segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Saudades

 Todas as manhãs Manoel acordava às 4h30min. Era seu costume, já que estava aposentado e dormia cedo. De noite refeições leves, lia algumas páginas da Bíblia que ficava sempre no criado mudo ao lado de sua cama. Antes de desligar o abajur, rezar  e pegar no sono, retirava uma foto que guardava carinhosamente na última página do livro sagrado. Olhava, beijava a foto e guardava no mesmo local. Colocava o livro sobre o criado mudo e esperava o sono chegar.


Ao amanhecer, sua rotina era de aquecer a água e fazer o chimarrão, que tomava algumas cuias sentado no pátio em companhia da cachorrada, que o acompanhavam há muitos anos. Não importava se havia sol, chuva, calor, frio, tempestade, ventania. Se arrumava e saia de casa pontualmente às 8h, pois deveria pegar o ônibus na outra rua. Caminhava 10 minutos até o ponto de parada. Ia com esta linha até o centro e trocaria de ônibus que o levaria ao destino final.


Chegou ao centro, fez a baldeação e por alguns instantes, enquanto esperava a partida, olhou ao horizonte vendo pessoas transitando, caminhando, comprando, correndo, enfim o burburinho de um terminal de ônibus central. Entorpecido não ouvia, apenas fitava ao longo a movimentação como se não fizesse parte daquele cenário. Só voltou a si quando o veículo começou a andar e o percurso de pouco mais de 6 quilômetros foi completado em 20 minutos com algumas paradas para o sobe e desce de passageiros.


Chegando ao destino, entrou na floricultura que ficava em frente ao ponto do ônibus e comprou um buquê de rosas. Neste dia pediu rosas vermelhas, cor da paixão, do amor do desejo. Não economizou e já solicitou 12 rosas vermelhas. Pediu que a atendente montasse uma cesta com as rosas e decorasse com “mosquitinho” branco, uma planta que é usada em arranjos florais.  A senhora que preparou a cesta de flores até comentou: Ela vai gostar muito desta lembrança!. Manoel nada falou, apenas consentiu com a cabeça e estendeu a mão com as notas amassadas de dinheiro que estava guardando algum tempo para este momento. Valor perto de R$200,00, o que para ele estava bem salgado visto ser aposentado e ter que esticar os ganhos até o outro mês.


Saiu da floricultura, olhou para os lados, e atravessou a movimentada rua. Chegou ao portão, parou, suspirou e seguiu em diante, caminhou por uns bons metros em uma subidinha de calçada com paralelepípedos irregulares. O calor já começava a sentir e só faltavam alguns metros. Pensou afrouxar a gravata e tirar o paletó por causa do calor. Mas isto era impensável. Queria estar bem apresentável. Continuou a caminhada sob o forte sol de fevereiro.


Chegou, sentou um pouco. Olhou demoradamente e depositou a cesta de flores em cima do túmulo de sua amada. Limpou a fotografia com um lenço que trazia no bolso. Admirou a beleza de seu amor por toda vida. Beijou a foto impressa em porcelana que identificava onde estava a única mulher que ele amou e só esperava o dia de encontrá-la. 

  • Hoje é seu aniversário e estas rosas são para  você lembrar que fostes meu primeiro e único amor e será por toda minha vida. Me espere. Seremos novamente um só- falou baixinho. Rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria, levantou e voltou para casa. Amanhã eu volto!- despediu-se Manoel e seguiu no sol escaldante, com sua fatiota nova. Em breve estaremos juntos, murmurou ao sair..


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Não quero ser pobre

Adriana e sua família sempre foram batalhadores. Gente simples de um bairro pobre que acordavam cedo e saiam a luta. Dona Maria a mãe de Adriana e mais um casal de filhos viviam com o orçamento apertado, já que o pai saiu pelo mundo embarcado. Queria descobrir novos mares. Deixou a mulher e três filhos numa casinha simples que mal tinham dinheiro para os reparos necessários.


As crianças eram saudáveis e bonitas. Adriana era de dar inveja, pois chamava atenção por onde passava. Era uma morena linda de cabelos lisos, que lembra Luiza Brunet em sua melhor fase quando era modelo de uma marca de jeans.


