quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Que pozinho é esse?

 Que pozinho é esse?


Há dez anos o Marco Tebaldi, erechinense que veio ser engenheiro sanitarista na Prefeitura de Joinville,  e que com seu trabalho na urbanização  virou secretário de Habitação, vereador, vice-prefeito, prefeito duas vezes, deputado federal por dois mandatos e Secretário Estadual de Educação estava visitando escolas do extremo oeste.

Eu trabalhava com ele na Secretaria de Estado da Educação como assessor de comunicação por Toda Santa Catarina. Pernoitamos em Dionísio Cerqueira e no dia seguinte iríamos para  Guarujá, São José do Cedro, Guaraciaba e São Miguel do Oeste, onde  o Sadi Antonio Erlo estava esperando com um cuia de chimarrão, duas garrafas térmicas para iniciar o dia.

Saímos de Dionísio cedinho após o café da manhã e seguimos pela 163. Mas logo em seguida, antes de Guarujá encontramos uma barreira policial. Na época, em 2011, estavam fiscalizando contrabando, assaltos, roubos de cargas e tráfico de drogas. Polícia Federal, Exército, Polícia Rodoviária Federal e Receita Federal. Grupo forte, armado e até com blindados. Imaginamos que mandariam passar, mas um soldado do Exército fez sinal para encostar.

Soldado chegou perto no vidro do motorista e o condutor iria dar um carteiraço:

  • Bom dia estou com o …...Rapidamente Tebaldi cutuca o motorista e manda ficar quieto. Nada de carteiraço e  nem dizer quem era. A fiscalização poderia ser mais minuciosa.

  • Documentos e CNH - solicitou o soldado. 

Apresentada documentação pediu que abrisse o porta malas da camionete. O motorista desceu, abriu o porta malas e o soldado portando uma metralhadora mexeu nas malas, pediu tirasse toda a bagagem. Viu uma bolsa dessas de brinde da Citroen e quando abriu o zíper deu um salto para trás.

  • Tenente, delegado! Chamou reforço. De quem é esta bolsa? Questionou.

  • É do jornalista que está junto - respondeu.

  • Manda vir aqui- ordenou

Ouvi a conversa, meio sonolento desci do carro, me espreguicei e fui ver o que queriam

  • Qual o problema? Qual é a questã? Perguntei

  • Esta bolsa é sua?  Respondi que sim. O que são estes saquinhos plásticos amarrados com elásticos? indagou.

Dentro da bolsa havia uns dez pacotinhos, que aos olhos de mente maligna do soldado fiscalizador poderiam parecer  suspeitos.  O grupo aumentou, junto ao soldado com a submetralhadora Taurus, veio  mais um agente da PF com pistola Glock G 17, o delegado e o fiscal da Receita mais atrás. A esta altura os curiosos iam se aglomerando, Queriam ver a desgraça de alguém. Mandaram abrir com cautela. Comecei  a abrir e expor o conteúdo da minha bagagem.

Primeiro saquinho: maços de  plantas. Desconfiados do que era expliquei. É carqueja, cidreira e hortelã para meu chá e para misturar no chimarrão.

Segundo pacote, desamarrei e saltou um pó verde. Duas medidas de erva-mate para dois dias de mate. Ufa!

Terceiro pacote: Xampu para o cabelo e um sabonete dermatológico, uma latinha de pomada Minâncora, fabricada em Joinville e um cortador de unhas.

Quarto saquinho. Remédios para pressão, para o coração, diurético, para o colesterol,  AS infantil para afinar o sangue, analgésico, curativos e um vidro de Camomila Composta do Laboratório Catarinense para ajudar na digestão num eventual excesso de churrascos, o que é comum naquela região.

Quinto saquinho: banana, maçã e pera. Duas bergamotas da costa do rio Uruguai.

Sexto saquinho: barras de cereais, mandolate e meio pé de moleque e uma rapadura de Santo Antônio da Patrulha que eu havia encomendado.

Sétimo saquinho: sobras de pinhão que havíamos comprado na estrada, lá perto de Otacílio Costa.

Oitavo saquinho: cuecas e meias usadas que estava levando no retorno da viagem para lavar;

Nesta altura o Tebaldi, que ficou dentro do carro, estava com um beiço  que dava para  lustrar o sapato. Agenda atrasada e o mate esfriando lá em São Miguel. Seguimos os saquinhos.

