domingo, 22 de maio de 2022

A RIFA

 A RIFA



Acomodado na última mesa de canto do bar, estava o Adroaldo Roberto, um conhecido. Estava com cara de emburrado, não queria ser importunado. O dono do boteco, que ficava lá na Vila do Cachorro Sentado, em alusão a várias casinhas “meia-água”,  até fez um sinal e cochichou nem chegue perto. Deu curto circuito no chifre. Tá sofrendo.


Em cima da mesa de metal, dessas que usam em bares com quatro cadeiras e estampa de uma marca  de cerveja, estava ele com um monte de papel de embrulhar pão. Escrevia números e rasgava em pedacinhos. Colocava tudo em um baleiro, igual aos que ficam nos balcões dos bares com pirulitos, balas, chicletes, gomas e todas doçuras para estragar os dentes da piazada.


Tinha com ele um toca-fitas e gravador cassete, que tocava sem parar as músicas  do Lindomar Castilhos. Era uma dor de corno só: Nós Somos Dois Sem Vergonhas, Camas Separadas, Muralhas da Solidão, Coração Vagabundo, Ébrio de Amor, Você é Doida Demais e Eu vou Rifar Meu Coração./O som não era alto porque aqueles aparelhinhos tinham pouca potência, mas dava para levar a qualquer lugar.


Observei algum tempo, pedi torresmo, laranjinha Balvedi e fiquei por ali observando o Adroaldo. O Lindomar Castilhos estava rouco de tanto tocar a fita. Ele escrevia e rasgava papelzinho, dobrava e colocava no baleiro.


Lá pelas tantas cheguei perto e puxei conversa:


  • Que tá inventando aí? perguntei tentando quebrar o gelo e matar a curiosidade.

  • Não te interessa e você deve ter culpa também. 

  • Deixa de ser tanso, bicho véio, me fala. Adroaldo ficou em silêncio, respirou profundamente, deu um suspiro  de dar dó. Entornou mais um “mercedinho” de purinha e virou a fita. Apertou na tecla play e aumentou o volume.

O som rouco do toca-fitas cassete Nacional era ruim e a fita gasta mas  ele não queria saber. Botou o volume no mais alto e se recostou na cadeira. Era ainda Lindomar Castilhos cantando “Eu Vou Rifar Meu Coração”


  • É isso que vou fazer! Já escrevi os números, estão todos no baleiro. Vou rifar meu coração para quem me der mais carinho.


Ouvi a prosa do Adroaldo e sai. Dias se seguiram e a turma toda durante a semana pegou número da rifa, mais para diversão. Vendeu os números a um cruzeiro. E marcou o sorteio para o terceiro domingo de maio às 11h ali mesmo no Bar Gambá Enfastiado.


Era uma manhã bonita, clara, sol radiante,mas a temperatura estava por volta dos 8 graus. Os amigos, parceiros de boteco apareceram. Veio até o João Cuiudo com a gaita e puxou  sucesso de Teixeirinha, Quem é Você agora , composta quando Mary Terezinha o deixou.


Estava na hora do sorteio. O Velho Tatu Mulita, dono do Gambá Enfastiado abriu a tampa do baleiro e anunciou o início do sorteio.


  • Vamos começar o sorteio do “coração” do nosso amigo Adroaldo Roberto  que recentemente sofreu grande desilusão amorosa. 


Adroaldo trouxe o toca-fitas cassete e apertou play, novamente a música Eu Vou Rifar meu Coração, que ficou como fundo musical. Quem passava na frente do Gambá Enfastiado olhava, parava e alguns ficaram. Enquanto isso, o bodegueiro Tatu Mulita meteu a mão que mais parecia um remo de tão grande. Pegou um papelzinho e todos ficaram em silêncio. Só se ouvia o fundo musical 

Eu vou rifar meu coração

Vou fazer leilão

Vou vendê-lo a alguém

Não vou deixar o coitadinho

Viver sempre sem carinho

Ficar sempre sem ninguém


Todo mundo em suspense até que sai o número sorteado: 


  • Vamos ver quem ganhou. Anuncia o Mulita. É o número 6, para quem não sabe é cabra no jogo do bicho. Em seguida foram ver a lista dos compradores da rifa. E na lista correspondente ao número estava o Miguelão, 140 quilos, 1m90, mecânico de caminhão num posto de molas na Transbrasiliana, do outro lado da Vila do Cachorro Sentado. Miguelão dava medo só no caminhar do vivente e sempre andava com uma prateada na cintura.