Se fez mocinha e teve de ir para o mercado de trabalho. A mãe trabalhava como faxineira e desde cedo deixava os filhos sozinhos. Cada um que se arrumasse, tomasse café e fosse para a escola. A Adriana mais velha já com seus 14 anos foi procurar trabalho e foi fácil uma colocação, como auxiliar de escritório de uma grande companhia de transportes.


Responsável, estudiosa e bem cuidada. Tratava do corpo, se vestia bem com o pouco que ganhava, era caprichosa com ela mesma e sua beleza natural a tornava uma moça muito linda, atraente, sexy. Educada, sempre com um sorriso e uma boa conversa cativava até mesmo os mais brutos.  Fazia questão de ser simpática ao dar um bom dia, uma boa tarde e leve sorriso no rosto iluminava pode passava.


No terceiro mês de trabalho ela chamou  a atenção do filho do conglomerado de empresas onde ela trabalhava. Ele a viu e a desejou. Era assim mesmo, olhares de pecado para menina. Afinal ele era rico e poderia fazer qualquer coisa. Era o dono da empresa, no melhor estilo coronel do interior que atendia às suas vontades através do poder e da força.


Não foi preciso usar este artifício. Ela também aceitou seus olhares e logo em seguida um romance iniciou. Mas sempre voltava à vida de pobre com os irmãos e a mãe, na mesma casa.Assim foram alguns meses até que o patrão namorador propôs que alugasse um apartamento mobiliasse do gosto dela . Ela escolheu um bom apartamento bem no centro, perto do estádio de futebol. Local valorizado. E com vista para o campo do clube mais querido da região.

Esta é a situação que ela sempre sonhou, Sair daquele bairro de gente pobre, da casa simples e ter seu carro, comprar em shoppings. Poder ter uma geladeira cheia, sapatos bonitos e bancar a madame aos 16 anos. Era tudo que sempre desejara.

Estava feliz, mas seu desejo por intimidade era maior do que tudo. Tinha sonhos, tinha vontade, queria mais do que o companheiro podia dar.

Não demorou muito para assistir aos jogos  e se interessar por futebol que via de sua varanda luxuosa, bebendo espumante, comendo iguarias e admirando o físico dos jogadores de futebol.


Numa tarde de terça-feira, acompanhando o treino, se encantou com o goleiro do time. Nada bonito. Mas era seu sex appeal. Abanou para chamar a atenção dele, escreveu em um cartaz o número do apartamento. Ele entendeu  e após o treino apertou o interfone. Ela disse que liberaria a entrada e o fez. Chegando na porta do apartamento, já estava entreaberta. Adriana sentada no sofá sem qualquer peça de roupa. Não foi preciso falar nada. Tudo aconteceu para atender os desejos de uma jovem fogosa.


Os encontros constantes continuaram acontecendo e também mudando de local para atender os desejos de volúpia da jovem ninfeta. 


Após meses de encontro o fogo e a paixão aumentavam. E os perigos também.


Ela dirigia uma camionete moderna potente, cara, dessas que há poucas em uma cidade pequena, visto o preço deste veículo.


Numa tarde de sexta-feira um motorista de carreta chega na transportadora e fica meio estranho. Olhou o patrão, no pátio da empresa e fez uma brincadeira:

  • Ué, já chegou aqui? Foi igual coelho então? E deu uma risada

  • Do que está falando ? questionou o dono da frota

  • Te vi entrando no Motel ali na BR. E já está aqui, como passou por mim?

  • Você me viu? Quando? 

  • Faz meia hora.

Numa explosão pegou o carro e se dirigiu ao motel indicado. Privacidade para ele que é rico não conta. Meteu o pé na porta e encontrou o que não gostaria de ver.