Nono saquinho:creme dental, escova de dentes e fio dental

Décimo saquinho: tirei o elástico, abri o plástico e um pó branco se espalhou. Pularam para trás, metralhadora apontada, pistola em punho  e chamaram mais gente.

  • Que pozinho é esse? Gritou o Federal.

  • É um remedinho que minha avó Elvira usava. Serve como remédio, cura frieira e bicheira de animais, dá para usar como desodorante, detergente se misturar com vinagre, mistura de bolo, sonífero se tomar antes de dormir, emagrecedor, bom para arear panelas, tirar manchas de roupas e desentupir banheiros e canos em geral.

  • Deixa de ser besta rapaz!

  • Verdade mistura com limão e água. É bicarbonato de sódio e faz bem para a saúde, um anti-ácido.

  • Traga a contraprova - ordenou o policial

  • Colocaram uma colherada do meu pozinho num tubo com um líquido e sacudiram.

  • Se ficar azul você vai preso. Ameaçou.

Sacudiram o tubinho e a cor começou a mudar..

Amarelou. Ufa.  Liberados, arrumei meus saquinhos, fechei tudo de novo, coloquei na bolsa e seguimos viagem. O beiço do Tebaldi?  Foi beiçudo até São Miguel. Só desfez a carranca com uma cuia de mate de erva bem verdinha e água quente e uma boa conversa na roda de chimarrão com um pratinho de balas de hortelã e bolo de milho.

Aahh. Continuo organizado  e acondicionando tudo em saquinhos para não espalhar na mala e sujar tudo em caso imprevistos.


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Un regalo de Dios

 Un regalo de Dios




Reconstituído da pauta “molezinha” no Planalto Norte, o Zé Gayoso chegou ao nosso escritório, que ficava ali na subida da rua Emílio Blum , lateral da Hercilio Luz, quase ao lado da sede da Casan, em Fkorianópolis e começou a distribuir os roteiros de viagem. Fulano para cá, cicrano pra lá e preciso de um que faça fotos e faça o roteiro das senhoras no extremo oeste. Adivinhem para quem caiu a missão. Pois é. Sempre gostei do Oeste catarinense onde o povo é hospitaleiro, amigo, recebem as visitas muito sempre com uma cuia de chimarrão, balinhas e na hora da comida não há miséria. Mesa farta. 

Vamos lá.Coisa tranquila 855 km de estrada cortando as terras Por Toda Santa Catarina. No mínimo 12 horas sovando dentro de um carro. O corpinho chegava moído, só querendo um bom chuveiro quente, sopa leve, chá de cidreira ou camomila  e cama. No dia seguinte o roteiro por Maravilha, São Lourenço do Oeste, São Miguel do Oeste e terminaria em Dionísio Cerqueira.

Mas chegando em Dionísio, a tentação de cruzar a aduana e comer uns alfajores, comprar dulce de leche e uns vinhos era muito grande.

Me aventurei. Cheguei na aduana e a polícia argentina mandou parar. Perguntaram onde iria , quando voltaria, revistaram o carro e mandaram voltar para preencher la tarjeta.

  • De donde viene y a donde va? - questionou o policial argentino

  • Vengo de Florianópolis y solo quiero dar un paseo, comprar algunos regalos y ya vuelvo, respondi

  • Regresa, estaciona y llena el formulario y luego puedes asegurar el viaje- orientou.

  • Si señor, gracias- respondi e com a identidade preenchi e retornei.

Adentrei a República Argentina, em Bernardo de Irigoyen. Segui adelante e fui experimentando os doces, visitando lojas de vinhos, olhando e  percebendo as diferenças de arquitetura e a pobreza do lado argentino. Caminhando pela rua  Andrés Guacurari já se encontra mercados, lojas de perfume, de bebidas e doces. É só encher as sacolas. Aceitam reais, pesos, guaranis, dólares, euros. Se quiser trocar por um leitão gordo ou umas galinhas, também tem negócio.

Comprei alguns alfajores e doces de leite e também resolvi comprar uma caixa de bom vinho. Tudo acondicionado no porta-malas com cuidado de não exceder a cota permitida pela Receita Federal.