Todo mundo ficou em silêncio. Foram saindo aos poucos. Tatu Mulita entregou os frangos assados das encomendas e desceu a porta de ferro de enrolar. 


Adroaldo recobrou a consciência, nunca mais se falou no assunto e ninguém foi revelar o resultado do sorteio ao Miguelão.


Adroaldo desistiu de rifar o coração. Está namorando a filha do dono do Gambá Enfastiado e a fita cassete que enrolou no cabeçote ficou lá. Aposentou até o toca-fitas. Comprou um walkman. Assim ninguém sabe o que houve e nunca mais ninguém tocou no assunto. Anos depois casou e se mudou para Viadutos, na esperança de que ninguém lembre quem foi o ganhador do sorteio.


Acho também que nunca mais ouviu “Eu Vou Rifar Meu Coração”.


quarta-feira, 18 de maio de 2022

O PIÁ DA CARROÇA DE ADUBO ORGÂNICO






O PIÁ DA CARROÇA DE ADUBO ORGÂNICO





O seu Oliveira, como era conhecido na região do bairro João Costa, zona sul de Joinville, para os lados de baixo do cemitério da rua Kesser Zattar em direção ao Parque Guarani e Paranaguamirim, sempre cuidou da família e se esforçava muito. Para aumentar a renda da família montou uma atividade de produção de adubo orgânico caseiro, que vendia por alguns trocados. As pessoas usavam nas hortas de verduras, moranguinhos e também nos canteiros de flores na frente das casas e também adubavam as plantas nos vasos.




Oliveira tinha dois filhos, uns piazotes metidos a conquistador e sem nenhum puto tostão nos bolsos dos calções. O mais velho Saul era falante, conversador e conquistador, tinha sorte com as garotas e sempre era visto com uma menina bonita, de boa família, moças vistosas. O mais novo Raul seguia o irmão, que era seu ídolo. A natureza não o ajudou muito, mas se achava o tal. Queria ter namoradas como o irmão. E a trinca era formada pelo primo Renato, que era malandro, não gostava de pegar no pesado, mas era o mais forte e aguentava as broncas quando se metiam em confusão, como briga depois da escola, alguma desavença na saída da Metrô, geralmente por ciúmes ou disputas por garotas. Não perdiam tempo com discussão quando o Tamandaré perdia o jogo.




O mais jovem Raul estava apaixonado por uma colega da Escola Municipal João Costa onde todos estudavam, ali na frente da antiga Metrô, na rua Monsenhor Gercino. Mas era uma paixão daquelas de se esconder de vergonha quando via a garota. Às vezes arrumava uma bicicleta emprestada e passava dezenas de vezes na rua em frente a casa da família da menina só para ver se a via. Por duas ocasiões caiu da bicicleta perto da casa e levantou rapidinho para que ninguém visse o mico.




Após uma tarde de “coleta” pelas ruas do bairro, a carroça estava cheia. O tal adubo orgânico era fezes de animais. Havia muitas vacas e cavalos nas pastagens do João Costa, onde hoje está tudo habitado pelos loteamentos que surgiram. Estes detritos eram compostados e serviam de adubos. Era comum a vizinhança comprar carroçadas para espalhar nas plantações.




Numa quinta-feira lá pelas sete horas da noite de um verão, há quase 40 anos, seu Oliveira chama os piás e ordena. A carroça está cheia, levem a carga lá no compadre Ranulfo.




O primo Renato, malandro, foi o primeiro a fugir.

Tio a mãe tá me chamando. E sumiu na braquiária.


Pai, tenho que terminar um trabalho difícil para a escola - disse Saul, o filho mais velho, sabedor do que se tratava. Só o pai acreditou porque o estudo não era o forte dele e sim correr atrás de rabos de saia.




Sobrou a empreitada para o mais novo, que ficou com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança.

Pai, não pode ser amanhã?


Tome tenência guri! Vai agora que o compadre quer espalhar o adubo hoje.

Furioso, lá foi o menor puxando o cavalo, mascando freio. A casa de Ranulfo era próxima a cerca de um quilômetro de onde moravam para os lados de onde hoje é o Parque Guarani. Chegando lá, tapado de vergonha ficou imaginando o que falar. Bateu palmas na frente da casa e ficou rezando para que o seu Ranulfo fosse atender.




Clap! clap! clap! - bateu as palmas e nada. Chamou pelo : Seu Ranuulfoooo!.




Em seguida aparece alguém na porta e Raul fica branco, respiração pára, em seguida recobra a consciência e fica rubro de vergonha.