O atleta de alcova deu no pé, a pé mesmo, afinal estava acostumado a correr nos gramados por horas em dias de sol. Sumiu na bracatinga e  Adriana caiu em choros, em prantos. O marido puxou-a pelos cabelos, a arrastou quarto afora e jogou-a dentro do carro e seguiu para casa. Juntou seus pertences no luxuoso apartamento de apenas um por andar, encheu a carroceria da camioneta e rumou para o antigo bairro onde morava com a mãe e os dois irmãos, antigamente. Ao verem a movimentação, a chegada de um carrão daqueles a vizinhança toda foi para a rua.

  • O marido da Adriana está aqui no bairro, que honra. - uma comentou

  • É muito rico- disse outra

  • Que sorte teve a filha da dona Maria, sair dessa miséria- disse outra vizinha

E se seguiram os comentários até ele parar em frente a casa, descer do carro com fúria, abrir a porta do carona e puxá-la pelo braço jogando-a na frente da casa. Abriu a carroceria e despejou roupas, calçados e bolsas.

  • É isto que você merece. Gritou para quem quisesse ouvir e saiu em arrancada. Ela ficou sentada no chão chorando, prantos e lágrimas que causariam um dilúvio.

  • Eu não quero mais ser pobre. Não quero ficar aqui - repetia insistentemente com a voz fraca, emocionada e triste. Nenhuma das vizinhas foi acalentá-la. Ninguém demonstrou qualquer sentimento de empatia com aquela menina que viram crescer.



Olé!

Se conheceram na faculdade e ataram um namoro que virou relacionamento sério e confiável. Nunca casaram no papel, sempre tiveram uma boa união, parceria, amizade e cumplicidade. Também sabiam dosar a liberdade. Não era raro fazerem viagens separados para dar um tempo na relação e não desgastar.


Foi assim durante mais de três décadas. Companheiros também de viagem e de bebidas, de planos conjuntos. 


Num ano ele partiu com um amigo por um roteiro que incluia países da África, Europa e Ásia. Percorreram vários países que resultou em um livro de fotografias mostrando o cotidiano de africanos, paquistaneses, indianos e chineses. A cada retorno a saudade esperada e momentos de encanto. 


Trabalhávamos juntos eu e César, casado com Carol. Por uma semana ele andava meio que nem cachorro que caiu do caminhão da mudança, meio caladão e perguntei o que havia.

  • A gata foi viajar. Pegou férias foi para a Europa ficar uns dias - explicou

  • Que legal, mas ela foi de excursão com alguma agência? - questionei puxando conversa na copa onde íamos seguidamente pegar um cafezinho.

  • Não, ela foi com um colega, planejaram a viagem e foram.

  • Um colega homem ou mulher? Perguntei em tom  venenoso e sarcástico.

  • Qual que é, quer saber demais. Deixa de ser fofoqueiro, respondeu com uma risada.

  • Ué, não tem nada demais- despistei.

  • Ela foi com um amigo do trabalho, um colega. Acho que o cara é gay, mas eu confio na gata. Respondeu não dando margem a comentários.

Volta e meia alguém fazia uma piadinha sobre o fato.

 Passados 15 dias fizemos um churrasco numa quinta-feira a noite, pois na sexta era véspera de feriadão e todos sairiam para algum destino

Todos chegaram, cada um trouxe algo para ajudar. Um trouxe cerveja de uma marca, outro de outra marca, gelo, refrigerante, pão com alho, um corte de alcatra, linguicinha, enfim tudo o que precisávamos. E assim adentramos pela noite. Lá pelas 23 horas a maioria já embalado com muita bebida começamos a fase do bate-bola. Cada um contando mentiras, vantagens e novidades. Lá pelas tantas, nosso personagem levanta e pede silêncio. Todos param e ele solenemente queria exibir aos amigos, aos colegas um presente que ganhou da gata dele, que esteve em tour pela Europa e ficou uma semana na Espanha tendo assistido uma tourada na Plaza de Toros de  Las Ventas em Madrid onde se paga cerca de R$ 150 reais pelo ingresso.

Contou que a companheira Carol havia viajado para Espanha e lhe trouxe um souvenir. Abriu a mochila e desenrolou um cartaz, daqueles vendidos nos quiosques de souvenirs de pontos turísticos. Muito comuns em museus e casas de espetáculo da Europa. Era um cartaz anunciando uma monumental corrida de toros em Las Ventas e com o nome do nosso colega estava impresso. Ao abrir o cartaz todos se olharam, imaginaram a cena. Ela com o amigo pela Europa e ele com o cartão de toureiro. Huuummmmm.