Tudo ia bem já me preparando para voltar ao lado brasileiro, Tudo legalizado nada de problemas, mas eis que veio uma voz do além me lembrando de um comentário feito pelo Grando em São Miguel do Oeste no dia anterior: - Não passem pro lado de lá para fazer compras. Se a turma do 11 desconfiar  vão fotografar e fazer um carnaval.

Daí olhei para a caixa de vinhos com dor no coração. E imaginei eu tentando atravessar, com a poliçada argentina abrindo , vistoriando e se alguém do 11 estivesse ali para flagrar. Quais manchetes poderiam sair: “LHS manda contrabandear vinho”; “LHS prefere vinhos argentinos em detrimento dos catarinenses da Serra”; “Equipe de campanha faz contrabando”, “Estado perde com evasão de divisas”. Na hora deixei de lado meu desejo de trazer a caixa de Catena Zapata, de uvas cultivadas em Mendoza.

Sentei dentro do carro, olhando a aduana, abri uma garrafa bebi no bico mesmo alguns goles para degustar com alguns alfajores. Meti os dedos dentro o pote de doce de leite e  apreciei demoradamente o doce derreter na boca e adoçar a alma sofrida com a  situação que viria a seguir. Peguei a caixa com seis garrafas, uma aberta e já bebericada e chamei um dos habituais borrachos que vivem pelas ruas de Bernardo;

  •  Hola amigo tengo un regalo para ti - chamei o gambá e lhe entreguei a caixa.

  • Dios mío, no creo.A que le debo este regalo?- questionou agradecido.

  • Es un regalo do Zé Gayoso lá de Florianópolis. Disfrute! E retornei para a aduana, sem problemas e sem temor.

E ainda tinha mais 855 quilômetros de volta. Mais uma pauta “molezinha”. Bem que eu poderia cobrar a conta do Gayoso com juros após 15 anos. Bela poupança. Poderia ser pior. Outra equipe tinha um motorista que queria trazer um curió no porta-malas. Imagina seria crime federal inafiançável se pego nas barreiras da PF, PRF e Receita. Saiu barato!


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Raios, vendaval e dor de barriga

 Raios, vendaval e dor de barriga

 

      Em 2006 o chefe Zé Gayoso me escalou para cobrir o roteiro feminino da campanha de reeleição de Luiz Henrique ao governo de Santa Catarina. Era um grupo liderado pelas esposas dos candidatos

      - Tio Ben, você acompanha as senhoras. É “molezinha”, leva a máquina faz as fotos, dirige e aproveita os cafés – Aconselhado aceitei na hora a pauta e me preparei para a viagem. Coisa pouca uns 1.200 km ida e volta.

      Seguimos ao Planalto Norte. Roteiro por Campo Alegre, São Bento com pernoite no tradicional e magnífico  Stelter Hotel, cujo padrão de qualidade, especialmente da culinária faz inveja aos melhores do mundo. Dia seguinte seguimos viagem Rio Negrinho caminhada pelas ruas e café da tarde. Excelente. O roteiro previa seguir direto para Porto União e depois voltar para Canoinhas e Mafra. Tudo dando certo.

      Em Porto União fizemos a caminhada liderada pelas senhoras e o prefeito Eliseu Mibach, bom de voto e de prestígio. O almoço estava agendado em um restaurante perto da Igreja Matriz Nossa Senhora das Vitórias, na subida da ladeira que leva a Matriz. Pancinha cheia, cada um no seu carro seguiríamos para Canoinhas e Mafra.

      Só que na saída de Porto União o tempo fechou, nublado, ventania, trovões. Tempestade feia.  Roteiro cancelado e deveríamos retornar a Florianópolis. Só mais 521 quilômetros de estrada. Fácil, fácil se não fosse a intoxicação do almoço. Após 15 minutos de estrada eu suava gelado, barriga inchada e não saia nada nem por cima nem por baixo. Desespero tomando conta e muita estrada pela frente. Tempo fechado. Eu não atinava mais nada, nem ouvia, nem via e era uma tontura um mal estar que parecia que o coisa ruim tinha vindo me buscar. Já estava até ouvindo: “Gordinho, chegou tua hora. Vim te buscar, pecador”.  Assim foi esta agonia por quilômetros. Cheguei na BR 116. Mais uma agonia para atravessar a pista e pegar o sentido Mafra. E a barriga enorme, parecia Dona Redonda da novela Saramandaia. Pensei. Vou explodir aqui no meio do nada. Chegou meu fim, e suava frio. Suspense e terror. E naquela região naquela época, há 15 anos, celular nem pensar. Era mais fácil sinais de fumaça e tambor.