Ou Raulzinho, tudo bem? O que você quer? - perguntou Betina com a voz mais suave do mundo. Aquele momento se eternizou e ao mesmo tempo que seu coração amoleceu com aquela gentileza, também criou um pavor dentro dele ao ter que prosseguir a conversa.




O te-te-teu pa-pa-pai? disse gaguejando.


O pai tá lá na horta, respondeu Betina.


O meu pai mandou uma encomenda para entregar, explicou o garoto.


Ah! Sei, espera um pouquinho, disse ela e dali mesmo gritou:


Paieeeeeeee. O piá da bosta chegou com a carroça.




Aquilo, na imaginação dele, parece que o universo todo ouviu e causava eco em cada vale do mundo. Neste momento ele orou para morrer ali mesmo. Todo encanto, ternura e esperança que havia se quebrou. Nunca mais ela o veria diferente. Na manhã seguinte na escola seria uma tragédia, pensou até em fugir e não acordar mais. Sua cabeça estava um turbilhão. E o irmão mais velho e o primo ladino sabiam disso. Certamente armaram para ele.




De uma hora para outra passou de um possível pretendente a namoro para ser o “piá da bosta” com a carroça cheia de merda de vaca e cavalo para espalhar na horta.




Descarregada a carroça partiu para casa. Emburrado não falou com ninguém. Nem desatrelou o cavalo da carroça. Pior é que tinha de dormir no quarto do irmão. Ficaram sem se falar uns dias. Passaram os anos e ele nem se lembrava do episódio.




Mas na semana passada, após quase décadas, Raulzinho vai em uma fina loja de roupas masculinas, sobe dois degraus e dá meia volta. Faz de conta que lembrou algo, pega o celular, mas o dono da loja seu amigo o chama para mostrar novos produtos. Ocorreu que lá no meio da loja ele viu uma balconista que ele reconheceu. Sabe quem era? Pois é….




Há quanto tempo Raulzinho.. Não te via desde aquele o tempo que você era o “piá da bosta”.




Bem que ele tentou esquecer o episódio de Betina, nos últimos 40 anos. Mas ainda recorda da suavidade daquela voz e do olhar e do sorriso encantadores que ela tinha. Ela ainda o via como o menino de 10 anos que dirigia a carroça do pai, cheinha de …….”adubo orgânico”.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Nunca chegue perto do poço negro



Nunca chegue perto do poço negro




Era por volta das 10h da manhã quando um caminhão entrou pela pequena estrada de chão batido em direção a um sobrado que estava para alugar. Localizado a 800 metros da estrada principal. A pequena localidade não se via, da estrada principal asfaltada por estar encoberta pelas montanhas e era um belo vale, com uma sociedade recreativa e esportiva, alguns vizinhos, com casas bem distanciadas.




Duas moradoras antigas, sentadas na varanda da casa, de uma delas viu o caminhão estacionar e comentou com a outra:



Mudança, vizinhança nova. Será que eles sabem?


Acho que não. Já faz mais de cinco anos. E nunca conseguiram alugar ou parar gente aí.


Credo! Me dá até arrepio só de passar na frente.


Acho que ninguém falou nada - conclui uma delas.




Mudança retirada do caminhão, móveis carregados para o sobrado e o dia todo a nova família ficou na lida de limpeza e organização, sob os olhares atentos dos vizinhos. As duas continuaram até o final da tarde trocando guizos.




Não contentes com a curiosidade, caminharam alguns metros até a casa e bateram palmas. A dupla de cachorras rottweiler já vieram no portão e latiram com ferocidade, defendendo seu novo território. Recuaram assustadas com os dentes, boca babando e latido forte das cadelas. O dono chegou e cumprimentou-as.




Boa tarde vizinho, viemos dar boas vindas. Está tudo bem com vocês. É que faz muito tempo que ninguém mora nesta casa e como vocês vieram?

Viemos do outro município, lá o aluguel estava caro e esta casa enorme está com um preço muito bom. Respondeu o novo inquilino.


AAhhh! Tá bom. Mas o dono lhe contou tudo?


Sim, falou que posso usar tudo, tem o galpão para lenha, churrasqueira, espaço pra horta, galinheiro só me disse para não mexer naquele poço negro.


Sim, mas não falou mais nada?


Só isso que é importante. Mas me dão licença que temos muita sujeira para limpar e arrumar os móveis.

As duas foram embora com as línguas formigando com vontade de contar tudo o que sabiam.




Os novos vizinhos não apareciam muito na rua. E à noite as rottweiler não dormiam. algo as incomodava e percorriam o terreno o tempo todo, latiam, uivavam e não tinham sossego.