Só um gritou lá dos fundos, meio bêbado ainda

  • Olè! Viva o touro. Todos caíram na gargalhada com El Torero que rapidamente enrolou o cartaz, enfiou na mochila e sumiu noite adentro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Amante Argentina

Todos os dias era a mesma coisa. Cera para lustrar o carro, panos macios, aspirador, líquido para deixar os pneus bem pretos. Não podia haver uma poeira naquele veículo. Parte de seus ganhos iam para a manutenção do carro e até sacrificava a família para que o possante ficasse reluzente, lustroso, bonito e arrancasse elogios da vizinhança e das pessoas que viam o carro pelas ruas, pela praça e até em encontros de veículos nos finais de semana.


A esposa já estava cansada daquela rotina. Faltavam algumas coisas na casa, havia necessidade de consertar o telhado que apresentava várias goteiras. Em dias de chuva corria com bacias e com baldes para aparar a água que passava pelas telhas trincadas, ultrapassava o madeirame, o forro e jorrava feito cachoeira em alguns pontos dentro de casa. Começava a apodrecer a madeira e deixar todos em risco de acidentes. E o marido fazia cara de paisagem como se nada fosse com ele. Tudo isso apoiado pelo pai que também gostava do carro antigo. As noites eram de conversar como estava bonito, ver o que poderiam fazer, pequenos consertos. Onde iam buscar peças ou mandar fabricá-las.


Assim passavam dias e noites, semanas e meses. Sem falar que do pouco orçamento familiar tirava dali para manter o veículo fabricado nos anos 30. Foi comprado há uns 20 anos em um ferro-velho e desmontado em casa mesmo, usando a garagem. Ali pai e filho construíram o carro como original. Lixaram e pintaram casa, peça, reconstituiram o motor, tapeçaria, pintura . Era a jóia da coroa.


Churrasco de final de semana, comemorações de aniversário ou até mesmo aceitar um convite para festa do vizinho ou parente era impossível.

  • Não podemos gastar! Sentenciava o marido que a deixava cada vez mais triste, abandonada e desejosa de viver.

Ela era uma mulher bonita, elegante, que chamava a atenção, mas não podia sair para se divertir em família, um passeio, um cinema. Almoçar ou jantar fora era um sonho muito distante que até tinha perdido as esperanças de isto acontecer algum dia. Sozinha em sua solidão de seu claustro que ela dominava da cozinha até a área de serviço, sonhava em conhecer o mar e caminhar na praia, já que moravam em uma cidade distante 600 quilômetros do litoral.

Como seria poder sentir a areia nos pés, a água salgada bater em suas canelas e o sol aquecer seu corpo e lhe dar uma cor mais saudável que certamente a deixaria mais bonita. Era uma mulher que chamava a atenção por seu porte e elegância, mas também se notava a tristeza em seu olhar da prisão doméstica, das privações e de nada poder sonhar, afinal sempre faltava dinheiro para tudo. 


Diariamente o sogro chegava às 17 horas com uma cuia de chimarrão para esperar o filho que em breve estaria em casa. Começaria mais uma longa noite de alisamento ao carro, de admiração a um veterano das estradas, enquanto lhe restava preparar o jantar, depois lavar a louça e panelas e só depois poder descansar. Até quando isso iria? Este seria o seu destino? Sua vida estava dividida. As atenções eram só para o carro antigo e seu alto custo.

Após mais um final de semana de nenhuma mudança, no domingo de manhã por volta das 9h chega o sogro e encontra o filho em prantos. Alguma tragédia aconteceu, o que será que houve. Abriu o portão com uma das mãos enquanto na outra segurava a cuia de chimarrão e a garrafa térmica de cinco litros. 

  • O que é que houve piá? Porque está chorando que nem criança que perdeu o pirulito?

  • Pai houve uma tragédia. Eu quero morrer, não posso viver mais.