      Cambaleando cheguei no trevo de Mafra que dá acesso a rodovia BR 280  que vai a Rio Negrinho e o tempo fechado com trovões, chuva grossa e aumentando. E começou a apertar a ventania. Pouco antes do acesso a Rio Negrinho tem uma ponte com uma rotatória de entrada para rodoviária e ao centro. Só vi outdoors voando, placas de propaganda e sinalização. Encostei o carro e só me restava rezar. Imagina morrer aqui no temporal e ainda com a pancinha desse jeito. Se me encontrarem todo cagado? O que será que vai na lápide: Aqui jaz...Fica por conta de vocês.

      Rodovia parada, rio subindo, ventania, raios e trovões. Era o fim do mundo, o apocalipse. A besta veio buscar os hereges. Retornei a pista e mais um outdoor passou riscando o teto da Doblò Adventure que eu tinha. Tentei chegar num posto de gasolina próximo. Embiquei o carro para me abrigar, e lá se foi o teto do posto. Saiu voando. Rapidamente virei à esquerda e voltei para pista. Devagarito só cuidando o vendaval que derrubava árvores, placas, postes. Logo em seguida na subida que vai para São Bento tem uma churrascaria Amigos da Estrada, que estava aberta ainda. Não tive dúvida. Parei, estacionei e corri para dentro, atravessei o salão rapidinho porque os banheiros ficavam do outro lado no canto esquerdo. A moça da recepção saiu correndo atrás de mim para me entregar a comanda. Já volto, já volto, avisei. Não poderia perder nem um segundo. Só pensava na salvação divina.

      Passado o pior retornei despacito para Joinville e liguei para o chefe Gayoso:

      - Gayoso, olha pauta legal essa, “bem molezinha” como você disse que seria, mas preciso dormir em Joinville e um dia de folga.

      - Bacana Tio Ben, te prepara para São Miguel do Oeste na sexta.

      Desliguei o telefone e fui  para o banho e dormir após um chá de boldo, bem quentinho. Pauta “molezinha” e almoço daqueles, Nunca mais. E a pauta de São Miguel do Oeste? Esta conto outra hora.


domingo, 24 de janeiro de 2021

Ainda sinto o aroma do banquete

 Ainda sinto o aroma do banquete

 

 

             Era um domingo de sol, claro, bonito. Estava pautado para cobrir uma festa de uma comunidade católica no interior de Caxias do Sul. Era tradicional. Não lembro mais se era na Vila Oliva, Fazenda Souza ou Santa Lúcia do Piaí, que não pertence a Caxias.

             Seguimos viagem e chegamos a tempo de cobrir o evento todo pela manhã. A tradicional romaria, missa, jogo de futebol num gramado bem cuidado que dava gosto de ver. Anotei tudo, já estava com o texto montado na minha cabeça, as fotos feitas com farto material para o editor trabalhar de tarde.

             Mas lá pelas 11h30min percorri os arredores e entrei no salão paroquial onde estavam sendo montadas as mesas com as delícias da culinária italiana. O aroma vinha de longe e como bom taurino gorducho não poderia deixar de fiscalizar do que se tratava. De longe senti os temperos os aromas de molho de tomate, de manjericão, alecrim, salsa, cebolinha, churrasco, frango assado com pimenta do reino por cima.

             Uma senhora me viu ali e veio ao meu encontro.

             - Bom dia moço! O presidente da comunidade disse que vocês são do jornal lá de Caxias. Separamos uma mesa para vocês. Não me façam desfeita de ir embora sem experimentar nossa comida. – Convidou apontando para a mesa e para as senhoras da cozinha.

             - Vem aqui quero te mostrar minhas comadres, minhas filhas, e as mulheres daqui que estão trabalhando. Fui, entrei na cozinha e o espetáculo era maior ainda. Quando vi um leitão assado saindo do forno, quase não resisti em pedir uma lasquinha. O dourado dos cortes de frango brilhava mais que ouro. Quando despejaram a polenta na tabua de madeira aí meu coração quase parou. E a fornada de pão fumegando...sem descrição.