Em uma noite de lua cheia, estavam impacientes. A esposa levantou por volta das 3h30min e espiou pela janela dos fundos. A noite iluminada pelo luar viu algo assustador. Correu para a cama e chamou pelo marido que não queria acordar.

Tá louca muié. Tá vendo fantasma a esta hora?


Eu vi algo lá fora. Levanta. As cachorras estão agitadas


Não saio daqui nem se a Xuxa implorar, brincou ele


Me abraça, eu vi algo


Tá bom, deita aqui.

No sábado pela manhã, ele acordou, como de costume às 6 horas. Preparou um chimarrão e foi dar uma caminhada no pátio. Desceu as escadas e não acreditou no que viu.

Todas as mudas de Espada de São Jorge e Comigo Ninguém Pode estavam estraçalhadas e espalhadas por todo o terreno que estava esburacado.

As duas rottweiler surgiram de trás do galpão que servia para guardar lenha e ferramentas com pedaços de roupas, blusas, calças e sapatos. Ele correu para ver de onde tiraram aquilo. Tinha muito mais.




Correu para casa subindo as escadas aos pulos. Entrou no quarto acordou a esposa:

- O que você viu ontem à noite? Gritou tocando nela para acordá-la. ela não acorda. Nilcéia, por favor acorda! O que você viu? Acorda pelo amor de Deus, o que há com você? O que você viu? e nada dela acordar. Desesperado, envergonhado por não ter acreditado no que ela disse ter visto, corre até a rua, olha para os lados mas só vê cerração, pois estamos iniciando o inverno e o sol ainda não chegou. Volta ao quarto e ela não está mais na cama. Seu coração bate mais forte, sente dificuldades em respirar e ouve um barulho forte atrás dele.

- Assim você me mata! Disse ele para a esposa que saia do banheiro, muito cansada. O que você viu ontem?

- Você não acredita em mim.

- Acredito sim , me fala

- Vi um homem saindo do galpão da lenha, cabelos longos, olhos vermelhos, e com uma corda amarrada no pescoço. Ele olhou fixamente para mim. Há algo estranho. Afirmou, contando o que viu.




Sentaram na ampla varanda do andar de cima e ficaram olhando o pátio sem saber o que fazer enquanto as duas rottweiler sentaram à beira do poço negro com olhar fixo para dentro e rosnando para algo que os humanos não conseguem ver.




sábado, 30 de abril de 2022

O vizinho triste



O vizinho triste




O sujeito era bem apessoado, roupas boas, sapatos lustrados, cabelo aparado e sempre bem apresentável. Nunca soube o que fazia, mas era um cara emburrado, mal educado e nunca cumprimentava ninguém no prédio. Se tivesse que dividir os 12 andares de elevador, fechava a cara e ia até o alto ou até o térreo calado, sem levantar o olhar.




Ela uma mulher vistosa, bonita, cabelos claros, pele bronzeada pelas horas de sol. Corpo escultural e roupas sensuais que chamavam a atenção. Pela beleza deveria ter vindo lá dos lados de Bagé ou Alegrete. Formavam um casal bonito, se andassem juntos. Eram um casal, marido e mulher.




Eu e mais dois colegas morávamos no apartamento ao lado e de vez em quando ouvíamos gritos, bater de móveis, cadeiras arrastando, enfim coisas de alguma discussão do casal. Mas como diz o ditado em briga de marido e mulher não se mete a colher.




Num feriado de 1º de maio de 1985, há 37 anos, a barulheira começou cedo. Um colega, madrugador também, deu a sugestão de a gente usar um copo colado na parede para ouvir a conversa. A peleia parecia esquentar.




Peguei já uma caneca enorme para ouvir melhor. Fomos encostando na parede e seguindo o pequeno apartamento popular de paredes finas e ficamos ouvindo a conversaiada.




Você é ingrata, só queria sair daquela vidinha e casar. Me sinto enganado.


Seu trouxa você que é bobalhão. Não viu isto antes? devolveu ela.


Você sabia que eu sempre te amei e sempre te quis. Porque faz isso comigo?


Deixa de ser frouxo. Vá lavar a louça que vou sair.




Alguém empurra um móvel com força e ouvimos um barulhão de cacos de louça e vidros quebrando. Pensamos, agora vai dar morte. Se fez um silêncio e em seguida um barulho como se fosse alguém varrendo e juntando os cacos.




Onde você vai Dalva Cristina?


Não te interessa. Não tenho hora para voltar.