  • Mas o que houve? Qual é a besteira que você fez?

  • Veja só. Estendeu a mão e entregou um bilhete ao velho, que mudou de cor, empalideceu, sentou numa cadeira de palhas já gasta. Só retirou algumas lixas já sujas de ferrugem  e começou a ler:

“ Meu estimado. Não aguento mais viver desta maneira. Te amei e respeitei enquanto pude. Estou morrendo a cada dia.  Tudo o que você ganha gasta nessa lata velha.

Vou viver. Quero pisar na areia, conhecer o mal e sentir a brisa em meu rosto. Quero o sol por testemunha da alegria que vou sentir.  Agora você e seu pai terão todo o tempo do mundo para sustentar este carro velho que é mais caro que uma Amante Argentina. Adeus”.






Tão parecido

Que bacana! Pensou Eduardo ao receber convite para o reencontro de 30 anos de formatura. Iria rever os amigos, lugares, relembrar a conivência, reencontrar pessoas, ir aos lugares onde morou, rever a universidade, professores, colegas, amigos, vizinhos, relembrar fatos curiosos, alegres e até tristes.


Tinha quatro meses pela frente para planejar sua ida até o distante município onde havia se formado há três décadas. Pesquisou hotéis, formas de chegar, se iria de ônibus, de carro ou avião. Achou cansativo dirigir mil quilômetros, descartou o ônibus que daria quase 20 horas de trajeto. Optou pelo avião que estava mais barato que o ônibus e em poucas horas estaria no destino.


Em um grupo de whatsapp todos já começaram a se reencontrar e conversar, relembrar fatos e situações, mas sempre alguém falava. Não contem tudo, deixem repertório para o encontro. 


Dois dias antes do encontro com cerca de 30 pessoas, Eduardo seguiu pegou o vôo, chegando no município fez check in no hotel do centro, perto do calçadão para poder caminhar e rever os locais onde conviveu por alguns anos enquanto cursava a universidade. Nada mudou nestes anos todos. O centro histórico é igual, mas o mercado público foi reformado e ficou muito melhor, as ruas antigas de paralelepípedo trazem lembranças das travessias em direção a praça central para o chimarrão dos domingos à tarde.

Caminhando um pouco mais chega ao tradicional Café da cidade, onde todos se encontram para um cafezinho ou um lanche. Pediu algumas fichas no caixa, pois se paga antecipadamente pelo consumo. Chega no balcão e as atendentes trazem a xícara quentinha, esterilizada e com um café de aroma inebriante. Ao levar a xícara aos lábios para tomar o primeiro gole, suas papilas estavam em êxtase estimuladas pelo aroma, o olfato entrava pelas narinas e tomava conta de seu corpo. Isto sim é um café. Antes que a porcelana da xícara tocasse seus lábios ele ouve: Oi, você lembra de mim? Ele não queria parecer bobo e confirmou. Claro que lembro - disse. Como você está? Vim para nosso reencontro. Que bacana , que bom te rever. Vamos tomar um café- convidou ela. Ele pegou mais duas fichas no bolso e entregou para a garçonete para que servisse o café.

Sentaram numa das mesinhas e começaram a conversar, aos poucos ele foi lembrando daquela moça, dos tempos de faculdade, das festas. Recordou como se fosse um lampejo divino iluminado da noite que passaram juntos. Foi após uma festa na danceteria ( anos 80), embalados por vinho de qualidade duvidosa acabaram num dos colchões da república. Foi uma noite boa sim, Mas foi só uma vez que estiveram intimamente juntos, já no último ano de faculdade. Cada um foi para seu lado e seguiu seu destino.

Logo em seguida chega um homem que olhando fixamente para mesa se aproxima. Bom dia, disse e todos responderam. Ela abraçou-o e disse que queria apresentar o filho dela ao amigo Eduardo. Achou o rapaz com características físicas muito familiares.. É meu filho. Fez 30 anos em dezembro. 

