo, nos da força de enfrentar a vida que muitas vezes é dura. Gostei da resposta filosófica e profunda.



Um certo alguém

Lulu Santos


Quis evitar teus olhos

Mas não pude reagir

Fico à vontade então

Acho que é bobagem

A mania de fingir

Negando a intenção


Quando um certo alguém

Cruzou o teu caminho

E te mudou a direção


Chego a ficar sem jeito

Mas não deixo de seguir

A tua aparição


Quando um certo alguém

Desperta o sentimento

É melhor não resistir

E se entregar


Me dê a mão

Vem ser a minha estrela


Complicação

Tão fácil de entender

Vamos dançar,

Luzir a madrugada

Inspiração

Pra tudo que eu viver


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Raios e trovões

Raios e trovões



A chuva era forte, como se fossem baldes caindo das nuvens.  A cada raio e trovão a pequena casa de madeira estremecia e a velha avó fazia cruz de sal para acalmar a tempestade. Da janela da cozinha, ao lado do fogão à lenha, ele só observava os clarões, as flechas flamejantes que vinham  do céu. Seria o castigo de São Pedro aos pecadores do mundo?

Se for um mandado do patrão velho lá de riba?

  • Não fique perto do espelho e não segure faca porque atrai raios. Eram os conselhos. Mas nada melhor do que ficar com a faca prateada uruguaia nas mãos abrindo pinhão sapecado na chapa do fogão ou amendoins torrados no forninho. 

Medo? Nem pensar. Não nasci em noite de tempestade. Nasci valente, corcoveando pelos campos  e nunca tive medo de assombração. Que venha mais um raio.- Brrrr! Buuuummm! Trommmm! E se fez o clarão, a lança de fogo caiu no campo santo em cima da coxilha. Mais um galho do sombreiro que cai.


sábado, 6 de junho de 2020

De onde vem o som?

 De onde vem o som?



Há alguns anos fizemos nossa confraternização de final de ano na Associação dos Servidores Públicos de Joinville. Quiosque reformado, com ar condicionado, churrasqueira, mesas, cadeiras, banheiros novos tudo organizado.

Cada um tinha sua função. O cozinheiro era o Teodoro que fez uma paella de lamber os beiços. Fez tanto que deu até para levar para casa.

E a festa estava a cargo do nosso colega Maurício. Era para levar o som. Eu cheguei cedo, ajudei em algumas coisas e quando o cidadão chegou com o som fiquei observando. Nada!. Só uma mochilinha que colocou num, canto. Imaginei. Esqueceu, mas vai ter que dar um jeito ou não tem comida para ele. 

Em seguida ele tirou uma caixinha de som da mochila e um celular. Mas o que ele sujeito vai fazer? Ligar o rádio do celular? Não vi fio nem nada, fiquei matutando.

Aí curioso cheguei perto e comecei o interrogatório. Me explicou que aquilo era uma JBL Bluetooth. Mas e o fio, como liga? Me explicou que era por ondas do tal de “blutuf”. Fiz que entendi. Mas e vai ligar o rádio do celular: Me falou que não era rádio que era um programa chamado Spotify onde tem todos os tipos de música. Tá bom. Fiquei quieto e me sentei. Abri um Stela e ficou olhando o caboclo terminar a instalação e ver se saia algum chiado dali.

Surpreendente foi quando saiu o som. Enchia o salão com um som de boa qualidade.

Mas um piá de prédio desses nunca teve um toca-fitas e nem uma eletrola de discos de vinil de 33 rotações. Nesta parada eu ganho.

O equipamento da foto   é um rádio gravador moderno dos anos 80. Comprei na J.H. Santos em 24 vezes no carnê. Logo havia iniciado a transmissão de FM da Rádio Difusão e tratei de comprar um rádio que pegasse FM, AM e ondas curtas para ouvir a Super Rádio Tupy e a Turma da Maré Mansa de noite e também a Rádio França Internacional que transmitia em português na madrugada, além de pegar a Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre. Eu gostava do Gaúcha Repórter com José Antonio Daudt e do Correspondente Renner.

A era do vinil estava passando mas existiam lojas de discos como a do Peninha Som, em Erechim, na esquina das ruas Itália e Marcelino Ramos. Além de vender discos ele gravava fitas cassete. Um luxo. Podíamos escolher as músicas e artistas. Anotava, gravava e saia mais barato do que comprar um disco e dava para levar no toca-fitas do carro de quem tinha ou escutar no rádio-gravador. Elba Ramalho, Fagner, Alceu Valença, Amelinha, Moraes Moreira, Zé Ramalho, Ednardo, Rita Lee, Roupa Nova, Fevers, Ritchie, Kid Abelha, Legião Urbana, titãs, Ira, Capital Inicial, Ultraje, RPM, Lulu, Milton Nascimento, Djavan, Chico, Gilberto Gil, Caetano, Barão, Blitz,  enfim a lista de bons artistas era grande. Nem vou comentar o que ouvem hoje…

Agora quero ver qualquer piá de prédio desses de blutuf e ispotifai como se viram com um rádio gravador, uma fita cassete e uma caneta BIC. Quero ver papudo!


sexta-feira, 5 de junho de 2020

O dia que o Garnizé apanhou do anão

 O dia que o Garnizé apanhou do anão




Nosso amigo Garnizé é bem do tipo saliente. Magrinho, topetudo e metido. Sabe tudo, corre de um lado para o outro. Rei do galinheiro. E é metido a valente como todo baixinho que quer compensar a falta de porte físico. Repararam como todo Garnizé estufa o peito? Nunca será um Galo de Esporas.

Estava o Garnizé na recepção, como sempre metendo o bico em cada canto. Conta história, corre para as salas, verifica a cozinha. Ligado no milho e na quirera.

Chega um cidadão de 1,32 m, cabeçudo, entroncado e zolhudo. Garnizé esboçou um sorriso, tipo assim : “deve ser de circo”. O chamado pintor de rodapé só deu um olhar 43 para o Garnizé e falou com voz grossa:

  • Quero fazer “inzami, me mandaram aqui pra pegar otorização” . Garnizé se meteu, nem esperou a recepcionista informar que o local não era ali.

  • O senhor tá errado a saúde nem é mais aqui nesse prédio. Tem que pegar esta rua e ir pela João Colin depois do Angeloni, etc etc blah! Blah! Blah!

  • Quem te perguntou cara de fuinha!- Quero meus inzami! Sentenciou o anão. E deu um soco na parede do balcão da recepção porque não alcançava a parte de cima.

Tava feita a confusão. O anão com sangue nos olhos, unhas sem cortar há meses pareciam navalhas afiadas a se aproximar do pescoço do Garnizé. A cabeça do Anão mais parecia uma bala de canhão de aço. Daí foi um corre corre. O nosso valente Garnizé pulou para trás da recepcionista, dalí mediu a chegada ao corredor e tratou de sumir na braquiária. 

Sobrou para a recepcionista acalmar o anão com um copo de água e açúcar, Levantou o anãozinho colocou na cadeira da recepção, deu água com açúcar, segurou na mãozinha dele. Após calminho da água açucarada e o levou até o jardim.

E o Garnizé?

Só espionando lá de cima do telhado e de peito estufado resmungava: Sorte deste anão que não caguei de pau!


O AUTO DA APARECIDA