Você acha que vou continuar aturando você se encontrando com aquele velho de orelha peluda? Ou com aquele que parece uma múmia uruguaia? Ou você acha que eu não sei do Porco Gordo bizarro, aquele que você andava com ele e que agora está toda faceira por ter encontrado de novo?


Se sabe porque pergunta onde vou? Provou a mulher.


Te perdôo porque ainda te amo. Gosto de te beijar, de te tocar, de te abraçar, mas você nem deixa eu chegar perto? Você me rejeita. Não posso nem segurar na sua mão.


Pára de encheção, de frescura. Tchau e não sei que horas volto. Vá ver um jogo do Xavante e me deixa em paz.




Escutamos a prosa toda e ficamos bem quietinhos. Neste altura, já nem achávamos mais o sujeito antipático, estávamos com pena dele. A bruxa era ela que sorria e nos tratava bem.




E como era nosso costume lá pelo final da tarde antes de ir para a aula, nos reuníamos alguns colegas para uma roda de chimarrão. Nos finais de semana alguém sempre trazia uma cachacinha, pipoca. um bolo de milho para acompanhar a prosa e passar algumas horas.




Alguns metros de distância avistei o vizinho, protagonista da nossa espionagem. Cabisbaixo, passou pelo nosso grupo fez um leve gesto com a cabeça cumprimentando a todos e colocou o primeiro pé para dentro da porta do prédio.

Num ímpeto o chamei:




-Vizinho, aceita uma cuia?



Ele me olhou, parou e voltou.

Moço, posso falar com você um pouco?




Me amedrontei porque somos vizinhos de lado e dava para ouvir tudo. Levantei do portal e fui ouvi-lo.




Sei que você ouviu a discussão lá em casa. gostaria que você mantivesse discrição com os demais, enfim, é algo que me incomoda. Solicitou.



Fiquei meio sem jeito mas garanti a ele que nada contaria e falei:

Vizinho, como conselho de alguém mais jovem e sem muita vivência ainda. O que o senhor vive não vale a pena.


Mas ainda gosto dela, ele argumentou


Não implore por carinho, não implore por amor. Se não é natural não é verdadeiro e tem muitas pessoas por aí bem melhores. O senhor não merece se desfazer tanto desta maneira. Não permita isso com o senhor.


Obrigado moço e vou aceitar uma cuia de mate.




Peguei a cuia da mão de um colega que terminou, servi dei ao vizinho. Sorveu o amargo, aceitou uma balinha de menta e uma bicada na cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Ainda dei um pedaço da rapadura, também de Santo Antônio, que é a melhor rapadura do mundo.

Vizinho esta rapadura é para adoçar suas palavras e sua alma e não esqueça Não mendigue carinho, amor, amizade!




Nos dias que se seguiram ele passou a nos cumprimentar e às vezes até parava. Anos depois o reconheci em umas edições da Fenadoce, em Pelotas. Estava com semblante feliz, seguro e bem acompanhado com alguém que transparecia gostar da companhia do meu ex-vizinho.




Junho terá nova edição da Fenadoce, onde se encontram os melhores doces do mundo. Quem sabe o ex-vizinho esteja por lá.


sábado, 16 de abril de 2022

A MOÇA DE SÃO GABRIEL E O PRETENDENTE

 A MOÇA DE SÃO GABRIEL E O PRETENDENTE



Lá por volta dos anos 30, quase nenhuma liberdade as moças tinham. Recebiam ensinamentos de afazeres domésticos, fazer boa comida, pregar, cerzir,engomar, bordar e se preparam o enxoval para um casamento com alguém de melhor vida do que tiveram até então.


Há algum tempo Maria havia ido morar com a madrinha que era bem de vida e morava num belo casarão perto da praça, no centro de São Gabriel. A madrinha era a mulher do estancieiro que empregava os pais de Maria. Esta estância ficava para os lados de Rosário do Sul perto do Caverá onde reinava Honório Lemes o chamado Leão do Caverá, figura lendária da história rio-grandense.


Maria era uma moça vistosa, como a maioria das moças da fronteira oeste que vai de Uruguaiana,  Livramento até Pelotas, pelo sul do estado. Quer conhecer moças bonitas? Visite Bagé, Alegrete, São Borja, São Gabriel, Dom Pedrito e Rosário do Sul. Mais bonitas que a laranja de amostra. Algumas tão belas de fechar o comércio.


Numa tarde de domingo de Páscoa, a madrinha comunicou a afilhada que se preparasse e se comportasse pois viria um pretendente. Um rapaz de boa família, estudado e de posses para  cortejar a moça.