Atordoado, Eduardo questionou: Porque nunca me falou nada, nunca me procurou? Te procurei, te escrevi, nunca obtive respostas, nenhum retorno seu- ela respondeu. E também não quero que ele saiba. Nunca me casei, e vivo para meu filho. Não estrague tudo. Alertou a ainda bela uruguaia que um dia iluminou sua noite..




terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Um queque e uma laranjinha

 Um queque e uma laranjinha

 

Lendo post da Inês sobre o bolinho inglês ou queque, como o pessoal de Pelotas conhece esta iguaria, lembrei de outro causo que vou lhes contar. Quando fui trabalhar na RBS TV e Rádio Atlântida FM comecei como redator e locutor de chamadas e comerciais. Tinha proximidade com o pessoal de edição, suíte máster enfim toda esta turma que colocar a TV no ar. Fiquei lá alguns anos e fui crescendo até chegar a chefe de jornalismo da emissora.

 

O personagem em questão tinha pinta de artista. Havia trabalhado em agências de propaganda e no século passado não havia computador e os ditos geradores de caracteres. Para aparecer o nome dos entrevistados, créditos de cinegrafista e repórter era tudo feito em letraset, colagem de letrinhas em um papel branco, depois filmado e inserido na matéria que iria ao ar, geralmente ao vivo. Quem sabe faz ao vivo já dizia Faustão.

 

Mas nosso artista era metido a Don Juan. Vinha trabalhar todo enfeitado, perfumado, sapato lustrado e arrumadinho. O cabelo era de dar inveja. Ninguém podia tocar naquele cabelo e em sua barba, que ele julgava ser extremamente charmoso e atraente para certo tipo de moças. Casado, porém namorador volta e meia se aventurava em encontros. As vezes fugia para os bailinhos do clube dos coroas onde satisfazia desejos de dança de senhoras de mais idade.

 

A emissora ficava na rua 15 no centro de Pelotas, antes da sede nova no Areal. E ali tem muitos cafés e confeitarias como Aquário que é tradicional e onde todos vão. Pior lugar para se esconder. Após 30 anos de formado fizemos um encontro há dois anos e fui no Aquário beber um cafezinho. Jamais imaginei que alguém me reconheceria. Quando ouvi: Benhur o que anda fazendo. Não era possível... três décadas a após reconhecido em meio à multidão. Mas voltemos ao nosso Júlio Iglesias do banhado. Claro, quando chove fica todo mundo que nem marreco com água pelas canelas.

Acertado o encontro com a moça. Optou por leva-la em uma lanchonete um pouco mais afastada e não conhecida. Todo cheio de más intenções, educadíssimo. Puxa cadeira, beijinhos, fala carinhosamente até fazer o pedido. Uma mocinha garçonete trouxe o cardápio para que cada um escolhesse um bom doce, chá, ou café afinal é a capital mundial do bom doce.

 

Nosso artista se mexe na cadeira, olha para os lados e ordena para a garçonete: “Não carece muito minha querida. Almoçamos faz pouco tempo. Traz um Queque e uma laranjinha. Corta ao meio e pode ser dois copinhos”. Anotado o pedido, a garçonete vai buscá-lo estranhando um pouco e nosso conquistador de rodoviária. Incomodado com a situação visivelmente constrangedora tenta achar uma conversa. Afinal não poderia confessar que a empresa paga pouco que tem que sustentar família e o custo de um bolinho inglês e uma laranjinha já havia estourado o salário do mês. Dia seguinte teria de fazer empréstimo com algum colega.

 

A moça era uma morena bonita, porém firme e braba como as mulheres de Jaguarão. Acho que era meio uruguaia. Era faca na bota. Ela fechou o semblante levantou-se da cadeira, olhou com olhar de adaga para o pretendente, abriu a bolsa tirou uma nota de cinco cruzeiros. Deixou sobre a mesa e despediu-se

- Dê de gorjeta para a mocinha que nos atendeu. Certamente lhe fará falta, Deu de ombros, puxou uma bela echarpe de seda, envolveu em seu pescoço e saiu a passos largos e elegante porta afora da lanchonete. Ele ainda suspira com o perfume que o vento sulino trouxe para dentro do estabelecimento e aquela imagem da echarpe esvoaçante, igual uma cena dos melhores filmes de Sophia Loren.