             E o pratão de radicci temperado com vinagre da colônia. Era de babar. Em uma mesa longa de madeira, com farinha de trigo espalhada para não grudar a massa, estava o divino macarrão feito na hora, esperando para mergulhar no panelão de água quente e sair cozido, al dente, para receber o molho de tomate, ou alho e óleo ou um caldo de feijão. E o cheiro de manjericão a esta altura já tinha me dominado. Do lado de fora vinha o cheiro do churrasco que estava ficando no ponto esperando o meio dia onde o pessoal já estaria se sentando para almoçar. Mas já havia uns gringos com um garrafão de vinho tinto. Valentes. Vinho tinto ao meio dia é para quem é forte. Outros pediam uma “grade” de Polar de Feliz ou podia ser Antarctica de Caxias

             - Me traga meia dúzia de faixa azul- ordenava um dos participantes empolgado com o dia bonito, comida farta e com a festa realizada anualmente. Depois disso todos deitaria embaixo de uma árvore no gramado e curaria a ressaca.

             Já era cerca de 12h30min o fotógrafo chegou perto e disse: - Vamos embora? Falei que fomos convidados para o almoço pelo presidente da comunidade. Dai ele se emburrou, disse que não ficaria e que iria embora com o motorista. Tinha de levar as fotos e revelas (não existia fotografia digital.) e o chefe disse que “não deveríamos aceitar presentes de fontes”. O motorista, queria ficar e voltou para Caxias com um bico de beber água em jarro.

             Voltamos, chegamos no jornal cada um fez sua parte, escrevi e só me restou voltar para minha cobertura na rua Sinimbú, perto dos Correios e preparar um banquete. Tinha uma latinha de sardinha, um pacotinho de miojo e preparei um belo almoço de frutos do mar.

             Três décadas depois ainda sinto o aroma do banquete e aquela imagem magnífica dos pratos prontos para serem divinamente devorados.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Onde andava sumido?

 Onde andava sumido?




Há exatos 30 anos eu trabalhava no jornal Folha de Hoje em Caxias, que funcionava na esquina da Tronca com Floriano, prédio da Triches, que era dono de um grupo de comunicação. 

Estava na Editoria de Economia e num período do ano, uma dita Força Tarefa ia fiscalizar casas noturnas. Era um grupo formado por fiscais da Prefeitura, Conselho Tutelar, Justiça de Menores, Corpo de Bombeiros e outros órgãos. Combinado era todos estarem na Praça Dante  Alighieri às dez da noite para seguir o roteiro já montado por um sargento do Corpo de Bombeiros, um sujeito bonachão, negro forte, alto bem humorado. Ele liderava o grupo.

Visitamos bares, restaurantes, casas de shows, casas de atividades suspeitas onde moças atendiam e bares da moda.

Cada visita, ele apresentava a o grupo e explicava a intenção:

  • Só vamos vistoriar a segurança da casa, saída de incêndio, condições sanitárias, extintor e se não há menor na casa- discursava em bom som o sargento, todo animado com o protagonismo. Todos com e planilhas para anotações e alguns já para autuações de alguma possível irregularidade e orientações.

E assim seguimos noite adentro até pelo menos 2 horas da madrugada quando chegamos em uma casa de respeito no final da Ernesto Alves quase na BR 116.

Chegamos em frente ao estabelecimento, nos reunimos na frente para esperar que todos chegassem e assim fazer a visita. Notei que o entusiasmo do sargento estava menor, mas poderia estar cansado, afinal com certa idade, gorducho e o calor poderia estar cansado após quase 5 horas de vistoria.

  • Será que precisamos ver esta casa, acho que todos estão cansados - questionou o sargento

  • Eu estou bem, acho que dá para fazer esta última- sugeriu o fiscal da vigilância.

  • Tá bom! Vamos entrar, podem ir entrando que já vou- indicou o bombeiro.

Entramos porta adentro e nos apresentamos. Veio a dama  proprietária da casa. Pouco mais de 1,60m vestido de oncinha, cabelo ruivo, lenço colorido no pescoço, três anéis de brilhante, salto alto e meia de fina seda. Perfume que já era seu cumprimento a metros de distância. Com sorriso aberto de boas vindas aproximou-se do grupo e fez com que todos se sentissem bem.