Na hora aprazada, com pontualidade britânica toca a aldrava na imensa porta de angico, entalhada com motivos da Revolução Farroupilha. Uma cena de batalha estampava a imensa porta  fixada com grandes dobradiças de aço. 


A madrinha ordenou que uma das empregadas atendesse o visitante. A serviçal abre a primeira porta com belo vitral colorido e segue para abrir a imensa porta de madeira e ferro. Ao abrir o visitante se apresenta:


  • Boas tardes. Sou o filho de Dona Mariquinhas e do Coronel Feliciano. Vim fazer uma visita.

  • Boas tardes moço, a patroa está lhe esperando, pode entrar e sinta-se à gosto. Encaminhou o moço até a sala de estar onde na mesa de centro havia um bule de porcelana inglesa, que fazia parte de um jogo de chá finamente decorado em ouro vindo de Oxford.


A madrinha chegou, cumprimentou o rapaz e chamou Maria, sua afilhada, para dar início a conversa. Deixou-a na sala, cada qual em sua poltrona, separados apenas pela mesa de centro e o bule, xícaras e biscoitos finos amanteigados. A madrinha ficou por perto, em outro cômodo com orelha em pé para tentar ouvir algum pedaço da conversa. como falavam baixo, e ela com certa idade não conseguiu ouvir nada. Só ouviu a porta da frente se fechar poucos minutos após ter deixado os dois na sala.


Surpresa, a madrinha voltou para a sala, o rapaz nem havia mexido nos amanteigados, cuja lata novinha em folha havia sido aberta para a especial ocasião. E a coberta de mesa de porcelana também estava intacta e nem um gole de chá ele tomou.


  • Maria, o que aconteceu? onde foi o filho de Mariquinhas e do Coronel?

  • Não sei madrinha, disse que se sentiu mal e pediu desculpas mas tinha de ir rápido porque acha que está com “nó nas tripas”.

  • Huumm, esta história está mal contada. Desconfiou a madrinha


Vocês devem estar pensando o que houve. Mas revelo a verdade. É que Maria não queria um casamento arranjado com alguém de posses. Já havia conhecido um outro rapaz, pobre, mas de quem se afeiçoou. E aos domingos de tarde quando ia passear na Praça hoje denominada Dr. Fernando Abbott, perto do quartel do Exército, bem no centro de São Gabriel, flertavam à distância. Até começaram a trocar algumas palavras e aos domingos de tarde se encontravam, quando a madrinha estava sesteando.


No dia da visita do pretendente rico, na tarde de domingo de Páscoa, Maria teria de dar um fim nas investidas da madrinha. Antes do moço rico chegar ela pegou uma fotografia do amado, fez dois furos e passou um colar pelos buracos. Pendurou no pescoço com a foto escondida dentro da blusa. De um lado a foto de quem ela gostava,  escrito  AMO-TE e no verso da fotografia um recado claro ao pretendente: NÃO AMO-TE.


Ao estarem sozinhos para o chá, biscoitos amanteigados e uma conversa de compromissos, Maria discretamente puxou a fotografia e deixou a mostra, primeiro o verso, dispensando o pretendente e depois virou com a foto do amado, deixando claro de quem era seu coração.


A madrinha nunca soube a verdade e o filho do coronel Feliciano pegou o “Minuano” e deu com os costados na capital dois dias depois para seguir carreira na política já que não gostava da lida campeira.


O pretendente não ganhou nem um chocolatinho e muito menos experimentou os finos amanteigados que voltaram para a lata estampada.


Naquela tarde Maria foi para a praça encontrar o amado, contou o acontecido e marcaram data para o casório, que ocorreu meses depois, sem a presença da madrinha, que ainda guarda a coberta de mesa de porcelanas e os finos biscoitos.



sábado, 9 de abril de 2022

Cancelado



Cancelado





Esta foi meu sobrinho Fábio que me relatou. O ocorrido foi em uma madrugada fria de Erechim, no inverno, durante uma das operações da Balada Segura, quando os agentes de trânsito param veículos e orientam preventivamente para que não bebam antes de dirigir ou não dirijam após encher os cornos.




No final da avenida Sete de Setembro, está o Colosso da Lagoa, o Estádio do Monumental Ypiranga, que este ano quase foi campeão gaúcho. Faltou um tiquinho para correr com o Grêmio.




Lá pelas 2 horas de uma madrugada fria, gelada e quase chegando a geada que cai no alvorecer, ele viu um auto estacionado próximo ao estádio e fez a abordagem segura. Bate no vidro do veículo com película escura, que nada dava para ver de fora para dentro.