             Ela sumiu na bruma típica do inverno pelotense. E ele cortou o queque em dois pedaços, começou a metade e deixou no prato que seria dela. Bebeu meia laranjinha. Acendeu um cigarro e rememorou os poucos momentos com aquela formosa dama. Olhou para a mesa achou desperdício deixar a parte dela ali como um significado. Comeu, bebeu e antes de sair pegou a nota de cinco cruzeiros que ela havia deixado para a garçonete. “Não vou ter que pedir mais dinheiro emprestado aos colegas”, pensou. Levantou, fechou o casaco, já desgastado que havia comprado há 20 anos na Pompéia. Seguiu seu rumo quem sabe para uma nova conquista.

 

 

 

 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Noites de Caçador

 Noites de Caçador



O assunto nada tem haver com caça. Refere-se a Caçador, um município no meio oeste. Um ex-morador ilustre meu amigo e colega Frutuoso de Oliveira, jornalista de boa pena e consultor de marketing político por muitos anos morou neste local. Gaúcho de boa qualidade vindo de Nonoai quase pertinho de minha aldeia, o Votouro. Vai que somos aparentados. Porém ele tem um defeito imperdoável é colorado dos quatro costados. Também é um bom contador de causos e até já abordou alguma vez o tema de hoje. O que fazer de noite em Caçador? Ele não vai me deixar mentindo sozinho.

Quando o Raimundo Colombo era governador e o Marco Tebaldi secretário estadual da Educação fazíamos roteiros pelo Estado de Santa Catarina. Numa dessas missões regionais visitamos escolas da regional de Caçador para verificar projetos inovadores, necessidades de obras físicas e andamento de obras. Em especial a Irmão Leo tinha um projeto de ensino de violão no contraturno..

Feita a vistoria, de tarde fomos para a sede da Regional onde ficava a gerência regional de educação. Era bem próximo ao antigo Hotel Le Canard onde nos hospedamos. Encerramos o dia, atravessamos a rua e fomos ao hotel descansar. Mas era ainda cedo. Lá pelas 19 horas, decidi dar uma volta e conhecer a noite de Caçador. 

Perguntei ao recepcionista do hotel onde ficava o centro. Fácil. Desce até o rio, cruza a ponte e segue a rua que vai dar lá no centro. 

Fiz o trajeto. Desci a rua do hotel, cheguei no rio fui até a ponte. Parei.

Olhei em direção ao centro um morro para subir. Olhei para outro lado que dá lá para o Alcácer Hotel mais um morro, e para a frente outra ladeira.

Pensei, pensei e dei volta em direção à antiga estação ferroviária, onde tem uma praça, um  parque. Sentei num banco e fiquei apreciando o movimento. Não iria me cansar de subir a ladeira pela noite e correr o risco de encontrar tudo fechado. Em cidades assim, quando o sol se põe, fecham as portas e vidraças e se recolhem. Jantar às 19h, cama às 20h e luzes apagadas. 

Sentei, me escarrapachei, tirei os calçados, estiquei as pernas e fiquei vendo o movimento do pessoal indo para casa, outros caminhando, outros correndo. Uns 15 minutos depois surgem três filhotes e uma mãe capivara. Chegaram perto cheiraram, um dos filhotes subiu no banco e se sentou ao meu lado. Nada falou. Fiquei quieto, não sei se mordem.

A capivara mãe cheirou meu pé, fez cara de quem não gostou e se deitou do lado com os outros dois filhotinhos. Puxei conversa sobre o movimento, sobre o rio que corta a cidade,  se tinha peixes. O que estava ao meu lado me olhou, pulou do banco e foi aproveitar a graminha, os demais o seguiram e a mãe foi junto para fiscalizar. Logo em seguida desceram pelo barranco do rio do Peixe e seguiram a nado pela margem. 

Calcei meias e sapato, atravessei a rótula , subi alguns metros até chegar ao hotel. Acabou minha experiência de conhecer a noite caçadorense.


O AUTO DA APARECIDA