  • Sejam bem vindos à minha casa. O que posso fazer pelo prazer de vocês. Recepcionou a madame ajeitando o cabelo e logo estendendo a mão bem cuidada com anéis de brilhante, pulseiras feitas com farto ouro e unhas pintadas de vermelho pecado.

  • Viemos fazer uma vistoria e uma inspeção. Coisa de rotina. Explicou um fiscal, pois o sargento estava lá fora ainda. - Mas estamos esperando o representante dos Bombeiros- complementou o fiscal.

E meio sem graça, de cabeça baixa, surgiu o sargento que ficou atrás do grupo. Vamos prosseguir disse meio resmungando na meia luz, como se quisesse se livrar logo.

Lá da frente a proprietária da casa viu o último membro da Força Tarefa e falou alto:

  • Oi querido! Que bom que você apareceu. Onde andava, sumido. Tem umas meninas novas que querem dançar com você, pé de valsa.

  • Pessoal, acho que a casa está toda em ordem, tem até o alvará pregado ali na parede, podemos concluir nossa tarefa de hoje, já é tarde e vocês devem estar cansados. - Sugeriu o sargento.

Todos concordaram. Inclusive eu. Afinal era quase 3 da madrugada teria de ir para casa e no dia seguinte escrever a matéria. Mas antes passei no Vôo Livre para uma Antarctica fabricada em Caxias e uma Polar de Feliz.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Faltava defuntos

 Faltava defuntos

 

      Há uns 45 anos meu irmão estava construindo a casa dele, ao lado da nossa. O pai dividiu o terreno e ele ficou com uma área onde havia um amplo jardim de roseiras, cultivadas com carinho, fazia enxertos, desenvolvia experiências de novos cultivos e novas cores. No mesmo terreno havia árvores frutíferas. Minhas preferidas eram as de caqui. Frutos saborosos.

      Para a construção da casa, ele contratou o Fianco, um bom pedreiro alí do São Cristovão. Mas na equipe tinha um polaco que era o ferreiro. Não lembro o nome dele. Mas lembro que bebia uma cachaça danada. Como diziam o polaco não bebia! Comia com farinha.

      Ferreiro, na construção é o profissional que faz as armações de ferro para depois colocar na caixaria e concretar, dando sustentação às vigas, pilares enfim a fundação da obra.

      Logo cedo o polaco já estava com a garrafinha da branquinha na bolsa. Volta  e meia dava uma bicada. Seu expediente não ia longe. Como ganhava por hora, quando estava meio tontinho o Fianco dispensava.

      Eu era pequeno, mas era responsável pelos pagamentos nas sextas-feiras. Sim, tente não pagar pedreiro na sexta. Não vai ser agradável, E nem venha com cheque (se usava no século passado- papéis que eram ordens de pagamento à vista, usados em compras e de desconto direto). As novas gerações não sabem o que é isso. Tinha de ser dinheiro contadinho uma nota em cima da outra, após as contas das horas feitas pelo Fianco.

      Lá ia eu nas sextas pagar o pessoal e pegar os recibos.     E toda vez o polaco queria mais dinheiro.

- Fala com teu irmão que preciso de dinheiro adiantado. Morreu minha mãe e tenho que comprar velas.

Comovido com a situação levava o recado. Na outra semana o polaco, vinha com a mesma conversa. Pelas minhas contas ela já tinha matado em um mês, duas vezes a mãe, quatro filhos, a avó e uma tia que morava em Cotegipe e um primo que vivia em Jacutinga.

      Pensei, é muita desgraça para este polaco. Coitado, quanto velório.E anotei em um papel todos os mortos e as datas.

      Chegando numa sexta-feira, de novo segui os pagamentos e o polaco com cheiro de cachaça vagabunda que dava para sentir lá da rua.

      Já de longe vi esfregando os olhos, vermelhos e inchados. Era de tristeza. Assoava o nariz na camisa mesmo e de despedaçava em lágrimas. Me preparei. Quem será que morreu esta semana? Pobre alma.

      - Fala lá com teu irmão que meu filho menor morreu ontem e tenho que comprar um caixãozinho, a Prefeitura não me deu nada..- implorou o ferreiro.

      - Polaco aqui está a lista dos mortos da família. Já morreram todos os teus filhos. Sentenciei tentando me livrar.