Toc toc toc! bateu no vidro do motorista para que ele abrisse. E nada. O motorista se fez de surdo, mas dava para ver uma movimentação dentro do carro.


Toc toc toc” insistiu. Senhor, favor baixar o vidro. Solicitou ao condutor, imaginando que poderia estar meio alcoolizado e parou para descansar, disfarçar ou esperar que os agentes terminem a operação ele possa passar pela blitz.


Toc toc toc! Senhor, baixe o vidro. é importante, o que está ocorrendo? Questionou o agente.




Um pouco depois o vivente baixou 5 centímetros e perguntou:




Qual é a questão, moço? Indagou o motorista todo descabelado, com alguns fios que lhe restavam, suado naquele frio de renguear cusco.


CNH, documentos do carro e abra o vidro e mantenha as mãos no volante, ordenou


Tá frio, não vou abrir. Respondeu e entregou os documentos pela fresta da janela.


O agente olhou os documentos, consultou on-line a situação do veículo e no Detran tem o registro de licenciamento atrasado e multas por ziguezaguear na pista e farol queimado..


O senhor faça o favor de sair do carro e se mantenha em pé ao lado. Deu o comando e chamou o colega de patrulha.


Tu tá louco não saio daqui nem f…….Se alterou o motorista.

Não sobrou alternativa em chamar a guarnição da Brigada Militar, parceira na fiscalização.




Com os brigadianos o papo é mais firme. Abriram a porta e surgiu a verdade. O condutor só de camisa e sem nada da cintura para baixo. E do lado do carona, que num primeiro momento não dava para ver, um rapaz daqueles que se fantasiam de mulher e trabalham na madrugada fazendo ponto perto do Ypiranga. Nu em pêlo, pois estava prestando serviços naquela madrugada gelada. No chão do veículo latinhas de cerveja e meia garrafa de Drurys, dois maços de Marlboro.




Tiraram todos do carro e o “rapaz” começou a congelar, pelado no meio da rua já virou atentado violento ao pudor. Deram um cobertor pega pulga para se aquecer.




Lá se foram para a Delegacia da Civil de plantão. Quase chegando o fim do turno chegaram na delegacia. Escrivão manda todos sentarem na recepção, verifica documentos e o delegado foi chamado para tomar os depoimentos.




O delegado arbitrou uma fiança e iria liberar o condutor para ir curar porre em casa. Faria um termo circunstanciado e depois correria o processo. Mandou que ligassem para um familiar e que pagassem a fiança e seria liberado




Umas três horas depois, com o sol raiando e derretendo a geada que deixou tudo branco de gelo, chega a esposa do condutor na delegacia.




Para na recepção, olha o vivente, nem dá bola e segue para o balcão da delegacia Questiona o que houve e o escrivão relata o fato que ele foi preso com documentos atrasados e numa situação deveras constrangedora.




A senhora trouxe o dinheiro da fiança que o delegado arbitrou para liberar seu marido?

Sim, está aqui, Mas me responda uma coisa. Quem é aquela coisa do lado dele? enrolado no cobertor?


Pois é senhora. Estavam namorando dentro do carro lá perto do Ypiranga.




Ela recolheu o dinheiro que pagaria para a fiança e liberaria o marido. Jogou dentro da bolsa e resmungou ao escrivão:




Você não conseguiu me encontrar! E ao sair da delegacia teria de passar na frente dos dois que esperavam num banco, com a devida escolta. Ela só deu uma paradinha e sentenciou:


Você está cancelado! E foi embora, deixando o vivente ali a curar o porre. Só seria liberado na segunda-feira, após 24 horas na mesma sala que a sua companhia da madrugada.

Não esqueçam, tem coisas que sempre podem piorar.




sexta-feira, 1 de abril de 2022

Quase foi para a Seleção



Quase foi para a Seleção





Nesta sexta-feira (1/4/22) eu estava acompanhando pela televisão os sorteios dos jogos da Copa do Mundo deste ano, que será no Catar e me lembrei de uma conversa de boteco ocorrida há mais ou menos dois meses.




Em boteco as conversas dos habituais clientes são sempre as mesmas e geralmente ocupam as mesmas mesas e mesmos lugares, como se estivessem na firma. Isto estranhei quando cheguei em Joinville há 30 anos, passava em frente ao Barbante, na esquina das ruas Campos Salles e 15 de Novembro, onde numa noite fui apresentado a um alienígena horroroso, o tal de caranguejo. Coisa do compadre Ronaldo Corrêa. Mas eu morava na Campos Salles e diariamente ia na Blupão e numa mesa de canto diariamente cinco clientes, cada um no seu lugar e cada um com sua cerveja. Nenhum bebia nem um copo servido da garrafa do outro. Estranhos não eram bem vindos.