      - Mas guri, você não sabe. Este  é o filho de uma amante minha que tenho lá na zona perto do aeroporto. Coitadinho não resistiu. E caiu em prantos esperando que fosse abraçá-lo e ser compreensivo com a nova tragédia.

      Só restou-me dar um abraço de condolências  ao polaco pela nova perda, enquanto os outros pedreiros se desmanchavam de rir.

      Se concorresse ao Oscar de melhor ator dramático, acho que nem Roberto de Niro, nem Al Pacino ganhariam do polaco, que era ator, roteirista e diretor e deus dramas.

      Fecha a cortina e serve mais uma daquela garrafinha escondida na bolsa de lona.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Nem o Diabo queria

 Nem o Diabo queria

 

- Não sou teu pai. Maledetta hora que te deixaram ali na porta. Devia  ter te jogado no bueiro! – berrava o velho com a língua arrastando de bêbado.

- Pai, não fala assim. Tá na hora do remédio – respondia singelamente o filho.

- Porco cane! Porco Dio! – bestemava o marceneiro.

Todo dia o ódio, a raiva saia babando em ofensas ao Zé Carlos. Pacientemente fazia que não ouvia. Nunca perdeu a estribeira de revidar e falar algumas verdades para aquele velho mal educado, odioso, raivoso que vivia bestemando, desdenhando e ofendendo-o.

Poucas vezes fui na casa do Zé Carlos, quando estudávamos juntos no Polivalente, hoje a escola de chama Érico Veríssimo. Moravam num dos morros do São Cristovão, próximo à escola. Quando tínhamos que fazer trabalho em grupo nunca podia ser na casa dele, pois o terror vivia mais em casa com a cara cheia de vinho do que trabalhando em uma marcenaria, Vivia de atestado e o patrão nem fazia questão que fosse bêbado ou de ressaca para evitar que perdesse as mãos ou dedos na serra e assim se encostaria pelo resto da vida.Era comum martelar o dedo para ir para casa

Cabia ao Zé Carlos, franzino com seus 12 anos atravessar a cidade com a bicicleta e buscar um garrafão de vinho tinto lá no Mandelli, no Riccardi ou no Peccin.  Dava uns 6 km de ida e volta. Fui junto algumas vezes com minha Monaretta. Ele pegava uma Barra Forte do irmão mais velho que cursava Engenharia  Mecânica na Universidade de Passo Fundo.  Eram em sete. Apenas ele que não era filho biológico.

- Piá de bosta. Não serve nem para trazer um “garafon”. Me traga o troco” ordenava

Perdemos contato há mais de 40 anos, quando cada um seguiu seu rumo no segundo grau, faculdade e escolhas da vida.

Esta semana conversando com conhecidos pelo face perguntei se lembravam do Zé Carlos. Me informaram que estava ali no São Cristovão ainda e que não usava rede social, mas tinha whats app.

Tentei ver se lembrava de mim. Passei uma mensagem recordando quem eu era. Claro que lembrava, pois amizades que se fazem na adolescência persistem.

Conversamos sobre o Polivante, sobre o rigor do vice-diretor e a simpatia do diretor. Da ordem na escola, da limpeza, da aula integral, do ensino profissionalizante, da merenda que era comida de verdade e do rumo das vidas.

- Zé e aquele véio do demônio. Largou do teu pé. Já foi encontrar o capeta? Questionei.

- Foi. Morreu final de semana de covid. Não acreditava em doença, dizia que o vinho cria sangue e cura tudo.

- E teus irmãos?

- Se formaram foram embora. Se espalharam pelo Brasil e pelo mundo. Nem quiseram vir no enterro. Disseram que era por causa da pandemia.

- E você o que anda fazendo?

- Fiquei por aqui, alguém tinha que buscar vinho, cuidar do véio, buscar no bar e evitar que se metesse em encrenca ou se machucasse.

 Zé você vai para o céu- comentei

- Não sei se vou para o céu, mas pelo menos não fui jogado no bueiro como ele sempre disse que faria a vida toda. Cresci, cuidei de todos e agora vou  ver se conheço alguém e me casar, viver um pouco que resta. Gostaria de ir lá pros lado do Toldo, Quem sabe seja possível....

-- Zé, foi bom falar com você, que Deus te proteja e quando eu for a Erechim te faço uma visita. Abração. E encerrei a ligação do whatsapp.

 


A BOCA RICA DO ARLINDO WALDOMIRO