Mas voltando ao assunto, as conversas de frequentadores de bar são as mesas e muitas vezes repetidas. Depois do segundo copo, começam a contar vantagens.




Tem um que jura de pé junto que namorou uma ex-miss Brasil e depois atriz de renomado sucesso em televisão e cinema. Conheceu a moça quando era novinha em Blumenau. Outros enumeram suas conquistas amorosas, outros mentem sobre pescarias no Mato Grosso e rios do Paraguai, sobre como são exímios e espertos no doominó. Tem aqueles que viram valentes e que em certa feita enfrentou até uma patrulha de brigadianos e “cagou os policia de pau”. Será? Vamos acreditar. Pior que todos acenam positivamente com a cabeça, concordando, aprovando os comentários e alguns até aumentam o conto com um ponto.




Tem um colega jornalista, já veterano, decano e quase no bico do corvo que lascou uma de doer. Garante que foi um grande atleta de futebol, que era um prodígio, corria os 90 minutos, fazia gols que eram uma obra de arte, de dar inveja. Não sobrava nada para Hoppe, muito menos para Garrincha, Pelé, Maradona e muito menos para Cristiano Ronaldo e nem os ronaldos o Fenômeno e o Gaúcho.




Cada vez que tocam no assunto ele estufa o peito e começa:




No meu tempo, quando vim para Joinville para jogar…e segue a cantilena. Sempre tem um colega, como se diz no Rio Grande do Sul “queimador de campo”, se mete na conversa e dá seu testemunho de que o fulano era um jogador excepcional.




Nem precisava de aquecimento, alongamento e concentração. Chegada 15 minutos antes do jogo vestia o “fardamento”, calçava uma chuteira com número menor para ficar com raiva e depois, em campo, sentar a botina na bola contra os adversários.




Conversa vai, conversa vem, cerveja que abre, cachacinha para regular a lenta, bitter Mayerle Boonekamp para limpar o estômago da graça acumulada com o torresmo, salsichão e joelho de porco que estavam beliscando. E assim segue a conversaiada por longas horas.




Mas como toda mentira tem perna curta, numa quinta-feira de noite, nos encontramos no Bloco C, em frente a Anhanguera, no bairro Glória. O veterano depois de meia garrafa de vinho que trouxe lá de Pinheiro Preto, já havia analisado o futuro da reportagem, fim dos jornais, surgimento de portais de releases, morte das grandes e profundas matérias. Lembrou se suas conquistas amorosas, o que a maioria duvida da formosura das damas que ele enaltece em seus sonhos. E insistiu que foi um grande jogador de futebol. Porém não há fotos e nem testemunhos reais.




Vim para Joinville a peso de ouro. Era um jogador que estava predestinado a seleção brasileira. Bradou em alto e bom som com um copo de vinho na mão. Aqueles de garrafão vindo de Pinheiro Preto ficava aberto preso aos seus pés.




Lá dos fundos do boteco um senhor aparentemente da mesma idade do nosso amigo, já meio tontinho de umas quatro “marvada” levantou ofereceu um brinde e lascou:




Um brinde para ti meu ídolo. Lembro dos tempos de jogador! Ofereceu erguendo o copinho. A esta altura de peito estufado nosso amigo levantou, encheu mais uma “taça” com vinho. Era peculiar pois usava um vidro que vinha com conservas da Stein, que ele guardava até com o rótulo desgastado com o tempo.


Viu pessoal. Aqui há uma testemunha presente dos meus tempos de glória nos gramados. Conta aí para o pessoal se eu não era bom de bola mesmo. Desafiou.


Lembro sim, daquele jogo memorável, inesquecível e do seu gol.Relatou o ex-fã.


Você está falando do pênalti, drible ou cruzamento com gol de bicicleta? Se exibiu o papudo.


Estou falando do gol contra que você fez no Torneio do Porco, lá perto do Salão Jacob, no Piraí em 1968. Graças àquele pataço contra o seu goleiro, meu time venceu a segundona e levamos um porco de 100 kg para casa. Deu duas latas de banha.




Só restou ao meu amigo papudo encher o vidro da Stein de vinho tinto seco, tomar num gole só e sair porta afora. Até deixou o garrafão aberto e o chapéu sobre a mesa. Semana que vem ele se recupera. Acho que não vai mais comentar como era bom de futebol. Quanto a missa? Vamos acreditar mais algum tempo.

QUEM COMEU A COALHADA?